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Quarta-feira também é dia de "Português Suave" na Rádio Observador. Seja muito bem-vindo. Eu sou o João Costa e Silva, comigo o Marco Neves.

Não estou vestido de ninja. Eu sei que me pediste isso no último domingo, mas a verdade é que o Carnaval já acabou. Hoje é quarta-feira, portanto, não há nada a fazer. Se tivéssemos episódio à terça-feira, eu teria ido.

Desculpas.

Para o ano, se o episódio é de quarta, calhar na terça.

No próximo ano vamos mudar isso mesmo. O Carnaval vai ser na quarta-feira.

Eu venho vestido de ninja.

E traz um calhamaço. Que tu tens à tua frente.

Trago aqui um livro para responder às dúvidas que acontecem.

Atende, assustaste agora.

Para responder umas das dúvidas.

E o que temos hoje? Vamos lá.

Temos duas dúvidas, uma delas sobre o uso, se alguma coisa está correta ou não, e sobre a origem de uma palavra que eu gosto muito. Eu gosto muito da palavra e do que ela representa. Almôndegas, vamos falar de almôndegas.

Gosto muito também. Já não como há muito tempo, por acaso.

Temos uma dúvida.

Estou a ficar com fome.

Então vamos despachar isto. Não, vamos com calma responder a estas duas dúvidas. Luiz Nunes pergunta-nos se "parecido ao" ou "parecido com" é a mesma coisa ou se não deveria ser "parecido com". Ele é da opinião que "parecido com" é a única forma correta e que deveríamos evitar dizer "parecido ao", que algumas pessoas defendem que é recente e que será um erro, mas, na verdade, eu aqui tenho de dizer ao Luiz que não, que as duas regências, portanto, tanto com a preposição "a" como com a preposição "com", servem perfeitamente tanto para "parecido" como para "parecer-se com". Ou seja, "parecer-se com" ou "parecer-se a". E isto não é algo recente, nem é algo polémico nos vários livros sobre língua portuguesa. Eu, por exemplo, posso te dizer que saiu há pouco tempo um novo dicionário de regência verbal e de erros de linguagem, de Artur Veríssimo. Um livro muito interessante, muito grande, como estavas a dizer.

Poxa, é enorme.

Um calhamaço. Tem muitos verbos e tem várias utilizações desses verbos com preposições. E na página 409, o Artur diz que temos "parecer-se a ou com", ou seja, temos as duas hipóteses.

As duas formas.

Camilo Castelo Branco, por exemplo, escreveu: "Mas os naufrágios do coração parecem-se aos do mar." Portanto, os falantes e os especialistas aceitam as duas regências. São duas, acontece, a língua às vezes dá-nos duas hipóteses, não há aqui um grande erro. Agora, claro, há preferências de cada pessoa. Imagino que o Luiz, pela pergunta, prefira "parecer-se com". Eu também tendo a usar mais "parecer-se com". Esta também parece ser mais frequente do que a outra, mas não quer dizer que seja a única certa. Uma coisa são as preferências que nós podemos ter dentro das hipóteses que a língua nos dá, outra coisa são os usos consagrados. Não estamos a falar de usos novos ou daquele borbulhado da língua que já falamos aqui. Estamos a falar de usos consagrados na literatura e nos próprios livros de gramática e de uso.

Então as duas estão corretas.

As duas estão corretas. Imagino que haverá algum autor, eu não fui consultar todos os autores, que diga que só pode ser "com", mas, na verdade, também temos aqui de respeitar os caminhos que a língua faz e em todos os autores que eu fui consultar, encontrei aquilo que eu estou a dizer. Portanto, podemos usar uma ou outra.

Muito bem. Então vamos agora avançar para-

Almôndegas

...para o lanche.

Lanche, almoço, jantar.

O que for.

O Nuno Cardoso pergunta-nos de onde é que vem "almôndega", esta palavra.

O som é muito giro, não é? É por isso que, se calhar, é uma palavra também bonita.

Aqui ao lado, os castelhanos dizem "albóndiga".

É? Não sabia.

É, albóndiga. E a palavra fez um caminho muito engraçado, porque nós sabemos que temos muitas palavras de origem árabe, mas às vezes esquecemo-nos de dar o passo seguinte. Então e os árabes foram buscar aquela palavra onde? Às vezes foram buscar à língua que deu origem ao árabe, outras vezes foram buscar a outras línguas. E então temos uma palavra de origem árabe, no sentido em que veio para o português a partir do árabe, mas começa, curiosamente, no grego. O grego tinha "pontikon charon", que é um fruto seco da zona do Mar Negro. Podemos chamar avelã póntica, se quisermos. Portanto, "pontikon charon". Isto passou para o persa, com a forma algo que seria "pōndik". Depois passou para o árabe, para uma forma que seria algo como "bunduq", que queria dizer avelã, ou também bala, nessa época.

