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Está no ar o "Português Suave", edição de quarta-feira, neste longo mês de janeiro. Marco Neves, olá, isto parece que nunca mais acaba.

Pois, janeiro é como se fosse a segunda-feira do ano.

A maior segunda-feira do ano. Se bem que eu percebo o facto de ser um mês longo, mas eu até gosto do mês de janeiro.

Eu também gosto. E depois há algo curioso, não sei se concordas comigo. O mês de janeiro é o meio do inverno, é o mês, se calhar, mais invernosos que nós temos, mas por algum motivo, na minha cabeça, associo muito mais dezembro ao inverno do que janeiro.

Eu também.

Parece que em janeiro já estamos a andar para a primavera, mas, no entanto, dezembro só é inverno a partir do dia 21, normalmente.

Exatamente.

A nossa cabeça é curiosa.

E em janeiro, nos dias em que não temos chuva, temos tido muito ao longo dos últimos dias, mas até já começamos a notar os dias a ficarem maiores. Isso dá-me alguma esperança e alento.

Nota-se bem, já se começa a notar. É verdade.

Vamos a isto. O que temos hoje no episódio de dúvidas?

Hoje não temos dúvidas dos nossos ouvintes, espero que eles nos perdoem, mas eu gostava de falar aqui de uma questão particular, que é uma dúvida, ou melhor, é quase uma dúvida minha, se quisermos. Eu vou tentar explicar, que é sobre um sinal de pontuação. E eu sei que falar de pontuação na rádio é ingrato, porque eu não posso mostrar o sinal. Mas eu gostava de falar um pouco do travessão, que é aquele sinal grande. E isto é importante, porque nós temos, na verdade, três sinais diferentes, mas parecidos, que é o hífen, que nós pomos no meio das palavras. Temos o que as pessoas às vezes dizem tracinho, é aquele pequeno tracinho que está no meio dos verbos, por exemplo, entre o verbo e o pronome. Depois temos a meia risca, que é muito pouco conhecida e que é usada normalmente ou por algumas editoras em vez do travessão, ou então para fazer um percurso Lisboa-Porto. Por exemplo, percurso Lisboa-Porto. No meio de Lisboa e do Porto, costuma-se usar, quando é um texto publicado de forma mais cuidada, a tal meia risca, que é um meio travessão. Depois temos o travessão, que é aquele traço muito grande, que corresponde a quatro hífenes e que era e é usado tradicionalmente para marcar o diálogo em português e também para fazer alguma interrupção na frase, para substituir os parêntesis ou até para substituir a vírgula. E agora, a minha dúvida é a seguinte. Ainda há pouco tempo vi um vídeo sobre isso.

Não dei esse suspiro.

Sim, eu vou explicar a dúvida e a minha tristeza, se quisermos. Ainda há poucos dias vi um vídeo sobre isto, já tinha visto outros, em que alguém se queixa que quando vê um travessão num texto, atualmente, quer dizer que aquilo foi feito por inteligência artificial.

Sim, nós já falámos sobre isso, é verdade.

Já falámos, mas eu aqui queria defender de novo o travessão, e por isso é que eu quis dedicar isto. Primeiro, há um livro que eu escrevi há uns anos, em 2019, ainda antes desta explosão do travessão, em que eu digo que é o meu sinal de pontuação preferido. Depois, se nós formos olhar para livros escritos desde sempre, o travessão é usado para o diálogo por todos os escritores. Por isso custa muito estar a perdê-lo só porque o texto é parecido com o de inteligência artificial. Dito isto, e eu gostava de saber também a tua opinião, mas dito isto.

Eu estou a falar aqui com um defensor do travessão.

Não sei se tu gostas do travessão ou não. Mas eu estive a pensar um pouco melhor nisto e há aqui outra questão por trás, que é a seguinte: por exemplo, ninguém se queixa da vírgula. A inteligência artificial usa muito vírgulas, como qualquer produtor de texto mais ou menos artificial. As vírgulas estão lá. E nunca ouvi ninguém dizer que a vírgula é típica da inteligência artificial. Então a minha pergunta é: por que razão é que o travessão está a ser apontado e não a vírgula, o ponto final, o ponto de exclamação? Penso que aqui a questão é: nós não usávamos travessões em textos mais informais.

Exato, é isso mesmo. Eu penso que é mesmo isso. O problema é mesmo daí, ou seja, as pessoas quando veem esse sinal de pontuação, já pensam. Aliás, é o que eu penso muitas vezes quando vejo um texto corrido, se calhar, mais bem escrito ou não, para as redes sociais, por exemplo, ou numa publicação, aquilo que meto logo: esta pessoa será que utilizou a inteligência artificial?

