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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", episódio do dia 18 de janeiro, dia de eleições. Eu sou o João Costa e Silva. Marco Neves, olá, bom dia.

Já votaste?

Já, eu já votei antecipadamente.

Eu também já votei, mas foi hoje.

Sim, pois.

É assim, agora já temos várias formas de votar, vários dias possíveis.

É bom. É sinal que há mais possibilidades e não há desculpas, no fundo, também.

Pois, para votar. Hoje, se calhar, as pessoas estão todas com a atenção virada para as eleições, mas mesmo assim vamos falar um pouco da língua portuguesa e vamos começar com a língua nas notícias.

Nem fazes uma antecipaçãozinha, nada, nada?

Pois não. Vamos a isso. Mas já que te queixaste que não fiz nenhuma antecipação, vou te dizer que no final deste programa vamos falar da Gronelândia, porque está nas notícias, por razões que não são provavelmente das mais agradáveis, e temo, não sei se concordas comigo, mas temo que vai continuar nas notícias durante algum tempo.

Sim, infelizmente.

E temos aqui uma dúvida relacionada com o nome daquela ilha, que também é um país dentro do Reino da Dinamarca, é complicado.

É, sim.

Mas falaremos disso no final. Agora, na língua das notícias, quero falar de uma coisa que não tem diretamente a ver com a língua, mas já que estamos no dia das eleições.

Abrimos exceções, não é?

Abrimos exceções.

Vamos lá.

Queria só referir algo curioso: o boletim, e não vou falar da origem de boletim. Não sei se concordas, nós temos a noção de que todas as pessoas votam de forma igual pela Europa afora. Ou seja, na nossa cabeça, não sei se isto está errado, se estiver, as pessoas que comentem, mas na nossa cabeça, votar é com uma cruz, um quadradinho.

Tive essa discussão esta semana.

Foi? Qual é que foi a discussão?

De tentar perceber, porque tenho a certeza que isto acontece, de pessoas que não votam com uma cruz, ou que fazem um círculo, ou que pintam.

Isso depois vai para o final.

Ou que pintam o quadrado da pessoa que querem votar.

Eu não sei, não tenho que ser eu a decidir, mas pelo que eu percebo, pelo que já li da lei, desde que haja uma intenção clara.

Sim, ou seja, se não houver mais nada naquela folha.

Embora eu acho que pintar o quadrado, muitas vezes as mesas consideram como não sendo uma intenção clara, porque pode parecer que a pessoa está a corrigir algo que tinha lá posto antes. Mas eu não sou especialista nisto, claro. Estou só a dizer que se for um círculo, se for um certo.

Passou-me pela cabeça esta semana, por acaso, estávamos entre amigos e estávamos a discutir se o voto era válido ou não.

Mas neste caso até tem que ver com aquilo que eu estava a pensar agora referir, porque nós temos esta ideia de que pomos um voto dobrado em quatro, num papel, com uma cruz à frente do candidato ou do partido, e pomos dentro de uma urna, uma urna fechada e opaca, nós não sabemos o que está lá dentro. Isto parece ser quase o padrão de como é que se vota. No entanto, se formos para o país aqui do lado, para o reino aqui do lado, vota-se de forma muito diferente. Não sei se alguma vez pensaste nisso. Eles não votam com cruzes. Primeiro, não votam para o presidente da República, ponto final, mas isso já é outra questão. Mas quando votam para os partidos, cada partido tem um boletim diferente, que está numa mesa. Eles pegam nos vários boletins se quiserem, ou só naquele que querem votar e pronto. Vão para trás daquela, como é que se chama? Por acaso não sei.

Também não sei. O manto da invisibilidade.

Exato. A palavra está aqui debaixo da língua, mas eu agora não-

Agora também não me lembro.

Pronto. E dobram o boletim do partido e põem dentro do envelope. E deitam fora os outros, o que parece um grande desperdício de papel, há que dizer. E vão para a urna e põem na urna, que é transparente. Ou seja, o princípio é ser uma urna transparente para se ver que ninguém lá pôs votos a mais, nem ninguém tirou.

E para garantir que há transparência.

Exatamente, transparência. Nós cá achamos que a transparência é ter uma urna opaca, porque não queremos que ninguém saiba onde é que está o nosso voto, qual é que é o nosso voto. Portanto, a transparência no sentido em que há segredo, não é transparência, há segredo de voto. A urna protege o segredo.

O voto é mesmo secreto.

