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Nem em agosto o nosso ninja da língua portuguesa tira férias. Eu sou o João Costa e Silva, mas isto sem ninja não se faz. Marco Neves, bem-vindo.

Olá, tudo bem? Cá estamos, em agosto.

Já em agosto, é verdade.

Vamos desejar um bom agosto a todas as pessoas. Talvez muitas estejam de férias, mas não vão abandonar certamente o "Português Suave" durante estas semanas.

Esperemos que não.

De agosto. Claro que não.

Aliás, até vão fazer aquilo que se faz muito nas férias, que é ir pôr em dia os episódios que estão para trás.

E há muita coisa. Este foi um ano muito animado, com muitas dúvidas, com muitos episódios, portanto, vão lá atrás ao arquivo ouvir. É um mês especial aqui para o "Português Suave". Temos só um episódio por semana e vamos aproveitar para responder a muitas dúvidas. Antes disso, deixa-me só dizer que eu estou, gosto de dizer estas coisas, em Peniche, na casa dos meus pais. Fica a sugestão para virem aqui passear esta zona.

Eu tenho que ir a Peniche, porque eu nunca fui a Peniche.

Então estamos combinados.

Sim.

Estamos mesmo combinados. Tens de vir aqui, tenho que te mostrar a minha terra. E às Berlengas então também nunca foste, certo?

Não, também nunca fui às Berlengas. Não.

Então hás de ir.

Fica aqui o convite, Marco Neves.

Estou a combinar por acaso para esta semana, não sei se vamos conseguir ou não, mas estou a combinar ver se consigo ir às Berlengas com os meus filhos pela primeira vez. Vamos ver.

Ok, muito bem. Vão ser umas ótimas férias.

Vamos então à primeira dúvida. Temos aqui uma dúvida por áudio. Vamos ouvir?

Olá, meus amigos do "Português Suave". Aqui é de novo o vosso amigo a morar do outro lado da Península Ibérica, na Catalunha. Aqui na Catalunha, vocês estavam falando sobre as placas na Espanha e aqui, naturalmente, as placas são todas em catalão. E tem uma placa que eu convivo diariamente, que eu acho curiosa, que é indicando a entrada para o Sincrotron Alba, que é um acelerador de partículas, e que eles mudaram para Sincrotró, para tornar a palavra um pouco mais catalã. E isso me fez pensar na diferença entre o português brasileiro e o português europeu, porque em português brasileiro falamos elétron, próton, sincrotron, e que em português europeu mudaram esse "on" para "ão". Eu queria saber um pouco mais sobre como isso se deu e por que a gente fala diferente essas palavras.

Obrigado pela dúvida. O que se passa aqui é que estamos a falar de palavras, muitas delas vieram do grego, mas foram importadas ou foram adaptadas, foram criadas no seu âmbito científico nos últimos 200 anos. O que isto quer dizer? Foi há relativamente pouco tempo, numa época em que Portugal e Brasil já estavam separados. E o que aconteceu aqui foi, e não há propriamente uma razão para acontecer de uma forma de um lado e de outra forma no outro. Foi simplesmente uma adaptação diferente. Portanto, no Brasil ficou com uma forma mais próxima do grego original, sem adaptação tão forte à língua portuguesa, enquanto que em Portugal nós fomos lá buscar aquela que é uma das manias da nossa língua, que é acabar as palavras em "ão".

Pois.

E ficamos com o elétrão. É apenas uma adaptação feita por pessoas diferentes, em lados diferentes do Atlântico, numa época em que já estávamos separados, digamos assim, politicamente, e ainda não tínhamos tanta oportunidade de conversar em direto de um lado e do outro, e por isso acabou por acontecer isto, e eles ficaram com o electron. Não estou a dizer bem como os brasileiros dizem, claro, mas estou a falar aqui um pouco mais da origem grega e nós ficamos com o elétrão. É apenas isso. É uma curiosidade. É uma daquelas diferenças que, se calhar, não são tão conhecidas, mas lá vão aparecendo em algumas áreas em que o desenvolvimento da terminologia foi relativamente recente, naquela janela de tempo entre a separação política e uma época em que já conversamos mais uns com os outros, em que, se calhar, se fosse hoje, já não aconteceria a mesma coisa.

