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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave". Mais um domingo aqui consigo. Eu sou João Costa e Silva, comigo Marco Neves, o ninja da língua portuguesa.

Há uns tempos não falávamos disso.

Gosto sempre de dizer. Às vezes esqueço, mas tu és ninja.

Pronto, sou ninja. Isto é uma alcunha, será um cognome? Cognome não é, se eu fosse rei, que não sou, nem quero.

Cognome, se calhar, não. Eu acho que é mesmo uma qualidade. Um elogio.

E hoje vamos falar aqui de muita coisa e vamos terminar. Só pra avisar que estamos num dia especial, o dia das eleições autárquicas, não podemos falar muito disso. Mas vamos falar de uma dúvida sobre as eleições autárquicas.

É verdade, mas é benéfico, eu acho que sim. Vai dar jeito. E o que temos mais em perspectiva?

Vamos falar também do Prémio Nobel da Literatura e de mais umas línguas relacionadas com o Prémio Nobel. De vez em quando, eu sei que as pessoas que ouvem com regularidade o "Português Suave" percebem que eu gosto muito de falar da língua portuguesa, mas também gosto de passear pelas outras línguas. E hoje vamos passear por mais línguas.

Então vamos a isso. Começamos com a língua das notícias. A língua das notícias, Marco, e leva-nos-

Dava pra falar muita coisa. Podíamos falar das várias autarquias do país que têm nomes curiosos.

Seria tão interessante.

Seria interessante falarmos das várias autarquias.

Fica aqui o desafio, um dia destes.

Podemos falar disso. Mas hoje vamos falar da pronúncia do laureado, se quisermos, com o Prémio Nobel, e teríamos aqui uma dúvida que não vou agora levantar.

Nobel ou Nobel?

Nobel ou Nobel. Como é que tu dizes?

Nobel.

Pois, quase todos dizemos Nobel e as pessoas dizem: "De acordo com a escrita, nós deveríamos ler Nobel."

Quando alguém diz Nobel, eu tremo assim um bocadinho a sobrancelha.

Neste caso, eu diria que se calhar temos é de adaptar a palavra ao português e por isso pôr lá o acento, porque a pronúncia já está definida pelos falantes, que são aqueles que definem a pronúncia. Isto irrita muitas pessoas, eu sei, mas quem inventou a língua foram os falantes ao longo do tempo.

Não foi o Marco Neves.

Não fui eu, nem foi ninguém. Não foi ninguém em particular, foram todos, com o uso continuado da língua. Estou a dizer isto porque é uma questão que por vezes me aparece. "Agora os falantes estão a dizer isto, quer dizer que vamos ter de aceitar." Aquilo que nós temos à frente, na nossa língua, é aquilo que os falantes criaram ao longo de muito tempo, eu sublinho ao longo de muito tempo. Mas pronto, vamos deixar essa dúvida pra outro dia. Eu gostava de dizer que aquele nome do vencedor do prêmio.

Estou tão curioso para ouvir isto agora.

É um nome que parece impronunciável. Mas claro que os húngaros conseguem pronunciá-lo. E há aqui um pequeno truque, porque se nós soubermos que o S e o Z se pronunciam em húngaro como "se", apenas "se", nós conseguimos pronunciar bastante melhor. László. E depois Krasznahorkai.

Krasznahorkai.

Pronto. E o H tem de ser lido ali como H, pelo que eu sei, Krasznahorkai. Agora, há aqui um pormenor. Nós temos uma letra, que é o S, que se lê de várias maneiras, mas a pronúncia principal é "se". E depois temos um dígrafo, duas letras pra ler SH. E na nossa cabeça de portugueses, é como se o SH fosse um nome que precisa de duas letras, porque nós estamos tão habituados que é um pouco estranho pensar que há línguas como o húngaro, em que o S é que é o som que precisa das duas letras. Quando eles têm um S sozinho, leem SH. Portanto, qualquer palavra em húngaro que tenha um S, sem mais nada, lê-se SH. Se tiver um S e um Z, lê-se SE, que é uma espécie de som alternativo. Isto também me leva a dizer que, e quase que estamos a chegar ao Mapa da Língua, Budapeste lê-se Budapeste em húngaro, muito parecido com o português de Portugal, porque nós também temos esta característica de ler como SH os Ss no final das sílabas. Não vamos falar muito mais disto. Eu vou confessar, nunca li o vencedor do Prêmio Nobel, mas claro que o fato dele ter vencido o Prêmio Nobel, e estou aqui a dizer Nobel várias vezes, o tal votar com a forma como pronunciamos, leva a que as pessoas tenham alguma curiosidade. Vamos ver se um dia destes lá chego.

