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79 episódios depois, um ano de "Português Suave". Tudo começou a 15 de setembro de 2024. E que viagem foi esta! Foram muitas as expressões, muitas dúvidas, regionalismos, as lutas que muitas vezes até se instalaram em conversas de café ou até mesmo nas caixas de comentários de cada episódio, neste que é o programa que todas as semanas ajuda a descomplicar a língua portuguesa. Este é um episódio especial para celebrar um ano de aniversário. Olá, Marco Neves. Olá, Zé. Eu sou o João Costa e Silva. Sejam bem-vindos.
Olá, bem-vindos. Estamos aqui um bocadinho.
Estamos nervosos hoje. Podemos admitir.
Nós temos muitas vezes dificuldade, ou muitas pessoas confessam que têm dificuldade em traduzir algumas expressões inglesas que nós usamos e que, por vezes, por facilidade, acabamos por usar. E há uma expressão inglesa que eu acho que tem uma tradução muito boa, mas que por vezes já oiço por aí, que é starstruck, quando estamos a ver alguém que já conhecemos há muito tempo e hoje estamos um pouco assim. Ia vos perguntar se tem alguma tradução, como deve ser.
Pouco quieto, talvez?
Exato. Poderia ser. Há quem diga deslumbrado, mas deslumbrado tem sempre um pico de negatividade que eu acho que o starstruck não tem.
Temos de arranjar uma expressão que consiga trazer isso. E quem é que temos conosco, que ainda não se pronunciou? Alguém que trata o humor por tu e que, no fundo, eu acho que não gosta nada de apresentações pomposas. Ricardo Araújo Pereira, bem-vindo aqui ao "Português Suave".
Muito obrigado, eu é que agradeço o convite. Marco, qual será a melhor tradução para starstruck? Seja qual for a tradução de starstruck.
Que é até difícil dizer, não é?
Eu acho que não se aplicaria. No sentido em que eu não sou exatamente uma star. Veja a maneira como eu estou vestido.
Cá em Portugal, a estrela aqui é mais o Marco, hoje.
Exatamente. Isso, sim. Aposto que na academia, no mundo da academia, aposto que os linguistas quando se reúnem, dizem uns para os outros: "Vai ali o Marco Neves. Já viste o livro dele? Já viste a forma como ele abordou a gramática?"
Não, mas se eu perguntasse a alguém quem é que são as pessoas estrelas em Portugal, eu acho que o Ricardo Araújo Pereira aparecia.
Depende da pessoa a quem perguntasse, acho eu.
Eu fiz a experiência com o meu filho mais novo e lamento dizer, ele tem 12 anos, eu disse: "Conheces o Ricardo Araújo Pereira?" E ele: "Não".
Pois, lógico. Está a ver? É isso.
E eu: "A tua cultura está a precisar de umas aulas".
Não, está ótimo assim, não prejudica o desenvolvimento dele.
Mas agora já sabe. Lá está. Ele já sabe quem é.
E vai ouvir, Marco.
E vai ouvir. Vai ter que saber.
Entretanto, nós estamos aqui hoje para celebrar este um ano de "Português Suave" e decidimos fazer aqui uma maldade ao Ricardo Araújo Pereira, porque também já fizemos isto aqui no nosso programa, as palavras mais bonitas, as palavras mais feias. Ou podemos dizer menos bonitas também, da língua portuguesa.
Ao Ricardo, se imaginas qual é a palavra que as pessoas votaram como mais feia do português.
Mais feia?
Sem as nejas.
Sem as nejas. As nejas estão fora do ar.
Há umas que são muito pesadas. Vocês fizeram uma espécie de zonagem.
Fiz há uns tempos, ainda antes do programa, e depois revelei aqui. Eu posso dizer daqui a pouco.
Sim, por acaso não tenho ideia de qual seja.
A mais bonita foi muito, como é que eu hei de dizer?
Nós ficámos deleites na altura.
Aposto que a mais bonita tem mais a ver com o significado. Pode ser amor.
É mais portuguesa, aquela palavra.
Saudade?
Saudade.
Saudade, sim.
A mais feia é, posso revelar aqui?
Podes.
Badaloco.
Badaloco, que pra mim é a palavra mais bonita, badaloco. Porque não é pelo significado, é pela forma como se diz. Badaloco, eu gosto mesmo de dizer a palavra badaloco.
Lá está, é mais pelo que significa, não a forma como é dita.
Eu depois tenho aquela que eu odeio, mas eu gostava de ouvir primeiro a do Ricardo, as mais feias. Não sei se queres revelar a tua.
Eu não tenho um ódio assim tão grande a palavras, mas quer dizer, há umas que eu acho, digamos, inestéticas. Tenho apreço por elas porque também são cômicas.
Pois.
E a questão é essa. Há um livro do Campos de Carvalho, um escritor brasileiro, que se chama "O Púcaro Búlgaro". E é óbvio que ele escolheu aquele título. Aliás, o púcaro búlgaro é o protagonista do livro, é um púcaro búlgaro. Podia ser outra coisa. E é um púcaro búlgaro porque as palavras fazem um barulho engraçado.
Parece um púcaro a cair de uma mesa.
Exatamente isso que disse. E isso é curioso, que uma palavra esdrúxula pareça uma coisa a cair. É por isso que, por exemplo, na construção do Chico Buarque, todas as últimas palavras são esdrúxulas, ou seja, "ele caiu como um pacote flácido, morreu na contramão atrapalhando o tráfego". Essa ideia de acento na antepenúltima sílaba, realmente dá uma sensação de objeto a cair.