Exatamente. E é por isso que o "Português Suave" é sempre tão especial, por causa disso e destas dúvidas que às vezes nos surgem por parte dos nossos ouvintes.

Fica o abraço para a Catalunha.

Sim.

E vamos à dúvida número dois, que não é uma dúvida. Eu vou ler. Rui Miranda, que envia o seguinte texto: "Boa noite. No momento não tenho nenhuma dúvida, mas não quero deixar de dar os parabéns pelos esclarecimentos que me proporcionam. Descobri o programa há pouco tempo e estou a ouvir todos os episódios. Neste momento, já só faltam 45. Obrigado e um abraço para ambos. Rui Miranda". Ainda faltam uns quantos.

Era aquilo que falávamos há bocadinho agora nas férias, vai pôr tudo em dia.

Pronto, Rui, um abraço. Ficamos à espera das dúvidas. Havemos de ter alguns episódios só com as dúvidas do Rui Miranda.

Exato.

E vamos a uma dúvida, que é mesmo uma dúvida: "Olá, João e Marco. Sou a Eliana Calisto e sou de Faro e tenho uma dúvida que acho que é algarvia, porque cá, em vez de se dizer 'vou à casa da Maria', dizemos 'vou à da Maria'. Isto é um regionalismo? O que aconteceu aqui?"

Eu também já ouvi isto, por acaso.

Mas ouviste onde?

Eu tenho família do Algarve.

Então pronto.

Porque houve aqui uma junção de famílias e agora também ouço isto às vezes.

Será um regionalismo, diria, mas não propriamente só do Algarve. No Alentejo também se ouve isto, pelo menos, e talvez até noutras zonas. É comum esta redução e mesmo noutras línguas acontece, em vez de dizer "a casa da", diz só "à da qualquer coisa". Lembra-me, por exemplo, o francês, quando "chez" qualquer coisa, quando eles dizem "chez Marie". Usam uma versão reduzida e não usam a palavra casa quando querem dizer que estão na casa de alguém. Portanto, é um regionalismo, é verdade, que não se usa em todas as regiões do país, mas é um regionalismo que até tem ligações a outras línguas latinas. É o que eu consigo dizer. Eu acho muito engraçado e gosto muito quando ouço alguém dizer "vou à da Maria" ou "vou à da avó". Acho sempre muito curioso.

No fundo, é deixar subentendido que há alguma coisa, não é? Casa, entre aspas, fica subentendido.

Esta expressão lembra-me que é tão óbvio que estão na casa, é tão doméstico, que nem é preciso dizer que estão na casa e por isso a casa não aparece. Não sei se temos tempo, João.

Temos, Marco. Vamos a isso.

Temos aqui uma outra dúvida muito curiosa, que é do João Luís do Porto.

José Luís.

José Luís. Peço desculpa ao José, confundi-me com o nome. Está pedida a desculpa. José: "Creio que esta será uma pergunta que já foi discutida, mas fez-me muita confusão ouvir exames com E e não com I". Ou seja, exames em vez de exames. "Se lemos exame com I, por que dizemos exames? Mais um caso para a dossiê 18/18. Um abraço. José Luís do Porto."

Sabes que eu sofro disto, porque eu tanto há vezes que digo com I e há outras que digo com E, muito pelas minhas influências do norte do país, mas agora como já estou aqui há algum tempo em Lisboa, às vezes vou-me adaptando aos cenários onde estou.

Sim, eu devo dizer que é tradicional, principalmente porque as descrições da pronúncia muitas vezes são feitas por pessoas na zona de Lisboa e de Coimbra.

Sim.

É tradicional que se leia ou que se diga que a leitura adequada do I no início de palavras como exames, do E, aliás, a leitura adequada do E é um I, exames, economia, e por aí fora. A própria palavra "e", quando está isolada, quando nós dizemos João e o José, lê-se com I. E mesmo na escrita, se nós formos à escrita dos séculos anteriores, em que a ortografia não estava tão sistematizada, muitas vezes as pessoas escreviam com I. Falo aqui muitas vezes aquele livro "Enfermidades da Língua", era com I que se escrevia na época. Não há uma fronteira certa entre as zonas onde se lê exames e onde se lê exames. Agora, o José diz que ouve pessoas a dizer exames no plural e exame no singular. Isto será uma particularidade que eu por acaso nunca notei. Há 100 anos, se alguém fizesse um manual de como pronunciar, iria dizer que estas palavras se pronunciam com I. Há uma variação, basicamente é como ele diz, é uma questão de 18/18. Há pessoas que vão pronunciar mais com E, provavelmente por influência da própria escrita, e outras pessoas pronunciam com I, que também é uma leitura muito antiga e muito tradicional da nossa língua. E é o que eu consigo dizer sobre esta dúvida do José Luís.

