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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou a Judite França e hoje vamos falar de uma criança de seis anos que explode quando é contrariada, mas depois reconhece que esteve mal e pede desculpa. Olá, Eduardo. Uma criança de seis anos que se enerva e grita quando é contrariada, isto está dentro daquilo que é esperado para a idade ou é sinal de que falta aqui alguma ferramenta de autorregulação?

Olá, Judite. Judite, então, mas nós dois conhecemos pessoas de 30 e de 40 no trabalho, na família, que explodem e em relação às quais nós próprios temos a obrigação de perguntar: "Mas isto está dentro do prazo de validade?" Vamos lá ver. Eu gosto que as pessoas explodam dentro de alguns limites, como é evidente. Só para irmos aí e para voltarmos para trás, se me permite. No trabalho, sermos espontâneos e sermos verdadeiros, e às vezes estarmos agastados e até sermos um bocadinho parvos e a seguir termos a humildade de apanhar a bola e de pedirmos desculpa e de basicamente estarmos à vontade, e de certa maneira, de estarmos um bocadinho em casa, eu não acho que seja mau. O que eu acho é que às vezes há pessoas que mal têm um poderzinho qualquer, um posto diferenciado, acham que finalmente podem fazer as birras com as pessoas que não fizeram quando eram pequeninas. E portanto, isso é que não tem graça absolutamente nenhuma. E portanto, quando se tem seis anos, é um bocadinho a mesma coisa. Eu gosto que as crianças, de certa forma, explodam dentro do que é razoável e façam aquelas cenas patetas do gênero "qualquer dia vou-me embora" e enfim, tudo isso, dentro do que é razoável. Sendo certo, que eu tenho um medo horrível da expressão autorregulação. Às vezes não é só medo, tenho uma má relação com isso. Por quê, Judite? Porque de repente, parece que é tudo tão óbvio, que as crianças têm a obrigação de ter esta capacidade de discernir quando estão a passar das marcas. Elas têm, se estiverem à vontade, passam das marcas de acordo com as regras da mãe e do pai. Às vezes precisam de passar das marcas para terem uma ideia mais clara das regras da mãe e do pai. E às vezes, se há aqui alguma trapalhice no meio, é que nem sempre as regras da mãe e do pai estão tão claras. Às vezes até são regras diferentes, o que ajuda a complicar tudo, mas não é um drama, nem precisamos de ir a correr pô-las em acompanhamento, nem nada disso. Significa uma criança a aprender a ser criança. E com esta particularidade, Judite, que eu acho que nós não devemos deixar de chamar a atenção todos os nossos filhos, os dos jornalistas também, fique descansada. Os dos psicólogos, não, claro, porque são psicólogos, evidentemente, mas todas as crianças são um bocadinho mal-educadas, precisam de ser um bocadinho mal-educadas. E é quando são mal-educadas que a autorregulação vem quando os pais chegam à frente a dizer assim: "Olha, eu adoro-te, mas as regras são um bocadinho estas". E é quando são um bocadinho mal-educadas, e algumas explosões não são má educação, mas algumas são, Judite. E é nessa altura que nós precisamos de nos chegar à frente e dizer assim: "Olha, a mãe adora-te, mas calma lá, há uma linha vermelha nisto tudo, que a mãe, porque te adora, não pode tolerar tudo e mais alguma coisa, porque senão fica magoada e uma mãe magoada é sempre uma mãe piorzinha. Portanto, quem é que quer uma mãe assim?"

Mas este e-mail desta mãe mostra que há aqui um desafio, que a criança não verbaliza o que sente, guarda para si e fica cada vez mais frustrada. Se calhar, era preciso ensinar como se põe o nome às emoções, que é uma das coisas que as crianças vão aprendendo.