Exatamente. Ali, o que a urna quer transparecer é a transparência de que não há ninguém a colar votos, a transparência do processo. É muito curioso. Outros países, como a Alemanha, as pessoas preenchem um círculozinho, pintam o círculo. Na Austrália, põem números em ordem, qual é que é a ordem de preferência, porque isso depois vai ser contabilizado.

Aqui tínhamos de ir até o 11.

Pois, exato, nunca mais saímos daqui.

Mas afinal enganei-me, afinal não quero pôr este em nove, quero pôr em oito.

Pelo que percebo, eu também não sou especialista em eleições australianas, como é óbvio, mas eles podem escolher só um, mas se quiserem escolher dois, podem pôr o um e o dois, e depois se o um não for eleito, o dois é que conta. É um voto preferencial. Nos Estados Unidos é o caos, cada estado tem as suas regras, votam de maneira muito diferente. Chegou a haver, não sei se ainda há, máquinas de votar com umas alavancas.

Isso era giro. Que até não sei se é bom ou não.

Depende do sítio.

Tudo o que seja jogos, eu gosto.

No Brasil é uma máquina, ou seja, no Brasil é tudo eletrónico, eles vão lá e votam. Não tem nada que ver com língua portuguesa. Só aqui um pequeno passeio pela forma de votar neste dia especial. Espero que os nossos ouvintes não se importem muito e não comecem a reclamar que estamos a falar de língua portuguesa. Eu depois falo da origem de urna. A origem de urna vem de uma palavra antiga, latina.

O mais certo é termos segunda volta, portanto, vamos falar disso.

Vamos falar disso mais seguramente. Mas a origem de urna é mesmo a palavra que queria dizer mesmo um sítio para pôr os votos. Só depois é que passou a ser a urna para os mortos também. Fica só esta indicação muito tétrica.

Mórbida, também.

Vamos para a roupa da língua.

Vamos a isso.

Eu hoje quase não te deixei falar no início, mas tu costumas chamar-me o nome.

Qual é? Não me lembro.

Agora não me dás desculpa.

Ninja, será?

É capaz de ser.

Ninja da língua portuguesa.

Eu hoje quero só dizer que ninja tem origem no japonês, como é bastante óbvio.

Eu lembro-me sempre do Jackie Chan. E um dia gostava que tu chegasses, no Carnaval que está aí a chegar, num episódio de Carnaval, vens mascarado de Jackie Chan.

Está bem. Meu Deus!

Isto é um desafio que me está a passar pela cabeça.

Eu pensei logo à hora do Carnaval, mas vamos ver. Eu vou pensar, no teu caso.

Se tu vieres, eu venho de Tartaruga Ninja.

Está bem. Olha que isso está prometido. Ainda bem que isto é rádio, nesse dia não há vídeo. Porque nós às vezes temos vídeo. Só para dizer às pessoas que podem ver-nos nas redes sociais.

É verdade.

Eu não queria falar mais de ninja, e agora estou um bocado atrapalhado com aquilo que acabei de imaginar, mas queria só falar do japonês, porque é uma língua especial por vários motivos. Porque é uma língua que deu origem a produtos culturais de muita importância pelo mundo, mas é também o que se chama uma língua isolada. O que isso quer dizer? É uma língua que não tem propriamente uma família. Nós temos uma família de línguas. A nossa língua, o português, é uma língua latina, que não é sequer a família mais alargada que nós conhecemos. É uma língua indo-europeia, portanto, nós sabemos que tem uma origem comum com muitas outras línguas, incluindo o inglês, o russo, o persa, o hindi, todas estas línguas têm origem numa língua que se falava há 6500 anos. Portanto, a nossa língua é tudo menos isolada. Agora, há línguas no mundo que não têm parentes.

Não têm irmãos, não têm tios.