José. Um abraço para o José. Nós temos ainda uma dúvida que nos chega da Lituânia e temos tempo, Marco. Vamos ouvir?

Então vamos ouvir.

Olá, "Português Suave" desde a Lituânia. Hoje trago a minha primeira questão em relação a uma palavra que se utiliza em certas aldeias de Trás-os-Montes. Tive confirmação, pelo menos de um amigo, que é de uma aldeia próxima de onde era o meu pai, que fica na zona de Alfândega da Fé, no distrito de Bragança. E a palavra que é utilizada é "ementes". Alguns idosos utilizam esta palavra para substituir "enquanto". Em vez de dizerem enquanto, dizem ementes. O meu pai também a dizia muito e por isso é que me lembrei de enviar a questão para aqui, porque tenho curiosidade se é alguma coisa que venha do galego ou se tem algum toque do mirandês ou do espanhol mesmo, porque procurando por ela na internet não encontrei absolutamente nada que me desse um pouco mais valor e pode ser que vocês tenham algum enquadramento. Muito obrigado pelo vosso programa e boa continuação.

O nosso obrigado para a Lituânia e para o João Escobar. A palavra existe, está até em dicionários, mas vamos deixar aqui. Eu quero investigar um pouco mais.

Vamos deixar em banho-maria. Adoro esta expressão.

Vamos deixar em banho-maria, mas vamos responder ainda durante agosto. Fica prometido que durante este mês nós vamos responder ao ementes.

Exato, até porque esta dúvida vem de muito longe, da Lituânia. Portanto, vamos dar atenção especial.

Que demoremos um pouco. Eu até gostava de lá ir responder ao vivo, porque eu gostava de conhecer a Lituânia, mas vamos responder durante agosto aqui no "Português Suave".

Marco.

Espera aí só um bocadinho. Até disse pera. Isto é histórico. Num programa de língua portuguesa, dizer pera é muito bom. Eu reparei que recebemos aqui uma dúvida no nosso e-mail, e eu acho que esta é simples de responder, do António de Sintra, que diz: "Antes de mais, parabéns por esta iniciativa. Hoje a minha dúvida é a seguinte: é correto dizer 'neste verão vão haver muitas festas' ou 'vai haver muitas festas'?" É vai haver. De acordo com o padrão da língua portuguesa, é vai haver, porque quando nós usamos o verbo haver com o sentido de existência, nós devemos sempre usar no singular. Portanto, ele não passa para o plural nunca, por razões sintáticas que agora não vou aprofundar. Mas isto aplica-se ao verbo haver, há muitas festas, por exemplo, mas também ao verbo haver quando tem auxiliar. O auxiliar também vai para o singular, ou seja, vai haver muitas festas, vai haver muitas pessoas ali naquela sala. Portanto, mesmo os verbos auxiliares têm de ficar no singular. Portanto, vai haver muitas festas em Sintra e não só, pelo país fora, durante agosto.

Um abraço para o António. Era só para responder a esta, que era assim mais curta.

Esta foi rápida.

É, foi rápida. Bem, nós regressamos no domingo. Podem enviar dúvidas.

Podem enviar dúvidas, é verdade. No domingo eu gostava de falar de um tema, fica já aqui prometido, que são os imigrantes. Os imigrantes que nos vêm visitar durante o mês de agosto.

Fica aqui essa promessa. No entanto, envie dúvidas para o nosso e-mail. Marco Neves, queres recordar?

portuguessuave@observador.pt.

Ou se for mais fácil, através do WhatsApp para o 91 002 41 85. Podem enviar mensagens de voz entre 30 a 40 segundos para termos tempo para ouvir aqui no "Português Suave", que está de regresso no domingo. Um abraço, Marco. Até lá.

Um abraço, até domingo.