Não sei se às vezes é importante, Judite, eu percebo isso. Mas veja, quantas vezes, Judite ou eu precisamos de nos chegar à frente e de pôr legendas nos nossos filhos. É importante esta mãe ter a noção deste aspecto. Há muitas maneiras de fazermos birras. Há quem faça birras para dentro e há quem faça birras para fora. Eu às vezes até prefiro as birras para fora, devo dizer, porque as birras para dentro são aquelas pessoas que ficam cismadas, como se diz, ficam a "prender o burro", como se dizia, e que nos fazem ter a ideia de que elas estão muito zangadas com alguma coisa. Nós nem sabemos naquele momento se não será justamente conosco, o que nos deixa ali no meio da ponte, "e agora, como é que eu faço?" E, portanto, uma mãe tem um sexto sentido tão fantástico Que tem toda a legitimidade para dizer: "Olha, a mãe pode estar enganada, mas a mãe sente que tu estás zangado por isto ou por aquilo." E se tu estás irritado com a mãe ou furiosa porque a mãe terá feito isto ou aquilo, fica claro que a mãe não é de porcelana e tanto não é, que é capaz de identificar que tu estás muito zangado com a mãe, por hipótese. E, portanto, zangares-te com a mãe não é parti-la, antes pelo contrário, é dizeres: "Olha, se calhar tu não estiveste bem." E sejamos razoáveis. Às vezes a mãe até pode não estar bem, mas que coisa, tu achares que a mãe não falha uma, a mãe falha uma série de coisas. Claro que a mãe acerta muito mais vezes e, portanto, eu percebo que tu estejas à espera disso da parte da mãe. Às vezes é falarmos com os nossos filhos, Tita. Não é tanto pô-los a identificar isto ou aquilo, como se aquilo que estivesse mal, se passasse dentro deles, porque é esse o equívoco que às vezes esta questão das emoções traz, é nós colocarmos na agenda e percebermos que muitas das dificuldades deles têm a ver conosco. Eu costumo dizer que por trás de uma criança difícil, momentaneamente difícil, está sempre um pai ou uma mãe em dificuldades. E às vezes quando nós legendamos as nossas dificuldades, estamos a tornar os nossos filhos fáceis e estamos a nos envolver na equação, que é uma coisa bem sensata. Ou já quando não são os filhos e a mãe ou pai dos filhos, ou as pessoas com quem trabalhamos, e quando mais uma vez nós apanhamos o jeito de legendar e estamos a legendar coisas com pessoas crescidas que deviam ter a obrigação de falar espontaneamente aquilo que estão a sentir, ficamos muito bem na fotografia, porque de repente o mundo das pessoas não é tão enigmático e tão difícil como às vezes parece.

E no momento da crise, do grito, da birra, qual é a reação mais eficaz dos pais?

Sabe o que é uma fúria de mãe, Tita França?

Lamentavelmente.

Um calor que vem por ali acima e uma pessoa às vezes tem assim uma cena meia à italiana com esbracejar, vermelhuda, que é levantar a voz. Proíbe. "Ós Tita, vamos lá ver." Volto a dizer-lhe, eu percebo que no calor de uma fúria, um filho seja um bocadinho parvo. Todos nós somos nessas circunstâncias, mas depois tem que haver alguém que diga: "Olha, parvos, mas com conta, peso e medida." Ou seja, vamos ter que pôr aqui um perímetro de limites, sob pena de hoje tu reagires assim e amanhã reagires pior, não é?

Há muito disto que passa pela alimentação, porque esta criança nem sempre quer comer e esse período transforma-se numa luta. Aqui também é complicado.

Ós Tita, mais ou menos. Eu percebo lindamente, acredite, que um coração de mãe, quando uma criança está a ter dificuldades na alimentação, acende os sensores todos. Não pode ir para a cama sem comer e aquelas coisas todas. Mas atenção, ó Tita, eu tentando ser provocatório, costumo sempre dizer que não há dificuldades alimentares nas crianças. Atenção. Há, e muitas vezes, um conjunto de dificuldades que têm na altura do jantar, a circunstância correta para se expressarem. E se a mãe e uma criança já estão naquela expectativa de: "Ui, vem ali o próximo round deste combate de boxe." E cada refeição é uma coisa desse gênero, nem a criança engole, nem a mãe descansa. E, portanto, eu não acho que a mãe tenha que estar a fazer de chato oficial: "Come, come, come." Pelo contrário, põe-se a refeição na mesa, fala-se de tudo e de nada e os pais devem ser proibidos de ser chatos à hora da refeição. " Comes, faz favor." Pronto, e quando a refeição começa, quando a mãe e o pai começam e termina quando a mãe e o pai terminarem. E quando o pai e a mãe terminarem, se a criança não comeu nada, "Olha, já percebemos que hoje não tens fome, não há problema nenhum, ainda podes ir brincar, não há bolachas, nem bananas, nem copos de leite, nem nada." E no dia a seguir toma-se o pequeno-almoço e acredito que ao fim de dois jantares assim, as crianças que são pequeninas, mas não são tolas, pensam: "Se calhar é melhor ir protestar de outra maneira, porque por aqui eu não passava."

Muito bem, Eduardo. Vamos de fim de semana. Um grande abraço.

Vamos sim, senhor.

Obrigada.

Muito prazer, Tita.

Até segunda-feira.

Um bom fim de semana.