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Fim de semana. Bem-vindos ao "Porque Sim Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje vamos falar de relacionamentos no trabalho. Olá, Eduardo. As relações no trabalho seguem as mesmas regras das outras relações ou o contexto profissional muda muita coisa?
Estamos a falar de relações amorosas, é isso?
Relações amorosas, sim. Tirar as dúvidas.
Sim, claro. Às vezes, a vida das pessoas é uma vida muito glutona em termos daquilo que o trabalho lhes exige. E, portanto, elas passam, em boa verdade, muito mais horas no trabalho a conviver com colegas do que o tempo útil que se passa numa família, não contando, naturalmente, o fim de semana. E, portanto, sobretudo quando uma relação de casal começa a ficar adoentada ou um bocadinho constipada, é natural que, de vez em quando, a pessoa tropece em alguém que repare em nós ou que faz um comentário simpático, e isso tudo mude. E, portanto, as relações de trabalho, quando se envolve uma relação amorosa e uma relação de trabalho, começam por ser, sobretudo, clandestinas. Nunca suficientemente clandestinas, porque nós somos todos pessoas muito mais transparentes do que às vezes gostaríamos, sobretudo nestas circunstâncias. E, portanto, às vezes só falta termos luzinhas a acender e apagar na testa, a dizer: "Sim, eu gosto realmente daquela pessoa". E, portanto, vai-se tentando manter uma relação clandestina, mas depois há sempre um jantar da empresa, festa de Natal, isto ou aquilo, e por coincidência, as pessoas estão sempre sentadas uma ao lado da outra e, portanto, deixam de estar assim escondidas. E depois logo se vê como é que a relação cresce. O grande problema, às vezes, não é as pessoas envolverem-se. É as pessoas, a certa altura, afastarem-se depois do envolvimento, porque aí é, de facto, arestas muito complicadas, porque às vezes aqueles afastamentos ou até o próprio envolvimento são todos muito mal geridos. Às vezes um está numa relação, o outro não está. Às vezes aquele que está numa relação promete que brevemente deixará de estar, mas depois não tem coragem, não consegue e as situações vão se prolongando e cria-se uma enorme bola de neve e, portanto, isto dá invariavelmente umas confusões muito grandes. Seja como for, eu também acho que algumas multinacionais que proíbem o envolvimento dos pares, eu acho uma patetice absoluta e pegada, por quê? Porque nós somos crescidos, porque nós não andamos à procura de confusões, porque nós não queremos que tudo isso traga turbulência à vida do nosso trabalho. Mas estas coisas acontecem por isto, porque nós estamos muito tempo no trabalho e às vezes, em casa, as pessoas se vão afastando, quando é o caso, umas das outras e de repente no trabalho vão se aproximando umas das outras e quando se dá conta, a vida surpreende.
Há quem defenda que não se deve misturar trabalho com amor. É um bom conselho?
Ni.
Medianamente bom conselho.
Eu percebo que se diga isto, mas de repente é também tornar as pessoas muito escravas de um código de conduta. E a impressão que eu tenho é quando existe um código de conduta numa empresa ou mesmo no Parlamento, ou seja lá onde for, é porque no fundo, todas as pessoas têm a noção que a conduta está fora dos parâmetros do sensato, do urbano, do equilibrado. Mas não é um código de conduta que faz com que as pessoas ponham ali uma espécie de colete de forças à volta do coração ou se tornem indiferentes para os apelos que a vida lhes traz. Acho que é infantilizar as pessoas, eu acho isso uma tolice. Evidentemente, que aquilo que uma pessoa não quer de todo é que uma relação amorosa venha equipada com dor de cabeça e episódios de turbulência e clandestinidade e esse tipo de coisas. Quem é que quer isso, não é? E, portanto, não me parece que faça sentido um conselho desses. Às vezes, é um conselho dos nossos amigos, mas às vezes eles são os primeiros a incorrer na contradição desse tipo de conselhos, porque lá está, a vida às vezes é tão forte nos apelos que nos traz, que há lá código de conduta que domine a vida, de modo algum.
Quando um colega se torna um confidente próximo, isso é um sinal de alerta?
Mais ou menos. Às vezes pode ser só um grande amigo. De repente, o colega evolui um degrau e passa a ser um bom amigo. Às vezes é só isso. Às vezes um colega também ele próprio se surpreende Com aquela pessoa e, de repente, aquela pessoa que podia ser uma boa amiga, se fosse o caso, de repente, começa a ter outro tipo de preponderância. Às vezes há pessoas que também são muito manipuladoras e que percebem que as nossas fragilidades são um território muito favorável para que quem é manipulador se torne mais manipulador ainda. Essas coisas acontecem, mas é evidente que numa relação de trabalho, começamos por ser colegas, ó Edite, tomaríamos nós que as relações de trabalho, em muitos aspectos, evoluíssem pra relações de amizade. Não seremos todos amigos uns dos outros, mas se pudermos, no trabalho, ter relações de amizade, pessoas que saibam um bocadinho da nossa vida, que nos aconselhem, que nos apoiem, não vem daí mal nenhum, pelo contrário, o nosso rendimento prospera e a maneira como nós vamos para o trabalho não é tanto daquelas pessoas tão envolvidas com o sentimento de que o trabalho lhes está a trazer muitas surpresas boas, não só nas funções que desempenham, mas nas relações que, de alguma forma, esclarecem.
E um romance no trabalho pode ser também uma espécie de fantasia? Eduardo?
Sim, evidentemente que sim. Pode, claro que sim, que pode ser. Agora, lá está, Edite. Eu tenho sempre medo das pessoas dos nossos sonhos, mas nós todos temos nos sonhos muitas pessoas. Atenção, porque tem muito a ver com toda a experiência, com tudo aquilo que nós vamos compondo um bocadinho em abstrato, alguém que faça parte dos nossos sonhos. Às vezes pode ser um bocadinho de fantasia, mas às vezes pode ser uma locomotiva que nos vira de uma vez e tenha todas as características, ao contrário das pessoas dos nossos sonhos, mas de repente se tenha tornado tão importante que nos virou de uma vez quando nós estávamos a ter uma relação preferencial com as pessoas dos nossos sonhos e de repente percebemos que às vezes há na vida pessoas que conseguem ser aquelas pessoas dos nossos sonhos. E quando as pessoas que nós descobrimos são mais bonitas que as pessoas dos sonhos, ó Edite, nós devemos ir atrás delas, porque não é todos os dias que isso nos acontece.
E com essa nota tão bonita, vamos para fim de semana. Eduardo, um grande abraço. Até segunda-feira.
Um bom fim de semana, Edite.
Um bom fim de semana.