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Bem-vindos ao "Porque Sim Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje falamos do caso da bebê que morreu nesta quinta-feira em Almada, esquecida numa carrinho por uma funcionária da creche para onde a menina deveria ter sido levada. Olá, Eduardo.
Olá.
Como é que alguém apaga a memória de que uma criança está ali no banco de trás? Que mecanismo psicológico é que permite ou leva a este tipo de esquecimento?
Às vezes a rotina das pessoas é uma rotina exagerada, com muitas coisas na cabeça ao mesmo tempo. E, portanto, eu não posso, ninguém pode, como é evidente, minimizar a importância do que isto representa. É uma coisa absolutamente trágica e obviamente que tem responsáveis, mas como se compreende, as circunstâncias que são tão duras ou às vezes são acidentais, literalmente, na vida das pessoas, que isto de facto é possível. Não devia acontecer, mas é possível. O que nós temos em mãos é uma coisa absolutamente terrível, que é um acontecimento absolutamente trágico, absolutamente irreparável. E acho que todos nós nos chocamos muito, porque se nos colocarmos no lugar destes pais, ficamos sempre em revolta, um desalento absoluto e a perplexidade perante uma injustiça que não devia ter acontecido, mas aconteceu.
Há estudos que ligam este tipo de lapso a essas rotinas automáticas, mas também à ideia de que pode haver uma sobrecarga cognitiva. Isso pode estar em causa aqui?
A nossa cabeça é um computador altamente poderoso que processa muita informação ao mesmo tempo. E em regra geral, processa bem. Não somos tão multifuncionais quanto às vezes gostaríamos, mas todavia somos um bocadinho assim. Mas estes acidentes acontecem. Nós, se calhar, nunca tivemos um acidente com uma gravidade tão perturbadora ou perante uma iminência tão perturbadora como esta. Mas já tivemos as nossas escorregadelas quando se trata de cuidar dos nossos filhos e às vezes de um ou de dois, mas às vezes entre dar ouvidos a isto, dar ouvidos àquilo e ter a cabeça cheia de coisas, tudo fica muito difícil e quando damos conta, falhamos. Aqui pode perfeitamente ter acontecido isso. Fico destroçado por esta criança, por estes pais e fico de coração despedaçado perante esta responsável que está a viver uma coisa absolutamente dolorosa, que se há de prolongar por séculos.
Do lado da família, como é que se processa este luto quando a morte de um filho resulta de uma falha alheia e evitável e não de uma doença ou de um acidente sem culpados? É diferente este luto?
Eu acho que a morte de um filho nunca se processa a ponto. Aliás, a morte das pessoas importantes na nossa vida não é uma coisa facilmente processada. Nós nunca a ultrapassamos, vivemos com ela vida. Precisamos de estar nesse tempo tristes, mas nunca vamos estar completamente bem a ponto de convivermos com resignação perante isto tudo. Basta que nos lembremos de quem nos falta para que nós fiquemos imediatamente transtornados. Quando quem nos falta acaba por ser alguém que foi vítima de um acidente verdadeiramente absurdo. Eu gostava tanto de dizer que isto precisa de um determinado número de anos, etc. Não, é impossível. E sobretudo a revolta é que depois acaba por ter um impacto ainda maior, sendo certo que se esta pessoa, como tudo indica, uma pessoa atenta, dedicada e muito zelosa dos seus meninos, se ainda por cima é protagonizada por alguém que nós reconhecemos que tem capacidades a priori para fazer aquele trabalho, é ainda mais sensato. Ficamos perplexos. E é tudo um erro de casting, de uma ponta à outra. Portanto, ficamos à beira de uma certa loucura, que é isso que às vezes o sofrimento nos dá quando tudo se alinha de uma forma que jamais devia ter acontecido.
Eduardo, ficamos por aqui hoje. Voltamos na segunda-feira com mais um tema. Um bom fim de semana. Obrigada e até lá.
Bom fim de semana também, Chita. Tchau.