Que é difícil de explicar por quê, mas tem que ver com o acento e depois há qualquer coisa que continua.
Exato. E como a música fala precisamente de uma pessoa que cai de um andaime, aquilo é perfeito. E é triste pra nós pensar que falantes de outras línguas não vão perceber isso. Mas é isso, o púcaro búlgaro são duas palavras que têm graça. Se ele dissesse o balde moldavo, as palavras têm menos. São átonas, não têm a mesma capacidade. Palavras que eu consideraria menos estéticas, por exemplo, bidé, aspire Fagote, pífaro. São palavras que nós ouvimos e rimos, por quê? Exato. Eu gostava só de dizer que isto é daqueles pontos, quando nós muitas vezes falamos sobre a diferença entre as línguas, vamos sempre cair: "Ah, português é a única língua que tem saudade." Não é bem assim. Quando, na verdade, aquilo que de fato distingue as línguas são estas coisas muito materiais, que depois levam que um escritor escreva daquela maneira e não de outra, escreva que se faça um poema daquela forma e não de outra. E que são dificílimas de traduzir. Muito difíceis de traduzir. Justamente. Mas depois os tradutores também pegam nisso e conseguem criar coisas novas na sua língua. É quase como se as línguas se picassem umas às outras. Mas é aí que está a diferença, no material da língua, não naquelas coisas muito etéreas da saudade e da alma portuguesa. Quer dizer, nós percebemos onde é que isso vai, mas não é o mais importante, sinceramente. Então diríamos que a terceira, mas vamos escolher qual é a terceira mais feia. Eu não sei. É a tal coisa. Púcaro. Eu diria que pífaro. É incrível como a quantidade de instrumentos musicais que têm nomes, fagote. Nomes parvos. Sim, cornetim. Cornetim é muito bom. Sim. Gosto particularmente de oboé, flautim. Flautim. É verdade. Por que isso tem graça? Eu não sei bem. Quem é que se juntou um dia para inventar os nomes dos instrumentos musicais? Por que que o xilofone é xilofone? Eles foram sendo criados ao longo do tempo. Mas há um caso, uma palavra, que foi, normalmente, e isto é o que nós sabemos hoje, as palavras não são criadas por ninguém. Quer dizer, são criadas, mas não há um comitê. Exato. Mas houve um comitê que decidiu mudar uma palavra portuguesa, que está registrada, e é uma história muito engraçada. No final do século XVII, houve um grupo de intelectuais que se juntou na casa do Conde de Ericeira, na altura, porque não gostavam de uma palavra. E queriam encontrar uma palavra nova, que era a palavra cagalume. Ah. Cagalume não podia ser. Eles não gostavam de cagalume e optaram por pirilampo. E estiveram a discutir, foram buscar: "Na Grécia tem ali piri, lampo." E inventaram o pirilampo. E naquele caso resultou, porque as pessoas hoje dizem pirilampo com muito mais frequência do que cagalume. É por acaso uma alteração feliz. Ficamos com duas. Não sei bem. Cagalume é útil, muito útil. É útil. E no diário do José Gomes Ferreira, a certa altura, ele diz que o seu filho, acho que é o Raul, o seu filho era pequeno ainda, eles saíram da cidade e foram pro campo, e os miúdos lá do campo não dizem pirilampo, e disseram cagalume. E o filho do José Gomes Ferreira registra ele, disse: "Não se diz cagalume, é faz-cócó lume." Mas sim, cagalume é uma coisa tão... Tão expressiva, tão visual. Exatamente. O comitê de sábios que inventou o pirilampo, tenho respeito por pirilampo, por acaso está bem feito. É uma vaidade bonita, mas não é cagalume. Mas não é cagalume. Cagalume é das melhores palavras, lá está inventada, não pelo comitê limitado. Sim, por uma comunidade. Pela comunidade que achou que cagalume explicava bem o que aquele inseto fazia. Exatamente. Isso mostra que cada português acaba por ter uma certa relação com a língua portuguesa. Há palavras que gosta mais, palavras que gosta menos, e eu gostava de saber, Ricardo, qual é que é a tua relação com a língua portuguesa? É muito estável, é antiga. É complicada. Eu não diria que é complicada. Eu tenho uma espécie de obsessão pelas palavras enquanto conjunto de barulhos, mas também pelas palavras enquanto signo. Vão me corrigindo, certamente. Enquanto signo que não tem nada a ver com o referente, ou seja, a palavra mesa, que é este objeto que temos à nossa frente, estas quatro letras não indicam em nada. Arbitrariedade. Exato, uma coisa completamente arbitrária. Na nossa língua, então, é do gênero feminino, por uma razão também arbitrária. Outras vezes, as palavras têm, na sua origem, qualquer coisa que, por muito que se tenha dissipado, e muitas vezes dissipa-se, mas indica qualquer coisa que me fascina. No outro dia eu fiquei entusiasmadíssimo quando descobri que quando a gente diz a palavra músculo, está a falar de um ratinho, porque a palavra mus, em latim, significa rato, culo. Ao contrário do que significa em espanhol. Em espanhol. É um sufixo que indica pequenez, como em quadrícula, pículo. Portanto, é um pequeno ratinho que se mexe. Exatamente, porque eles achavam que este movimento que os músculos fazem parecia um rato a percorrer o corpo. Eu há pouco descobri, e há muitas origens dessas muito curiosas, como por