Bala?

Bala. É uma espécie de metáfora com a avelã. Depois passou para o árabe andaluz, daqui da nossa zona, era "albúnduga", "albúnduca". E de "albúnduca" ficamos com "almôndega" aqui em Portugal e "albóndiga" no castelhano. É, portanto, uma palavra muito ibérica que tem este percurso. Repara, começa no grego, começa numa palavra, póntica, que queria dizer na zona do Mar Negro, depois passa para o persa, que é uma língua, tal como o grego, da nossa família mais alargada. Depois do persa passa para o árabe, que não é uma língua da família do português, mas é uma língua que teve muita importância aqui na nossa zona, e do árabe depois acabou por passar para o português, que mais uma vez é da família do grego.

Tantas transformações e tantas viagens, no fundo.

E é daqueles casos de palavras, há muitas, que passaram entre várias famílias de línguas Entre elas, famílias que estão relacionadas, outras que não estão, e mostra bem que as palavras não respeitam fronteiras entre as famílias de línguas.

Almôndega é uma palavra muito bonita, por acaso gosto de dizer e acima de tudo, de comer.

Eu também gosto. E quando era mais novo ainda gostava mais.

Sim. Era aquela comida quase de conforto, não é?

Sim, se a mãe fazia almôndegas.

Com arroz ou com massa?

Boa pergunta. Eu com esparguete.

Exato, eu gosto mais com esparguete também do que com arroz. Mas não sou esquisito.

Os meus filhos também gostam muito de almôndegas. Não, por acaso não. Um deles come, mas o outro não gosta muito. Mas é estranho, eles têm os gostos muito diferentes dos meus e os da Zélia, mas é assim, as gerações mudam e as almôndegas ficam, mas não para todos.

Sim, e há muitos que gostam. Não é possível agradar a todos. Olhando aqui para o Spotify, num dos comentários dos nossos mais recentes episódios, o José Poupinho, lembras-te quando falámos da coqueluche? Não foi há muito tempo. Ele dá parabéns pelo programa e deixou um comentário, para não haver confusões, diz: "A coqueluche, sendo viral, que se dissemina rapidamente, não é viral causada por um vírus, mas sim bacteriana."

Sim, é verdade. E fica aqui a correção, porque eu presumo que tenhamos dito viral a certa altura, viral no contexto já metafórico de ser uma coisa que se espalha.

Exato.

Mas sim, é uma doença bacteriana. Aqui temos a tal confusão que por vezes se faz entre um uso mais denotativo e técnico das palavras e depois o uso metafórico que nós começamos a fazer. Quando eu digo que uma doença é viral, quero dizer, claro, que tem um vírus lá na base, mas quando eu digo que uma palavra é viral, já não quer dizer necessariamente que tem um vírus.

Exato.

Então veio uma pequena confusão entre os usos metafóricos e obrigado. Como é que se chama?

José Poupinho. Tem aqui um apelido interessante, nunca tinha visto este.

E eu recebi outras mensagens por redes sociais a dizer: "Não te esqueças que a coqueluche não é viral". As coqueluches novas, metafóricas, é que são virais.

Exato. Olha, o Dani.CNeves também diz, isto é a propósito daquele episódio em que falamos daquela família que te pediu ajuda, como ensinar português em casa. Penso que era uma família do Luxemburgo, não sei se estou enganado. Ele diz que está na mesma situação do Tiago, falar sempre português com os filhos, mesmo quando te respondem em alemão, diz para não desistir. Também fala da possibilidade de ler muito em português, que também ajuda muito, e diz que tu tens razão e dá-te os parabéns pelo programa. Basicamente é isso.

Muito bem, fica aqui mais um conselho semelhante ao que eu dei, falar português. E essa acrescento é importante. Mesmo quando os filhos, como vai acontecer.

Sim, porque há sempre resistência, não é? Às vezes até por preguiça, se calhar, porque estão muito habituados a ouvir o alemão.

Vão ter alturas em que vão estar a responder noutra língua, e obviamente que depende do país onde estão, vão respondendo a língua desse país por preguiça, outras vezes pode haver fases de recusa da língua que o pai está a transmitir, o pai ou mãe, mas fica lá sempre, essa que é a questão. E mais tarde eles podem acabar por voltar à língua e já vão estar ali a ouvir com muito mais facilidade.

É isso mesmo. Nós voltamos com dúvidas na próxima quarta-feira, mas estamos de regresso no domingo com o episódio habitual. Dúvidas que podem ser enviadas para o nosso e-mail.

portuguessuave@observador.pt

Ou para o nosso número de telefone, que é o 91 002 41 85, ou então deixar comentários também no Spotify, porque também fizemos aqui uma análise a esses comentários. Ficamos por aqui, estamos de regresso no domingo. Um abraço, Marco.

Um abraço.