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Boa tarde, bem-vindos a mais uma edição do "Porque Sim, Não É Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Eu sou o Bruno Vieira Amaral. Hoje, sexta-feira, é dia de relações amorosas. Fazemos a pergunta: e se pudesse, voltava atrás? Boa tarde, Eduardo. Voltar atrás para reviver, para emendar algumas coisas ou para apagar tudo?

Eu acho que às vezes é muito importante nós fazermos um balanço em relação a tudo aquilo que vivemos. Em relação a tudo que vivemos, mas então no plano amoroso mais ainda, porque há relações que são importantes, que nos ajudaram a crescer, que mesmo quando correm mal, nós olhamos para elas e percebemos que há um antes e um depois. E o depois corresponde à parte de nós que saíram a ganhar, nós crescemos com elas. Há relações das quais nós temos saudades, em que nós pomos muitos pontos de interrogação: o que teria sido se eu não tenho tido aquele passo mais ou menos incorretivo, mais ou menos em falso? Ou aquela pessoa não terá tido aquela atitude que acabou por fragilizar a relação, mas que hoje quando olhamos para trás, percebemos que foi uma atitude irrefletida, mimada, às vezes um pouco egocêntrica. E, portanto, sim, às vezes nós temos pessoas na nossa vida que guardamos com algum carinho, que nunca mais tivemos uma relação de proximidade com elas, mas que nos levam muitas vezes a perguntar: e se nós voltássemos atrás? Mas lá está, estes ses todos de uma relação que nos fazem viver o presente, mas ao mesmo tempo ter muito claro um conjunto de arquivos, que nem sequer são arquivos secretos, mas que são arquivos em relação aos quais nós voltamos muitas vezes silenciosamente, de uma forma mais ou menos clandestina, e que tudo junto nos fazem estar permanentemente a fazer aquilo que todos nós fazemos muito bem, que é viver uma relação hoje e monitorizá-la com todas as nossas experiências, exigir em função dessas experiências, boas e más. E ter a noção que se nós hoje estamos com esta pessoa e nos envolvemos e nos empenhamos nesta relação, isso não significa que todas as outras relações sejam relações resolvidas, relações que não vêm à memória de vez em quando, porque vêm. Basta que nos zanguemos um pouco com a pessoa que temos ao lado e de vez em quando: "Olá, cá estou eu" e lá estão as nossas memórias a bater à porta.

Mas são coisas diferentes, isso de fazer um balanço dentro de uma relação e fazer um balanço quando já se saiu da relação. E muitas vezes parece que se está preso ao passado, constantemente a reviver esses passos em falso. São coisas muito diferentes.

Sim, são necessariamente diferentes. Mas que se misturam muitas vezes, e misturam de uma forma muito intensa. Seja como for, eu acho que quando nós temos alguma experiência de vida e temos alguma rodagem, como algumas pessoas dizem, nós pomos essa pergunta. É uma pergunta quase proibida, mas pomos essa pergunta muitas vezes: e se voltássemos atrás, o que era razoável fazermos? E eu fico sobretudo preocupado quando vejo aquelas pessoas, de uma forma muito perentória, dizerem: "Não, eu faria tudo igual outra vez", porque eu acho que não pode ser verdade. Se pudéssemos voltar atrás em muitos aspectos, também nos aspectos amorosos, certamente que não faríamos tudo igual. Se calhar, faríamos quase tudo diferente, o que não significa que estejamos mal onde estamos. Mas se calhar teríamos feito muitas coisas mal feitas. Eu acho que sim. Mal seria que não aproveitássemos essa teoria que entretanto a vida nos trouxe para nos imaginarmos a fazer coisas profundamente diferentes, tomando em consideração aquilo que fizemos.

E nesse olhar para trás, olhar para outras relações, mesmo pensando naquilo que aprendemos, não corremos o risco de, por vezes, esquecer o presente, aquilo que estamos a viver?

É muito difícil esquecer o presente, porque o presente impõe-se.

Está lá.

Impõe-se. E o imposto não é uma coisa que nos foque, pelo contrário, está ali e portanto, de alguma forma também nos exige. E depois, de algum modo, nós temos a noção que a pessoa com quem estamos também tem esse tipo de dilemas dentro de si. E se aceita estar conosco, é porque realmente quer muito estar conosco. A verdade é que depois, quando nós gostamos muito de alguém, percebemos que essa pessoa teve os seus percursos de vida, que não fomos a única pessoa da sua vida, mas isso às vezes chateia. Porque quando nós gostamos muito de alguém, queremos muito que Que aquela pessoa não tivesse passado e que nós fôssemos a única pessoa, o que não é manifestamente possível. Portanto, o presente é um caminho. É sempre um diálogo que nós fazemos com memória, com os sonhos que queremos construir dois, três dias, dois ou três anos adiante e com tudo aquilo que temos à mão hoje, aqui e agora. E que nos dá essa dimensão, que também eu acho que é bonita, que não é uma dimensão de um permanente sossego, mas que não se pense que uma relação amorosa é uma relação sossegada, quieta, sem estas interpelações andarem conosco aos bocadinhos todos os dias.