Têm pais, certamente, vieram de outras línguas, porque não há nenhuma língua que esteja parada no tempo e que não mude. Portanto, o japonês vem do japonês antigo, que seria uma língua diferente do que é hoje. O japonês antigo terá vindo de algum lado, mas não se conhece. Há uma língua falada num grupo de ilhas japonesas, que é considerada pelos linguistas como uma língua separada e que é, podemos dizer, a irmã mais nova do japonês, mas é quase uma batota, porque no fundo é uma língua muito próxima do japonês, que simplesmente está ali já suficientemente afastada para de repente podermos dizer: "Bem, já se pode contar aqui duas línguas". Mas, na verdade, aquelas duas línguas muito próximas, estão isoladas. Portanto, não há relação com nenhuma outra língua. Quando eu falo disto, por vezes as pessoas dizem: "Então, mas o japonês usa muitos caracteres chineses." Mas isso é o sistema de escrita, que é completamente diferente. Agora, outras línguas isoladas. Estou a dar estes exemplos como forma de contrastar com o português, que é tudo menos isolado. Outras línguas isoladas, temos o coreano, que também não se sabe de onde é que vem. O coreano ainda é a mesma língua na Coreia do Norte e na Coreia do Sul, mas é verdade que se estão a afastar lentamente, porque são dois países muito diferentes, com culturas políticas muito diferentes e as expressões vão sendo cada vez mais marcadamente diferentes. Depois temos uma língua bem próxima daqui, o basco, que é isolada, não tem parentes atuais conhecidos e é uma língua isolada também muito antiga e muito importante na nossa história, foi o sumério.

Já falámos dela aqui.

A primeira língua escrita da história, há 5 mil anos. A primeira língua que aparece no registro escrito é uma língua que não tem relação com nenhuma outra. Quando eu digo não tem relação, estou a falar da origem das línguas, porque têm sempre relações na mesma. O japonês pediu muitas palavras emprestadas ao chinês clássico, também deu muitas palavras, ninja, nós estamos a usar aqui, é uma palavra japonesa. As línguas têm muitas relações de troca de palavras e de expressões, mas neste caso estou a falar da origem. Na origem, de facto, estas são línguas isoladas.

Com pouca família, no fundo.

Vou te perguntar uma coisa.

Diz-me.

Tens ideia de onde é que vêm todas as línguas? Porque todas terão vindo de algum lado. Esta pergunta é difícil.

Não sei.

É assim, os linguistas não têm a certeza se as línguas surgiram todas de uma só língua ou se surgiram de várias línguas. Tanto quanto sei, a minha perspectiva é que terão vindo de uma só língua. Tendo vindo de uma só ou de várias, o mais provável é que tenham vindo de línguas que se falavam em África, que depois saíram de África e se espalharam pelo mundo e que depois foram dividindo, mudando, alterando.

E a expansão começou aí.

Exatamente. Mas é uma questão muito curiosa, mas também sempre hipotética, porque nós não temos maneira de saber muito mais sobre as línguas do que os últimos 5 mil, 6 mil anos, por causa da escrita. Mas pronto, vamos avançar.

Muito bem, vamos avançar e vamos agora para os mitos e origens da língua. Aliás, mitos e dúvidas, assim é que é.

Hoje não é um episódio de dúvidas, mas temos aqui uma dúvida que eu recebi. Aliás, recebi algumas mensagens sobre esta questão, que é como é que se escreve e diz o nome daquela ilha, que tecnicamente é a maior ilha do mundo.

Groenlândia ou Grunlândia.

Exato.

Acho que o meu sotaque do português do Brasil não foi ótimo. Groenlândia.

Eu tenho muita dificuldade em imitar sotaques, não sei como é que tu és assim.

Mais ou menos. Não me arrisco, por exemplo, num sotaque madeirense ou ali da zona dos Açores. Acho que é muito complicado e as pessoas levam a mal também.

Eu tenho o meu e depois quando tento imitar outro sotaque, acabo por imitar sempre um mesmo sotaque, como se fosse um sotaque alternativo.

E a tendência é sempre fazer, quando estamos a imitar.

Um alentejano, imitar o madeirense.

Cair no exagero.

Sim, claro, caricaturar. E por isso é que os atores muitas vezes não tendem, em Portugal, a usar os sotaques das personagens que estão a encarnar, porque é difícil, primeiro, e há sempre o risco de estar a gozar com a personagem, em vez de estar a assumi-la. É complicado. Eu posso dizer que não consigo imitar o sotaque brasileiro, nenhum dos sotaques brasileiros, porque eu sempre falo do sotaque brasileiro. Há muitos. E muitas vezes é engraçado, porque eles dizem isto e dizem: "Eu sei que vocês só têm um." E eu: "Não, nós também temos muitos." Isto dá para os dois lados. Também não consigo imitar os galegos, porque está tão próximo que eu não consigo imitar aquele sotaque. Enfim, foi aqui um pequeno parêntese sobre sotaques. Nós temos duas formas do nome daquela ilha, que é a maior ilha do mundo, porque a Austrália é considerada um continente e por isso não conta como ilha. O nome desta ilha tem origem numa palavra dinamarquesa, que quer dizer terra verde Terra verde, que deu depois em inglês um calque, Greenland. Em português, nós adaptámos a versão dinamarquesa o melhor possível e acabámos com duas palavras ligeiramente diferentes em português de Portugal e português do Brasil. Os brasileiros usam mais Grumelândia, acho que é assim que eles lerão. Também se vê no Brasil sem o N.