exemplo, pensar que a palavra filho, antes ainda do latim, vem de uma palavra que quer dizer sugador, o que mama. É o filho. Exato. Há pouco, uma colega minha, por acaso foi mesmo hoje, enviou-me a dizer: "Tu sabias a origem da palavra cuecas?" E eu: "Não, por acaso não." Vais partilhar? Não, não vou partilhar. Aquilo vem de dois elementos, um latim, outro grego, culo, ânus, e depois o ecas vem de domicílio, o domicílio do ânus. Não posso. Isso é mesmo assim. É que às vezes há umas etimologias falsas. Não, mas esta, eu não fui ainda a todos, ó José Pedro, mas assim uma primeira análise muito rápida, aquilo pareceu-me ser legítimo. Eu vou ter de confirmar. Esta ligação é caricata. É o que eu vou fazer quando for pra casa. A caminho de casa. Mas pronto. Depois, também há as etimologias falsas, como muitas vezes discuti. Há uma que acho muito curiosa, que é a ideia de que aquele grande palavrão que não podemos dizer aqui, porque isto é um programa familiar, que vem do sexto gávio. É completamente falso. Vem mais facilmente de carax, de vara. Exato. Há várias hipóteses, mas é completamente falso que venha dos escandinavos, porque quer dizer, nós na literatura medieval já tínhamos lá os jograis a dizer aquela palavra e queria dizer órgão sexual, mas culiam claramente. Mas eu já tive muitas pessoas a dizer: "Ah, mas a história falsa é muito mais interessante." E eu: "Ah, mas se for por isso." Inventa-se para tudo. Inventa-se outra coisa. Eu acho que isso é um problema que nós temos hoje até do ponto de vista político. Às vezes as histórias falsas são muito mais interessantes do que as verdadeiras. Se for a questão de ser interessante, nós inventamos outra. Mas enfim. Meus caros, não falaremos para já de festivais na Alemanha, vamos falar de língua portuguesa, que é tão rica em trocadilhos e expressões populares. Isto para ti, Ricardo, também no teu ramo de trabalho, és humorista, isto facilita, acredito que sim, ou complica ainda mais o teu trabalho? Não. Sim, eu acho que enriquece, eu acho que é mais um fator. Aliás, a minha A primeira obsessão, não sei se é a única, mas é certamente a primeira, é a linguagem, é a maneira como as pessoas se exprimem. Por exemplo, quando eu ouço uma pessoa a dizer assim: "Eu estou farto de certas e determinadas pessoas." E eu gosto imenso dessa expressão, porque diz lá certas e determinadas, mas elas permanecem incertas e indeterminadas. Exatamente o contrário do que a pessoa está dizendo. Exatamente. Uma pessoa consegue estar a ser muito específica, continuando a ser perfeitamente vaga. E redundante, é certas e determinadas. Exatamente. Quando quer dizer precisamente o contrário. E eu também acho muito engraçado, na literatura, por exemplo, isso vê-se muito como há escritores que conseguem pintar a personagem com isto, com a forma como usam as palavras. E nós todos temos isto na nossa cabeça de forma intuitiva, mas depois há pessoas que conseguem fazer isto, e o Ricardo é um deles, de forma artística. Ou seja, com uma ou duas expressões, nós temos ali a personagem. Exato, a personagem fica definida. Eu no outro dia estava a falar com uma pessoa muito culta, sofisticada, não havia nenhuma dúvida sobre isso, e ela tinha acabado de dizer uma coisa muito desse tipo. Sofisticada. Palavra cara. Exatamente, que requeria bastante estudo. E depois fez-se um silêncio e pareceu-me que a pessoa pensou: "Se calhar, eu fui longe demais e estou a dar uma ideia de mim próprio que não era bem a que eu quereria." E então, logo a seguir, disse: "Por causa que." E pareceu-me que tinha sido uma maneira de- Há um botão que vai aumentar o nível de prestígio ou de amabilidade. Pareceu que ele tinha querido juntar um tracinho de limão. Só para não parecer assim demasiado sofisticado. Muito bem. E ainda nos falta: qual é a palavra mais feia da língua portuguesa? Acho que o Ricardo só disse a terceira, não foi? Aquelas que eu indiquei. Por exemplo, a palavra bidé, que na verdade são dois barulhos, um para cima e outro para baixo, dá a sensação. É verdade, no outro dia vi, quando estava lá em Paraty, no Brasil, vi uma coisa que eu tenho a certeza que vocês em princípio conhecem, mas eu não sabia. Foi um espetáculo do Gregorio Duvivier, em que ele disse: "Isto é com as sobras do espetáculo O Céu da Língua." É muito bom. E ele disse uma coisa, que para ele é uma experiência linguística, que é: ele projetou duas formas. O buba e o kiki. Exatamente. Acho que é kiki. Esse é um dos pontos que está a levar- E balba, é uma coisa assim ...exatamente. Um dos pontos que está a levar alguns linguistas a pôr em causa aquele princípio que falámos já aqui hoje, da completa arbitrariedade do signo. Parece haver alguns universais, ou seja, quando uma pessoa vê uma coisa pontiaguda, associa muito mais ao I do que ao O. A determinados sons. Exato. E isso parece ser um pouco uma contradição em relação à tal arbitrariedade. Não nega a arbitrariedade. Não nega, claro. Mas há sons que são associados a formas de maneira universal. Exato. O que é muito curioso. Era incrível. Ele projetou essas formas, uma cheia de picos, uma