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Este é o Português Suave da Rádio Observador. Estamos com o ninja da língua portuguesa, o Marco Neves. Eu sou o João Costa e Silva. Olá, Marco.
Está tudo bem?
Está tudo bem. Pós 25 de abril. Vamos falar sobre uma palavra que nos diz muito. Há mais.
É quase inevitável esta semana. Vamos falar de liberdade, mas também de livro, porque além do 25 de abril, ontem, tivemos o dia 23 de abril, que foi o Dia do Livro. Ainda por cima, como são duas palavras, livre e livro, muito parecidas, decidi falar das duas hoje na Língua nas Notícias.
Quando dizes ontem, dizes quinta-feira, não é? Só pra estarmos aqui em sintonia.
Ontem, quinta-feira? Não, ontem, sábado. O 25 de abril foi ontem.
Não, neste caso, estou a falar do Dia do Livro.
Sim, desculpa.
Estamos aqui confusos nos dias.
Vamos lá ver. Ontem foi 25 de abril.
Exato.
E na quinta-feira foi o Dia do Livro. Uma semana com várias datas.
E hoje é dia 26 de abril. Estamos cá e vamos à Língua nas Notícias. Vamos a isso.
Vamos. Deixe-me dizer-te, João, primeiro, que nós vamos ter o episódio de dúvidas na quarta-feira. Já tenho aqui umas dúvidas apontadas, até que recebi por outros canais.
Outros meios.
Outros meios, mas as pessoas podem sempre enviar dúvidas e estamos sempre à espera, principalmente se as dúvidas forem em discussão, como nós já dissemos.
Claro, é isso que queremos.
Alguém naquele momento da discussão acalorada enviar um áudio. Como eu estava a dizer, as palavras pra semana, pra Língua nas Notícias, são liberdade e livro. Por vezes, as pessoas pensam que livro e livre são palavras com a mesma origem, porque são muito parecidas e até têm alguma relação, porque nos livros nós somos livres de lermos o que quisermos e no fundo, estamos a treinar a nossa liberdade, nem que seja mental, mas não há grande relação. Vamos começar por liberdade. Ou seja, a presença é fortuita. A liberdade vem de uma palavra antiga do protoindo-europeu, aquela língua que já falamos aqui muitas vezes, que queria dizer, e não me vou atrever a dizer a palavra, porque não vale a pena, mas essa palavra queria dizer povo. E aqui nós podemos pensar: como é que de povo passamos para liberdade? Isto foi um percurso de vários milhares de anos, atenção. No latim, já a palavra queria dizer liberdade. O que aconteceu foi: no protoindo-europeu, haveria um contraste na cabeça das pessoas entre as pessoas que pertenciam ao povo, livres, e depois tínhamos os prisioneiros de guerra estrangeiros, que não pertenciam ao povo, que eram muitas vezes tornados escravos. É desta distinção entre quem era do povo, e, portanto, livre, e quem não era e, portanto, podia não ser livre, que nasce depois o conceito de liberdade, que depois acabou por se alargar pra todos. Já não fazemos essa distinção, felizmente.
Sim, ainda bem.
Na origem, temos lá essa distinção. E depois temos esta palavra, que na verdade é tão bonita, apesar da origem um pouco estranha.
Por acaso é mesmo uma palavra bonita, liberdade. E podermos ter essa liberdade todos os dias e de estarmos aqui, porque se calhar há 52 anos atrás, não estaríamos aqui, com certeza.
É verdade. Pelo menos a falar com tanta liberdade da nossa língua. E quanto a livro, tem uma origem numa palavra latina que nos primórdios dessa palavra latina queria dizer a parte interior da casca da árvore que era retirada para se poder escrever. Tem a ver com o material de que são feitos os livros. Que livro e livre são duas palavras com uma grande presença, é verdade, e por isso temos aqui uma ligação que existe e que apesar de fortuita na origem, não deixa de ser significativa e engraçada. Aqui ficamos com a nossa homenagem à liberdade e ao livro.