Ainda neste tema, lembrei-me aqui de um nome difícil de um jogador que quando apareceu, muita gente não sabia dizer. Um jogador do Nápolis, ficou altamente conhecido no Nápolis, agora está no Paris Saint-Germain, em França, que é Kvaratskhelia.

Que é de que língua?

É georgiano.

Ah, pois tem esse ar.

Kvaratskhelia. E na altura, muita gente também não sabia dizer o nome deste jogador. Agora, por exemplo, pra mim já é muito mais fácil, mas na altura levava aqui a um exercício.

Esta é uma das razões pelas quais os nomes próprios, ao contrário do que nós dizemos, e hoje tentamos cumprir, mas durante a história da humanidade, os nomes próprios traduziam-se, porque as pessoas não tinham paciência para estar: "Como é que isto se pronuncia em húngaro?" Então, simplesmente adaptavam aquilo que ouviam vagamente e os nomes tinham formas muito diferentes. E hoje temos este cuidado, que por acaso eu até acho que, no fundo, nesse aspecto estamos melhor, porque temos mais interesse por saber como é que as outras línguas pronunciam. Mas também não precisamos de pronunciar exatamente como os húngaros pronunciam.

Sim, exatamente, é difícil. Vamos seguir para o Mapa da Língua. Mapa da Língua, Marco, e tu há bocadinho já fazias aqui uma pequena antecipação. Reparaste que não usei a palavra em inglês? Não usei teaser, disse antecipação.

Ok, tudo bem.

Que é um hábito que eu tenho muitas vezes.

Já recebi comentários a dizer, falávamos do lusco-fusco, pessoas a dizer que de fato gostam da palavra lusco-fusco. Eu sei que há um café no Porto que se chama Lusco-Fusco.

Sim, há vários. Até vimos um também na Costa da Caparica.

Exatamente, mas ainda não vi ninguém organizar uma festa ao final da tarde que se chamasse Lusco-Fusco.

Tem de acontecer. Powered by.

E se organizarem, têm de nos convidar.

Agora acabei de dizer uma palavra em inglês, disse powered by e não devia dizer. Com o apoio de Português Suave. Isto é muito difícil às vezes.

É sim, faz parte da luta pela língua. Bem, mas já falámos aqui da pronúncia do húngaro e por isso Decidi falar aqui de um tema que já falámos outras vezes, que é o seguinte: neste mapa da língua, vamos a dois sítios da Europa. Aliás, vamos a mais, mas vamos começar por-

Um dois em um.

Como?

Um dois em um.

Um dois em um, exatamente. Não tinha ouvido bem. Para começar: quase todas as línguas da Europa, por exemplo, das 24 línguas oficiais da União Europeia, vamos agora olhar só para a União Europeia, quase todas são da mesma família, que é a família indo-europeia. Uma família com origem numa língua que se falava ali para o leste da Europa há 6500 anos. Menos quatro. Destas 24, quatro não são: o húngaro, o estónio, o finlandês e o maltês. Eu espero não ter esquecido nenhuma dessas 24. Há mais algumas línguas na Europa que não são também indo-europeias, como o basco, mas não é oficial da União Europeia. Isto só para dizer que o húngaro é uma língua especial, porque é uma língua que veio das estepes asiáticas há bastante tempo e que agora está ali naquela zona, e que das línguas europeias, é das mais distantes que há do português. Usa o mesmo sistema de escrita, mas nós vemos ali muita estranheza, muita coisa que é estranha. Estranha no bom sentido, eu gosto muito destas diferenças. Os nomes das pessoas são ao contrário, como no Oriente. Ou seja, o vencedor do Prêmio Nobel da Literatura, cá é chamado László Krasznahorkai, mas na Hungria o nome dele é Krasznahorkai László. Ou seja-

