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Bem-vindos a mais um "Porque Sim Não É Resposta". Eu sou a Judite França. Hoje não temos conosco o Bruno Vieira Amaral, que está nas suas merecidas férias, mas estamos sempre com o Eduardo Sá. Olá, Eduardo. E hoje vamos à boleia de um ouvinte, de novo, e vamos voltar ao tema dos pais divorciados que não conseguem ver os filhos. Eduardo, na semana passada falamos de crianças pequenas. Aqui, no caso, é já uma filha com 19 anos. É uma situação bem diferente.
Pois é, Judite. Eu tenho a ideia que quanto mais nós abordamos as questões relacionadas com o divórcio e com todas as intercorrências, os sobressaltos, as dores de cabeça que isso acaba por trazer, temos sempre muitos pais a conversar conosco e a porem muitos dos problemas muito sensíveis que este tipo de situações, infelizmente, acabam por trazer às suas vidas. No que diz respeito a um filho adulto, as coisas mudam de figura, porque não há como obrigá-lo a ver o pai. É evidente que ninguém quer eleger, num contexto destes, vítimas. Terá havido sobressaltos, terá havido muitas desinteligências, muitos mal-entendidos, muitos motivos pelos quais, eventualmente, um filho entende pôr um bloqueio desta natureza em relação a um pai, mas pode também ter havido, como há em muitas circunstâncias, uma gestão completamente atabalhoada de parte a parte, até porque muitos pais têm uma atitude que eu acho muito preocupante. E eu percebo que os pais queiram ser acarinhados e queiram ser amados e, portanto, não se queiram impor aos filhos. Mas também acho que quando se trata de estarem no fim de semana do pai, como se convenciona dizer, se um adolescente pequenino, que está ali a medir forças com o pai, muitas vezes, diz, por exemplo: "Não vou", eu fico sempre de coração muito apertado e acho sempre que o pai e a mãe têm que criar condições pra que ele vá, porque depois uma pessoa vai ficando envergonhada, vai perdendo a face, vai construindo todo um conjunto de ideias, como por exemplo: "Se o meu pai gostasse muito de mim, não desistia, arranjava aqui uma fórmula mágica para me ir lá buscar", e nem sempre acontece. E depois há muitos pequenos mal-entendidos, todos juntos, que chegam aqui e quando um filho tem 19 anos, não há como lhe pegar pelos colinhos e dizer: "Sim, tu vês o teu pai." Mas eu não percebo também, devo dizer, Judite, o papel das mães neste contexto, porque independentemente daquilo que os separe, uma mãe tem que perceber que um pai é um produto de primeira necessidade para o desenvolvimento de um filho. Não ganha se permitir uma coisa desta.
Nós não sabemos exatamente o que é que acontece, obviamente. Sabemos a versão deste pai, que diz que, de facto, a mãe não ajuda a essa presença, a esses encontros. Diz também que tem um filho mais novo, com 13 anos, e com esse a relação mantém-se boa. É evidente que, não sabendo pormenores, é muito difícil falar do caso, mas aquilo que nós conseguimos perceber é que estamos a falar de uma jovem de 19 anos, também numa fase de crescimento e de descoberta, e que faz uma opção que é uma opção que pode ou não estar relacionada com o divórcio. É uma opção que ela toma consciente já da sua maioridade.
Mais ou menos, Judite. Sabe, quando nós somos filhos, podemos ser até adultos, que depois somos todos muito pequeninos na maneira como às vezes interpretamos muitos gestos dos nossos pais. Mas aquilo que eu não entendo, e que acredite, é muito frequente nessas histórias, é que os pais permitam que os filhos estejam separados, como se houvesse um que fosse o filho da mãe, o outro o filho do pai. Um que possa ficar com a mãe, o outro que possa ficar com o pai. Um que aceite estar com o pai, o outro que não aceite. Porque eu acho que os pais não medem as consequências deste tipo de atos, porque criam fraturas tão grandes, e fraturas entre os irmãos, que em consciência não estão a fazer bem, estão-lhes a fazer mal. E esta ponderação devia estar sempre muito viva na cabeça de todos os pais, para que não corram o risco de permitir que uma coisa destas evolua e depois ganhe uma dimensão absurda como aquela que nós estamos a conversar.
É muito complicado para um pai, nestas circunstâncias, fazer alguma coisa diferente do que este pai está a fazer. Este pai, ouvimos a semana passada e ouviu o Eduardo dizer que não se deve desistir.
Sim, claro.
É óbvio, mas não se deve desistir, há alturas em que não se pode insistir, que é este o caso.
Sim, Edite, mas eu acho que desistir significa, muitas vezes, uma pessoa baixar os braços, deixar de tentar telefonar, deixar de enviar mensagens. Baixar os braços. E às vezes os pais, no seu desespero, têm um desabafo que a mim me preocupa sempre muito, que diz: "Se tu precisares de alguma coisa, eu estou aqui", que é uma coisa que não se pode dizer a um filho.
Por quê?
Edite, porque um filho precisa sempre de muito mais do que isso. E a iniciativa do jogo não pode ser do filho, tem que ser dos pais, sempre, inevitavelmente. E, portanto, não desistir significa telefonar, enviar mensagens, escrever. Eu sei que as cartas caíram em desuso. Eu acho que nós até devíamos fazer uma promoção das cartas ao patrimônio imaterial da humanidade, para dizer a verdade, porque uma pessoa diz nas cartas aquilo que não diz num e-mail. E uma carta manuscrita, sobretudo escrita com o coração, tem um impacto tal, que muitas cartas juntas ajudam que um filho faça uma leitura mais minuciosa daquilo que é a relação com o pai e que possa depois ir retirando as ilações devidas de uma relação como esta.
