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Bem-vindos ao "Porque Sim, Não é Resposta" com o psicólogo Eduardo Sá. Hoje voltamos à análise dos dados do PISA, que revelam um recuo de 20 anos nas competências dos alunos portugueses. Estão menos curiosos, mais desistentes e menos tolerantes ao esforço. E hoje vamos desconstruir a crise da escola e o desencontro entre a forma como as crianças pensam e o modo como as ensinamos. Olá, Eduardo. O Eduardo escreveu um texto em que refere que as crianças de hoje são muito mais audiovisuais do que verbais, enquanto a escola continua a tentar ensinar de forma mecânica e por repetição, como no século XIX. O problema dos maus resultados está no fato de os alunos estarem a aprender pior ou a escola estar a ensinar de uma forma que já não faz sentido pra cabeça deles?

Olá, Judite, eu acho que pus muitas perguntas numa só. Parece-me que a escola, em muitos momentos, continua a imaginar os alunos como se eles vivessem, de fato, no século XIX, como se chegassem à escola com uma informação de base frágil, quando eles chegam com muito mundo, muito mais do que, em muitas circunstâncias, nós imaginamos. Continuamos a ter o mesmo vício de querer que aprendam da mesma forma, à mesma velocidade e da mesma maneira, o que não é verdade. Continuamos a querer que eles repitam, e nada contra a repetição, que muitas vezes pode ajudar, por exemplo, a estruturar um raciocínio matemático e a retirar daí as devidas consequências. Mas o que é fato é que repetir as coisas de forma mecânica não traz tantos ganhos assim. Pelo contrário. Continuamos a querê-los com muito boas notas. Nada contra as boas notas, mas cuidado, porque em muitas circunstâncias as notas não correspondem, nem de perto, nalguns casos, aos objetivos pedagógicos que nós delineamos para cada ano letivo ou para cada fase, pelo menos. Continuamos a querer que eles tenham resultados sempre positivos e às vezes não nos damos conta de que eles vivem numa pressão tremenda e às vezes não têm um professor tão bom quanto todos gostaríamos. E, portanto, a maneira como constipam alguns resultados não tem a ver com uma incompetência de base, tem a ver com muitas coisas que nós vamos gerando no crescimento deles. Desde logo, esta ideia que conversávamos ontem de que há disciplinas mais importantes do que outras e que algumas ficam bem no currículo, mas pouco mais do que isso, o que não é manifestamente verdade. E depois, eu acho muito importante que nós falemos das novas tecnologias, mas parece-me ainda mais importante que possamos assumir que as novas tecnologias são um lápis mais sofisticado. Não se trata de quisermos excluí-los das novas tecnologias, trata-se, de alguma forma, de lhes trazer outro tipo de argumentos para uma forma de pensar. Nós pensamos por palavra, e a palavra é muito mais complexa do que à primeira vista pode parecer, é quase uma primeira equação matemática. E, portanto, o grande desafio na escola neste momento é pegar em pessoas de palavra, aceitar que elas têm, muitas vezes, as consequências de muita relação com o audiovisual e com o digital, trazer as novas tecnologias sem que tudo o que isto tem de inovador estrague aquilo que as crianças têm de muito saudável. Portanto, eu não acho que o PISA tenha só a ver, tem obviamente a ver com a maneira como se avalia. Vou-me já calar, Judite, mas, por exemplo, preocupa-me imenso a forma como se avalia, porque eu acho que em muitas circunstâncias é muito demagógica. Nós às vezes preparamos para aquele teste, quase dando com antecedência aquilo que pode ser a pergunta correta e não ficamos à espera de perceber como é que eles pensam aquilo que aprenderam e recriam aquilo que aprendem. E, portanto, nestas circunstâncias todas, eu não acho que a escola tenha começado a ficar doente depois da pandemia. Acho que houve alguns movimentos no sentido de trazer os alunos pra novos resultados. Mas cuidado, quando nós vimos à distância as pessoas muito crescidas, que têm 12 anos de escolaridade obrigatória, pelo menos, a não ser capazes de fazer raciocínios ligeiramente mais complexos em termos matemáticos ou usar linguagem de uma forma significativamente menos básica, nós temos que ter a humildade, todos, de perguntar se a escola que nós imaginamos corresponde às crianças que nós temos e àquilo que elas precisam de aprender, porque os dados dão-nos uma panorâmica alarmante. Faz lá sentido que haja uma porcentagem muito significativa de alunos que não tenham competências mínimas indispensáveis para uma vida em sociedade? Faz sentido que haja alunos que digam que não sabem se a escola faz uma diferença tão grande na sua vida? E esta ideia de que os pais começam a ir na onda e, portanto Tudo isto devia ser um exercício de humildade para todos: pais, as confederações das associações de pais ou pelo menos as associações de pais, que eu acho que têm que ter um papel muito ativo e que eu gostaria que fossem um pouco mais ruidosas. Os professores, muitíssimo importantes nisso tudo, porque acabam por ser consumidos por uma engrenagem que eles muitas vezes não dominam e quem, de alguma forma, estrutura os conteúdos e os perspetiva para que, no fundo, a escola possa ser, de facto, melhor, muito melhor do que é, porque estes resultados nos deixam muito preocupados e muito tristes.

