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E começa agora o "Português Suave" na Rádio Observador, com o linguista Marco Neves, também conhecido por Ninja da Língua Portuguesa.

E hoje é um dia especial para todas as pessoas.

É isso. Chegamos mais cedo esta semana.

Sim, é um episódio especial, que não é à quarta-feira, é à terça-feira, pela simples razão que nos apetece. Não é, verdade.

Podia ser.

Podia ser.

Só pra marcar a diferença.

Mas hoje estamos no dia 5 de maio, que é o Dia Mundial da Língua Portuguesa, declarado pela UNESCO e pela CPLP. É um dia que comemora a língua portuguesa na sua perspectiva mundial, ou seja, não é cada país em particular que está a comemorar a língua. Nós, por exemplo, cá em Portugal, qual é o dia em que nós comemoramos a língua portuguesa tradicionalmente? Talvez o 10 de junho.

Exato. Estamos lá a chegar.

Estamos lá a chegar. Camões. Por causa de Camões, a grande figura da língua portuguesa. Mas o dia 5 de maio é o dia da língua em todo o mundo, se quisermos, o dia da nossa língua em todo o mundo. E é por isso que eu gostava aqui de falar de duas coisas. Primeiro, dos números da língua, onde é que a língua se vai expandir neste mundo inteiro onde ela é falada, e também falar rapidamente dos vários territórios onde ela é língua oficial ou não. Então, vamos começar pelos números da língua. Tudo indica que, neste momento, se eu perguntar qual é o continente onde a língua portuguesa é mais falada, acho que todos sabem que é a América do Sul. Mas poderá mudar nas próximas largas décadas, por um motivo que já falamos aqui.

Ainda estaremos cá?

Não sei. É provável que seja só lá pra 2090, 2100, por isso, não.

É sim.

Tu sim.

Se eu conseguir manter a minha longevidade.

Tu podes fazer um episódio especial em 2090. Depois podes enviar-me um cumprimento para onde eu lá estiver.

Divino.

Divino, mas eu duvido que esteja cá em 2090, 2100. Mas nessa altura, porque os países têm uma evolução demográfica que não sendo previsível 100%, pode ser.

É uma tendência, no fundo, não é?

No Brasil, ainda está a crescer a população, mas vai chegar a um ponto em que vai começar a diminuir, como acontece com muitos países ao longo do seu desenvolvimento. Os países africanos de língua portuguesa também vão passar por isso, mas mais tarde, já depois de 2090, 2100. Tudo somado, também somando a isto o fato do português estar a ser cada vez mais ensinado à população de Angola, Moçambique e de outros países, que nós sabemos que não é 100% da população que fala português, há muitas outras línguas que vão continuar a existir, espero eu, mas o português vai se expandir. Tudo isto somado, a previsão dos demógrafos aponta para que o continente onde o português terá a maioria dos falantes será o continente africano daqui a algumas décadas, lá por 2090. Portanto, quando fizeres o tal episódio especial sozinho, parte para Luanda.

Nem sei se estarei por aí. Nem sei.

Vais velhinho até Luanda e vais fazer o episódio do "Português Suave" no continente onde vamos ter a maioria dos falantes de português. Tudo indica.

Tudo indica que sim, não é?

É claro que o futuro...

A Deus pertence, como se costuma dizer.

E lá estarei eu com...

Estamos a falar muito. É que estamos a celebrar. E, no fundo, estamos a falar de morte quase ao mesmo tempo.

Isto é um pouco estranho. Mas pronto. Só pra dizer então que os países, não sei quanto tempo é que temos.

Ainda temos. Pode avançar.

Só para recordar que há vários países e territórios que têm o português como língua oficial. Alguns, digamos, não há assim muito sentido nisso, mas isso é minha opinião. Temos Angola, temos o Brasil, temos Cabo Verde, temos a Guiné-Bissau, a Guiné Equatorial, este é o ponto em que é um pouco estranho, mas faz parte da CPLP. Temos Moçambique, temos Portugal, temos São Tomé e Príncipe, temos Timor-Leste. A situação da língua em cada um destes países.

Não sei se disseste Macau.

Eu ia dizer a seguir, porque Macau, na verdade, não é um país independente, mas é um território.

Tu já lá estive, acho.

Eu já lá estive, um território onde a língua portuguesa é oficial, porque está uma cidade da China, Macau é uma cidade da China, onde o português é a língua oficial, está nas placas da estrada. Não é assim muito falado em comparação com o cantonês, que é a língua mais falada.

Mas nós temos muito essa visão de que é muito falado por lá, não é?

Sim, mas nunca foi e coisa mais não sei. Eu às vezes digo a brincar que Macau é uma pequena vila portuguesa com alguns milhares de falantes de português que já lá estão e continuam a estar, rodeados de uma grande cidade chinesa, mas o português é a língua oficial em Macau e continua a ser língua ensinada, uma língua necessária pra função pública, por exemplo. Há muitos macaenses que falam cantonês, mas que estão a aprender português. Eu vi isso com os meus próprios olhos por lá. Pronto, em todos estes territórios a língua está em situações muito diferentes. No Brasil e em Portugal é a língua nacional, falada por praticamente todos. Em Angola e Moçambique está a crescer. Em Angola é também uma língua muito importante e já falada pela maioria da população. Em Cabo Verde é a segunda língua, a língua materna é o que criou o cabo-verdiano. E podia agora continuar aqui a descrever a situação, mas a verdade é que temos aqui um arquipélago.