É sempre muito complicado para um filho que passa por um divórcio, muitas vezes, dissociar a relação que teve com o pai da relação entre os dois pais. E esse passado, muitas vezes, acaba por, para um dos filhos, por exemplo, ficar mais marcado na pele, neste caso, do pai.
Sim, invariavelmente, os filhos mais velhos. Não que se lhes peça isso, mas eles são mais velhos.
Tomam lados.
Também tomam lados, é verdade. E têm uma leitura mais em perspectiva, sendo que a leitura dos filhos nunca é tão isenta, como se compreende. E depois há, muitas vezes, nestas circunstâncias, uma madrasta que assume o papel de vilã, como se ela separasse aquela família, quando as coisas não são tão lineares assim, mas à luz dos olhos de um filho. Às vezes, até dá jeito que sejam lineares, porque de repente, há um mal na história, há um bom na história e fica tudo preto e branco, quando as coisas são mais cheias de nuances. Mas sim, torna-se muito difícil pra um filho, mas é por isso que os pais existem, que os pais têm que ser muito sensatos, para que não permitam que uma situação desta se volume, porque com isto um filho não ganha nada, só perde, só se magoa. E se a mãe não colabora num registo como este, por mais que a mãe tenha os motivos que ela entenda ter, está, de facto, a fazer mal a um crescimento de uma filha.
Esta relação que este pai fala ter com um filho de 13 anos, é uma relação também em que há visitas parentais, ou seja, não vive com ele, porque não há guarda partilhada. A guarda partilhada vigorou apenas depois do divórcio, isto é o que nós percebemos. A questão aqui da separação que falou, da separação entre um irmão e irmã, isto pode haver aqui algum tipo de influência?
Claro. Que não passe pela cabeça dos pais que, ao permitirem uma coisa destas, a relação entre os irmãos fique igual. Não fica, inevitavelmente. Até porque aquele irmão que mantém relação com o pai e que, de alguma forma, pode não ter comprado as dores da irmã, vai sempre ser sentido pela irmã como se ele estivesse a trair a irmã e, porventura, a mãe ao mesmo tempo. E portanto, com isto tudo, coloca seu irmão numa posição muito sensível, como se ele tivesse que estar permanentemente a pedir desculpa por gostar do pai ou por ter uma relação com o pai. E portanto, isto compromete, e às vezes de forma irreparável, pela vida afora, a relação entre os irmãos. Como é que os pais não se dão conta disso? É o que eu não entendo.
E podemos ter a situação contrária também. Podemos ter aqui um filho que a dada altura preferia estar com a irmã, exatamente porque a irmã não vai com ele, mas há uma guarda. Ou seja, há aqui uma visita parental, não uma guarda partilhada, mas umas visitas, neste caso, acho que são quinzenais. Pode também haver essa influência da irmã influenciar o mais novo? Sendo que o mais novo, legalmente, tem que ir.
Sim, mas o legalmente, em muitas destas circunstâncias, pode ter reticências. Mas sim, os irmãos mais velhos, nestas circunstâncias, sobretudo quando os mais novos não subscrevem as suas opiniões ou os seus comportamentos, têm essa capacidade de o influenciar, claro, e influenciam muitas vezes e entendem que até o fazem de uma forma que é bondosa pro mais novo. Mas eu chamo a atenção do direito de visitas, que eu acho que devia ser uma coisa absolutamente banida do direito. Porque, vamos lá ver, um pai a ter o direito de visitas a um filho. Um pai não é propriamente um amigo, mais ou menos distante, que pode aparecer lá por casa com hora marcada. Não pode ser assim uma coisa tão formal a esse ponto, porque depois, qual é a legitimidade do direito achar que em relação a tudo que são responsabilidades parentais, educação, saúde, religião, os pais estão em paridade, sendo que pra algumas coisas um tem o direito de visita e outro tem a guarda. É uma coisa tão desequilibrada que, determinada altura, a meu ver bem, o direito entendeu a guarda conjunta e a responsabilidade partilhada como uma presunção jurídica, depois com interpretações que nem sempre são sensatas. Mas enfim, lá chegaremos. Mas o direito de visita é uma coisa áspera e ofensiva quando se trata de um pai ter acesso a um filho Neste caso, aos dois, e fazê-lo de uma forma franca e aberta, como os pais inevitavelmente precisam de fazer pra se sentirem pais e os filhos, filhos.
São temas sempre muito complicados, Eduardo. São muito complicados e não há soluções fáceis, de fato, aqui. Às vezes, como se costuma dizer, o tempo ajudará a conseguir compor. Diz-se muitas vezes isso: "Quando for mais velho, ele vai ou ela vai perceber." Pode ser uma esperança vã.
Por isso eu gosto que os pais, quando se sentem um bocadinho excluídos, escrevam. Escrevam hoje e depois, porque vão deixando um legado claro. E aquilo que escrevem tem que poder ser lido por todos, pela mãe das crianças e pelas crianças, de maneira que fique claro que há um respeito absolutamente intrínseco em relação à mãe, se for o caso, e vice-versa, para que depois não se criem estas fissuras, que depois todas juntas acabam por criar fraturas que são muitas vezes irreparáveis e que estragam a vida de toda a gente, nomeadamente estragam o crescimento dos filhos.
Exatamente. Eduardo, obrigada. Nós voltamos amanhã. Estamos sempre disponíveis em podcast nas plataformas habituais e também podem escrever-nos para eduardosa@observador.pt. Temos tido, como dizia há pouco Eduardo, muitos pais, neste caso, a procurar alguma luz para os problemas, mas estamos abertos a receber outras sugestões e comentários, claro. Então voltamos amanhã, Eduardo. Até amanhã.
Seguramente. Um beijinho. Obrigado e até amanhã.