Sim, e os livros que foram, aliás, muito importantes também nessa revolução e no pós-liberdade, esta Revolução dos Cravos, que celebramos ontem, sábado, 52 anos após o 25 de abril. E é importante também, lá está, Marco, esclarecer, porque havia muito essa dúvida de associarmos o livre ao livro e estas explicações são sempre importantes. Vamos avançar e vamos até ao Mapa da Língua.
Exatamente. Deixa-me dizer-te, primeiro, e só repetindo um pouco o que estávamos a acabar de dizer. O facto de eu dizer que a origem das duas palavras é diferente, não quer dizer que a ligação que as pessoas fazem não seja válida.
Claro.
Eu queria sublinhar isto, porque a língua faz-se também destas coincidências. O material da língua tem estas coincidências que são significativas. Hoje vamos falar aqui de uma coincidência, no Mapa da Língua, relacionada com livro. Uma coincidência que parece mais coincidência do que na verdade é, e eu já vou explicar o que se passa aqui. Eu agora vou contar a história da origem do Dia do Livro. A história do 25 de abril, acho que todos nós conhecemos, e eu aqui hoje falo antes do Dia do Livro, até porque tem que ver com a língua, porque é através do livro que nós recebemos muitas vezes a língua, ou pelo menos muitas palavras. E o Dia do Livro, que foi dia 23 de abril, é o Dia do Livro declarado pela UNESCO e celebrado em todo o mundo, por causa de uma lenda catalã. Já falámos aqui o ano todo, quando foi o Dia do Livro aqui no Português Suave, nós já tínhamos falado, mas eu gostava de repetir. Havia uma lenda que dizia que os dragões que São Jorge, o santo, matava, as gotas de sangue caíam e criavam roseiras. E tornou-se tradição na Catalunha, por causa desta lenda, oferecer uma rosaÀ pessoa amada. Portanto, uma rosa à pessoa amada. E no século XX, os livreiros de Barcelona decidiram aproveitar esta lenda e dizer: "Olha, oferecemos uma rosa à pessoa amada e um livro". Porque era engraçado dar rosas e livros, porque para os livreiros também interessava vender livros, claro, é para isso que eles também existem. E a lenda foi construída, ou melhor, houve aqui uma adição e no dia de São Jorge, na Catalunha, que se chama Sant Jordi, é um grande dia, muito importante na cultura catalã. Nesse dia, é tradição comprar muitos livros, muitas rosas e oferecer muitos livros e muitas rosas a quem nós gostamos. Até podem ser amigos. Portanto, é um dia em que se dá coisas aos amigos. Coisas, nesse caso, livros.
Podemos importar essa tradição para cá. Seríamos todos muito mais felizes, pelo menos nesse dia.
E as livrarias estão atentadas, e as editoras. Ou seja, o dia 23 de abril cada vez é mais importante em todo o mundo, mesmo em Portugal. Até porque depois a UNESCO declarou o dia como o Dia Mundial do Livro, não só por causa desta tradição catalã, muito bonita e muito importante, mas também porque há uma coincidência. E aqui é que temos a tal coincidência, porque Shakespeare, e atenção que o que eu vou dizer agora a seguir tem depois um mito associado, e depois eu vou revelar que mito é este na próxima secção aqui do nosso programa. Portanto, Shakespeare morreu no dia 23 de abril de 1616. Cervantes morreu no dia 23 de abril de 1616. Ou terá morrido, já lá vamos. E ainda por cima, no mesmo ano, no mesmo dia, no mesmo ano. E depois também temos um grande escritor catalão, Joseph Plack, que morreu no dia 23 de abril de 1981. Já não em 1616, mas 81. Principalmente no caso dos dois primeiros, que temos ali a coincidência até do ano. Esta coincidência levou a que tenha sido óbvio para a UNESCO que este é o dia em que devemos celebrar o livro e por isso ficámos com o Dia do Livro por causa de Shakespeare, de Cervantes, de São Jorge. Toda esta nuvem de coincidências levou a que este fosse o Dia do Livro. Mas há um mito aqui associado, mas eu só vou revelar agora na próxima secção.
Então vamos lá, fiquei curioso.