espécie de estrela, e depois outra assim mais arredondada, e disse: "Vocês associam este conjunto de barulhos, kiki e balba, a qual?" E era esmagadoramente, balba era a forma arredondada e kiki era a forma pontiaguda. E curiosamente, as nossas letras reproduzem isso. O O é arredondado e o I é pontiagudo. O próprio K também tem ali, suponho que seja kiki com K. Com K, exatamente. O próprio K também tem essa conotação. É uma coincidência, mas depois temos estes sinais de que há qualquer coisa por trás que nós não compreendemos inteiramente, e por isso é que eu gosto também desta área, porque a área da linguística e das línguas é qualquer coisa que nós usamos todos os dias e não conhecemos inteiramente. Há muita coisa para descobrir por trás, como é que isto funciona. Às vezes instintivamente, isso adquire-se. Há uma velha lição dos comediantes de vaudeville, daqueles que andavam naqueles palcos itinerantes. E essa lição é: palavras com K têm graça. Pickle tem graça. Tomato não tem graça, porque é átona. E a palavra pickle. Pickle tem. Exatamente. Ou mami tem graça. Palavras que tenham o som K. E às vezes são vistas como feias, por outro lado. E nós sabemos, a própria palavra que os miúdos: cocó. Cocó parece- Sim, esse é o melhor dos exemplos, no fundo. E eles gostam mais de cocó do que de xixi. O cocó tem ali aquela coisa de- Sim, o cocó tem outro estatuto. Tem outro estatuto. Tem aquela questão da forma como é dita, também está muito associada, da mesma forma que kiki. Recorda-me só. É tipo balba. É buba. É qualquer coisa que tenha O ou U. O xixi também acaba por estar bem ligado ao que depois acabas por fazer. Sim, pois, é verdade. E são, no fundo. Essa foi a nossa promessa ao fim do ano deste programa, nós íamos dizer cocó. Xixi. Eu sabia que a minha presença aqui ia fazer descarregar. Eu apenas sigo as vossas indicações, meus caros. E falta-nos ouvir então, Ricardo, a terceira palavra. Bífaro ou mais? bidé. Acho que é bidé. Não é? A palavra mais feia para ti. Sim. Pois, eu tinha juntado aqui aspira, pipo e fagote, mas eu acho que bidé. Ficámos com mais. E bidé depois tem aquela confusão que uma pessoa quando não sabe, um americano. Às vezes chega a um bidé e fica: "O que é isto? Para que é que serve?" Exato. É tão confuso para eles. Eu posso só dizer que a minha, já tinha dito aqui no outro programa, e aí eu descaio para a questão do significado do referente, digamos assim, é escarro. Escarro. Mas é uma boa escolha, porque realmente- Tem ali aquele que, o rrr, e depois por trás, o referente. Escarro, não há dúvida nenhuma. É uma das piadas. Aliás, a propósito disso, também vamos falar das mais bonitas. Sim, é na segunda parte. É na segunda parte, OK, vamos a isso. Aqui há um senhor chamado, provavelmente o Marco, vocês conhecem-no certamente, eu não sei se conhecem, é um senhor do século XVIII, um poeta alemão chamado Gottlob Wilhelm Burgmann, que odiava a letra R. O objetivo dele era tornar a língua alemã mais doce. Atenção, como nós sabemos, acho que sabemos todos, que a letra R não é culpada disso. E que o sonho comanda a vida. Exato. E ele odiava de tal forma a letra R, ele chamava-se Burgmann, durante anos, décadas, recusou, apresentava-se apenas com os dois primeiros nomes, que não tinham R, escreveu poemas sem a letra R. Reparem, nós temos, para já, a letra R em palavras que são consideradas bonitas, como amor, amanhecer, coração, primavera. Mas quase sempre é aquele R. Mas mesmo a palavra sussurro, que aliás indica. O que é. Sim, sussurro. Tem a sua beleza. Claro que em alemão, os alemães são célebres por, aparentemente, não falarem, atirarem-nos palavras à cara. Exato. Sim, de uma forma mais não tão simpática. Eu não sei alemão, mas por vezes oiço alguns alemães recitarem poesia e penso: "Isto às vezes." Nós associamos muito ali a certos discursos, de certos personagens. Não há dúvida. Havia um sketch no "Dana Carvey Show". Era um sketch muito simples, era o Dana Carvey e o Steve Carell juntos e o sketch chamava-se "Alemães Dizem Coisas Simpáticas". E era só isso. Eram eles os dois a dizer coisas muito simpáticas com sotaque alemão. "Foi um prazer fazer babysitting ao Kevin." E era a demonstração prática de como, seja o que for, dito com sotaque alemão, por muito simpático que seja, se torna agressivo. Isso é uma coisa, de facto, fascinante. Aqui ninguém é agressivo e precisamos, depois disto, fazer aqui uma curta pausa. Vamos às notícias e já voltamos com a segunda parte deste episódio especial do "Português Suave". Segunda parte, episódio especial de "Português Suave", que hoje, dia 15 de setembro, comemora um ano de aniversário. O Marco Neves faz anos amanhã, portanto, não vamos dar azar, não te vamos cantar os parabéns hoje, mas hoje temos, sim, para comemorar este marco no nosso programa, o Ricardo Araújo Pereira, que já nos fez questão de trazer o top três das palavras mais feias. Bidé ganhou, não foi? Sim, bidé ganhou. Mas escarro ficou ali. Não, atenção, escarro, eu acho que escarro é uma melhor escolha. Isto é uma lista infinita, no fundo. Porque se calhar vais a