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E seja muito bem-vindo ao "Português Suave", episódio de quarta-feira. Eu sou o João Costa e Silva e estou com o Marco Neves, como sempre. Olá, Marco.
Olá, tudo bem? Eu estou no meu percurso pessoal pra tentar decorar o número de telefone, mas ainda não consegui.
Caminho longo, espera-se. Não vai lá com sprints, não vai lá com maratonas.
À noite, tenho sempre um papel e estou a tentar decorar, mas minha mulher já está um pouco aborrecida de ouvir aquela música, mas eu não consigo decorar. Ela já sabe.
Já?
Não, não sabe. Estou brincando.
Imagina, isso seria de gênio. Teres sempre aqui a tua mulher a cada episódio, chegavas naquela parte e ela entrava só pra dizer o número de telefone. Era incrível.
Um beijinho à Zélia, não é que ela não me veja todos os dias, muitas vezes, mas na rádio nem sempre cumprimento. Então hoje temos dúvidas, estamos no dia das dúvidas. Uma delas é muito interessante e eu recebo muitas vezes. Outra é muito particular em relação a um caso que tivemos nos últimos dias aqui em Portugal, mas já lá vamos. Então a primeira dúvida é de Manuel Rosas, que nos pergunta: por que razão nós dizemos ministro e não ministro, e dizemos Felipe e não Felipe? Quer dizer, dizemos.
Dizemos. Eu já ia dizer. Eu digo ministro e digo Felipe e digo Felipa.
Portanto, não é geral em todo o país, mas devo dizer que é um fenômeno muito antigo.
Antes de entrares aí, eu queria só perguntar, porque isto é um mal aqui da zona centro? As pessoas têm mais tendência a dizer desta forma, é um mal desta zona em específico?
Não, eu diria que já foi até mais alargado e é provável que esta forma de dizer até se tenha reduzido. O que eu quero dizer com isto?
Dizer é outra, há pessoas que dizem dizer.
Sim, mas aí já não tem tanta justificação histórica como a do ministro e do Felipe. Antes de mais, só um ponto prévio, como se diz no Parlamento.
Vamos lá.
Ou nas reuniões. Estes fenômenos fonéticos existem em muitos casos. Quer dizer, nós temos, por exemplo, por que nós dizemos "féria" e não "féria"? As palavras que vêm do passado, do latim ou ainda do passado mais remoto, foram sofrendo alterações, algumas delas sistemáticas, estudáveis, entre aspas, esta palavra é feia. Ou seja, no sentido em que são sistemáticas, existem muitos destes fenômenos, nós aprendemos na escola, todos eles podem ter um nome. E, neste caso, nós temos um fenômeno de dissimilação, ou seja, quando num certo ponto da história tínhamos duas vogais muito parecidas, a tendência dos falantes em português, ou pelo menos em certas zonas, foi de distinguir as duas vogais. Ou seja, onde tínhamos ministro, passamos a ter ministro, em que uma delas se torna diferente, torna-se num "e". Isto aconteceu com muitas palavras, vizinho, por exemplo, em vez de vizinho. Agora, perguntas tu: isto é um mal da zona centro? Já foi usado ao longo da história da língua.
É mais abrangente que isso.
É mais abrangente, nós vemos na escrita. Até 1911, não havia um padrão ortográfico bem definido e as pessoas escreviam um pouco como queriam. Claro que já havia uma certa tradição e, por isso, não é de forma tão simples como eu estou a dizer, mas ao longo da história, as pessoas aproximavam-se da maneira como falavam, afastavam-se, e nós vemos no registro escrito da língua, muitas vezes, a palavra escrita como vizinho, por exemplo. Está escrito em vários pontos do país, não é só no Sul, nem no Centro. Ou seja, nós sabemos pela escrita e pelo fato de as pessoas poderem escrever um pouco à vontade, que estas palavras já eram ditas assim há muitos séculos, logo no início da língua. Mas também havia vizinho, com I. Ou seja, sempre houve esta variação, sempre tivemos as duas formas. Principalmente na zona centro e de Lisboa, cristalizou-se a dissimilação. Dizemos ministro e não ministro. No Norte, é mais habitual ouvirmos ministro e não ministro. Curiosamente, o mirandês, que é outra língua.
Sim, e que falamos muitas vezes aqui.
Falamos muitas vezes aqui, tem esta dissimilação na escrita. O que também mostra que estes fenômenos também estão pra norte, mesmo noutras línguas. Portanto, a razão é esta: os falantes, a certa altura, tal como nós também deixamos cair o N em lua, dá estes fenômenos todos, também houve este fenômeno em Portugal de dizer ministro em vez de ministro e faz parte da história da nossa língua. Não é um erro, mas não é geral, como estamos a dizer.
Então, por exemplo, eu que digo ministro, não posso corrigir uma pessoa que diz ministro.
Não, desculpa.
Ok, pronto. Era só isso que eu queria saber.
