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Está no ar o "Português Suave", na Rádio Observador, sempre ao domingo e à quarta-feira. Hoje domingo, comigo, João Costa e Silva e, claro, o Marco Neves.
Olá.
Porque isto tem que ser.
Não se faz sem o João.
Não, sem ti. Eu ligo aqui uns botões e digo aqui umas coisas, mas isto sem conteúdo também ninguém ia ouvir, não é, Marco Neves?
Nós noutro dia fizemos um pequeno vídeo os dois para as redes sociais a falar do programa e tivemos pessoas que disseram que te ouviam muitas vezes, mas nunca te tinham visto.
Pois, verdade. É cara. E vamos ficar assim, que é sempre melhor.
Não sei.
Ficar no imaginário. Sabes que eu, quando era mais novo, e na altura as redes sociais não tinham a força que têm hoje, eu gostava muito de ter esse mistério de como eram as pessoas.
Eu acho que todos nós temos essa experiência de quando vemos pela primeira vez. Hoje já é raro, porque temos mais acesso ao aspecto das pessoas.
E quanto mais não seja a curiosidade.
Sim, até porque aparecem anúncios a programas de rádio em vários sítios. Há umas décadas não era assim e nós só descobríamos o aspecto das pessoas muito depois e era sempre uma surpresa. Nem era uma questão de ser uma surpresa boa ou má, nunca era aquilo que nós tínhamos na cabeça. É estranho.
É estranho. São tempos modernos.
Exato. Hoje não vamos falar do tema do aspecto das pessoas que estão a fazer rádio, mas vamos falar de terramotos e do português daqui a uns 75 anos, mais ou menos, quanto a cabeça.
A idade que vamos ter todos nessa altura.
Em 2100 vamos estar aqui a fazer o "Português Suave" todas as semanas.
Com a voz arrastada.
Exato, com a voz muito arrastada. Vão ser edições um pouco poeirentas, mas vamos continuar. Para começar, vamos à língua das notícias. João, há algo que me está a preocupar. Eu pensei em falar de terramoto, porque tivemos não um terramoto, mas um tremor de terra, um sismo, durante esta semana. E eu, por curiosidade, fui ver da última vez que tinha falado sobre esta palavra nas redes sociais.
Vais mudar aqui notícias.
Foi no dia 17 de fevereiro de 2025, o que é estranho.
Isso é muito estranho. A ligação a estes dias.
Eu começo a achar que, se calhar, ali por fevereiro de 2027 temos de estar atentos.
Fevereiro está a ser um mês muito pequeno, mas muito intenso, com muita coisa a acontecer.
De várias formas. Como eu já tinha dito no ano passado, e vou repetir, há uma curiosidade em relação à palavra terramoto, há várias curiosidades. Uma delas é: nós dizemos terramoto, mas originalmente a versão mais comum em Portugal era terremoto, com um E, porque a origem latina indicava que fosse assim a forma, era terrae motus com AE, que se lia na altura do Império Romano terrae motus, mas que depois, ao longo da evolução da língua, acabou por ter aquele E. Agora os portugueses, por analogia com terra, o tremo que treme a terra, acabamos por mudar para terramoto e hoje é a forma mais comum, embora a outra também esteja nos dicionários e também está no Brasil. No Brasil, a forma mais comum é terremoto. Eles não leem assim, claro.
Sim, eles dizem terramoto como nós.
Não sei bem como eu poderia imitar a forma como dizem, mas não é terremoto. Ou seja, o E é mais aberto.
Envie-nos um áudio.
Envie-nos um áudio. Algum ouvinte brasileiro.
Falante de português do Brasil.
Brasileiro. Como é que dizem terremoto.
910024185.