Vemos alunos com menor tolerância ao esforço e à frustração. Falta educação para a paciência em casa?

Falta, Judite. Eu acho que nós temos que ter a coragem de dizer as coisas como deve ser. Acho que isto não tem propriamente a ver com a escola, tem a ver com a educação que nós damos aos nossos filhos. E eu não tenho dúvidas nenhumas que os pais fazem tudo e mais alguma coisa no sentido de os favorecer em relação ao seu desenvolvimento. Mas uma das coisas que devia ser obrigatória, digo eu, Judite, para além das crianças terem regras e de poderem ser autónomas, é que possam, já agora, brincar sozinhas. Brincar sozinhas. E quando têm um desejo, possam sofrer um bocadinho no sentido de lá chegar. Ou quando são frustradas, não ficarmos todos à beira de um ataque de nervos, porque elas estão num desânimo total, porque foram frustradas e às vezes nós queremos tanto que eles sejam felizes, que não lhes damos os recursos para que depois eles tenham instrumentos para que na escola, inclusive, na relação com os colegas e na relação com a vida, tenham esse tipo de recursos. Portanto, este tipo de recursos, que eles não têm, não é só uma consequência das novas tecnologias. Também tem a ver com a educação e com os pais, e é a altura de nós, com toda a tranquilidade do mundo, mas com verdade, chamarmos a atenção para isso.

A verdade é que é uma transição para uma geração audiovisual e digital. Está a custar-nos a imaginação essa transição.

Está, Judite. Está, e está a custar a maneira como muitas vezes não verbalizam. Isto de eles terem uma relação difícil com o português é uma coisa absolutamente inquietante. A mim não me preocupa só, já me preocupa muito, que eles não leiam os grandes autores da língua portuguesa, já não leem resumos, já leem os tutoriais sobre os resumos e os insights sobre os tutoriais. Portanto, eles não leem, pura e simplesmente. E aquilo que a mim me preocupa é que quem não sabe usar a palavra, não sabe pensar, nem sequer formular raciocínios em abstrato e, portanto, nós estamos a facilitar num instrumento, que é o instrumento mais precioso para que eles possam crescer e o melhor amigo da saúde mental. E não venham dizer que isto tudo é responsabilidade da pandemia ou das novas tecnologias. Nós temo-nos deixado engolir devagarinho por esta onda e às vezes estes baldes de água fria são uma boa interpelação para começarmos a pensar o que queremos fazer amanhã.

Vamos ficar a pensar nisso, Eduardo. Um grande abraço. Obrigada e até amanhã.

Boa, Judite, e até amanhã.