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Neste dia da semana falamos de amor. Está conosco o Eduardo Sá, como é habitual. Eduardo, bem-vindo.

Olá, Eduardo.

Olá, Ana Filipa.

Bem-vindo.

E hoje a grande pergunta é: e quando o nosso amor se torna um estranho? Isto acontece com toda a gente. Não queremos alarmar ninguém.

Aquela pessoa que está lá conosco em casa, é isso?

Sim.

Eduardo ri-se. Gostei da forma assertiva como a Ana Filipa disse: "Isto acontece com toda a gente, não é, Eduardo?"

Não. Pronto.

Pronto.

Então explique-me lá.

Depois falas com o Eduardo à saída, está bem, Ana Filipa?

Sim.

Acontece com toda a gente. Às vezes das formas mais desconcertantes, aquelas com as quais nós vamos vivendo amiúde, todos nós. São os nossos amigos que tinham uma relação de não sei quantos anos, às vezes de muitos anos mesmo, e num desabafo dizem-nos qualquer coisa do gênero: "Chego agora à conclusão que eu não conhecia aquela pessoa". "Aquela pessoa" é uma designação não muito amistosa, que é uma maneira de dizer: "Pronto, eu no fundo não dormiria com o inimigo, mas seguramente dormiria com um estranho, e só agora é que dei conta disso". Sim, acontece com toda a gente, mas é mais um desabafo do que outra coisa qualquer, porque nós nunca estamos distraídos. Nós obviamente que vamos percebendo todas as arestas, as mínimas arestas que nos separam ou que às vezes nos melindram ou que nos magoam quando estamos com alguém, e vamos varrendo para baixo do tapete. E depois há sempre uma insignificanciazinha, que é mesmo pequenina, muitas vezes, que faz com que nós nos zanguemos com juros de moras, sobretaxas, coimas e chegamos à conclusão de que aquela pessoa que nós fomos conhecendo e de quem fomos desgostando, finalmente, não é bem a pessoa certa, é um erro de casting na nossa vida e finalmente temos a coragem de assumir o que é verdade. Mas sim, nós morremos de amor muitas vezes e é isso que nos torna provavelmente bonitos quando amamos.

Eu estou a lembrar-me aqui, por exemplo, da letra de "When a Man Loves a Woman", do Percy Sledge, que ele às tantas diz: "Estamos tão cegos por aquela pessoa que quando os nossos amigos apontam um defeito, nós rejeitamos esse defeito". Nós estamos cegos, não queremos ver, ou como o Eduardo dizia aí, vemos, mas encostamos ali num cantinho pra não querer pensar sobre isso.

Nós vemos sempre.

Nós vemos os defeitos.

Sempre. Agora, depois há muitas nuances nisso tudo que nos tornam muito pequeninos quando nós amamos. Às vezes nós estamos absolutamente fascinados pelo modo como gostam de nós. Às vezes não é bem com aquela pessoa, é com o modo como ela gosta de nós. E é tão fascinante o modo como ela gosta de nós.

Isso é muito narcisista também.

Pois é, mas acontece a todos, acredite. E ficamos tão deslumbrados com o modo de sermos absolutamente imprescindíveis pra alguém, quando às vezes nos sentimos mais ou menos secundários, que nos custa imenso quebrar uma relação daquelas, por mais que depois não passe corrente ou não haja a química que é indispensável, quando finalmente nós percebemos que falta ali qualquer coisa. Tinha tudo pra dar certo, e às vezes tudo pra dar certo significa: "Eu sempre sonhei com alguém que me tratasse desta forma, por que eu não a amo da mesma maneira?" Às vezes, não. Às vezes nós ficamos simplesmente deslumbrados porque estávamos num período mais ou menos cinzentão e de repente, alguém que nos abalroa e nos faz acordar pra um conjunto de aspetos. E é tudo tão fascinante que nós percebemos que a pessoa, até à escala do que acontece com os adolescentes, nós percebemos que ela tem até um aparelho nos dentes. Nós é que nunca tínhamos reparado.

Estávamos distraídos. Mas a questão, Eduardo, é essa questão da comparação da forma como somos amados, e desminta-me se estou errada, mas também é importantíssimo pra nós estabelecermos um objetivo. Quer dizer, se estamos com uma pessoa que nesse aspeto não nos satisfaz, vamos sempre à procura de alguém que nos ame de uma forma mais completa. Portanto, isso é positivo também.

