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Este é o Português Suave, sempre na Rádio Observador, com episódios à quarta-feira e ao domingo. Olá, Marco Neves, bem-vindo.

Cá estamos. Hoje vamos falar da língua portuguesa, mas com a ajuda dos nossos ouvintes, como é habitual à quarta.

Estamos com muitas dúvidas, não é?

Estamos com muitas dúvidas, mas mesmo assim vamos ter a estrutura habitual: a língua nas notícias, o mapa da língua, mitos e origens, e vamos acabar com um livro da língua portuguesa, sobre a língua portuguesa, muito especial.

Tens uma história muito interessante para contar sobre isso.

Tenho, sobre o livro. Então, vamos começar com a língua nas notícias. E vamos pedir ajuda ao Zé Maria, que nos envia uma segunda dúvida. Esta é uma dúvida sobre a dúvida. Vamos ver o que o Zé Maria nos diz.

Olá, Português Suave, daqui fala o Zé Maria de Viseu. Em relação ao último programa em que estiveram a discutir a origem da palavra golo, eu, da minha humilde perspectiva, sempre estive a crer que a palavra golo viesse, sim, da palavra inglesa goal, como foi dito, mas com o significado de baliza, ou seja, o local onde queremos que a bola entre e não tanto o significado de objetivo. Eu confesso que fiz aqui uma breve pesquisa na internet, mas, claro está, não consegui chegar a uma resposta consensual. E vinha aqui pedir o favor ao Marco de ressuscitar o debate em torno da origem da palavra golo. De qualquer das formas, queria deixar em público um agradecimento do fundo do coração ao Marco por ser aqui claramente um autêntico professor de todos os portugueses e por estar sempre à nossa disposição para o esclarecimento de toda e qualquer dúvida. Um grande abraço ao Marco, ao João e a toda a equipe do Português Suave.

E um abraço ao Zé Maria.

São elogios, Marco. O Marco está a babar neste momento.

Eu devo dizer que esta dúvida está na língua das notícias porque está a decorrer o mundial. Essa é a justificação.

Até 19 de julho vamos ter muitas dúvidas a surgir.

Sim, sobre este tema. O que eu ia dizer? Devo dizer que, na verdade, e vamos ressuscitar a questão, mas para dizer que aquilo que o José Maria diz não invalida. Na verdade, o goal, em inglês, é a baliza por ser o objetivo. E é daí que vem o golo português, que é a bola entrar na baliza. Podemos pensar: mas qual é que é exatamente o percurso, se primeiro foi a baliza e se depois foi o gol?

Como é que chegamos até aqui?

Procurei e não consegui perceber exatamente qual foi o primeiro uso, mas provavelmente foi mesmo uma nuvem de usos. Reparem, no Brasil, a palavra gol é usada também para o significado baliza. Na verdade, o que deve ter acontecido foi, no início do uso de termos sobre futebol, aquele goal inglês, que era o objetivo, a baliza, foi usado de forma muito imprecisa, tanto para o sítio onde a bola entrava, como para o próprio ato de entrar. Depois é que começou a especializar-se. Em Portugal, acabou por ser o tento, como às vezes os comentadores usavam. Não sei se ainda usam.

Eu acho que sim, eu acho que ainda se usa. E há mais variantes que se calhar não conhecemos, porque há comentadores que não inventam palavras, mas se calhar expressões que entram na moda.

Acho que é uma área da língua portuguesa pouco investigada. Provavelmente até já há algumas teses, algumas investigações, mas não tanto como poderia haver, porque a língua portuguesa borbulha nos relatos da bola. Isto para dizer que provavelmente começou como algo muito indefinido. Depois, em Portugal, o golo acabou por se especializar na questão de ser a palavra que representa o tento. No Brasil, representa o lugar, o objetivo, mas não deixa de ser sempre o objetivo. O objetivo do jogo é marcar um gol. Devo também dizer outra coisa, já agora aproveito. Quando nós vamos olhar para os textos mais antigos, quando os estrangeirismos aparecem, os estrangeirismos na área do futebol, alguns deles acabaram por desaparecer. Aliás, é uma daquelas áreas onde acabamos por deitar fora alguns estrangeirismos e usar, por exemplo, o corner, passou a ser pontapé de canto. Houve um momento em que houve alguns estrangeirismos que caíram, curiosamente, no futebol. Outros, não. Futebol, para começar, o nome futebol. Mas eu só queria chamar a atenção que há um processo que me ajuda a explicar ou ajuda a responder uma dúvida que eu também tenho recebido nos últimos tempos, porque há uns tempos fiz um vídeo sobre o kiwi e há pessoas que me perguntam por que razão que agora aparece escrito kiwi, às vezes com Q-U-I-V-I, em vez de ser com K, e as pessoas ficam um pouco intrigadas. Na verdade, é o processo de todos os estrangeirismos. Os estrangeirismos começam por ser escritos como na língua original, em geral, e depois vão sendo adaptados ao longo do tempo. Devo dizer que também me parece que atualmente há uma muito maior estranheza das pessoas em relação a essas adaptações, porque também estamos muito mais habituados a ler em inglês. Os termos na língua original do inglês.