Até porque há que dizer que o travessão não está no teclado e por isso é um pouco mais difícil. É possível dar a volta e usá-lo. Na verdade, o que está acontecendo na nossa cabeça é: a maior parte das pessoas não usava o travessão porque era difícil, usava o hífen pra substituir ou não usava, simplesmente. E agora, de repente, começamos a ver o uso do travessão, mesmo em situações informais, uma mensagem de texto, um amigo. E então pensamos: "Se calhar ele passou isto pelo ChatGPT, não sabia bem como dizer esta notícia", alguma coisa assim. Eu percebo de onde é que vem a impressão que nós temos. Era a minha dúvida e acho que concordas comigo, era menos usado em textos menos cuidados e agora começou a ser mais usado e por isso nós desconfiamos mais. Mas a reação acaba por ser também negativa, porque nós temos esta reação muito legítima, como tu próprio disseste, de olhar para um texto e pensar: "Se isto tem travessões, então é porque é inteligência artificial". Mas eu tenho muita pena, e é uma das demonstrações de que a inteligência artificial vai interferir com a nossa forma de escrever, às vezes indiretamente, porque nós vamos fugir dela, vamos querer ser menos artificiais e vamos acabar por escrever de forma diferente. Eu não sei muito bem o que dizer mais sobre isto.

Eu noto aqui alguma pena, algum descontentamento, infelicidade, mesmo.

Eu vou continuar a usar o travessão, porque eu sempre usei muito, era uma característica do meu idioleto, nós já falamos disso. Do meu idioleto, neste caso, na escrita, porque na oralidade o travessão não se ouve. Registo a minha tristeza, mas também a minha compreensão em relação à reação que as pessoas têm. No fundo, a inteligência artificial acaba por escrever de forma mais parecida com o que é tradicional, o que vai contra aquilo que as pessoas normalmente usam nas redes sociais e por aí fora. Não sei quanto tempo é que temos.

Ainda temos tempo, Marco.

Eu gostava de chamar a atenção de vez em quando, não é muito comum, se calhar devia ser mais, para livros ou para textos sobre a língua portuguesa que eu acho bons. Houve um texto que saiu na última edição do "Expresso", salvo erro, escrito por Eugénia Galvão Telos. Ela já escreveu anteriormente textos sobre pontuação e neste caso escreveu um belíssimo texto sobre o ponto de exclamação, que eu acho que vale a pena ler. O ponto de exclamação é dos sinais de pontuação que também identificam muito as pessoas. Há pessoas que usam muito, outras que usam menos. Não sei como é que é o teu caso, se costumas usar muitos pontos de exclamação ou não.

Eu acho que utilizo mais é a vírgula.

E o ponto.

O ponto. Se bem que o ponto, lá está, isto aqui também é outra questão, que é: o ponto, claro, que é utilizado na linguagem normal, diria eu, num texto. Mas se tu numa mensagem, e pelo menos eu interpreto assim, e se calhar gen Z, millennials também interpretam desta forma, se tu estás a falar com alguém e colocas sempre um ponto final na última frase, a pessoa vai pensar que tu estás a ser rude.

Sim, também já falámos disto. Hoje é um episódio um pouco repetitivo, eu sei, peço desculpa aos ouvintes.

Estamos aqui com lamentações e inquietações, no fundo.

É que queria voltar a este tema. Mas sim, eu concordo contigo. Mas em todas as idades, a pontuação numa situação informal é muito diferente de outra situação. E por isso, um ponto final num texto enviado para um colega seria perfeitamente normal. Se for enviado para um amigo ou para a nossa cara-metade, já será diferente. E também identifica muito a pessoa. Eu acho que nós conseguimos ver muito bem, e sei que também já falámos disto, nós conseguimos ver muito bem quem é que escreveu a mensagem. Imagina, estás numa situação em que pedes a alguém: "Escreve-me aí uma mensagem para não ser cá". A outra pessoa, se for possível, consegue perceber que não fui eu a escrever, só pela forma como está pontuada.

Vai-se a ver, e é tudo uma questão de perceção e de perceções, no fundo.

Mas pronto, olha, fica aqui a minha dúvida para os ouvintes. Se quiserem enviar para portuguesuave@observador.pt ou para aquele número de telefone cujo número nunca me vou lembrar, podem enviar as vossas perceções sobre o travessão. Se usavam, se continuam a usar, se vão deixar de usar por causa da inteligência artificial, gostava muito de ouvir as vossas opiniões.

E o número que o Marco Neves nunca vai decorar é o 91 002 41 85. Envie as suas dúvidas, pode ser em mensagem de texto, mas preferíamos que fosse em mensagem de voz. E podem dizer ponto final, travessão, ou seja, podem ser gráficos e fazerem essas pausas no áudio também, se quiserem. Seria muito engraçado começarmos a falar assim. Só neste tema.

Olha, Vítor, eu gostava de te dizer uma coisa: dois pontos. Então, até domingo. Ponto de exclamação.

Eu achava que ias dizer literalmente dois pontos. Mas pronto. Marco, ficamos por aqui. Um abraço e até domingo.

Até domingo.