Obrigado por esse número, que é uma surpresa para mim, que não tenho a menor ideia de como é que é. Agora, o curioso é que já tinha percebido isso das outras vezes em que falei disto. Os brasileiros, os falantes de português do Brasil, em geral, não todos, claro, têm muita dificuldade em perceber a diferença que nós fazemos entre terremoto e terramoto. Este E e este A, para eles, é quase a mesma coisa. E eu fiz esta experiência agora outra vez há poucos dias, publiquei um vídeo sobre isto e tinha vários comentários de brasileiros a dizer que não conseguem perceber a diferença quando eu estou a dizer as duas palavras. Para eles, eu estou a dizer precisamente a mesma coisa. E a explicação é simples, é a mesma razão pela qual os falantes de português em geral têm dificuldade em distinguir, por exemplo, a palavra ship de sheep em inglês.
Pois é.
Ou seja, ship de navio e sheep de ovelha, para nós, é muito parecido, porque nós não usamos aquela distinção para criar significados novos.
E o bitch.
Exato.
Agora o meu cérebro até ficou empanado.
Bitch, o animal, ou o insulto, e beach, de praia.
Exato. É tudo muito confuso, parece que estamos a falar do mesmo.
Mas para um falante de inglês, são dois sons distintos, não há dificuldade. Depois, dentro de cada língua, também há algumas diferenças. Os brasileiros não distinguem o A do Ê, não têm sequer o som Ê, em general, têm outra estrutura fonética. E nós distinguimos e por isso nós conseguimos ver perfeitamente que há ali uma diferença entre terramoto e terremoto, e para um falante de português do Brasil é muito mais difícil. E é sobre isto que eu quero falar de terramoto e avisar os nossos ouvintes de que em fevereiro de 2027 devem estar muito atentos.
Ou antes. Nunca se sabe, isto é sempre tão imprevisível.
Ninguém faz ideia.
Uma coisa muito boa, boa no sentido em que temos estado muito mais despertos para isso, é os kits de emergência. Que eu acho que não eram uma realidade, e agora com a questão das cheias.
Não sei, a distribuir, não sei, mas pelo menos a vender.
Sim.
Não sei em que condições, mas alguns kits e há várias outras entidades.
Não, pelo menos estamos mais despertos para isso, porque acho que era uma realidade que muitos de nós portugueses.
Estamos a perceber que isto pode acontecer a qualquer momento.
E quando é uma realidade tão presente noutros países, como por exemplo no Japão, em que há tudo e mais alguma coisa para prevenir coisas destas. Bem, vamos avançar e vamos para o mapa da língua.
Hoje no Mapa da Língua vamos andar no espaço, mas também no tempo, vamos para o futuro.
Vamos para o espaço, espaço lá em cima?
Não, espaço cá embaixo. Nos vários continentes, se dividimos o mundo nos cinco continentes tradicionais, porque isso muda para língua e cultura. Os habitantes dos Estados Unidos, para não usar nenhum dos adjetivos, dividem o mundo em sete continentes. Nós dividimos tradicionalmente em seis, incluindo a Antártida. Olhando pra esta divisão tradicional em cinco, esquecendo a Antártida, que não tem lá grandes falantes de muitas línguas, qual é o continente onde hoje se fala mais português? Acho que todos nós sabemos que é a América, por causa do Brasil.
Uma grande mancha.
Uma grande mancha, onde estão aproximadamente 75% dos falantes da nossa língua. Os outros dividem-se nos outros continentes todos. O segundo continente onde há mais falantes é África, mas está a uma grande distância da América.
Aqui a Oceania parece um fio de tapete.
Quem fala são só os imigrantes portugueses, brasileiros. Timor-Leste, em geral, é incluído na Ásia, portanto os falantes de português em Timor-Leste estão na Ásia, tal como os falantes de português de Macau, que são poucos à escala mundial. Sem há problema nenhum em serem poucos, isso é outra coisa que eu queria falar a seguir. Mas antes de falar disso, gostava de dizer que esta relação entre continentes, no que toca à nossa língua, vai mudar. As projeções demográficas, que são, claro, falíveis, nós não sabemos se isto vai ser assim ou não, indicam que o Brasil vai começar a ter menos população a partir de certa altura, vai começar a diminuir, não sei bem em que década, mas presumo que daqui a uns 20 anos vai chegar ao pico e depois vai começar a diminuir. África, presume-se que vai continuar. Angola, Moçambique e outros países de língua oficial portuguesa vão continuar a ter cada vez mais população. Também há de chegar um momento em que chegam ao pico e depois diminuem, mas esse momento está muito para lá do que é o momento do Brasil. Além disso, não só vão ter uma população cada vez maior, como o português está a espalhar-se na população angolana e moçambicana. Há outras línguas, essas línguas, já falamos isto aqui, espero que continuem a ser protegidas e faladas, mas o português está a espalhar-se como língua da escolarização, língua oficial. Tudo somado, é bem possível que ali por volta do ano 2080, não sei se estaremos cá.