Querias corrigir.
Não, porque às vezes entramos em-- lá está.
Tu podes ter em português um ministro de sapatilhas ou um ministro de tênis.
Sim, eu acho que o nosso primeiro ministro
Tu disseste ministro.
Agora disse ministro.
Se fores ouvir bem, com atenção, tu às vezes dizes ministro. Já estás em Lisboa há muito tempo.
Luís Montenegro acho que diz ministro, não diz minístro. E ele é do norte, é de Espinho.
É daqueles casos em que-
Mas lá está, as influências.
Mais uma vez, a variação muitas vezes não é uma fronteira que se desenha no mapa, mas sim a frequência. Ou seja, é muito mais frequente numa zona, mas não quer dizer que não haja pessoas que digam de outra maneira naquela zona e depois as frequências vão mudando pelo território fora.
Bem, digam como quiserem. Está tudo certo.
Vamos avançar. Não sei quanto tempo é que temos.
Ainda temos.
Ricardo Martins Pereira, o Arrumadinho, enviou uma mensagem a perguntar se eu podia falar aqui de um tema que lhe era muito caro. Ele mandou-te cumprimentos.
Sim, eu conheço bem o Ricardo. Já trabalhei com ele.
E ele enviou-me uma questão que tem a ver com o caso da Cristina Ferreira, do que foi dito sobre a violação. Acho que quase todas as pessoas sabem do que estou a falar.
Sim, toda a gente sabe sobre isso.
E ele pergunta-me se a desculpa que foi apresentada de que é só uma pergunta, se é válida. Ou seja, quando uma pessoa está a conversar sobre um caso, sobre o que for, e faz uma pergunta, por exemplo: "Mas será que isto é válido, dizer que é uma pergunta?" Será que temos, como no Monopólio, carta para sair da pergunta? Claro que cada caso é um caso, mas o que eu devo responder aqui é que não, não é válido em geral. O que é uma pergunta retórica? Uma pergunta retórica é uma pergunta que quer afirmar uma coisa, na forma de pergunta. Não estou a dizer que foi o caso, mas a verdade é que não é uma desculpa geral. Nós podemos fazer perguntas que são, como é que eu vou dizer, elas próprias declarações, que podem ser, como todas as declarações, criticadas, problematizadas e também questionadas. Portanto, a minha resposta ao que o Ricardo pergunta, a pergunta dele é uma pergunta sobre perguntas. Será que dizer uma pergunta é uma desculpa? Não é.
Uma justificação.
A própria pergunta dele, obviamente, está já como uma afirmação.
Exato.
Com a qual eu concordo. Nós também fazemos perguntas para afirmar, perguntas para questionar e perguntas para picar os outros a concordarem conosco. A língua tem várias estratégias que são, por vezes, mais ou menos escondidas. E neste caso não é escondida. Nós fazemos perguntas também para tentar levar os outros a concordar conosco. "Mas tu achas mesmo?" E por isso não é uma desculpa. No fundo, eu não estou a comentar este caso em particular, embora possa dizer que pessoalmente também achei a declaração muito negativa.
Infeliz.
Muito infeliz, para sermos brandos. Mas não é uma questão só daquele caso em particular. Em geral, as perguntas são também formas de declarar coisas ou de dizer coisas. Temos, por exemplo, o que é o método socrático? Nos diálogos de Platão em que Sócrates faz perguntas, ele está a fazer perguntas com a intenção de levar os outros a pensar e, se for preciso, a mudar a sua opinião. A pergunta muitas vezes está grávida de qualquer coisa, já quer que a pessoa diga alguma coisa ou já está a afirmar qualquer coisa.
Um abraço para o Ricardo Martins Pereira, que o conhecemos bem e fez questão de fazer esta pergunta e que tu fizeste também questão aqui de esclarecer, Marco. Nós estamos de saída, voltamos no domingo, mas dúvidas, diz-me.
No domingo, vamos falar de uma viagem que eu vou fazer e de um dia especial que vai acontecer para a semana e que vamos ter um episódio especial, mas fica já dito.
Fica aqui em jeito de antecipação aquilo que vamos ter no episódio de domingo e nos próximos. Dúvidas a enviar para o e-mail. Marco Neves.
O que é?
Ficou agora, como é que se costuma dizer? A viajar na maionese, navegar na maionese.
portugueslava@observador.pt.
Mas isto é bom em rádio, às vezes assim um silêncio funciona bem, a pessoa fica logo em alerta.
Algumas perguntas também têm, muitas vezes, significados. O silêncio também, embora este não tenha significado nenhum. Foi uma paragem de ser normal. E o telefone, qual é que é?
O número de telefone é o 910 024 185. Enviem-nos áudios, mensagens de voz até 30 segundos para o nosso WhatsApp, para depois discutirmos aqui no próximo episódio de quarta-feira. Marco Neves. Até lá, até domingo.