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Seja muito bem-vindo ao "Português Suave", edição de quarta-feira. Sou o João Costa e Silva, estou com o Marco Neves, à distância, mas estamos sempre juntos, Marco. Olá, bem-vindo.
É verdade. Às vezes ali mais perto, outras vezes mais longe.
Faz parte.
Hoje é dia de São João. Como é que foi a tua noite de São João? Correu bem?
Tranquila. Sabes que por aqui em Lisboa, que é o sítio onde estamos, é mais tranquilo, mas há sempre muita festa. Aliás, a cidade de onde eu sou, São João da Madeira, festeja o São João, portanto, foi festa a noite fora.
Não fosse o nome da cidade.
Exato. Era estranho que fosse Santo António ou São Pedro.
Sim, imagina, o santo de São João da Madeira seria o São Nicolau.
Exato.
Hoje é dia de dúvidas e a primeira dúvida é do Tiago de Braga. Não sei se conseguimos ouvir, mas vamos ouvir o que o Tiago de Braga nos diz.
Bom dia, João e Marco. Eu sou o Tiago de Braga, sou apaixonado por linguística e o vosso programa, para mim, é imperdível. E por falar em imperdível, tenho uma dúvida sobre o prefixo in e sobre a palavra inenarrável, que acho muito estranha, porque normalmente aquela nasal do prefixo in assimila com a letra da palavra a que se une. Com algumas das letras, pelo menos. Como em ilegível, imutável, irrepreensível e mesmo com o N, como em inegável, inócuo, inocente. São inúmeras palavras. Mas inenarrável parece fugir a essa regra e não consigo perceber por que os falantes resolveram colocar ali um E e manter as duas nasais. Há alguma explicação? É caso único? Obrigado e muitos parabéns. Continuação do bom trabalho.
Muito obrigado ao Tiago de Braga, que nos enviou esta mensagem.
Exato. Tiago, é como nós conversamos sobre isso nos episódios da semana passada. Às vezes as dúvidas surpreendem. Às vezes não, muitas vezes. E eu nunca tinha pensado nisto, mas é verdade que pelo processo normal de formação de palavras, devia ser inarrável. E nós temos inenarrável. De onde vem este "ine" em vez de só de I ou In. E a verdade é que isto aconteceu porque esta palavra é baseada numa palavra latina, ou seja, digamos que aquele "in" foi posto à palavra ainda no latim e depois a partir dessa formação latina é que nós ficamos com uma formação portuguesa, portanto, não é uma formação criada no português. E no latim, a palavra base era "enarrabilis", ou seja, tinha o E lá no início e por isso foi posto I e N, portanto, in, inenarrabilis, ou seja, que não é possível de contar, é indescritível. Portanto, a explicação, na verdade, é porque esta palavra é uma formação latina e no latim a palavra começava com aquele E, que ainda se mantém no português. Portanto, aquele E, no fundo, é como nós às vezes dizemos por aqui, um fóssil, neste caso, de uma forma latina da palavra, e é por isso que temos inenarrável. Espero que o Tiago tenha gostado da explicação e ficamos sempre à espera de mais dúvidas do Tiago de Braga.
Exato. Um abraço para Braga, que está a viver o São João, Marco. Também se vive lá de uma forma muito intensa o São João de Braga.
Foi por isso que optámos por falar primeiro de uma dúvida de Braga. Estou brincando, não foi por causa disso, é coincidência.
Faz de conta.
O José Pereira pergunta-nos por escrito, dá os parabéns pelo programa, muito obrigado, e diz que tem esta dúvida. E já agora, o José Pereira é de Lisboa, já que dissemos de Braga. Há alguma relação na origem entre as palavras xerife e almoxarife? São palavras parecidas. A palavra xerife lembra algum xarife, dá uma sensação de ser árabe por causa disso, mas não. A nossa palavra xerife vem do inglês, sheriff, e essa palavra inglesa não tem nenhuma relação com o árabe. É uma palavra do antigo inglês que queria dizer um oficial, alguém que trabalhava no shire, naquela zona em particular, naquele município, se quisermos, de forma muito imprecisa. Portanto, não há nenhuma relação entre xerife, que é de origem inglesa, germânica, e almoxarife, que é de origem árabe. Muito bem respondido, rapidamente.
José Pereira, isto foi como um ninja.
Exato, esta foi mesmo à ninja. Fomos muito rápido, com gestos rápidos. Mas vamos agora a uma um pouco mais lenta. O André Henriques, que não nos diz de onde é. Fica a pergunta.
