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Bem-vindos ao "Porque sim não é resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos da infância como explicação para tudo o que somos. Olá, Eduardo. De onde é que vem esta ideia de que a infância explica quase de forma determinista tudo o que somos hoje?
Olá, Judite. Vem da psicologia e da forma como se foi, e bem, acho eu, observando uma realidade tão simples quanto esta: é que se calhar, à partida, nós não somos tão diferentes uns dos outros, mas aquilo que nós vivemos condiciona, para o melhor e para o pior, muitas das competências com que nós nascemos. E isso eu acho que é muito importante nunca perdermos de vista. Às vezes cria-se uma ideia, que eu acho pateta, de que ao dizermos coisas destas estamos a culpar as mães e a ser misóginos e outras coisas do gênero. E não é minimamente verdade. É termos a noção da nossa responsabilidade, como aliás nós temos. E portanto, nós tentamos fazer o melhor, sendo certo que às vezes o melhor já está um bocadinho inquinado pelas nossas experiências de vida. E portanto, termos cuidado com a infância significa termos um cuidado extremo com aquilo que se passa no dia de depois de amanhã e, portanto, com o desenvolvimento dos nossos filhos. O que não é verdade é que tudo aquilo que nós somos hoje tenha como remetente os nossos pais, ou seja, as escolhas que não fizemos, as conquistas que não atingimos, tudo o resto. Porque, curiosamente, muitos de nós quando não conseguimos atingir isto ou aquilo, damos meia dúzia de voltas e estamos de dedo esticado em relação aos nossos pais, como se eles pudessem ter feito melhor. Podiam! Ora essa, claro que podiam. Mas eu acho que às vezes nós somos primeiro exigentes e depois gratos. E eu acho que deveria ser exatamente o contrário. Os nossos pais cresceram tremendamente conosco, tentaram reparar muitas coisas más que eles viveram e só por isso temos a obrigação de estar infinitamente gratos. E, portanto, eu acho que primeiro devemos estar gratos, depois devemos dar e a seguir exigir. E acho que vivemos às vezes num mundo em que as coisas estão ao contrário, em que primeiro se exige e raramente se é agradecido. E isso começa a ser uma questão de caráter que me preocupa e que não tem que ser assim.
Tornou-se confortável instalar-se no papel de vítima do seu próprio passado?
Sim. De repente, o nosso papel na nossa vida, nas escolhas que nós fazemos, Judite. E há escolhas que nós fazemos sem as fazermos, ou seja, vamos evitando ter uma decisão, à espera que a vida decida por nós. Todos já fizemos isso um bocadinho, atenção. Mas eu acho que escolher e ter um desejo é mesmo um ato de humildade. É dizermos assim: perante tudo aquilo que eu desejaria, o que é que eu ponho à frente pra conquistar primeiro? E às vezes nós fazemos muito pouco isso. E, portanto, há muitas escolhas que nós não fazemos porque não fomos capazes, porque tivemos medo, tudo aquilo que faz parte das pessoas. Mas de repente vivemos num mundo um bocadinho esquisito, em que seja o traço de personalidade A ou B, orientação sexual A ou B, aquilo que nós fazemos nas nossas relações pessoais, amorosas, políticas, o que seja, de repente, ou há uma justificação genética, coitada da genética, que acaba por estar sempre a pagar as favas mesmo naquilo que não faz, ou há um traumatismo qualquer, como se de repente fôssemos sobretudo vítimas. E apesar dessas coisas existirem, muitas delas terem, de facto, um peso, depois existimos nós. As escolhas que nós fizemos, as escolhas más que nós fizemos, as pessoas que trouxemos para as nossas vidas e que em vez de nos ajudarem a voar, ui, nos levaram, sobretudo, a voar muito baixinho. Tudo isso que faz parte também da vida das pessoas e que é da nossa responsabilidade, e eu não o vejo mal que seja. Aquilo que eu acho que é importante é que a determinada altura nós sejamos capazes de dizer assim: os meus pais até aqui fizeram o que podiam ter feito. Estamos muito agradecidos por isso, sem dúvida. Merecem todo o cuidado e todo o carinho por causa disso. E nem sempre os pais têm tanto carinho e tanto agradecimento como deviam, diga-se. E depois, sermos capazes de dizer, tomando o dia de hoje e os acontecimentos que a vida nos traz, formatam-nos de uma forma inacreditável, porque se nós achávamos que sabíamos tudo de nós, quando há um acontecimento surpreendente, temos a humildade de perceber que nos falta saber quase tudo sobre quase tudo. E é dessa forma que nós aprendemos a crescer, mas assumirmos que independentemente das condicionantes, elas estão lá e vão se fazer sempre sentir. Estamos nós ao leme, estamos nós a fazer escolhas. E estas escolhas, sim, são muito importantes, nunca se traduzem no imediato, mas se formos perseverantes, nós chegamos lá. Basta é que sejamos claros em relação àquilo que queremos.
