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Quarta-feira também é dia, dia de "Português Suave". Eu sou o João Costa e Silva, está comigo o Marco Neves. Olá, Marco.
Olá, tudo bem?
Bem-vindo.
Bem-vindo. Será que é hoje que me vais ensinar o número de telefone às pessoas?
Eu acho que não podemos prometer coisas impossíveis.
Coisas impossíveis, sim. Hoje é o episódio que nós às vezes chamamos de episódio extra e já houve alguns ouvintes que me enviaram mensagens a dizer: "Mas quando é que vai deixar de ser extra?"
Exato. Como é já tão recorrente.
É recorrente. É um episódio extra no sentido em que temos o episódio habitual ao domingo e depois temos este extraordinário.
Exatamente.
Extraordinário.
Tu hoje queres deixar aqui uma mensagem especial, se calhar depois não temos tempo no final, assim tens mais tempo.
Eu vou dizer que o meu filho Simão faz hoje anos.
Parabéns, Simão.
As pessoas vão estranhar esta pronúncia, mas depois falamos disso. Ele faz hoje anos, faz 13 anos.
Vai entrar naquela idade complicada.
Já entrou.
Ai, Marco, o que tu vais sofrer.
Eu até fui aqui ver, eu apontei há uns anos, quando ele era muito mais novo, palavras de que ele gostava muito. Agora já mudou. As pessoas mudam muito. Tinha uma que era supimpa, gostava muito de dizer supimpa, e gostava muito de estrume. A palavra estrume.
Dizer que gostava muito de estrume, assim, sem contexto, uma pessoa que entra agora a ouvir a Rádio Observador, fica assim um bocadinho no-
Nós repramos muito nos nossos filhos. Lembro-me que uma vez ele viu a passar um carro descapotável e disse uma frase que eu fiquei a pensar: "O que ele quer dizer com isto?" Ele olhou pro carro descapotável e disse: "Se chover, aquele carro não adianta nada." O que ele queria dizer com aquilo? Ele queria dizer que se chovesse aquele carro não adiantava pra nada, não servia pra nada.
Exato.
E eu fiquei um tempo a pensar no adiantar. Enfim, os nossos filhos deixam-nos-
Às vezes sem palavras, não é? Também. Simão, um grande abraço, de parabéns. Fica aqui dito neste episódio do "Português Suave", dia 29 de outubro.
E vamos pra reação que a maior parte das pessoas têm perante o estrume.
Sim, que é?
Que é o nojo.
Exato. Vamos a isso.
Eu não apontei aqui o nome da pessoa que perguntou.
Eu vou chegar lá, não te preocupes, sou teu salvador.
Tá bem. Mas perguntaram-nos por que razão é que nós usamos o período de nojo para falar do luto, e principalmente na lei.
Foi a Ilma Almeida.
Pronto, muito obrigado. E esta resposta, mais uma vez, tem a ver com aquele deslizar semântico que já falamos aqui várias vezes. Porque nojo é alguma coisa, e o sentido original da palavra é mesmo nojo. Ter nojo, não querer fazer alguma coisa porque é nojento. Mas no período de luto, há coisas que as pessoas não fazem. Ou seja, é quase como se aqui o nojo estivesse a significar um certo tabu temporal, que não querem fazer, porque estamos no período de luto. Faz impressão fazer aquilo, por exemplo, uma festa. Imagina, no período de luto, fazer uma festa garrida na nossa cultura. Há outras culturas em que não é assim. A pessoa recolhe-se, não quer, não diria nojento, mas é por estas associações que acabamos por ficar com este período de nojo, que é o que está na lei. Ou seja, há um período de nojo em que a pessoa, por exemplo, não tem de ir trabalhar, se for um familiar próximo, e é essa a ligação. E pronto, não tenho muito mais a dizer em relação a isso.
Mas é uma explicação válida e se calhar muita gente tinha esta dúvida e nunca tinha tido um "Português Suave" pra perguntar.
Exatamente, mas está aqui a reforçar algo que já falamos, aliás, no episódio anterior, que é: as palavras vão criando novos significados e vão deslizando. Isto sempre foi assim, vai continuar a ser assim, e há pessoas que ficam um pouco incomodadas, porque têm medo de perder as rédeas às palavras, e de repente já não sabem o que elas querem dizer, mas não é isso que acontece. Nós sabemos, em geral, a comunidade de falantes continua a conseguir lidar com estas palavras, mesmo quando elas vão andando por aí fora.
Temos mais uma dúvida. Chega-nos através do Duarte Silva, enviou-nos um e-mail. Fala das tias de Cascais.
É, há quanto tempo é que existe aquele socioleto, que é exatamente o termo técnico.
Ele disse muito bem no e-mail.
Exatamente, para, entre aspas, um dialeto social, ou um leto. Dialeto é uma variedade geográfica. Um socioleto é uma variedade social e todos nós estamos inseridos em vários, não é só num.
E ele quer saber se é muito antigo, não é?
Primeiro, há que dizer que aquilo que nós identificamos como a forma de falar das tias de Cascais, pra usar esta expressão, é uma caricatura que nós temos na cabeça. Não há, se calhar, ninguém que corresponda exatamente. Tal como quando alguém tenta imitar um alentejano a falar, vai caricaturar.
Claro. E a nossa tendência é sempre exagerar mais do que aquilo que é.
Exagerar, isolar alguns traços fora do próprio contexto. Isto é normal também. Tal como as pessoas de qualquer área imitam os outros.
