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Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta". De novo, hoje comigo, Ricardo Conceição, e sempre com o Eduardo Sá. Olá, Eduardo. Bem-vindo.
Olá, Ricardo. Bem-vindo também.
Cá estamos. Se não há fome que não dê em fartura, como diz o povo de forma sábia. Cá estou eu outra vez. E hoje vamos falar de um tema que acho muito interessante: os nossos filhos deixaram de saber esperar. O rei dos miúdos não sabe aguentar um bocadinho, Eduardo. A gente espera um bocadinho e eles ficam em pânico, quase, e a mandar vir com os pais.
Ricardo, eu tenho medo que, às vezes, pareçam não saber esperar mesmo, porque tudo aquilo que não é muito imediato parece tornar-se aparentemente impossível. E é em tudo. Eu, com alguns adolescentes, sinto muito isso, porque quando eles não têm logo os resultados que procuram, partem do pressuposto que se não têm logo os resultados que procuram, eles são impossíveis e, portanto, nem vale a pena continuar a investir. E mesmo em relação aos sonhos ou àquilo que acontece nesta altura do ano, em que muitas vezes não é preciso escrever ao Pai Natal, enfim, mas se quiserem, eu acho lindíssimo, aliás.
Claro.
Mas em que é preciso fantasiar, dizer a si mesmos: "Qual é o meu maior desejo e como é que eu hei de convencer a minha mãe e meu pai a entrarem nesse desafio?" E isto de poderem sofrer um bocadinho quando esperam, mas ao mesmo tempo terem a determinação, a perseverança de lá ir, que faz com que depois as conquistas tenham outro sabor. E depois de uma primeira conquista assim, é natural que depois se perceba que, se calhar, os desejos são todos possíveis. Só depende da forma como os configuramos e da maneira como somos capazes de lutar por eles, mesmo que aparentemente só estejamos a esperar. Mas isto acontece muito pouco. Eu acho que, obviamente, a responsabilidade fundamental é dos pais, porque os miúdos tornam-se muito imediatistas.
Exato.
E isto funciona só contra eles.
Eduardo, e esse imediatismo, que no fundo nos ataca a todos, todos nós estamos a padecer desse mal, diria, mas estraga, prejudica o sonho, prejudica a criatividade, essa ânsia de ter as coisas de forma imediata, seguindo essa linha de raciocínio do Eduardo, no fundo, impede-nos de sonhar e de criar cenários, não é?
Sim. Ricardo, sabe o que é mais assustador? É que sem que nos estejamos a dar conta, mesmo quando só falamos dos nossos filhos, por mais que muitas vezes tenhamos um funcionamento razoavelmente idêntico, é que nós estamos demasiado a viver no aqui e agora. E o amanhã parece sempre longe demais. Isso é uma coisa meio estranha, porque de repente, sem querermos, estamos a alimentar um pouco a ideia de que, se calhar, eles não têm futuro ou o melhor do mundo não é necessariamente o futuro. Ou se nós o queremos construir, temos que ter também a humildade de perceber que ele não se constrói de um dia para o outro, mas é um pouco como a arquitetura e a engenharia. Se desenharmos um projeto com os pés na Terra e a cabeça na lua e trabalharmos muito para ele, chegamos lá. E, portanto, é mesmo isso. Às vezes, parece que sonhar é mais ou menos supérfluo. E eu fico preocupado. Porque às vezes eu pergunto aos adolescentes quando estou a falar com eles, às vezes estamos a falar de carreiras e o que é que eles querem fazer amanhã e depois de amanhã, e há sempre meia dúzia deles, muito mais do que eu gostaria que houvesse, que às vezes, raspando alguma insolência, me dizem assim: "Mas sonhar é preciso pra quê?" E eu fico sempre de alma completamente feita em fanicos. Porque como é que eu lhes hei de explicar que se eles não sonharem, ao contrário daquilo que imaginam, não estão a viver?
Pois, é que o mundo não é feito de zeros e uns. Nós não somos binários, nem o mundo é binário, e isso retira tutano, retira sumo à vida.
Sim. Mas diga, desculpe.
Ia-te perguntar como é que obrigamos os miúdos a esperar e a apreciar a espera, que ninguém gosta de esperar. Quem espera desespera. Mas como é que lhes transmitimos esta ideia de que isso faz parte do crescimento e faz parte da vida, que não podemos estalar os dedos e ter as coisas?
Educando melhor os pais. Ontem foi o dia em que se comemorou a Convenção dos Direitos das Crianças.