Até que ponto essa narrativa de vitimização retira às pessoas responsabilidade?
Completamente, Judite. Mas completamente. Isso é que me preocupa, percebe? E preocupa-me muito, porque de repente introduz toda uma atmosfera, como se, no fundo, as pessoas andassem envolvidas numa onda e não pudessem pôr os pés na Terra e dizer: "Vou por aqui". E podem não fazer. E o que eu acho importante é que isso se passe em tudo, no plano político também. Políticos com desvarios sempre houve ao longo da humanidade e a humanidade foi reagindo sempre. Se calhar, às vezes podia ter reagido mais cedo, que pena não ter feito, mas foi reagindo sempre. Famílias perturbadas sempre existiram, mas, no entanto, a humanidade foi crescendo sempre para melhor. De um ponto de vista das escolhas que se fazem em termos do trabalho e tudo mais, tantas mudanças que se podem fazer, mas nós criamos a ideia que uma zona de conforto é resignarmo-nos àquilo que temos, como se, no fundo, mais vale pouco que nada, e de repente tivéssemos a ideia de que mais vale um pássaro na mão que dois a voar. É como se as zonas de conforto fossem climatizadas e tivessem, de facto, pouco impacto na nossa vida. E uma zona de conforto não é isso, uma zona de conforto é uma coisa dinâmica, é nós mandarmos na vida e de cada vez que olhamos pra ela, dizemos: "Ela está a ter um bocadinho mais a minha cara do que teve ontem e se eu for lá com jeito, amanhã ainda vai ser melhor". E portanto, nós somos, de facto, animais em construção ou operários em construção, como dizia o Vinícius. E eu acho que esse lado é muito bonito, porque nos dá a humildade de escolher com quem queremos crescer e, sobretudo, a humildade de escolher, que é aquilo que nós, à boleia das vítimas, com o que nos fazem, muitas vezes, evitamos de fazer.
Que essa narrativa de vitimização também retira a liberdade para uma pessoa se reinventar no presente.
Claro que sim. E aquilo que a mim me preocupa é que haja pessoas que hoje se sentem verdadeiramente exploradas e tenham como grande objetivo terem um bar de praia nas Caraíbas, que eu acho que aliás, deve ser absolutamente fascinante. Mas um bar de praia nas Caraíbas é como ir a Katmandu pra meditar, ou seja, temos que ir por muito longe e cortar com tudo que temos à volta pra finalmente fazermos as escolhas a que temos direito. Não, nós temos direito a trabalhar menos e a ganhar mais, temos que saber trabalhar melhor, portanto, e escolher de que maneira é que nós queremos trabalhar. Temos direito a ter uma família e, portanto, a escolher as pessoas que temos ao nosso lado para que nos sintamos aconchegados, com mimo, com colo. Temos muitos direitos, temos muitas responsabilidades, mas quando compatibilizamos direitos e responsabilidades, nós somos engenhosos pra lá chegar. Aliás, muitas das pessoas que passam às vezes por situações de vida muito complicadas, dizem que se não fosse aquela situação, não teriam tido a ousadia de fazer determinadas escolhas. Mas por que nós precisamos de ser atropelados pela vida pra fazermos as escolhas a que temos direito? Essa provavelmente é a questão.
Vamos com essa questão pro fim de semana, pra pensarmos nela.
Vamos, sim, senhor.
Evar, um grande abraço. Bom fim de semana.
Outro.
E até segunda.
Até segunda.