Será que eles não escrevem de forma diferente? Não sei.

Não, pelo que eu vi, eles dizem Grumelândia. Muito rapidamente.

Se calhar não se nota tanta diferença.

Não se nota tanta diferença no dia a dia. Eles também escrevem sem o N, também já vi. Nós cá temos tradicionalmente Gronelândia, foi a nossa adaptação particular. As pessoas perguntam: "Mas qual é a melhor?" Nós não temos de seguir as regras do dinamarquês. Nós cá em Portugal, a versão usada, padronizada neste momento, é Gronelândia. E não há muito mais a dizer sobre isto. No Brasil é outra. Acontece também com outros casos, como Irão, Irã, no Brasil. Moscovo, Moscou. Aqui eu já estive a ver jornais antigos em Portugal e até meados do século XX nós também usávamos a versão brasileira cá em Portugal. Não era a versão brasileira, era a versão também nossa. Depois é que adaptámos Moscovo por influência, não sei, terá sido francesa, não tenho a certeza. Agora, isto mostra porque é que o Irão tem Irã. Mais uma vez, foi uma adaptação.

Porque o Irão tem Irã.

Porque o Brasil tem Irã e nós temos Irão. É assim que é. E também está nas notícias agora este país. A origem daquela palavra é mais parecida com Irã. A adaptação seria aquele A nasal. Mas nós, em Portugal e em português em geral, temos uma grande tendência, já falámos disso aqui, para pôr o ÃO em muitas palavras. E Portugal seguiu essa tendência e o Brasil imitou um pouco mais a palavra de origem. Foi só isso.

Neste caso, nós é que fomos criativos.

Fomos mais criativos, exatamente. Nem sempre são os brasileiros. Há essa imagem. As línguas são todas criativas, e as variedades de língua. Isto também mostra outra coisa: os países só se padronizaram nos últimos dois séculos. Esta ideia de que há um país que tem um nome, que é fixo, não é assim tão antiga. Os países não são assim tão antigos, a maior parte deles. A Pérsia é antiquíssima, claro, o Irão, mas enquanto Estado, um Estado que está no mapa e que nós sabemos que é aquele, que tem aquelas fronteiras e que nós temos de dar um nome na nossa língua. Nos últimos dois séculos houve uma padronização dos nomes e como Portugal e o Brasil estão separados já desde o início do século XIX, é normal que de vez em quando façam esta malandrice de dar nomes diferentes aos países. Não me quero esquecer que a Gronelândia, eu não sei se temos tempo, mas a língua oficial da Gronelândia não é o dinamarquês desde há poucos anos. Era o dinamarquês e o groenlandês, e agora passou a ser só o groenlandês desde 2009, salvo erro. Tal como o Reino Unido tem vários países, o Reino da Dinamarca também tem vários países, e neste caso, a Gronelândia é muito autónoma e tem a língua groenlandês, em que Gronelândia se diz, e eu não tenho a certeza se estou a dizer isto bem, Kalaallit Nunaat. Este é o nome da Gronelândia, que nós não adaptámos.

Kalaallit Nunaat.

Esperemos que saia das notícias rapidamente.

Exatamente.

Como dizem os ingleses e os americanos, no news is good news. E estamos a dizer isto.

No news, good news. Sem notícias, boas notícias.

Esperemos que saia das notícias.

É mesmo. Marco Neves, estamos de saída. Voltamos na quarta-feira. Dúvidas, já sabe, para portuguessuave@observador.pt ou através do número de telefone que o Marco Neves nunca vai decorar, que é o 910 024 185. Pode enviar áudios.

910 02. Esse já consegui.

Boa! Já só falta o 41 85.

910 024 185.

Boa!

Pela primeira vez disse este número, mas não decorei.

Temos progressos. Envie áudios até 30 segundos para o nosso WhatsApp. Quarta-feira estamos de regresso com dúvidas. Um abraço, Marco.

Até quarta.