Já estamos familiarizados.

Que é a língua que nos dá a maior parte dos estrangeirismos atuais. Aquilo, para nós, é tão natural que começa a ser difícil adaptar à ortografia portuguesa. E isto é um processo cada vez mais lento e cada vez mais difícil, porque as pessoas estranham a adaptação ortográfica, que na verdade sempre foi feita em todos os estrangeirismos. Por isso é que nós escrevemos futebol com U e não com dois O, como se escrevia no início. Basta olhar para os primeiros símbolos dos clubes de futebol e aparece futebol com dois O. Vamos avançar.

Sim, um abraço para o Zé Maria, de Viseu. Faz sempre questão de falar aqui da terra de Viseu, que come-se muito bem, aliás, em Viseu. Vamos avançar para o mapa da língua. João, temos aqui uma dúvida do André Vasconcelos, que nos deixou este áudio. Vamos ouvir?

Boa tarde. Estava aqui outra vez em conversa com o meu filho Henrique, sobre as diferenças e as semelhanças entre o português e o espanhol Como já disse, ele nasceu no Uruguai e aqui em casa somos uma família bilíngue, meio portuguesa, meio uruguaia. E eu estava a lhe dizer que olvidar também existe em português, com o significado de esquecer. E ele perguntou-me: "E em espanhol não existe esquecer?" Eu disse: "Acho que não, pelo menos que eu conheça, não". E surgiu uma dúvida de onde é que vem o esquecer, porque efetivamente há que pensar, pelo menos nos outros idiomas latinos que conheço, e anda tudo à volta do oublier, do olvidar. Portanto, era para saber de onde é que vem esta palavra do esquecer em português. Marco Neves, de onde vem?

Obrigado primeiro ao André e ao filho. Estamos no Mapa da Língua porque falamos de Portugal, falamos do Uruguai, falamos de duas línguas.

Nós já falamos aqui do Uruguai.

Sim, já. Incluindo o uso do português no norte do Uruguai, que é algo que talvez não seja tão conhecido aqui em Portugal. A palavra esquecer vem de cadere, do latim, que quer dizer cair, portanto é deixar cair. Nós até dizemos às vezes cair no esquecimento. O esquecimento é deixar cair qualquer coisa. Depois passou por várias fases esta palavra, excadere, até chegar ao esquecer, esquecimento. E é verdade que nós usamos muito mais esquecer do que olvidar. Olvidar também foi uma palavra muito usada. Aconteceu algo parecido, na verdade, no castelhano. Já existiu uma palavra em castelhano que é escaecer, com a pronúncia mais espanhola, que queria dizer fraquejar ou esquecer, ou seja, queria dizer também olvidar.

Fraquejar?

Fraquejar também. Ou seja, escaecer também era fraquejar, ficar mais fraco. Que no fundo é o que acontece à molha. A molha vai ficando mais fraca, vai se escaecer.

Mas nunca tinha pensado nessa ligação.

Vai fraquejando, nós vamos nos esquecendo. Portanto, a origem da palavra, tanto castelhana como portuguesa, é a mesma. Agora, devo dizer que aconteceu aqui este processo oposto, em que nós fomos esquecendo o olvidar, e os espanhóis foram olvidando o esquecer, o que mostra simplesmente que houve momentos em que as línguas trocavam mais palavras ou tinham mais palavras em comum, porque estamos a falar de épocas mais próximas do latim original. Portanto, havia mais palavras parecidas e depois com o tempo foram cristalizando usos que se tornaram mais diferentes. Mais diferentes é uma expressão um pouco confusa, tu percebes o que eu quero dizer. Ficaram mais distintas, precisamente porque fomos deixando cair umas palavras e ficamos com outras. Os espanhóis fizeram o mesmo, às vezes com palavras diferentes. Espero ter conseguido explicar bem o que eu queria.

Um abraço pro André Vasconcelos.

E pro filho.

Claro. É o Henrique, não é? Acho que sim.

Acho que sim. Espero não estar errado. André, se estivermos errados.

Não, acho que é Henrique, eu acho que ouvi no áudio, acho que me lembro.

Envie-nos um áudio muito zangado.

