Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora mais um "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos a um dos grandes clássicos da Disney, que faz 80 anos. Estamos a falar de "Bambi", a história de um veado que perde a mãe. É uma história de sobrevivência, também de solidão, mas é uma história, claro, de amor. E aprende-se muito na animação. Eduardo, este é um daqueles filmes que faz chorar as pedras da calçada. Olá, boa tarde.

Olá, Judite. Olá, Bruno.

Olá, Eduardo.

Claro. Oitenta anos a fazer chorar muitas gerações, não é? É um bocado assim. Eu acho que nós temos que ter uma noção clara da importância das histórias. Eu acho muito nítido que, de uma forma silenciosa, as mães e os pais das mais diversas classes sociais, se legitimarmos isto assim, foram introduzindo as histórias à noite, ao adormecer, aos seus filhos, com uma naturalidade absolutamente fantástica, o que fez com que, de facto, o acesso à palavra por parte das crianças se tivesse vindo a aprofundar e a refinar. Coisa fantástica. Como é possível fazer revoluções tranquilas? Este é um exemplo inacreditável. E as histórias, não só as histórias a outros níveis, mas as histórias têm esta particularidade: permitem-nos pensar. Nós temos muita ideia no mundo, às vezes estranho, em que andamos a 200 km/h, em que às vezes queremos limpar a cabeça, esvaziar a cabeça, de alguma forma relaxar pensando em nada, que no fundo, pensar em nada é a melhor forma de esvaziar a cabeça. E é exatamente o contrário. Esvaziar a cabeça de ruído faz-se quando nós melhor pensamos. E as histórias são uma maneira ótima de pensarmos sem dar por isso. Entramos nas histórias, identificamo-nos às personagens, choramos ou rimos com elas, lutamos contra os maus e ficamos desolados quando os maus, por algum motivo, saem a ganhar. E no final de contas, temos uma história como esta, que no fundo traz a questão da morte dos pais ou das mães, neste caso, para as crianças, que é uma questão sempre muito proibida, mas que é uma questão que está muito presente na cabeça delas, porque elas, no fundo, têm a noção que se as outras pessoas morrem, até os pais dos amigos, por caso disso e tudo mais, claro que elas sentem isso como uma dúvida premente na sua agenda de crianças, à qual nem sempre nós respondemos como deve ser.

E há essa ideia, que é correta, quanto a mim, de que é um filme pesado, é um filme que obriga ao confronto com essa ideia que já está presente nas crianças, se calar, até mais cedo do que nós imaginamos. Mas não há muito hoje a tendência para não se expor as crianças, não só a ideias negativas, mas também a sentimentos intensos, sejam eles quais forem?

Há, e a meu ver, mal. Porque nós temos a ideia que há histórias leves e histórias pesadonas. Eu tenho a ideia que, por exemplo, as histórias ganham se nós lhes formos pondo legendas. As histórias do Marco e da Heidi, não sei se se recordam, não eram propriamente histórias levezinhas.

Eu acho que o Marco marcou toda uma geração.

Claro. E isto de andar à procura da mãe, quer dizer, tenhamos dó, é uma coisa que amarfanha qualquer criança. Mas se nós virmos o Bugs Bunny, no fundo, a legenda é: matem-se, esfolem-se, mas não se aleijem. E, portanto, as histórias têm sempre uma função absolutamente preciosa. E em relação a este tipo de coisas, trazem sempre, Bruno, sentimentos que nem são bons, nem são maus, porque os sentimentos maus distinguem-se dos bons por uma coisa. Os sentimentos maus são aqueles que nós fugimos de pensar, sejam aparentemente maus ou aparentemente bons. E, portanto, é muito importante que as crianças chorem e sintam-se desoladas, mas todavia identificam-se àquele Bambi e, obviamente, à cotação da mãe, nomeadamente da mãe. Depois, numa história como essa, têm ali um crescer em flecha, como quem diz: "Sim, ela é chata, obriga-me a comer a sopa toda e a arrumar o quarto e a perguntar se eu fiz os trabalhos de casa e tudo mais, mas o que é que seria da minha vida sem ela?"

