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As boas notícias chegam primeiro. Há mais alunos a concluir os ciclos escolares no tempo previsto e a taxa de sucesso tem vindo a crescer. Mas há um mas: os números disponibilizados pelo Ministério da Educação e analisados pela Agência Lusa continuam a mostrar que quem nasce em contextos mais frágeis, em famílias com menos recursos ou em bairros mais periféricos, tem maiores probabilidades de chumbar. O insucesso escolar está a tornar-se menos frequente, mas continua a ter um padrão. É sobre isso que vamos falar hoje no "Porque sim não é a resposta". Olá, Eduardo. Por que um sucesso escolar continua a atingir sobretudo os alunos mais carenciados?

Olá, Judite. Porque a escola não é o elevador social que toda gente apregoa. E o facto de os alunos frequentarem a escola, e isso é uma bênção, como não podia deixar de ser, não é acompanhado pelo facto de terem as aquisições de conhecimentos indispensáveis. Aliás, é aquilo que nós vamos vendo ao longo de vários estudos, quer quando saem as notas, como muito recentemente, em que há disciplinas em que a média é negativa, como quando nós fazemos análises a longo prazo e percebemos que há níveis de literacia muito inquietantes de alunos que têm uma escolaridade básica consistente e que era suposto que tivessem os requisitos indispensáveis para utilizarem de uma forma tendencialmente favorável ao seu desenvolvimento pessoal, de carreira, etc. E portanto, de facto, o meio socioeconómico condiciona muito. A escola não consegue de todo criar as oportunidades mais ou menos paritárias para todos eles e, não sendo só o meio, que já de si é uma questão importante, a escolaridade do meio é uma questão fundamental que faz com que estes desequilíbrios se acentuem. Eles entram na escolaridade básica em circunstâncias de paridade muito distintas e estas circunstâncias vão-se acentuando, compreensivelmente, porque à medida que os conhecimentos se tornam mais complexos e à medida em que às vezes é preciso um apoio externo, nomeadamente explicações e outras coisas do gênero, as discrepâncias socioeconómicas acentuam-se. A escola não está a conseguir fazer aquilo que todos gostaríamos muito que fizesse, que era pô-los todos a aprender, não de maneira igual, mas todos a aprender aquilo que no fundo são as metas curriculares que entendemos sensatas e indispensáveis. E se calhar vamos ter que pensar como é que havemos de fazer para que a escola não se fique só pela frequência, nem pela atribuição de notas positivas, mas pela consciência de que, no fim de cada ciclo, os alunos têm um conjunto robusto de conhecimentos que entretanto adquiriram e que usam a seu favor no seu dia a dia, nas mais diversas circunstâncias.

O que as escolas que conseguem garantir mais equidade estão a fazer de diferente?

Judite, eu acho que as escolas, quando conseguem ter poucos alunos em cada turma e conseguem ter muitas vezes uma retaguarda que identifica muito precocemente as dificuldades e vai criando alternativas de aprendizagem, essas escolas conseguem fazer com que isto se esbata. Mas eu também reconheço que é mais fácil, às vezes, no ensino privado e cooperativo, fazer-se tudo isto, porque os meios que as escolas têm ao seu dispor, nomeadamente em termos de professores, em termos de distribuição de serviço letivo e mesmo em termos de meios, porque é muito engraçado fazermos avaliações digitais, esquecemo-nos é que nem todas as escolas têm esses suportes, nem sequer têm meios informáticos que estejam adequados às necessidades do dia a dia e muito menos acabam por ter, às vezes, banda larga, que é uma coisa indispensável para que tudo isto se dê. As escolas, quando podem ter serviços que sejam transversais aos vários anos e que funcionem como uma espécie de brigada que vai correspondendo às necessidades que os alunos têm, conseguem ir esbatendo tudo isto. Agora, aquilo que nós muitas vezes vimos, e vimos com uma preocupação imensa, é que às vezes chegam a existir alunos do sexto ano de escolaridade que não sabem pura e simplesmente ler, e foram transitando de ano, e foram transitando inclusive de ciclo. Muitas vezes não é um facilitismo, às vezes as escolas resignam-se e fecham um pouquinho os olhos. É verdade também que acontece isso, porque, na verdade, não se trata de Reprovar por reprovar. Todos nós sabemos que reprovar, só por si, não ajuda a solucionar os problemas. Solucionaria se isso tudo implicasse estratégias mais consistentes para vencer as dificuldades e depois de vencidas, eu não tenho dúvidas nenhumas que quem reprova iria por ali adiante. Só que quem reprova fica catalogado em muitas circunstâncias e gera-se depois uma espécie de efeito dominó que acaba por ser imparável e que faz com que muitos miúdos, todos eles têm recursos cognitivos fantásticos, não têm é tudo o resto que faz com que eles se transformem em performance, em conhecimentos, na utilização prática de tudo isto e na utilidade, já agora, na utilidade que dão àquilo que aprendem, que é outra das preocupações, é que muitas vezes ninguém lhes explica pra que aquilo serve, ninguém lhes dá uma dimensão prática. E enfim, grão a grão, cria-se toda uma dinâmica que faz com que os alunos se afastem da escola, mesmo quando a frequentam e fazem a escolaridade básica.