caminho de casa e vais encontrar outra palavra. É isso. Que te vai irritar. Posso comentar aqui uma coisa. Nós já fizemos episódios sobre as palavras feias e bonitas, e eu também já fiz vídeos nas redes sociais sobre este tipo de coisas, e há um fenómeno curioso: as pessoas têm muito mais interesse pelas palavras mais feias do que pelas bonitas. Sim. Isto tem algo que ver com a forma como a língua portuguesa nós usamos tudo. E para o humor, então, as palavras feias são muito mais. São muito mais apelativas. Eu acho que um bom método de nós percebermos se uma palavra é bonita ou feia é imaginar que a púnhamos a um filho. Como nome? Como nome, sim. Escarro. Escarro é óbvio que não podia ser. Com um filho, talvez não, mas com um animal de estimação, com um gato, talvez fosse possível. Mesmo assim, escarro, um filho chamado bidé, descabido. Um gatinho chamado bidé, não é tanto. Agora estás-me a pôr em trabalhos apertados, porque eu já. Escarro não conseguimos. A questão é essa, é que as palavras que eu escolhi são estéticas, mas têm um potencial humorístico. Eu acho que essas para animais de estimação servem, mas, por exemplo, ninguém diz: " Escarro, anda aqui." Ninguém faria isso. E badalhoca. Pois, é que agora estou a ficar em trabalhos apertados, por quê? Porque há bocado disse que badalhoca era a palavra mais bonita pra mim, agora estou a pensar pôr o nome ao filho. E acho que não era tão bom. Quando o professor fizer essa chamada. Eu estou a dizer, não há uma relação entre o referendo. Não, por isso, não soube. Eduardo, Eva, Escarro, Fábio. Era uma chamada interessante. Eu já tive um aluno com um apelido, e eu espero que ele não esteja a ouvir agora, porque quando eu fiz a chamada. Era tão mais interessante se estivesse. Quando eu fiz a chamada a primeira vez, ele: "Não, não, não." Eu estava a fazer chamada e ele chamava-se, eu não vou dizer o primeiro nome. Pão Mol. Mando aqui um abraço ao Pão Mol. Pão Mol. Hífen? Por acaso não me lembro, mas eu acho que era separado. Portanto, Pão Mol, que é o melhor apelido que eu alguma vez vi. No Alentejo, há muitas vezes apelidos desse tipo. Mas Pão Mol, imagino que a mãe não é pão e o pai mol. Se fosse, era espantoso. Mas em princípio. Será tudo ali um já vem do avô. Já vem do avô. Credo, sim. Senão era demasiado mau. Ricardo, e vamos às mais bonitas? Sim. O que tens aí na tua lista? Eu já não sei onde é que li isto, mas eu não sei se foi no Camilo ou se calhar foi num destes antepassados do Marco, um Rodrigo Sanogueira ou uma coisa assim, que disse que uma vez um alemão chamado Link, não tenho o primeiro nome, veio a Portugal no século XVIII, também no século XVIII, e disse: "A expressão mais bonita de todas as línguas é minha menina." Ele disse: "Nunca tinha ouvido nada tão doce." Mas em português. Em português. "Nunca tinha ouvido nada tão doce como a expressão portuguesa minha menina." Eu tinha lido isso e depois, quando Portugal ganhou o Festival da Eurovisão Eu estou ainda hoje convencido de que uma das razões para a popularidade daquela música foi porque a Luísa Sobral, inteligentemente, foi buscar uma quantidade enorme de palavras em português que são sedutoras para falantes de outras línguas, como por exemplo, devagarinho, minha, na expressão "minhas preces", coração, sozinho, meu bem. Ou seja, há ali uma quantidade de coisas, como por exemplo, esses sons nasalados em coração e bem.
Que as pessoas não precisam de compreender.
Exato. E devagarinho, esse tipo de coisas. Eu acho que se não foi de propósito, é uma sensibilidade artística.
Que a canção tem ali uma toada que é, não vamos dizer universal, que não é isso, mas que pode ser apreciada mesmo sem perceber, sem dúvida. Mas é curioso, há pouco estávamos a falar da questão de alguém que odiava, como é que é o nome do escritor alemão?
Gottlob Burmann.
Burmann, que odiava os Rs, e nós tivemos cá várias pessoas que odiavam o ÃO. Chegou a haver livros inteiros contra o ÃO português, mas eram portugueses, nunca eram estrangeiros, porque os estrangeiros até acham muito engraçado este nosso som. Já não gostam tanto dos CH, que nos dizem que nós somos muito eslavos.
Sibilantes e parece russo.
Exatamente, que parece russo.
Então no top três, minha menina.
Eu diria, só que minha menina é uma expressão.
Minha mulher concorda inteiramente, porque ela diz que quando vai ao norte, em que o tratamento por menina ainda é muito comum, que ela fica muito animada por ser tratada por minha menina.
Sim, eu diria que menina, certamente, devagarinho.
Todos os diminutivos, nós temos muitos diminutivos, coisa muito portuguesa.
Exato. Coisa também intraduzível. Em inglês não se pode dizer little slow, nem funciona.
Não, porque lá está, os diminutivos.
Quer dizer, eles dizem slowly.
Mas os diminutivos, nós muitas vezes em discussões linguísticas: "Ah, porque isto não quer dizer..." Às vezes há casos de diminutivos que parecem contraditórios, como os beijinhos grandes. Mas os beijinhos grandes, a pessoa, para achar que é contraditório, não percebe que nós raramente usamos o diminutivo para dizer que a coisa é pequenina.