Nós temos memória muito má.

Vamos aos mitos e origens, então. E neste caso, temos um áudio de Gabriel Floriano.

Sim, é um velho conhecido, também já nos fez enviar vários áudios.

Já começa a ser quase uma conversa entre nós.

É, já. Nós estamos à mesa com eles, olha eles aqui.

Aqui é o Gabriel de novo. Primeiro, obrigado pela resposta do Marco Neves sobre o azeite. E respondendo à pergunta sobre como que é azeite em catalão, é simplesmente oli. Então somos mais próximos do italiano. Inclusive o aioli, a origem é catalã, valenciana, então é um pouco nessa região. Eu queria também compartilhar a minha palavra favorita em catalão, que é vermeill. E a minha palavra favorita justamente que é muito próxima da palavra em português, que é vermelho. E é uma das poucas línguas latinas que compartilham, imagino, talvez as únicas, não sei. Outra pergunta aí pro Marco Neves.

Obrigado ao Gabriel por mais esta dúvida. Agora falando do vermelho, o aioli eu também acho que é uma palavra muito engraçada, parece a capicua que tínhamos falado no episódio anterior. Acontece uma coisa parecida com a questão do esquecer, do escaecer. Os espanhóis perderam uma, nós perdemos a outra. Ou perdemos, não, olvidar continua a existir, mas muito menos usada. Na verdade, há muitas palavras parecidas com vermelho em várias línguas latinas. O occitano tinha vermelh, o próprio francês tem vermeille, embora não seja muito usado, devo estar a pronunciar mal, mas também é francês antigo, que as pessoas perdoam. Bermejo em espanhol, em castelhano, bermejo. Vermelho em português, vermiglio em italiano, e provavelmente há mais em outras línguas latinas. Agora, o que é que esta palavra, que se usa agora em catalão e em português, vermelho e vermell, é, no fundo, a escolha que estas línguas fizeram de um conjunto de palavras que sempre existiu e que estava ao dispor das várias línguas latinas, se isto faz sentido.

Sentido.

Nós, em português, temos é um problema, porque acabamos por ficar ao contrário do que acontece nas outras línguas todas, em que há uma palavra que claramente ganhou às outras e os castelhanos dizem rojo, os catalães dizem vermell, e por aí fora. O que acontece em português é que nós ficamos com duas, na verdade, que é o vermelho e o encarnado. E depois há uma forte discussão sobre se querem dizer a mesma coisa.

Ai, essa discussão.

Ou não, mas isso fica pra outro episódio. Só queria aqui dizer ao Gabriel que há a palavra vermelho em várias línguas latinas, mas só duas a usam como palavra principal, no caso do português, como uma das duas palavras principais pra cor.

Sabes que essa discussão entre vermelho e encarnado está quase equiparada a tênis e sapatilhas? Eu acho que sim.

É, mas é mais complexa, no sentido em que tênis e sapatilha é uma questão regional.

Sim.

Mas não é regional norte-sul, porque também há sapatilhas mais pra sul. Mas enfim, é uma questão territorial. A questão encarnado e vermelho é também social.

Petice.

É um pouquinho. O termo técnico é esse. O que acontece é: em todo o país, a palavra vermelho, eu já estive uma vez a ver, a investigar. Por exemplo, uma das formas que temos para perceber quais são as palavras mais usadas é as pesquisas no Google. E o Google mostra esses dados e é possível investigar. E por isso nós podemos ver em que zonas do país se usa mais vermelho ou mais encarnado quando uma pessoa faz pesquisas no Google. Então, o que acontece? Em todos os distritos do país, porque aquilo está dividido por distritos, a palavra mais pesquisada entre as duas é sempre vermelho. Não há nenhum distrito, incluindo Lisboa, onde seja encarnada a mais pesquisada. Mas quando vamos procurar as pesquisas de encarnado, há então, sim, um mapa muito claro em que onde é mais pesquisada é em Lisboa e depois nos distritos à volta, e cada vez menos, até chegar a norte, vai perdendo intensidade. Mais uma vez, mesmo em Lisboa, é sempre minoritário, não é a palavra mais pesquisada. Tem a ver com classe social, com as origens de cada pessoa. Há famílias onde encarnado é mais usado e há outras famílias onde é vermelho.

Olha, uma dúvida aqui para um dos próximos episódios. Já me fizeram perguntar aqui no Observador também, e fora do Observador: por que os betos se chamam betos? Por que chamamos betos aos betos?

Eu digo que já andei a investigar e não é fácil.

Não é fácil, ok.

É daquelas coisas que surgiu a certa altura, mas ainda vou pesquisar um pouco mais pra ver se consigo descobrir a primeira vez que alguém escreveu em algum livro ou em algum artigo.