Exatamente.
Que eu acho que é uma convenção muito importante, mas às vezes apetecia-me falar e dizer mais ou menos assim: "Pronto, não vamos só pôr o acento tónico nas crianças e vamos assumir Que os direitos das crianças nunca se vão consumar sem que os direitos dos pais estejam salvaguardados. E às vezes nós vivemos muito amedrontados, como se ao não satisfazer imediatamente um desejo, pudéssemos estar a ser maus pais, pudéssemos estar a ser prejudiciais. E depois os nossos filhos são um bocadinho demagógicos, claro, porque há sempre um colega ao lado cujos pais são assim, estala-se os dedos e as coisas acontecem. E isto preocupa-me imenso, porquê? Porque eu percebo que quem espera desespera. Ricardo, mas eles precisam de ter um quanto basta, eu sei que dito assim pode parecer feio, mas eles precisam de ter um quanto basta de dor, de algumas dorzinhas pra aprenderem a conviver com elas. Ou seja, se eles não estão habituados a esperar, nós estamos a alimentar uma geração de impulsivos. Onde é que isso nos leva? Não é nada razoável. E depois uma geração de impulsivos não é por inerência uma geração de miúdos que percebem que têm que negociar com o amigo do lado por causa de um trabalho, conversar com alguém por causa de um sonho que se queira compartilhar. Ou seja, nós estamos a torná-los imediatistas e individualistas. E nós temos que parar, temos que ser nós, os pais, a dizer assim: "Calma." E por isso é que eu acho que é bom que nós falemos dos direitos dos filhos, mas era muito bom que disséssemos aos pais: os pais têm direito de se ver livres de tutoriais, de sites, de webinars e de coisas do gênero, que estão sempre a consumir, sempre na ânsia de serem melhores pais com uma fórmula simples, fácil e que está ao alcance de todos, porque é assim que as coisas são vendidas, e que possam perceber que quanto mais os ensinam a ter um quanto basta de espera, só um quanto basta, não é mais do que isto, mais os ensinam a crescer felizes. E os pais vivem ao contrário. Ricardo, porque é sempre aquela ideia de que os meus filhos não podem zangar-se, nem podem ficar um bocadinho tristes.
Não podem sofrer um bocadinho.
Exato, porque senão não são felizes. Não, as pessoas pra serem felizes precisam aprender a ser felizes com lágrimas e às vezes os pais esquecem-se.
É que nós vivemos de tal forma nesta sociedade de consumo imediato e todos padecemos disso, não vamos fingir que escapamos a isso. No outro dia dei por mim a pensar nisto e agora partilho com o Eduardo e também com os nossos ouvintes do "Porque Sim, é Resposta". Estava no elevador, tirei o telemóvel e comecei no telemóvel, no elevador e dei por mim a pensar no seguinte: mas nem nos 10 segundos que dura a viagem do elevador, podes largar o telemóvel durante um bocadinho, 10 segundos? E dei por mim a pensar nisto e guardei de novo o telemóvel, fiz o resto da viagem de elevador sem fazer absolutamente nada, só a olhar pro espelho. Nós estamos a perder esta capacidade, Eduardo, não é?
Eu acho que sim. Eu acho que era muito importante que um dia destes nós reabilitássemos o silêncio como patrimônio imaterial da humanidade. Porque quando se lê, isto de entrarmos numa história e de pensarmos e de sentirmos a história e de a vivermos com o silêncio, é aquilo que nos permite andar a passear por tudo que é intimista na nossa vida. E às vezes estas relações descartáveis, a vida descartável, está nos transfigurar. E nós somos muito melhores que isso, somos muito mais capazes do que isto. Mas de facto, quando as coisas têm que ser vividas no imediato, é como se nós estivéssemos sempre a alimentar uma angústia de morte, como se nós estivéssemos sempre a dizer: "É melhor vivermos hoje, porque provavelmente podemos não ter amanhã." Isto é que é um absurdo total.
Não faz sentido. Eduardo, obrigado. Só estes 10 minutos pra mim já valeram, quase como uma viagem de elevador sem rede.
Já sabe que eu, por mim, o obrigava a estudar todos os dias.
Não me deixa, Eduardo. Eduardo Sá, muito obrigado. "Porque Sim, é Resposta" todos os dias na Rádio Observador, ali por volta de 12h45 e sempre disponível em podcast. Um grande abraço, Eduardo.
Outro pra si.