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Este podcast tem o apoio do Banco Credibom. É um fenômeno que tem crescido nos últimos anos. E há muitas razões que explicam o porquê do sobreendividamento, de viver com dinheiro emprestado. Rui Barrada, CEO do Doutor Finanças, no caso de Portugal, o que é que explica o crônico sobreendividamento do país, famílias, empresas e Estado?

Há muitos, vou dar três. Três em que vou incidir mais num, que é o primeiro que eu vou falar. Tem a ver com a baixa literacia financeira. Acho que este é dos pontos mais importantes e que leva a esta coisa que nós ouvimos falar do sobreendividamento. Há outros, como o salário. O salário médio em Portugal é mais baixo que no resto da Europa, o que também ajuda pro terceiro tema, que é a globalização. É o termos acesso com a União Europeia, com os canais, com as redes sociais. Hoje em dia nós temos acesso ao mundo só com salários de Portugal. Ou seja, como nós, os portugueses, gostamos de estar na vanguarda de tudo, temos acesso a consumo, que há uns anos não tínhamos, quando não havia as redes sociais, quando não havia esta globalização. Tudo isto leva, parece-me, a que haja esta coisa do sobreendividamento, aquela palavra que nós ouvimos recorrentemente falar e principalmente depois de pandemias, depois de crises, depois de troicas, vem sempre. E agora cá estamos nós outra vez a falar sobre ela.

Portanto, recapitulando, não sabemos o que fazer com o nosso dinheiro, ganhamos pouco e vivemos em permanente tentação.

Sim. Pode-se tornar mais fácil se nós soubermos gerir o dinheiro que temos com mais informação. Isto é fundamental para nós não vivermos numa situação de sobreendividamento.

No caso das famílias, há alguma cifra, algum dado indicador que deva fazer soar o alarme financeiro?

Todos nós ouvimos falar de uma coisa que é a taxa de esforço, uma coisa que quando vamos ao banco, quando pedimos um financiamento, estamos sempre a falar na taxa de esforço. Eu costumo dizer que é um bocadinho de cada família. Nós não podemos, quem ganha 3 mil euros, falar numa taxa de esforço de 50% que está sobreendividado, quando ainda lhe sobram 1500, como quem ganha o salário mínimo, ter mais de 30%. O número normal que nós todos ouvimos falar é os tais 30%. É o número de prestações, o valor de prestações que eu pago versus o rendimento líquido que eu recebo. Desculpem insistir nisto, mas é um ponto muito importante. Para nós que estamos nesta área, muitas das vezes, sempre que eu pergunto a alguém quanto é que ganha, normalmente a pessoa diz-me aquilo que assinou no contrato, não aquilo que vai pra conta. E isto também é uma causa de sobreendividamento, é eu gerir a minha vida com base no contrato de trabalho que eu assinei e não com base naquilo que efetivamente eu recebo. Nós temos um simulador, que é o simulador que é mais utilizado no site da Doutor Finanças, que é isso que dá mesmo esta indicação, que é o salário líquido. E é muito importante nós termos isso em conta. Portanto, o que eu diria é que 20, 30% de créditos versus aquilo que eu ganho pra ter uma vida mais ou menos tranquila e não correr riscos de sobreendividamento.

Uma família ou empresa sobreendividada, o que é que deve fazer?

Fazer contas. É fundamental fazer contas. Repara, nós todos estamos habituados, aqui no observador de certeza que quase todos vocês têm um orçamento pra gerir. Todos nós temos orçamento. Alguém vos diz: "Olha, tens esta rúbrica este ano pra investires na tua equipa" ou o que quer que seja. Depois nós chegamos à casa e sentimos que relaxamos, não fazemos orçamento. É muito importante. Isto só lá vai se nós tivermos informação. Informação é saber quanto é que eu ganho, primeiro, líquido, volto a insistir, quanto é que eu ganho e aonde é que eu gasto. Isso é o exercício simples, que aparentemente parece simples, mas que nós sentimos imensa dificuldade em que as pessoas o façam. Fazer um orçamento pode ser a solução. Pode ser, não, é a solução para eu ter uma vida financeira mais saudável, mais tranquila.

Portanto, o melhor conselho é estar sempre a fazer contas.

Estar sempre a fazer contas, é eu saber com exatidão, por um lado, quanto é que ganho, por outro, onde é que eu gasto. É muito importante. E nós, deixa-me dizer mais uma coisa que eu acho que é relevante. Nós não damos valor ao dinheiro. Ou seja, todos nós nos habituamos a dizer: "São 5 euros, são 10 euros". Relativamos em relação ao montante que é gasto. Estes montantes todos somados, ao final do mês, é entre eu conseguir pagar as contas ou não conseguir pagar as contas. Portanto, é mesmo importante nós sabermos quase ao tostão pra onde vai o meu dinheiro.

É por isso que se diz: o dinheiro é de quem o poupa e não de quem o gasta, não é?

É verdade, faz sentido.

Rui, o sobreendividamento também pode ser um recomeço de uma nova vida financeira?