Isto para quem não se recorda, a mãe do Bambi é morta por um caçador e o nosso Bambi fica sozinho. E, portanto, daí parte a tal história da superação e do amor e também da entreajuda. Mas há pouco o Bruno falava de ser um filme pesado para uma criança pequena. De tal forma que, e recordava o Diário de Notícias esta semana, Stephen King disse que o Bambi foi o primeiro filme de terror que viu. Vindo do Stephen King. A frase tem graça. Mas é muito cedo para uma criança de seis anos ser exposta a este filme ou as gerações que já viram este filme nos últimos 80 anos sobreviveram e sobreviveram bem?

Eu acho que nós, as pessoas crescidas, nós os três nomeadamente, temos a noção que os nossos pais não são eternos como nós, infelizmente. E por mais que, porventura, eles estejam doentes e as pessoas nos vão chamando a atenção para uma lei que sempre me incomodou, particularmente a lei natural da vida, para que nós estejamos preparados para os perdermos. Nós, as pessoas crescidíssimas, só aceitamos que os nossos pais morrem depois de eles morrerem, porque até eles morrerem, nós mesmo crescidos amuamos, embirramos, pegamos com eles e achamos que eles estão chatos ou que são lentos num fim de semana qualquer. E temos sempre a ideia que temos a vida toda e a vida toda, quando nós temos uma relação entre pais e filhos, é para a eternidade. E só quando eles morrem é que nós reparamos: "Oh, meu Deus, afinal eles morrem". Portanto, estes assuntos são sempre um bocadinho de terror, com aspas, porque quem é que está disponível para pensar nisto? Todavia, as crianças não andam a dormir. Quando se abre um telejornal, as crianças percebem que há pais e mães na Ucrânia que morrem e, portanto, são às vezes mais jovens até que os pais deles e contradiziam a lei natural da vida. Numa escola com 500, 600 crianças, há sempre uma história ou outra de um pai ou de uma mãe, de nenhum dos meninos, que acabou por morrer. As crianças deitam contas à vida. E se deitarem contas à vida e se falarem de uma forma às vezes encriptada, como as crianças fazem, ou às vezes poderem ter ali no Bambi uma válvula para chorarem por antecipação, como quem diz: "Caramba, alguém consegue perceber alguns dos meus medos secretos e pôr aqui um personagem a interpretá-los", eu acho magnífico que as histórias, mesmo quando às vezes trazem medos feios e às vezes até muito mais terríveis, inclusive do que estes, quando por exemplo, fala de pessoas más e coisas do gênero, as histórias são absolutamente indispensáveis durante toda a vida, não só para quando somos pequenos e nos querem adormecer. Aliás, eu acho que as histórias não servem para adormecer. Eu acho que as histórias servem para acordar.

Não serão os pais que têm mais medo de abordar estes assuntos? E são filmes como estes, se calhar, a forma de abordá-los sem ter de os abordar diretamente, usando quase o filme como uma forma de contornar o assunto, abordando, acabando por chegar lá.

Sim. Está a ver, as mães nisso são muito mais expeditas, muito mais claras quando se zangam. É quase o motivo para que as mães, uma história destas, reagissem à mãe naquele registo do gênero: "Olha o parvalhão do senhor Disney que entretanto decidiu produzir um filme como este, onde é que ele está? Que eu lhe aperto já o pescoço, porque isto não se faz ao meu menino". Mas de facto, quem de nós, como pais, quer perspetivar uma coisa destas? E no entanto, antes de sermos pais, nós andamos de avião e até andamos a 100 e não sei quanto na autoestrada. E depois temos um filho e de repente acende-se uma luz amarela que diz assim: "Ops!" Nós percebemos que a primeira finalidade de um pai ou de uma mãe é estar vivo, acima de tudo. E às vezes há histórias que nos ajudam a recordar isso.

E é uma belíssima história e fizemos agora aqui uma viagem ao nosso passado e à nossa infância. Eduardo, amanhã fazemos uma nova viagem consigo. Amanhã já à hora habitual, depois do jornal das 17h00. E estamos disponíveis sempre em podcast e nas plataformas habituais no site do Observador e sempre abertos a sugestões, comentários, questões, perguntas ou críticas em eduardosá@observador.pt. Eduardo, um abraço e até amanhã.

Um grande abraço para os dois. Obrigado e até amanhã.

Até amanhã. Rádio Observador