E quando esta ideia do: "E se pudesse, voltava atrás", acaba por ser uma forma de não estarmos em paz conosco, estarmos constantemente a voltar aos erros que cometemos, sendo que também não os conseguimos resolver agora.

Bruno, isso significa que, se calhar, ainda nos falta crescer um pouquinho. Eu acho que é bom que sejamos exigentes conosco. Acho que é muito bom que sejamos no presente e, já agora, em relação às pessoas a quem gostamos muito, é bom que sejamos exigentes, porque se formos exigentes, as pessoas exigem-nos e, portanto, obrigam-nos a crescer ainda mais. Mas quando nós olhamos para o nosso passado com esse critério de exigência, quase como se fosse indesculpável isto ou aquilo que tínhamos feito. Isso não é muito razoável, porque significa que nos falta ainda uma capacidade. Eu acho que é isso que nós chamamos maturidade. Que é a capacidade de percebermos as coisas que vivemos, tal qual as vivemos num determinado momento, e percebê-las não é, de alguma forma, sermos condescendentes. É termos uma leitura ponderada, clara, clarividente, até mais em relação a muitas das coisas em que nós nos atrapalhamos todos, em que fizemos isto ou aquilo que ainda hoje temos dificuldade em digerir, mas que depois, feitas as contas, nos ajudam a perceber que nós crescemos com os erros. E todos nós erramos muito. Esta ideia de nós querermos ser felizes à margem dos erros é tão absurda, mas tão absurda, que se calhar quando nós hoje, com os critérios de hoje, estamos a analisar episódios que vivemos ou atitudes que tivemos ou que tiveram conosco, significa que talvez não tenhamos aproveitado devidamente o nosso crescimento a ponto de estarmos com esta austeridade toda a ler a nossa história que, afinal de contas, não foi feita só de coisas más. Os erros, se calhar, também ajudam a perceber. E se ajudam, Bruno, que mesmo em alturas da nossa vida em que éramos pequeninos, inexperientes e que não tínhamos todos os instrumentos indispensáveis para ler aquilo que estávamos a viver e para atuar sobre isso. Ainda assim, nós, se calhar, não éramos tão frágeis e tomamos muitas decisões. E se tomamos muitas decisões, que se calhar eram decisões que, com aquela ingenuidade com que as tomamos, são decisões inacreditáveis, que hoje nós tomaríamos com outra fundamentação, mas que fomos capazes de tomar de uma forma muito intuitiva, muito para além, se calhar, daquilo que nós imaginávamos que éramos capazes de ter.

E é frequente as pessoas voltarem atrás? Não voltar atrás no tempo, mas ir à procura de relações que acabaram.

Não, nunca pense nisso, Bruno.

E se é aconselhável, com a experiência entretanto adquirida, tentar ir atrás e salvar o que parece perdido?

Naquele registo de voltar a um sítio onde pelo menos sabíamos que poderíamos ser felizes, imensas vezes. Imensas. E eu acho isso tão escorregadio, mas eu compreendo. Eu já perdi a conta às pessoas que depois de viúvas, começando pelo mais extremo, vão à procura de uma namorada que tiveram, ou de um namorado, como se, no fundo, 40 ou 50 anos na vida não fosse nada de mais e que tudo estivesse mais ou menos inalterado, como naquele período em que nós nos encantamos com aquela pessoa. Quantas pessoas não fazem isso quando se separam ou quando se divorciam? E, portanto, sim, eu acho que às vezes nós todos temos essa tentação. É escorregadio? É escorregadio. Mas é também verdade. Eu mentiria se não dissesse que não conheço pessoas que foram à procura dessas relações, muitos anos depois. E, portanto, voltaram literalmente atrás. Hoje, por azar, voltarem literalmente atrás. Algumas decepcionaram-se, outras têm a ideia, pela felicidade que entretanto reencontraram, que a vida explorou por elas o tempo indispensável a ponto de serem hoje felizes como se calhar nunca foram.

Eduardo, aqui não voltamos atrás. Seguimos em frente, para frente é que é caminho. Vamos para o fim de semana. Voltamos na próxima segunda-feira. Estamos sempre disponíveis em podcast, nas plataformas habituais, no site observador.pt e pode sempre enviar-nos questões, dúvidas e partilhas através do e-mail eduardosá@oobservador.pt. Eduardo, um grande abraço, um muito bom fim de semana e até segunda-feira.

Um grande abraço e bom fim de semana para si. Até segunda, Bruno.