Cerca de 3.500 pessoas assinaram uma petição pública a pedir transparência, equidade e justiça no processo de escolha de vagas para formação especializada do internato médico, que este ano é online e organizado por lotes diários.
Os jovens médicos discordam das alterações feitas e dizem que a substituição do modelo presencial em tempo real utilizado até 2025 pelo modelo online, assíncrono e por lotes diários altera a forma como os candidatos irão tomar a decisão sobre a especialidade e o local de formação.
Os subscritores consideram que as alterações foram comunicadas tardiamente e pedem, por isso, a manutenção, este ano, do modelo presencial usado até ao ano passado e que qualquer novo modelo seja previamente testado “em condições reais e em larga escala”.
Lembram que o procedimento concursal para o internato médico foi aberto por um aviso publicado a 29 de agosto e que o novo modelo foi comunicado pela Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) em setembro, já durante o concurso.
Os signatários sublinham que “não está em causa a modernização ou digitalização dos serviços públicos”, mas questionam a introdução de “uma alteração estrutural” no próprio ano da escolha sem que os candidatos tivessem conhecimento do novo modelo desde a abertura do concurso. Defendem ainda que futuras alterações sejam comunicadas “com a devida antecedência e acompanhadas de informação clara e transparente sobre o seu funcionamento”.
O Sindicato dos Médicos do Norte (SMN) já anunciou que pediu esclarecimentos urgentes à ACSS sobre o novo modelo de escolha de vagas para o internato médico. Em comunicado, o SMN diz ter questionado a ACSS sobre quantos candidatos integrarão cada lote, como funcionará o algoritmo, quantas opções poderá indicar cada médico, como serão hierarquizadas e o que acontecerá às vagas recusadas no próprio dia.
No texto da petição, que às 11h15 desta quinta-feira tinha sido assinada por 3.501 pessoas, os signatários dizem que o processo perdeu transparência, explicando que no modelo presencial e sequencial todos os candidatos assistiam em tempo real às escolhas de quem os precedia, mas, no modelo atual, essa verificação só é possível a posteriori, concentrando toda a confiança no correto funcionamento de “um algoritmo que ninguém pode auditar em tempo real”.
Falam ainda de um “efeito perverso” na alocação de vagas, explicando que, no modelo presencial, o candidato escolhe perante as vagas que efetivamente se encontram disponíveis no momento da sua escolha, enquanto no novo modelo terá de ordenar previamente as suas preferências, sem conhecer necessariamente quais das vagas já estão ocupadas dentro do seu lote.
“Poderá, assim, surgir uma espécie de escolha defensiva: o candidato não coloca determinada opção porque efetivamente a deseja, mas porque receia que, se não a colocar, possa terminar o processo sem qualquer vaga”, consideram, sublinhando que esta situação é agravada pelo facto de, dentro do mesmo lote, os candidatos não terem conhecimento em tempo real das vagas que estão a ser escolhidas pelos restantes.
O objetivo de um processo desta natureza “não deve ser apenas conseguir uma atribuição informática das vagas”, mas assegurar que, no final, o maior número possível de vagas é efetivamente ocupado por médicos que pretendem realizar aquela formação, consideram.
O texto da petição alerta ainda para o impacto sobre casais cuja escolha ocorre dentro do mesmo lote, explicando que, quando ambos os elementos de um casal ficam no mesmo lote, as suas escolhas são processadas no mesmo período, não permitindo que um tenha conhecimento da colocação do outro antes de definir as suas preferências. No modelo presencial, as escolhas são sucessivas e respeitam a ordem de classificação, permitindo que um candidato possa ter conhecimento da escolha do outro, caso este tenha escolhido anteriormente.