Fica no ar.
Gostava de saber, André, portanto, fica aqui a nossa dúvida para o André, de onde ele é. "Saudações, Marco e João. Há uma dúvida que me intriga há décadas, relativamente à expressão 'é a cara cuspida e escarrada', para designar alguém ou algo idêntico a outra pessoa". Não sei se costumas ouvir ou se já costumas usar, João. É a cara cuspida e escarrada.
Nunca usei, mas já ouvi falar. Já ouvi essa expressão.
Estava a pensar e não costumo usar, mas é bastante conhecida. Diz o André que uma professora de História da Arte dizia a ele e aos colegas, há décadas, que era uma deturpação de "esculpido em carrara", referindo-se à perfeição das peças feitas nesse tipo de mármore. No entanto, apercebimo-nos que na língua inglesa existe o termo spitting image, o que invalida essa teoria, a menos que eles tenham adaptado a deturpação portuguesa. Afinal, qual é a origem da expressão? Muito obrigado. E sim, ele tem razão, a professora não estava certa. Ligar esta expressão a esculpida em carrara é o que se diz muitas vezes etimologia popular, é uma origem falsa que corre por aí. Esta etimologia, aliás, é bastante comum no Brasil e aparece em muitas páginas, mas é falsa. Não há nenhuma relação entre "é a cara cuspida e escarrada" com esculpido em carrara. Isto é uma explicação criada Artificialmente, depois da expressão existir há muito tempo. E por que isto aparece? Porque, na verdade, nós não temos bem a certeza de onde é que vem aquele "cuspido", porque é que tem relação com o ser parecido. Sabemos que em inglês também há, que em galego também há, que em francês também há. Em nenhuma destas línguas há qualquer relação com Carrada ou cuspir, ou seja lá o que for, é mesmo cuspir. Há uma ligação entre cuspir e ser parecido. Há quem tente explicar isto como os filhos saem dos pais como cuspo, por isso são muito parecidos. Parece um pouco estranho, mas talvez. O que nós sabemos é que há ligações em várias línguas entre o cuspir e o ser parecido e esta ligação parece ser bastante antiga, aparece há vários séculos e não tem relação nenhuma com nenhuma localidade. Portanto, quando o André se lembrou da expressão inglesa e usou isso como forma de contradiar esta teoria, estava a pensar bem, porque de facto quando nós às vezes olhamos para as outras línguas, percebemos que uma explicação que foi criada só para o português pode não se encaixar na história de expressões que por vezes são multilíngues. Não sei se isto ficou claro, mas é um mito e é bastante claro que é um mito, porque todas as pessoas que eu conheço que estudam a origem das expressões de forma mais aprofundada concordam que não há nenhuma ligação a cuspir em Carrada.
Muito bem.
Não sei quanto tempo é que temos, João.
Temos dois minutos, exatamente, para ainda falar do São e Santos, não é?
Exatamente. Como estamos no São João, penso que podemos só aqui recordar algo que já falámos aqui no nosso programa, no "Português Suave", que é a diferença entre o São e o Santo. Por que nós dizemos São João, mas dizemos Santo António? E a razão é esta: primeiro, as santas estão salvaguardadas, não há nenhuma diferença entre as santas. As santas são sempre santas, nunca mudam. Mas quanto aos homens, santos, o que acontece aqui é que se o nome do santo começar por um som consoante, eu digo som consoante, porque isto não tem bem a ver com a letra, porque, por exemplo, o H não conta para isto precisamente porque não se lê. Mas se o primeiro som for uma consoante, vamos dizer São. Se o primeiro som for uma vogal, vamos dizer Santo. Há uma ou outra exceção, como Santo Tirso, nome da terra, mas em geral esta regra criada pelos próprios falantes mantém-se. E esta regra apareceu por quê? Porque os falantes foram mastigando a palavra santo até ficar São, São João, São Pedro, por aí fora, mas nos casos dos nomes que começavam por vogal, como a vogal ficava ligada à consoante, Santo António, essa consoante ficou guardada pela própria vogal. A vogal salvou a consoante e ficamos com Santo António.
Um belo salvamento.
Bem, João, resta-nos a nós desejar um bom resto de São João para todas as pessoas que nos ouvem e também o resto de Santos Populares, que marcam aqui o início do verão e esperemos que seja um excelente verão para todos. Para ti também, João.
É isso mesmo. Marco, nós estamos de regresso no domingo. Um grande abraço. Até lá.
Um abraço. Até domingo.