Temos essa inversão

...o apelido vem primeiro e depois vem o nome, como na China, como no Japão e por aí fora. Esta foi a nossa primeira paragem. Eu gostava de recordar ou de lembrar, não sei se se lembram do nome do Prêmio Nobel da Literatura do ano passado, deixe-me ver se eu consigo pronunciar, é Jon Fosse, penso que é assim que se pronuncia, não sei se te lembras.

Marco Neves, eu não faço ideia. Tu podes dizer o que quiseres.

Eu acho que quando estão a decidir quem é que vai ser o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, um dos critérios é: não pode ser fácil de pronunciar.

Exato. Qual é o mais difícil?

Qual é o mais difícil.

É um critério, se calhar atribui pontos extra.

Eu acho muito curioso, porque nestes dois anos escolheram vencedores pela sua qualidade literária, presumo.

Claro, não estamos aqui a diminuir ninguém.

Não estamos a diminuir, mas há que dizer que para quem gosta de línguas, são também dois vencedores muito interessantes, porque o do ano passado escrevia e escreve em norueguês, claro, está na Noruega, mas escreve no norueguês especial, porque há dois tipos de norueguês na Noruega. Temos o Bokmål, que é o que as pessoas costumam usar em Oslo e escrever em Oslo, isto é só na escrita, mas também há um outro norueguês que tenta ser menos dinamarquês, menos próximo do dinamarquês e mais próximo dos vários dialetos noruegueses, que é o Nynorsk, e ele escreve nesse Nynorsk. Eu gosto de falar disto porque é como se em Portugal, todas as pessoas, todos os miúdos na escola tivessem duas disciplinas de português. Eles têm na Noruega duas disciplinas de norueguês, uma português mais à lisboeta e outra português mais à interior, e todos tinham de aprender os dois tipos de português. Eu acho só interessante esta situação norueguesa, que mostra bem como aquilo que nós chamamos a língua correta, na verdade, é só uma convenção. Na Noruega, até convencionaram que há duas formas diferentes e corretas da língua.

Gostei muito desta viagem, um dois em um. Vamos seguir.

Vamos para as autárquicas.

Vamos, vamos para lá. E esta semana, à semelhança do que fazemos todas as semanas às quartas-feiras, vamos ouvir uma dúvida que nos chega de Viseu, do Zé Maria.

José Maria de Viseu?

Exatamente.

Vamos ouvir?

Vamos a isso.

Olá, "Português Suave", daqui fala o Zé Maria de Viseu. Bem, em âmbito autárquicas, eu sempre estive convencido que a expressão correta fosse presidente da Câmara. No entanto, ultimamente, sobretudo por parte de políticos, curioso, tenho ouvido a expressão presidente de Câmara. Mas afinal, qual é que está correta? É presidente da Câmara ou presidente de Câmara? Parabéns pelo excelente programa, grande abraço e um bom trabalho.

Marco Neves, é uma dúvida bem pertinente.

Sim, é pertinente, é interessante, mas eu antes vou te fazer uma pergunta, que eu tenho alguma curiosidade. Neste dia particular das eleições e no dia anterior, ontem, o dia de reflexão. Isto é uma pergunta que não tem diretamente a ver com a língua portuguesa. Aqui na rádio sentem-se muito limitados com o que podem dizer?

Eu nem tanto, porque não sou jornalista, mas os jornalistas temos de cumprir, é claro, essa reserva do dia de reflexão.