Pode um aluno sair do seu destino, digamos, só por ter tido bons professores? O sol aqui.

Pode. Às vezes não basta que sejam só bons, às vezes é preciso que sejam um bocadinho especiais. E o mais impactante, acho eu, é um pouco isto, às vezes não basta que sejam todos eles especiais. Às vezes basta que haja dois que sirvam um bocadinho de catapultas pra pôr aquelas cabeças ávidas de aprender a discorrer sobre as coisas e a ir por ali adiante. Agora, eu não perco de vista dois aspectos. Primeiro, os professores do primeiro ciclo do ensino básico. Claro que dito desta maneira pode parecer um bocadinho especulativo e até demagógico. A ideia não é essa, é quase utilizarmos isto como uma imagem. Mas eu acho que os professores do primeiro ciclo do ensino básico deviam ser pagos ao nível dos magistrados, só para nós deixarmos claro que o Estado de direito se constrói como Estado amigo da educação. E o primeiro ciclo é muito importante. E aquilo que a mim me preocupa é que a formação dos professores do primeiro ciclo tem o tempo indispensável, mas depois os desafios com que eles lidam todos os dias são de uma complexidade tal, que depois vale o lado de improviso, o lado sensato e sábio de quem pensa as coisas, mas que no fundo, se calhar precisaria de muito mais formação, muito mais recursos técnicos para que pegássemos nesses professores, que só querem que os seus alunos aprendam, a pô-los, de facto, a aprender ao mesmo nível. E depois, eu não me canso de chamar a atenção para o pré-escolar, o jardim de infância, chamemos-lhe assim, porque às vezes nós temos uma ideia um bocadinho escorregadia, digo eu, de que no fundo, é uma maneira de manter as crianças entretidas, que vale, sobretudo, pela socialização e talvez pouco mais, e é um instrumento absolutamente indispensável e, portanto, um pré-escolar, um jardim de infância, até o pré-escolar, muito bem gerido, muito levado a sério. E levado a sério não é no sentido de escolarizarmos, é exatamente o contrário, pode ajudar a esbater muitas das diferenças sociais e socioeconômicas de todas as crianças e colocá-las nunca numa paridade absoluta, porque uma escola é um espaço de diversidade, como não podia deixar de ser, mas pelo menos dar-lhes muito mais oportunidades do que aquilo que se dá. Mas os professores são a peça fundamental.

Basilar.

E, de facto, um professor mágico, pega nas dificuldades do aluno e de repente põe-no apaixonado por aquilo que ele imaginava que eram obstáculos intransponíveis.

A importância dos professores, de facto, é muitíssimo relevante em todas as áreas, mas no início da formação, mais ainda. Eduardo, hoje ficamos por aqui. Amanhã voltamos com mais um tema. Até lá, já sabe, continuem a escrever-nos para eduardosá@observador.pt e ouvir-nos em podcast, claro. Eduardo, um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Outros para si. Até amanhã, Judite.