Acontece também com os sotaques, por exemplo.
Com os sotaques, sim. Isto não deixa de ser um sotaque, embora possa ter também questões de vocabulário, ou seja, há certos termos que são usados e outros não são. Eu não sei exatamente há quanto tempo é que este socioleto existe. Diria que é um conjunto de socioletos, por certeza também há muitas variações. Há pessoas que até conseguirão certamente dizer que há um certo falar de uma certa zona da linha de Cascais e outro de outra zona, e de cada família. Eu apostaria que isto terá, pelo menos, um século e tal. Ou seja, desde que se desenvolveu, e quem conhecer melhor a história da linha de Cascais poderá dizer, desde que se desenvolveu uma determinada configuração socioeconômica daquele espaço. Como é que surge isto? Surge porque as pessoas falam mais umas com as outras do que com os grupos de fora, e por isso certas tendências começam a intensificar-se. Isto acontece em todos os grupos sociais, em todas as terras, em todas as famílias. Até há formas de falar que são de uma família. Por quê? Mais uma vez, porque há mais contato interno nesse grupo do que com pessoas de fora. E então, digamos que a língua ganha ali certos contornos. Não sei se expliquei muito, não lhe consigo dizer uma data.
Em específico, não é?
Mas deu pra falar um pouco sobre os socioletos. Há também um outro termo técnico relacionado com dialeto, socioleto, que é curioso, que é o idioleto. Tens ideia do que é?
Não. Só me vem à cabeça idiota.
Não é a forma de falar dos idiotas. É a forma de falar de cada pessoa em particular. Cada um de nós tem um dialeto, tem uma forma de falar diferente das outras pessoas. Se tu leres uma transcrição de alguém a falar, se for suficientemente longa e se tu conheceres bem a pessoa, se calhar vais perceber que foi aquela pessoa a dizer aquilo. Se tu ouvires, claro que vais reconhecer a voz. Mas mesmo sem ser com a voz, há o vocabulário que nós usamos, há as bengalas que cada um de nós tem, há um certo sotaque que é um pouco diferente, sabemos bem a forma como nós falamos. Cada um de nós tem o seu dialeto.
Nós aqui no episódio de dúvidas falamos da questão do ténis, sapatilha, mas também do téni, que irrita muita gente. E a Sofia Barata, eu não sei se ela é de São João da Madeira ou não, da minha terra, ou se foi lá ocasionalmente, mas diz assim: "Tal como o João se aflige com téni, lembro-me de estar a almoçar em São João da Madeira e me afligir com a palavra sand, escrita desta forma, em vez de santos ou sanduíche". Por acaso, nós lá em cima, na minha zona, dizemos muito sand.
Hoje acho que vamos fazer um episódio sobre sand ou sobre ténis? O que é que tu preferes?
Os dois.
O episódio interessa só sand e ténis.
Não, porque eu reparei, isto é muito engraçado, por quê? Porque só quando estudei em Coimbra e quando vim para cá, para Lisboa.
É que tu percebeste que as pessoas diziam santos.
Não era que diziam santos, mas que não aceitavam tão bem a palavra sand.
Pois.
Porque dizem que é errado. Ou seja, eu cresci a ouvir sand e não santos.
Eu agora não vou dizer nada, vou só esperar que os nossos ouvintes reajam.
Exato.
O que acham de sand, o que acham de téni.
Vão atirar-me com ténis e com santos.
E depois vamos também falar das famosas sapatilhas e ténis, vamos ver se conseguimos ter um episódio especial sobre isso.
Sim, é o nosso desejo.
Não sei se temos muito tempo.
Temos um minuto e meio.
Um minuto e meio. Eu gostava só de falar aqui de uma dúvida que não recebemos esta semana, mas já recebemos várias vezes. Lembrei-me há pouco, a conversar até contigo, salvo erro. A dúvida é: será que em sim, senhor ou sim, senhora, nós pomos vírgula ou não pomos vírgula? Queres apostar?
Eu estou a pensar, eu acho que se fosse eu não colocaria.
Exato. E eu também não colocaria, por quê? Porque nós pomos vírgula quando é o vocativo, quando estamos a chamar. Mas sim, senhor e sim, senhora, nós não estamos a chamar ninguém. Não posso estar à tua frente e dizer: "Sim, senhora". É uma expressão fixa que quer dizer que estamos a concordar ou até a ironizar. "Olha, sim, senhora, coisa bonita que está aqui".
Exatamente.
Portanto, neste caso, eu sou da opinião que não devemos pôr vírgula, porque não estamos ali perante um vocativo, mas sim perante uma expressão fixa, inteira, que tem duas formas: sim, senhor e sim, senhora.
E já viste, um episódio de 10 minutos e esclarecemos tanta coisa.
Foi aqui.
Foi num sprint. Temos ainda tempo para dizer o e-mail para enviarem dúvidas, que é, Marco Neves?
portuguessuave@observador.pt, não sei o que se passa aqui.
Muito bem. Está dito.
Eu estou a falhar com este e-mail de formas diferentes em cada episódio.
É verdade. Além do e-mail, já se sabe, através do nosso número de telefone 91 002 41 85. Envie áudios até 30 segundos no WhatsApp e estaremos cá para esclarecer tudo no próximo episódio. Episódio, sim. Eu agora também estou com um problema, que eu não sei terminar os episódios. Lembras-te no domingo passado? Estamos cansados.
Até domingo.
Foi do sprint. Até domingo.