Ora bem, em 2080 eu terei 81 anos.
Pronto, se calhar estarás cá e eu estarei com a nossa marcha.
Pronto, vamos fazer essas projeções.
Nessa altura, África é bem possível que ultrapasse a América como continente onde o português é mais falado. E em 2100, o mais provável é que 55% dos falantes de português estejam em África. O que quer dizer que o coração demográfico da nossa língua vai mesmo mudar.
Vai sofrer alterações, não é?
Vai mesmo mudar para África e a língua vai estar um pouco mais equilibrada. Neste momento, está, de facto, muito desequilibrada pro lado do Brasil, o que também não tem qualquer problema, mas vamos ter uma língua com o coração demográfico, mais uma vez, em África. Quando eu digo coração demográfico, é porque, na verdade, a língua é tão importante pra aqueles que estão num sítio onde ela é muito falada, como pra aqueles que estão num sítio onde ela é menos falada. Lá pelo português ser uma língua menos falada na Europa, é claro que não é menos importante pra nós por causa disso. Os números são sempre relativos, mas acho que é importante percebermos que o futuro da nossa língua reserva-nos esta mudança substancial. E já agora, deixo também a indicação de que é bem provável que por essa altura, o número de falantes de português esteja aproximadamente nos 400 milhões, um bocadinho mais do que os 400 milhões. E devo dizer também que os números, mais uma vez, são relativos, porque como é que nós comunicamos uns com os outros? Usando a nossa língua, mas mesmo pessoas que falam línguas pouco faladas, como é que elas fazem? Aprendem outras línguas, traduzem.
Quem diz que não vamos ter um boom de português, como tivemos agora um boom de espanhol por causa do Bad Bunny.
Vai haver um boom, de certeza. Em África, pelo menos. O valor desse boom é que nós não estamos aqui a fazer projeções, tendo em conta os dados que nós temos.
Sim, não conseguimos quantificar em ordem de grandeza.
Nós não conseguimos encontrar dados destes nas Nações Unidas, nos vários institutos estatísticos que fazem projeções demográficas. Eu tentei fazer uma extrapolação tendo em conta os dados que nós temos, mas certamente que África vai ser um continente onde o português vai ser cada vez mais falado, isso sem qualquer dúvida.
Muito bem, ficamos aqui com as projeções até 2100. Logo veremos se estaremos por cá.
É daquelas projeções fáceis de fazer, porque também se eu falhar, vamos receber se calhar um e-mail ou alguém telefona pra um número de telefone que eu nunca sei dizer, em 2100: "Olha, afinal, não."
Sim, ainda falta muito até lá, as pessoas esquecem-se.
Não, mas eu estou certo que isto é o mais provável. Mas deixa-me só dizer uma coisa antes de avançarmos, não sei se temos tempo.
Sim.
É muito difícil prever. Isto é uma questão relativamente sólida, o facto do português estar aumentando em África, mas pode haver uma língua que ninguém está à espera, de repente explode. O inglês foi o que aconteceu. Se nós andássemos 800 anos pra trás e se perguntássemos a alguém pelo inglês, as pessoas ficariam: "Ah, o inglês?" Quem soubesse, que seriam poucos. É uma língua falada numa ilha, quer dizer, as pessoas que importam nessa ilha até falam francês, não falam inglês. O francês é que era a língua importante. Portanto, é a língua dos camponeses duma certa ilha ali no norte da Europa. Ninguém fazia ideia que essa língua iria-
Eu adorava que o português explodisse, era tão mais fácil.