Sim.

Um arquipélago por quê? Porque cada um destes países tem o português como língua oficial, países ou territórios, mas nenhum deles faz fronteira com o outro. Isso é muito característico da nossa língua. Não sei quanto tempo é que temos.

Ainda temos cinco minutos.

Então temos muito tempo. Então vou agora falar mais devagarinho e dizer que além destes países e territórios que são considerados o sítio onde a língua está oficialmente, temos depois outros territórios por onde a língua se expande de forma mais invisível.

Uruguai, nós já falamos aqui, não é?

Sim, Uruguai não é uma questão de expansão, mas sim de existência já há muito tempo de uma comunidade que fala português no norte do Uruguai, principalmente no norte. O que às vezes algumas pessoas chamam portunhol, mas isso é uma designação que nem sempre é bem aceite, porque parece que é depreciativa. E temos ali falantes de português com muita influência castelhana, claro. Temos também a Galiza, onde se fala galego, que tem uma ligação muito forte ao português na sua história, e muitos galegos acreditam que o galego e o português ainda podem ser vistos como a mesma língua, e eu tendo a concordar com eles, embora na prática são tratados como línguas diferentes. O galego e o português, na prática, funcionam como línguas diferentes, mas poderiam, tendo em conta o material tão próximo que temos, poderíamos considerar a mesma língua. Temos muitas pessoas a aprender português na Galiza. Temos muitas pessoas a aprender português na Estremadura espanhola, cá mais abaixo, por toda a Espanha, em vários países. Eu gostava de apontar para todas as pessoas que aprendem português. Eu já conheci alunos de português na Croácia. Já conheci alunos de português polacos que estavam cá, nunca fui à Polônia. Já conheci alunos de português na Alemanha, em França, na Espanha, como já disse. Não há país onde eu vá que, precisamente porque também falo muito a língua portuguesa, acabo sempre por encontrar pessoas que falam o português. E, por fim, gostava de relembrar também as comunidades de falantes de português em vários países, por exemplo, em França, no Luxemburgo, no Canadá e muitos outros países.

Canadá tem uma comunidade muito grande.

Sim, de falantes, de lusodescendentes. E não são só os lusodescendentes, os descendentes de brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, todos os países que têm o português como língua oficial, quando ela também é falada, ou pelo menos pelas pessoas que também a falam como língua materna, vão pra outros países e continuam a falar português. Nós vamos encontrarDe todos estes países que têm comunidades de falantes de português, o que mais me impressionou, daqueles que eu conheço, não conheço todos, claro, foi o Luxemburgo, porque de facto ouvimos muitas pessoas a falar português na rua. Não é só nas aulas de português, não é só em casa, nós ouvimos muito português na rua, mas também encontramos falantes de português por esse mundo fora. Portanto, este dia, no fundo, é o dia deles todos, de todos nós, destas pessoas que aprendem português, mesmo quando não têm nenhuma ligação particular à nossa língua, mas também todas as pessoas que têm o português como língua de herança e todas as pessoas que têm o português como língua do dia a dia.

O futuro do português então é risonho?

Eu diria que sim, é risonho, africano, mas também europeu, americano, asiático.

Sim, em muitos sítios.

Sim, em muitos sítios. É risonho. Nós temos tendência para olhar para tudo o que pode correr mal e todas as influências que as pessoas podem às vezes criticar. O inglês influencia muito o português. O inglês é cada vez mais falado, mas nós preocupamo-nos muito com o facto de podermos perder a nossa identidade. Devemos preocupar-nos, mas também de vez em quando é bom olhar numa perspectiva mais histórica e perceber que há 7.000 línguas no mundo, a nossa é bastante falada. Não é por ser muito falada que é importante, é mesmo por ser nossa. E vamos acrescentar ao ser nossa, e aí posso voltar atrás ao que disse antes, o facto de ser muito falada também nos ajuda a comunicar depois com pessoas de todo o mundo na nossa língua. Portanto, este é o Dia Mundial da Língua Portuguesa.

E estamos todos ligados. Ficamos por aqui neste episódio especial, esta semana à terça-feira, para celebrar este dia tão especial. Marco Neves, no domingo estamos de regresso e só com dúvidas.

Só com dúvidas. Vai ser um episódio assim especial, mais uma vez, mas com dúvidas. É só isso, é tudo especial.

O e-mail, qual é que é?

portuguessuave@observador.pt.

E temos o nosso WhatsApp disponível também, que é o 910024185. Enviar todas as dúvidas, porque domingo estamos cá para esclarecer tudo no "Português Suave". Até lá, Marco. Um abraço.