Não se pode falar dos partidos. Mas podemos falar das eleições. Essa é a minha dúvida. É curioso, porque é algo que é estranho. Há dois dias em que há ali um tema que tem de ser muito-

Sim, tem de ser tabu, quase. E questiona-se muito se deve ou não continuar o dia de reflexão, se faz ou não sentido, porque há países que isto não acontece. Em Portugal é uma prática.

Em Espanha há algo curioso, porque os jornais, não sei se ainda fazem isso. Por exemplo, há um jornal de Barcelona, que é o Periódico da Catalunha, e que tem uma edição andorrana. E então, nesses dias, essa edição andorrana faz o que quer, porque está fora de Espanha, não cumpre a lei espanhola e, no fundo, é quase como um truque para que aquele jornal tenha uma edição onde pode falar das eleições à vontade. Num mundo como este em que nós temos internet.

Mas isto, falando aqui desta questão, é muito engraçado, e isso é visível e audível, quer seja em rádio ou em televisão, porque sexta-feira, a partir das 23h59min59s, todos os jornais, e é possível ver isso e ouvir, para quem ouve rádio, os temas mudam e deixa de se entrar em política. Claro que se fala de saúde, de educação e de outros temas que claro, tem de se falar, não é? Mas a política Para quem não gosta de política, são os melhores dias.

São os melhores dias para ver notícias. Espero não estar a entrar em incumprimento da lei, mas vamos falar só disto. Está agora o Zé Maria de Viseu a pensar: "Mas não faço a pergunta e eles não respondem".

Vamos a isto.

Eu fui verificar várias leis e aparecem as duas formas nas várias leis, mas o que nós temos de aplicar aqui é algo que nós também aplicamos noutras situações. Nós usamos o artigo para definir. É o artigo definido.

Exato.

Para definir, para dizer que estamos a falar de algo em particular. Eu vou dar um exemplo antes de falar do presidente de ou da câmara. Eu posso dizer: há vários nomes de pessoas em Portugal. Vários nomes de pessoas. Agora, se eu estiver a falar da pessoa, digo o nome da pessoa, da pessoa que está ali, então uso o artigo definido. Portanto, se eu disser o presidente da câmara, e não vou dizer nenhuma câmara em particular, senão hoje ainda podemos estar. O presidente da Câmara da Conchichina, se existisse, é o presidente da câmara daquele sítio. Mas se eu estiver a falar em geral de presidentes de câmara, eu estou a falar de um cargo político e, portanto, posso dizer presidente de câmara. Há vários presidentes de câmara.

Sim.

Enquanto que as pessoas hoje vão eleger o presidente da sua câmara.

Exato.

E por isso temos esta diferença.

Ou seja, os dois estão corretos, mas para situações diferentes.

Depende do que nós queremos fazer. Depende de se nós estamos a definir a câmara ou não. Se estamos a definir a câmara, usamos o artigo definido. Se não estamos a definir a câmara, não usamos. O "da", lembro, é uma junção da preposição "de" com o artigo definido "a". E só por curiosidade, já que andámos pela Europa toda, há línguas, como o romeno, em que esta definição, o artigo definido, está na própria palavra, no final da palavra. Mudam a palavra câmara, em vez de porem lá o "a" antes, o que é também muito curioso. Hoje fomos à Europa toda.

Fomos a todo lado.

Espero que o Zé Maria tenha gostado da resposta.

Sim, e fica aqui este esclarecimento. Presidente da Câmara ou de Câmara. Pode também ouvir o "Português Suave" em podcast. Entretanto, chegou a meio deste episódio, está a ouvir-nos na rádio. Estamos sempre disponíveis em todas as plataformas, com episódios ao domingo e também à quarta-feira. Quarta-feira, que é dia de episódio de dúvidas, pode enviar, Marco, para o e-mail?

portuguessuave@observador.pt. E o telefone, 91.

Olha, mas já é bom. Já diz o 91, já fico contente. 91 002 41 85. Para nos enviar áudios do WhatsApp, como fez, por exemplo, o Zé Maria, de Viseu, que nos enviou aqui a sua dúvida. Quarta-feira estamos de regresso, Marco. Um grande abraço.

Até quarta.