Mas o português já explodiu, a questão é essa.
Outra vez.
Já é uma das línguas mais faladas no mundo. Pode acontecer, imagina, de repente, daqui a 800 anos, as pessoas: "Quem diria que o mirandês era a língua mais falada do mundo hoje?"
Imagina, pode ser.
É muito pouco provável, mas não é impossível. É só o que eu queria dizer. Vamos avançar.
Vamos aos mitos e às dúvidas.
E queria falar aqui de uma pergunta que também tem a ver com o português do Brasil, porque ao falar dos números, há sempre pessoas que comentam: "Mas isso, o português do Brasil vai se separar. Mais tarde ou mais cedo, vai ser brasileiro, eles vão dizer que falam brasileiro e ponto final."
Vamos ter um divórcio.
Vamos ter um divórcio e esses números vão ser diferentes. O que eu tenho a dizer sobre isto é: pode acontecer, atenção. Não há nada que impeça que isso aconteça, mas não é inevitável linguisticamente. A questão da separação entre línguas ou dos nomes que se dá às línguas não é uma questão linguisticamente. As línguas vão se afastando e, de repente, há um momento em que temos mesmo de separar, porque linguisticamente já é muito diferente. Não é isso que acontece. Claro que quando estamos a falar de línguas de famílias diferentes, a separação é óbvia e é linguística. O basco não é um dialeto do espanhol. O basco não é um dialeto espanhol no sentido de que, apesar de estar no mesmo país, é tão diferente que não há forma de considerar que aquilo é a mesma língua. Entre línguas da mesma família, o momento em que nós dizemos que isto é uma língua diferente, isto não é uma língua diferente, é uma convenção. Nós já falamos disso várias vezes.
Essa palavra dá-me comichões.
Convenção?
Convenção.
Então, pronto, vou tentar evitar. É uma decisão não inevitável. Vou falar aqui de vários exemplos. O árabe, linguisticamente, é um conjunto de variedades tão distintas, ou até mais, do que as línguas latinas, umas das outras. No entanto, continua a haver um padrão, que é ensinado nas escolas e é considerado uma só língua. E isto já é assim há muitos séculos. O português do Brasil e o português de Portugal podem continuar a afastar-se, podem até voltar a unir-se um pouco. Isso é independente da decisão política que um qualquer governo brasileiro pode dizer: "Olha, a partir de agora vamos chamar brasileira à nossa língua". Tal como também a língua pode continuar a ser muito parecida, como acontece, por exemplo, na ex-Jugoslávia, com o croata, o sérvio, o bósnio e o montenegrino, e no entanto, os governos chamam nomes diferentes a cada uma dessas línguas. Isso só para dizer que não é inevitável que a certa altura deste percurso até 2100, que estávamos a falar, o Brasil diga: "A língua agora é outra". Pode acontecer, pode não acontecer, mas eu pessoalmente acho que estes dados demográficos que falámos aqui vão levar o Brasil a optar por se manter nesta família de línguas onde o português é falado muito também em África, como aliás, já tínhamos referido antes.
Esperemos que sim.
O mito é: o português do Brasil vai ter de se separar mais tarde ou mais cedo. Isso é um mito.
Pronto, ok. Fica aqui respondido o mito daqui no episódio de domingo do "Português Suave". Ficamos na expectativa, para perceber a evolução do português ou dos falantes de português pelo mundo.
Vamos ter uns episódios antes de 2100, não é? Para falar.
Eu acho que sim, uns quantos, uns 999, por aí. Estamos de regresso na quarta-feira, à espera das suas dúvidas, mensagens de voz, por e-mail. O e-mail é muito fácil, o Marco Neves sabe decorar.
portuguessuave@observador.pt
O número de telefone já é um bocadinho mais complicado, mas eu acho que até 2100 ele vai decorar: 91 002 41 85.
Acho que a probabilidade de decorar vai começar a descer.