Pequenina, exatamente.
É outra coisa, tem um significado para lá disso. O beijinho não é um beijo pequenino, é um beijo carinhoso.
Até porque às vezes nós aplicamos diminutivos a coisas que não se podem diminuir, como por exemplo, a gente pode dizer: "Vamos comer um cabritinho". E isso sim, mas quando a gente diz um cabrito assadinho.
O assado não é menos assado que os outros. Oinho é mesmo uma forma que a nossa língua tem do falante se poder pôr lá e dizer que está ali de coração. Curiosamente, o holandês tem diminutivos, que é uma coisa que me faz...
Tem?
Tem, e também usam muito.
E curiosamente, e já agora se calhar isto vai unificar toda a nossa conversa, o holandês, ou seja, como é que chama aquilo? Neerlandês?
Neerlandês, oficialmente seria neerlandês.
Parece, ao mesmo tempo que está a falar, estar a puxar um escarr. E, no entanto, tem diminutivos.
Exatamente. Eles próprios admitem. Sobre os holandeses, eles dizem: "As línguas são todas igualmente bonitas, menos a nossa. A nossa não há nada a fazer."
A presença da expectoração no neerlandês é realmente uma coisa fascinante.
Os diminutivos é para compensar, no fundo.
Se calhar é para compensar.
Para compensar o uso dos escarrs. O Ricardo, o Zé, e tu dominas este tema muito bem, quando fez parte de um grupo icónico chamado Gato Fedorento, que quase ninguém conhece, de certeza.
O filho do Marco não conhece, certamente.
Ele vai conhecer.
Eventualmente.
Por acaso eu acho que até deve conhecer, porque lá está, as redes sociais têm esta coisa, a pessoa vai ver aqueles vídeos que lhe aparecem. Ele não sabe de onde é que aquilo vem.
E nós estamos muito numa era de nostalgia. Às vezes aparece-nos um vídeo e aquilo desperta ali uma série de emoções.
É uma palavra muito bonita. Antes de avançarmos, há este fenómeno, coisas um pouco mais antigas, eu sei que chamar o Gato Fedorento de antigo pode parecer um pouco estranho.
Eu sou muito resistente a isso, não é muito habituado.
Mas que de repente voltam por causa das redes sociais ou dos videozinhos que voltam.
No outro dia, os meus amigos e eu, o Zé Diogo, o Miguel e eu, fazemos um podcast. E resolvemos terminar o podcast sempre recordando um sketch e depois falando sobre ele, as condições em que foi gravado e não sei o quê. E depois isso foi anunciado na televisão e a pivot que estava a anunciar, falando sobre esse momento em que a gente fala de um sketch, disse: "Vai ser um momento de grande nostalgia para muitos de nós." E eu fiquei tão ofendido, que agora nesse momento do podcast eu digo sempre: "Vamos agora a um momento de grande nostalgia para muitos de nós."
Há esse motivo?
É esse o motivo. É uma jovem pivot que disse: "Estas coisas velhas do século XVIII, vai ser giro recordá-las."
Finais do século XX, não é o caso, mas a pessoa diz finais do século XX. Mas eu por acaso tenho uma pergunta sobre língua portuguesa, porque houve uma série de expressões, e todos nós sabemos, isto é quase lugar-comum dizer isso, que nós tínhamos o Herman nos anos 80, tínhamos o Gato Fedorento depois a criarem uma série de expressões que Podem ficar na língua ou não, nós não sabemos, mas a verdade é que são fortes candidatos a ficar na língua. Há alguma destas expressões que julgue que seja?
Há umas que já existiam.
Foram recuperadas ou foram cristalizadas.
Apontámos para elas. Como, por exemplo, o hábito de dizer: "Ai, tal!" Esse tipo de coisa.
Identificaram certas bengalas históricas da língua portuguesa.
Outras coisas que surgiram como, sei lá, o papel qual papel. Às vezes as pessoas dizem esse tipo de coisa.
Eu já vi pessoas mais novas que provavelmente não sabem de onde é que isto vem, a usar.
Isso é excelente.
O que quer dizer que estamos aqui já no segundo nível.
Nós poluímos algum lugar e depois a mancha já se diluiu no resto da água.
E daqui a umas décadas teremos, se calhar, uma pessoa como eu.
Marco a dizer: "Isto vem de..."
Isto não vem do Cesto da Gabi, mas vem de um grupo de humoristas muito importante no início do século XX.
Certamente vai ser descrito assim. Tenho a certeza absoluta. Mas isso é curioso. Eu lembro-me naqueles inícios em que aquele choque motivado pela exposição pública era muito assustador para uma pessoa que era completamente anónima e de repente havia uma coisa que era na rua, cada pessoa me gritava a sua coisa favorita. Papel, papel, 15 a zero. Ai, tal, tu queres sei eu. Cada pessoa dizia a sua.
Isso foi assustador?
Não, assustador só no sentido de: "Olha, está ali uma pessoa que eu não sei quem é."
E que está a usar a língua portuguesa de uma forma que fui eu que a instruí. Tu tens um favorito, Ricardo. Todas essas expressões, alguma que te fique particularmente gravada na memória.