Só é, mas não perca de vista os pormenores. Nós, depois, nos pequenos pormenores, nos pequenos mesmo, nos pequenos pormenores de todos os dias, desde os pormenores da gestão corrente de uma vida, até aos pormenores da gestão de uma sexualidade, nós obviamente que estamos particularmente atentos a tudo. E somos pessoas boas, regra geral, e portanto, quando as coisas não correm bem, aquilo que nós fazemos invariavelmente é pôr-nos a nós em causa. Somos nós que estamos a ver mal, porventura? Somos nós que estamos a exigir demais? Somos nós que, se calhar, chutamos ao poste quando devíamos chutar pra gol? Pomo-nos em causa muitas vezes. E de repente, andamos com uma culpa às costas que não tem muito a ver conosco. Terá um bocadinho, seguramente. E, portanto, até nós fazermos estas contas todas e termos a ousadia de dizer assim: "Calma Mas então e eu nesta equação, onde é que eu fico? Até que ponto eu não estou a ser condescendente demais? Às vezes passa muito tempo, porque nós somos mesmo boas pessoas na generalidade. E é nessas circunstâncias que muitas vezes nós somos surpreendidos por nós próprios. De repente, estamos a ouvir uma canção que nos acende uma luzinha algures no nosso passado, ou às vezes é um diabo de um sonho em que, de repente, aparece alguém que até nem foi importante, mas que nós pensávamos que estava esquecido. Nós nunca esquecemos nada. E de repente ela faz: "Olá, cá estou eu no meio do sonho" e nós começamos a perguntar: "Mas por que eu me fui lembrar desta pessoa logo agora?" O logo agora é que faz a diferença, claro.

E depois as comparações também são inevitáveis.

São fundamentais.

Mas há um momento em que começam essas comparações. Depois do momento de deslumbre, de paixão, se quiser, depois há um momento em que as pessoas começam a reparar nos defeitos uns dos outros?

Reparamos sempre.

Ou a dar mais importância?

Provavelmente é quando nós começamos a perceber que a paixão não é um fósforo, ao contrário do que se calhar nós todos repetimos por aí. Naquele registo como se a paixão tivesse o prazo de validade dos antibióticos. Tu apaixonas e ao fim de não sei quanto tempo...

Dura uns meses.

Exatamente. Desapaixonas e adeus. E nunca mais há paixão.

Até à primeira ida ao supermercado.

Quando as contas e os vencimentos não batem certo, esse tipo de coisas. Não, a paixão é uma chama que se não estiver numa relação, nós morremos devagarinho.

Claro.

E portanto, não é um fósforo. Agora, nós temos sempre a ideia que é uma coisa fugaz, é como o desejo. O desejo não é uma coisa fugaz, é a coisa mais séria do mundo. É quando nós recapitulamos uma, duas e três vezes e olhamos para aquela pessoa e somos capazes de ter admiração por ela. E dizer que ela está bonita, não só porque é bonita por fora, mas porque depois tem um rasgo que nos faz acender uma luz e dizer: "Mas por que eu às vezes não sou capaz de ser como ela?" E portanto, é isso que depois faz com que uma relação se alimente. Claro que nós estamos sempre a comparar as pessoas. Não há como não compararmos. Em tudo mesmo. No bom humor, que as pessoas têm ou não, na maneira como ficam melindradas por nada ou não, na maneira como nos tocam ou não, na maneira como são capazes de nos exaltar para uma relação apaixonada ou não. Nós estamos sempre a comparar. É o que há de mais sábio que nós podemos fazer. O que é mau é que depois fazemos as comparações, às vezes ficamos de coração um bocadinho apertado, e quando ficamos de coração um bocadinho apertado, não somos claros para dizer: "Se calhar não gostei daquilo". E a outra pessoa percebe que nós estamos de coração um bocadinho apertado e diz assim: "Olha, o que se passa contigo?" E nós estamos mortos por falar e dizemos: "Nada".

Nada. Não se passa nada.

Que é a mesma coisa como: "Olha, vai ali ver se eu lá estou".

Mas devemos falar nessa altura.

Devia ser obrigatório falar sempre.

Passa-se isto e isto.

Estou aqui a ouvi-lo falar, Eduardo.

Só ficamos estranhos um pouco, desculpem.

E estou a pensar: então nós não corremos o risco de estar sempre à procura daquela relação perfeita, que na verdade, não existe?

Não, porque nós somos demasiado espertos para perceber que o perfeito não é bem isso. Nós queremos mais. E note, nós só queremos mais porque muito seguramente fomos muito mal habituados, mal habituados com aspas, se faz favor. Ou seja, nós não andamos sempre a fazer filmes sobre coisas que não existem. Nós, porque fomos amados, temos a veleidade de sermos amados. A única coisa que me preocupa é que às vezes, quando nós somos crescidos, paramos e andamos sempre com o coração a suspirar, porque temos a sensação, muito infeliz, digo eu, que só fomos amados quando éramos pequeninos. O grande desafio que nós temos na vida é sermos amados por uma mulher ou por um homem quem decidamos escolher, ao nível do amor que tivemos na nossa versão premium de mãe ou de pai. Porque se nós descobrirmos a versão madura de um amor desse, então... Mas essa é a baliza, nós só temos essa baliza porque alguém nos amou como deve ser. Calma aí. E portanto, não vale a pena andarmos a achar que somos uns desgraçados, porque quando temos essa baliza, estamos todos prontinhos para jogar na Liga dos Campeões e não é qualquer campeonato distrital que nos encha a alma.