Se é verdade que Shakespeare morreu no dia 23 de abril de 1616, que Cervantes está registado como tendo morrido a 23 de abril de 1616, na verdade, não morreram no mesmo dia. E por duas razões. Primeiro, porque Cervantes, na verdade, morreu no dia 22 de abril de 1616, mas o registo atrasou-se, enfim, ficou registado a 23 de abril.
Burocracias da época, não é?
Exatamente, burocracias da época. Mesmo assim, seria uma grande coincidência. Só que eles, na verdade, morreram a uma distância de quase duas semanas. O que acontece é que Inglaterra tinha um calendário, Espanha tinha outro. Portanto, o 23 de abril era a mesma data, mas estava a duas semanas de distância. Shakespeare não morreu na mesma altura de Cervantes, morreram quase a duas semanas de distância. Isto é só uma curiosidade de calendário, mas não deixa de ser interessante pensar que, independentemente da data em que morreram, os dois grandes escritores, Shakespeare e Cervantes, viveram durante várias décadas no mundo, em conjunto, o que é muito curioso e não deixa de ser também uma grande coincidência, independentemente das datas. Mas se é um mito dizer que os dois morreram no mesmo dia, há um outro dado que eu não dei ainda. Shakespeare nasceu no dia 23 de abril, muito antes, não é do dia em que morreu. Portanto, aí sim, também há mais uma coincidência e esta data acaba por ser quase inevitável para ser a data do Dia do Livro.
O Marco Neves, além de ninja, às vezes também é detetive. Peço desculpa, mas estas são claramente, como é que eu hei de dizer, qualidades que ele vai adquirindo aqui no "Português Suave".
Tens me passado a chamar Sherlock.
Ninja, detetive, Inspetor Gadget, também muito conhecido.
Inspetor Gadget, sim. Tenho que comprar a gabardine. Agora vamos avançar, já que estamos a falar do livro da semana, vamos avançar para esta última secção, a nossa última secção.
Sim, para essa célebre categoria que tem este separador incrível.
Então bom, João, para o livro da semana, agora estou a pensar, eu devia ter escolhido um livro sobre o 25 de Abril, mas olha, fica para a semana. Mas como estou a pensar na língua, acabei por escolher um livro que saiu agora há pouco tempo, traduzido em português, de Laura Spinney, que escreveu um livro chamado "Proto", que foi editado pela Temas e Debates, que é um livro que conta a história do protoindoeuropeu, uma língua de que já falámos aqui muitas vezes. E conta a história de forma muito bem feita, muito bem fundamentada, explicando como é que nós descobrimos esta língua, como é que nós reconstruímos esta língua, conta a história de toda esta reconstrução e da importância da descoberta desta língua para o nosso conhecimento da história da humanidade e também das nossas línguas atuais. Atualmente, aproximadamente metade da população do mundo fala uma língua que tem origem nesta língua de que já falámos aqui muitas vezes. Por isso, fica a sugestão "Proto", de Laura Spinney, e para a semana falaremos de um livro sobre o 25 de Abril, porque o 25 de Abril, na verdade, é quando nós quisermos.
Sim, e a liberdade celebra-se todos os dias, saindo de casa, ouvindo o "Português Suave".
Enviando dúvidas.
Exato. Dúvidas para onde, Marco Neves?
portuguessuave@observador.pt
Este é o nosso e-mail. E depois há o número de telefone, exatamente, que o Marco Neves, por mais que consiga. Vou cometer aqui uma inconfidência. Esta semana disse assim ao Marco Neves: "Olha, Marco, se calhar era giro partilharmos o número de telefone, quer seja nas tuas redes, com os nossos ouvintes". E o Marco diz-me assim: "Ok, pode ser. Qual é o número?" Ele nunca vai conseguir decorar. Nunca.
Não é teatro, é mesmo a sério.
É mesmo a sério. Ele não sabe e acho que podem passar sete anos. Eu acho que ele nunca vai decorar este número de telefone. Mas o número de telefone é o 91 002 41 85. Nós mantemos aquele desejo de um dia receber um áudio em plena discussão sobre alguma dúvida da língua portuguesa. Não é assim, Marco Neves?
Pronto, João. É isso mesmo. Então olha, até quarta-feira.
Um abraço.
Cá estaremos com as dúvidas.
Um bom resto de fim de semana.