No outro dia, aliás, eu acho que até foi a propósito de uma coisa que tinha a ver com a língua, e quem estava a organizar isso pediu que eu me apresentasse. Aquilo basicamente era um convite feito a pessoas decentes e então apresenta sua obra e as pessoas apresentavam o trabalho acadêmico, não sei o quê. E eu entreguei um sketch em que eu faço a personagem do autor de um novo dicionário da língua portuguesa, que tem palavras que lamentavelmente não estão dicionarizadas.
É o FNI.
Exato, é o FNI, exactamente.
FNI, que é o sentimento de ter a meia presa no calcanhar.
É uma irritação muito específica que não estava ainda, não tinha uma palavra que a designasse. Depois o sketch acaba com: "Mas o senhor onde é que tirou linguística?" "Não, eu sou de físico-química." Não sei se FNI, tendo em conta.
Eu posso dizer aqui duas coisas sobre isso. Quando alguém, há até livros inteiros sobre palavras que foram cunhadas de propósito e a verdade é que se uma pessoa cria a palavra a pensar: "Esta palavra faz falta", raramente não vai resultar. Há um caso muito famoso do Big Bang, o termo para aquele facto.
Científico, a grande explosão que criou o universo.
Um astrónomo que estava, agora não me lembro o nome, os nomes escapam, mas ele estava num programa de rádio a tentar descrever esta teoria, que ele não acreditava nela, a dizer: "Eles acham que houve ali um big bang". E de repente aquele nome pegou e hoje nós usamos.
Ou seja, por um detrator da teoria, é ele que cunha a expressão que depois vai usar.
Que ele não queria. E ficou famoso. Portanto, quando a pessoa quer, raramente consegue.
É isso.
Mas depois, às vezes.
Eu acho isso comparável à antiquíssima discussão sobre o poder do humor, que eu acho que é exatamente isso. É menor do que a gente pensa e é incontrolável.
Pode ter ali uma influência que ninguém está à espera.
Exato, e que até é involuntário. Por exemplo, pode-se argumentar, e eu acho que nos Estados Unidos, o fato de tantos humoristas persistentemente fazerem pouco do Trump, levou a que isso gerasse junto de alguma parte do eleitorado um sentimento.
Uma certa simpatia.
Exatamente. Eu acho que isso não significa que eles não devessem ter feito o que fizeram, porque eu acho que eles devem estar borrifando para isso, para esse suposto efeito.
Há um humorista que é muito famoso, o John Howard.
O John Oliver, será?
Oliver, sim, desculpe. Como eu disse, os nomes hoje.
Starstruck.
Estás de parabéns, Marco. Tens direito a equivocar-te algumas vezes.
Não, mas por acaso eu acho que estou mesmo com um problema grave hoje, porque ainda há pouco me telefonou uma pessoa que eu conhecia e eu não me lembrava do nome dela. Conheço muito bem.
Como é que resolveste? "Olá, amigo."
"Meu caro amigo." Acho que normalmente é isso. Foi grave. Eu acho que devia ter uma palavra para isto. Mas o Oliver uma vez passou um sketch, um sketch não, uma parte do programa dele em que há uns anos, o Trump disse alguma coisa como: "Eu deveria candidatar-me a presidente." E ele disse no programa: "Força, força, vai ver como é que isto vai correr." E ele diz: "Peço desculpa." Não era.
Não era seu o culpado.
Era se calhar ele.
Ricardo, disseste a terceira, minha menina, devagarinho, vamos completar esse top.
Esse top, eu acho que tinha dito aqui, deixe-me ver se eu tenho.
Padalhoca.
Isso era ótimo.
Já falamos tanto hoje de padalhoca.
Era giro ser pífaro, ser uma das minhas, mas sei lá, coração.
Lá está, as mais bonitas não são tão interessantes.
Sim, pois é, não têm tanto. Mas realmente, esta ideia de as minhas filhas estudam no estrangeiro e então às vezes trazem para casa namorados que são de outras nacionalidades. E teve cá agora um americano conosco durante algum tempo. Aliás, foi curioso porque ele nas três ou quatro semanas em que cá esteve, comeu mais peixe do que no resto da sua vida toda. Conheceu sardinhas, outra boa palavra, aliás. Sardinhas e adorou aquilo. É muito fácil impressionar, por exemplo, americanos com gastronomia em geral e sardinhas em particular. Mas a dificuldade que ele tem para compreender que o som é possível fazer. Não consegue fechar o nariz, não é? Não consegue. E fazia-lhe lembrar um carro a alta velocidade que passa por nós. Era isso que a palavra João, por exemplo, lhe fazia lembrar. Era João. E conseguiu depois? Não, não consegue. Hão de ser anos de tentativas. Pois é, curioso como nós temos sons que dizemos todos os dias e há outras pessoas que não. E lá está, fisicamente nós não somos diferentes. Há ali o treino de muitos anos para conseguirmos fazer isto. Eu posso dizer já agora, como disse há pouco, a minha mais odiada. Não é odiada. A que achas mais feia. A que eu gosto mais, e também já disse aqui uma vez, por isso isto é uma recuperação do que fomos dizendo, é azul. Azul. Sim. Por vários motivos. Acho que o som é bonito, a cor também gosto, mas principalmente, não futbolisticamente, já agora, isso somos colegas. Mas também pela história, porque é uma palavra que, sabendo a história, nós sabemos que ela vem do persa, porque havia uma rocha que era minerada nas minas do Afeganistão há mais de 10 mil anos. Esta rocha, o lápis-lazúli, foi sendo transportada pelas rotas da seda, pelo árabe, depois do árabe foi para o latim e depois do latim chegou ao