Eu fiquei aqui na versão premium do pai ou da mãe. É isso que devemos procurar?

Sim.

Pronto. Voltamos àquela frase célebre: "Estás igualzinha à tua mãe".

Não, isso é outra coisa.

Atenção, homens que nos estão a ouvir, por amor de Deus, nunca digam isso. Eduardo, ajude-me aqui neste conselho.

Eu acho tão delicioso isso. Sabe por quê? Porque um namorado que se preze, diz isso muito devagarinho.

Exato.

E assim num tom baixo, do género: "Tu estás igualzinha à tua mãe". É que depois há ali umas reticências no meio. E uma mulher que se preze, em vez de dizer assim: "Uau, finalmente eu sou bondosa como ela, tenho um sexto sentido que passa todas as paredes", etc. "Não, ok, estou a ficar com o mau feitio dela. Não, provavelmente deve ser solito, não, provavelmente deve ser isto". E de repente, parece que ser igual à mãe é o maior dos defeitos? Não, é a maior das qualidades que uma pessoa pode ter.

Mas se a frase for: "Estás igualzinha à minha mãe", aí é que é positivo.

Não, nunca tens.

Mas acabámos de dizer que temos que procurar a mãe.

A Ana flipa.

Eu estou a perceber tudo ao contrário.

Aí estamos então num plano do fim do mundo.

Não, veja o que é um namorado dizer-lhe isso. E a Ana flipa. Para 10 minutos e pensa assim: "Não, por favor, não. Igual à sogra é uma coisa..."

Se alguém proferir essa frase, fuja imediatamente.

Acione o plano de emergência.

Esta até eu sei Eduardo, voltando ao início desta conversa, porque às vezes descobrimos que nos apaixonamos por um estranho. Eu estou muito para a cultura pop. Estou me lembrando de um episódio de uma série cômica, em que todo o episódio são os amigos explicando: "A tua namorada tem este defeito, e este defeito, e este defeito." E a pessoa: "Não tem nada, é impossível." E então vemos uma espécie de viagem no tempo, em que o namorado começa a perceber os defeitos. Um deles era fazer ruído enquanto come. No início do namoro, ele nunca ouvia o ruído, ele ouvia música, ouvia passarinhos e depois, de repente, começa a ouvir o tal ruído que toda mundo se queixa. Isso acontece naturalmente, não é?

Acontece, mas às vezes também casamos com a mãe ou o pai sem dar por isso. Ou seja, às vezes passamos a vida a dizer assim-

Quanto tempo temos ainda para isto?

Vamos acabar.

Não, peço desculpa, Eduardo.

Sem dar por isso, porque às vezes passamos a vida a dizer que quando encontrarmos alguém na nossa vida, há de ser tudo menos a réplica dos defeitos que nós entendemos que são ingovernáveis da nossa mãe ou do nosso pai. E depois conhecemos várias pessoas e damos voltas na vida e quando damos conta, há um dia que se acende uma luz e dizemos assim: "Eu casei com os defeitos da minha mãe ou casei com os defeitos do meu pai." E aquilo que as pessoas saudáveis fazem é, depois respiram fundo, tentam encontrar outra pessoa na vida e finalmente têm outra namorada ou outro namorado e apresentam-nos aos amigos, e os amigos têm um aperto no coração que diz assim: "Meu Deus, é mais igualzinho ao outro do que podia ser." Nós, os psicanalistas, chamamos a isto uma compulsão à repetição.

E acontece.

Quantas vezes. Precisamos de fazer várias vezes isto pra finalmente ter a ousadia de dizer assim: "Pronto, a melhor maneira de resolvermos as relações mal esclarecidas com os nossos pais não é casarmos com esses defeitos, é primeiro pensá-los e depois criarmos uma clareira e irmos a jogo com outra desenvoltura."

Eu sinto que nós hoje ficávamos a tarde inteira a falar sobre isto. Não temos mais tempo, porque senão a resposta volta amanhã com o Eduardo Sá. Eduardo, obrigada.

De nada.

Até amanhã. Para voltar a ouvir esta edição, partilhá-la com alguém, vai estar disponível já. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.