Mas é interessante pensar nisso, porque é uma coisa que nós crescemos a ouvir e que se usa todos os dias e não sabemos a origem.

Às vezes acontece. É como dar de frosques. Noutra vez ia investigar por outro motivo de onde é que vem a expressão dar de frosques. Frosques só existe naquela expressão e ninguém faz a mínima ideia de onde é que vem aquela palavra. Aquela palavra não parece ter relação com nada. Simplesmente alguém a brincar um dia entre amigos disse: "Epá, vou dar-te frosques", porque se calhar até disse mal outra expressão qualquer, e aquilo ficou e pegou fogo, como dizem os nossos amigos brasileiros. E hoje nós todos damos de frosques.

Mas olha, fica aqui o desafio para um dos próximos episódios. Vamos agora para o livro da semana.

O livro da semana. Eu devo confessar que já me estava a esquecer que tínhamos esta secção e já estava a contar dar de frosques.

E com o livro à tua frente.

O livro é um livro que já falei muitas vezes. Isso leva-me a uma história engraçada, porque eu há poucos dias, na Feira do Livro de Lisboa, estava a conversar com o editor deste livro, e eu falei disto já em vários meios e na internet. E houve há uns meses uma altura em que eu falei muito deste livro, e já vou dizer qual é que é. E o editor, estávamos a conversar e de repente eu olho pra ele: "Aquele livro é muito interessante". E ele diz-me: "Aconteceu aqui um mistério há uns meses. O livro começou a vender muito mais do que eu estava à espera." E eu: "Se calhar a culpa foi minha."

O Marco deve ser responsável.

Ficou irritadíssimo e zangadíssimo pelo facto de eu ter levado aquele livro, que fosse muito vendido.

Promoção.

Mas acontece. O Português Suave também já tem alguma implicação.

Na atividade literária.

Exato. Nas vendas de livros em Portugal. Fico contente.

Claro, é ótimo.

As pessoas estão interessadas em ler alguns dos livros que vamos falando aqui. Este livro eu trago de novo porque não tínhamos falado ainda dele nesta nova secção da sugestão de livros. É um livro que as pessoas que nos seguem com alguma frequência já devem conhecer bem, alguns deles até já leram. É o livro "Enfermidades da Língua" do século XVIII, publicado logo a seguir ao terramoto, poucos anos depois, por Manuel José de Paiva, que na verdade usou o pseudônimo Silvestre Silvério da Silveira e Silva, o melhor pseudônimo de sempre.

Meu Deus.

Um livro em que ele aconselha os portugueses a calarem-se porque já ninguém sabe falar.

Pois, isso hoje em dia.

E depois deu quatro mil exemplos de palavras e expressões que devem ser eliminadas. O livro, como José Teixeira, professor da Universidade do Minho, que fez a edição de 2024 de que eu estava a falar ainda agora, defende. José Teixeira defende que é irônico, ou seja, que ele, na verdade, não queria acabar com estas expressões, ele queria era poder falar delas sem que ninguém lhe dissesse nada. Ele seria censurado, etc. "Não, mas eu estou a dizer para as pessoas não dizerem as expressões, portanto, não me podem acusar de nada." Uma brincadeira, digamos, uma brincadeira muito típica da época, e que nos deixa este retrato do que era o português falado, o português oral, o português popular, logo a seguir ao terramoto, com expressões como é meter o rossio na rua da Patesga, entre muitas outras.

Já falámos aqui.

Sim, nessa altura, quando nós falámos do livro, já dei aqui alguns exemplos, como bimbalhada, a primeira vez que alguém aparece bimbalhada, e conseguimos ter um episódio em que temos beto e bimbalhada no mesmo episódio. É o nosso bingo. Temos as expressões que nós diríamos: bem, no século XVIII, elas, na verdade, no português popular, eram mais parecidos com o que nós pensamos. Mas, por outro lado, às vezes aparecem ali expressões que nós pensamos: "O que eles queriam dizer com isto?" E nós não sabemos. E deixo aqui, mais uma vez, a sugestão, "Enfermidades da Língua", com fixação do texto, introdução e notas de José Teixeira. O autor era Manuel José de Paiva e é um livro das edições Humus e que merece ser lido por ser uma precisidade da nossa língua. Um autor que, na verdade, se tomarmos ao pé da letra, está a atacar a própria língua. Mas nós gostamos de ler.

Bem, e nós não temos tempo pra muito mais. Estamos já aqui em cima do nosso tempo limite. Um abraço, Marco. Regressamos na quarta-feira com as habituais dúvidas dos nossos ouvintes. Até lá.