português. Esta história é quase impossível não querer que aquela palavra seja bonita. E ela é bonita também, independentemente da sua origem. Fica dito. Depois com outras variantes de azul é que é mais complicado. Em que sentido? O azul, o azul-marinho, o azul-petróleo. Azul-turquesa. O meu espectro cromático não consegue se encaixar. Ficamos só com o azul. Sim. Ricardo, se tu pudesses inventar uma nova palavra portuguesa? Então temos o tal "fni". Sim. Mas sem ser estas que já temos aqui. Eu tenho inventado várias. Na gíria. Sim. Por exemplo, ontem inventamos uma. Nós estávamos a falar sobre um antigo primeiro-ministro que está com problemas na justiça. Não sei se já ouviram falar. É um grupo relativamente . Exatamente, mas era um mais específico e o que acontecia era que estávamos a verificar que muitas vezes ele é apanhado a dizer uma coisa e depois faz uma interpretação daquilo que disse. Não é exatamente aquilo que nós queremos. Que nós estamos à espera. E então nós inventamos um dicionário, como há os dicionários de português, inventamos um dicionário de "furtuguês". Porque era aquela linguagem, pareceu-nos que "furtuguês" era um nome apropriado. Por acaso esse primeiro-ministro que estávamos a falar tem uma forma de falar muito própria. Até é, aquela cadência, não sei se é para hipnotizar ou para levar as pessoas a acreditar numa determinada narrativa, mas sim, tem uma cadência própria. E mais, não só a ver com o tom. Eu também gosto muito do tom. A ideia das pessoas que integram uma determinada classe profissional saberem: "Na minha profissão, fala-se desta maneira, com esta musiquinha". Ou seja, eu sei que se eu trabalho num supermercado, quero chamar um patinador à caixa central, eu digo: "Patinador à caixa central." É esta a música que eu uso. Se eu estiver no Parlamento, vou falar de outra maneira, ou no palco de um comício para mobilizar as pessoas, adoto esta música. E assim sucessivamente. Mas o Sócrates, além da musiquinha dele, quando ele quer falar, por exemplo, das calúnias que são lançadas contra ele, ele usa muitas vezes: "Isto é um lamaçal de vitupérios." Tem ali um dicionário muito próprio. Exatamente. Sim. E há pouco já tínhamos falado disso. Nós usamos a língua para comunicar. Isso acaba por ser tão limitativo, quando as pessoas dizem: "A língua serve para comunicar." A língua também nos identifica pela profissão, o grupo, a terra, o grupo de amigos. E isto é também material literário, porque o material literário não é só as palavras, é também a forma como as pessoas falam. Nesse sentido, o Ricardo faz literatura. Sim. É num sentido mesmo muito específico. Mas sim, eu lembro-me de, muitas vezes, quando estou a ler Camilo. "A Queda de um Anjo" tem aquelas cenas do Parlamento em que a pessoa sabe, nem precisa fazer. Ele fica definido, por exemplo, o Calisto Elói fica definido pela maneira como intervém, assim como os seus adversários, atenção. Há um capítulo de "A Queda de um Anjo" que se chama "Virtuosas Parvoíçadas." Que é um título que diz. Exato. Mas eu lembro-me de muitas vezes apanho ali expressões da minha avó, que era uma pessoa que tinha, sei lá, terceira classe, e eu encontro-as. Estavam no Camilo. Exatamente. Porque há aqui um fenómeno, e isso agora dava para outro programa, eu não acredito, até porque há sinais que não é propriamente uma diminuição do vocabulário, mas uma uniformização do vocabulário pelo país todo e o português rural está a desaparecer. Às vezes até a sintaxe, não apenas o vocabulário, a própria sintaxe. Sim, está a ser cilindrado pelo português urbano, porque tem mais prestígio. Exato. E acabamos por perder esse português que nós vemos ainda no Camilo. Sim. Por exemplo, coisas como o verbo sentir significar ouvir. Eu não te senti chegar. Que tem uma dimensão. E curiosamente, depois vamos encontrar esse mesmo verbo noutras línguas latinas, o catalão é um caso, em que ainda quer dizer ouvir, os mesmos verbos. Isso também é muito curioso. Mas pronto, isto agora já dava para fazermos uma nova temporada. Já dava para outro. Mas pronto, o nosso tempo chegou ao fim. Agradecer ao Ricardo Araújo Pereira, que veio aqui ao "Português Suave". Muito obrigado. Episódio especial. Esperemos que até casa encontres mais algumas quantas palavras que te irritem e que voltes. Agora vamos todos investigar cuecas. Um agradecimento especial também temos de fazer neste dia à Filipa Duarte e ao André Maia, que enquanto dupla, em setembro de 2024, no ano passado, começaram esta viagem contigo, Marco. Parte deste sucesso também se deve a eles. E por último, mas não menos importante, agradecer a ti, Marco, pela irreverência, vontade, forma descomplicada de nos explicar o português. Aprendemos sempre muito contigo e, no fundo, também nos divertimos, que é sempre o mais importante. E prova disso é este episódio que tivemos aqui hoje. A Rádio Observador, o "Português Suave", os ouvintes e nós, eu e o Zé, agradecemos de te teres aqui todas as semanas. Eu deixo só o agradecimento ao Zé e a ti, João, e aos ouvintes, que também têm participado muito. Muito obrigado por esta oportunidade. Feliz aniversário ao "Português Suave". Até para o ano, se calhar, estaremos todos. Nós estamos de regresso na quarta-feira, não se esqueçam. Um abraço.