Sim, claro que sim. Eu acho que a vida é feita de recomeços, seja ela financeira, seja não financeira. Agora, é preciso querer. E esta é a mensagem que eu gostava de deixar aqui. É preciso nós querermos sair e recomeçar. A maior parte das pessoas, nós assistimos muitas das vezes a pessoas que se encontram nesta situação a desistirem. Desistirem, isto é, eu não consigo pagar, eu não consigo. E não fazem nada pra que saiam dessa situação. Estão à espera que haja uma força de fora que resolva, estão à espera que saia o Euromilhões, eu costumo brincar, a falar sério com isto, estão sempre à espera que o próximo Euromilhões me saia a mim, que venha resolver todos os meus problemas. Lamento, mas o percentual de pessoas que ganham o Euromilhões é muito baixo. Portanto, temos que ser nós a querer fazê-lo. Querer fazê-lo é tomar conta do meu dinheiro, é tomar conta da minha carteira, é voltar àquilo que falávamos ainda agora, a fazer contas, a saber, a tomar conta da minha vida financeira, do meu dinheiro.

Os sobreendividados tendem a repetir o erro. Há estudos sobre este fenômeno?

Não há muitos estudos conhecidos sobre esse fenômeno. Nós recebemos cerca de 5 mil pedidos de ajuda por mês no Doutor Finanças. O que nós sentimos é que depois das pessoas passarem por este processo, dificilmente voltam a ele, porque é um processo duro. E as pessoas, na maior parte das vezes, não estão nestes processos porque querem, ou por desleixo, ou o que quer que seja. Imagina, basta alguém perder um emprego. Basta eu ter ser um casal, tenho a minha vida organizada com 2 mil euros líquidos, imagina, e um deles perde o salário, perde mil euros. Eu fiquei com a minha vida pra gerir com dois filhos, provavelmente com mil euros, com a prestação da casa. Ou seja, é difícil, as pessoas encontram-se numa situação difícil. Agora Se é possível? Claro que sim. Claro que é possível. E as pessoas que passam por isto, o que nós sentimos é que dificilmente voltam a entrar numa situação de sobreviver, porque aprendem. Como tudo na vida. Nós vamos pra escola pra aprender, sempre que aprendemos qualquer coisa, nós pelo menos vamos nos lembrar. Agora, se me disseres que há pessoas que voltam, claro que sim, como em tudo.

Estamos a falar sobre endividamento. A verdade é que a maioria das famílias e das empresas, e também o Estado português, vive a crédito, sem estar sobreendividado. O momento de contrair o crédito, sobretudo da casa e o crédito do carro, é o momento-chave para evitar o sobreendividamento?

É, claro que sim. Eu vou te dar um exemplo. A maior parte das pessoas que recorre ao Doutor Finanças pergunta-nos: " Rui, eu posso comprar uma casa até quanto?". Isto é uma pergunta recorrente, mas é uma pergunta que não devia ser feita. A pergunta que devia ser feita é: " Rui, eu tenho aqui 500 euros. Eu posso comprar uma casa até quanto?". Devia estar invertido. O que eu quero com isto dizer? As pessoas têm que ganhar esta consciencialização, têm que ganhar a consciencialização que nós só conseguimos comprar casas porque existem os bancos, o financiamento, o crédito é uma coisa boa. Sem crédito, não há economia, a coisa não circula, a coisa não acontece.

A maioria de nós não viveria sem crédito.

Não viveria, certamente que não, ou viveria com muito mais dificuldades e muito menos feliz. Porque o crédito também nos potencia a felicidade, também nos permite concretizar sonhos e é uma coisa positiva. Agora, o que nós devemos fazer é contas. Devemos fazer a pergunta ao contrário, fazer as minhas contas, fazer um orçamento, ver as minhas despesas e eu acho que consigo pagar uma casa, 500 euros entra no meu orçamento. Então eu vou procurar uma casa de 500 euros, que a prestação seja 500 euros. E aí eu vou utilizar o crédito de forma em que me vai potenciar sorrisos, em que me vai trazer felicidade e não mais tarde me vou arrepender, porque não fiz as contas como devia fazer no momento, quando contraí o tal crédito.

Nesse sentido, as instituições de crédito são cruciais, claro.

Claro que sim, não haveria mercado a funcionar sem instituições de crédito.

Mas o papel das instituições também é muito importante, não é?

Claro que sim. E nós sentimos, e o Banco Portugal também o tem feito, nós sentimos ao longo dos anos que tem havido, principalmente depois da Troika, daquela crise que nós todos passamos, o próprio Banco Portugal veio impor regras relativamente ao consumo. O que nós sentimos também? Nós temos que explicar mais às pessoas, o Observador, o Doutor Finanças, outros meios. Temos que dar informação. O que me parece é, voltando ao tema inicial onde começamos esta conversa, que se chama literacia financeira. Cabe-nos a todos letrar mais as pessoas, passar mais informação. Informação que as pessoas percebam, que é fundamental, porque há muita informação dispersa em todos os sítios. Depois nós vamos a um banco e vemos letras pequeninas que ninguém percebe. É preciso descomplicadores, é preciso que as pessoas percebam esta linguagem e assim tornar todo este processo, que é um processo que faz a economia mexer e funcionar, e os bancos fazem sentido. Claro que sim, o crédito faz sentido para as pessoas. Agora, com mais informação, eu tenho a certeza que há melhor crédito, crédito que faz mais sentido ainda para as pessoas.

É isso que estamos também aqui a fazer. Rui Bairrada, obrigado pela sua ajuda a compreender o fenômeno do sobreendividamento. O "Porta-Moedas" agradece. No próximo programa, vamos procurar argumentos para ensinar os mais novos a poupar. Este podcast tem o apoio do Banco Credibom