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Viramos agora a agulha precisamente para a parte desportiva, porque está aqui também conosco o editor de desporto do Observador, Bruno Roseiro. Bruno, isto é como uma bomba a cair em pleno Estádio da Luz, no mundo benfiquista, com a detenção de um presidente em exercício.

Era exatamente aquilo que servia de escudo a tudo o que se passou antes. Ou seja, se nós começarmos a ver a argumentação que era utilizada pelo Benfica e pelo próprio Luís Filipe Vieira para recusar qualquer tipo de saída precoce do Benfica, antes e depois das eleições, foi sempre o escudo da presunção de inocência, de que fariam buscas, mas que não encontravam nada. Inclusivamente, eu recordo uma notícia que nós escrevemos aqui no Observador, onde numa reunião com órgãos sociais, salvo erro, até posso dizer que foi no dia em que Luís Filipe Vieira comunicou que iria ser novamente candidato a um sexto mandato como presidente do Benfica, que ele tem a frase: "Podem procurar o que quiserem, porque nunca vão encontrar nada, porque nós não fizemos nada de mal". Nesta altura, para quem foi detido, alguma coisa de mal suspeitam as autoridades que terão feito. E nesta altura, eu diria que existe a parte do cidadão Luís Filipe Vieira, o Luís Rosa e Bains já explicou essa diferença. Nesta altura, em relação ao Benfica, acho que entramos num outro domínio e num outro nível. O Benfica, nos últimos quatro, cinco anos, foi o clube que esteve visado nos vouchers, que depois aparentemente tinham caído, mas que depois foi um processo que ficou junto com os e-mails e com o Malaise Chao. Houve a questão dos jogos combinados, houve a questão da Operação Lex, a ligação, o abuso de confiança com o juiz Rui Rangel também. Houve a questão, e foi escrito aqui no Observador, do domínio económico e desportivo que as autoridades suspeitavam que o Benfica exercia sobre clubes mais pequenos. Já eram demasiados casos. Agora são demasiados casos com o presidente em exercício detido. E parece-me que isto vai provocar um terramoto no universo do Benfica. Parece-me que haverá tendência para o clube defender ao máximo a questão da presunção de inocência para Luís Filipe Vieira não ficar de tal forma queimado que tenha de sair. Parece-me também que é para todos aqueles críticos, e já eram 35% nas últimas eleições, uma oportunidade para abrir esta questão a todos os sócios, haver uma assembleia geral extraordinária e definir de uma vez por todas que caminho é que o Benfica vai seguir. Este caminho onde quase mês sim, mês não.

Eu ia te interromper. Falaste nesses 35% das últimas eleições, mas dá-me a ideia, e às vezes somos muito suggestionados pelas redes sociais, mas que essa contestação a Vieira tem crescido já depois das eleições. Agora poderá aqui ganhar um novo nível também, não é?

Eu acho que vai ganhar um novo nível, sobretudo num ponto, que é: os contestatários podem ser os mesmos, podem ser um pouco mais. Eu diria que aqueles que publicamente apoiavam o Luís Filipe Vieira de uma forma cega, se calhar agora vão dar dois passos atrás e vão ver o que é que esta investigação vai dar. Poderá ser essa a diferença. Existe, de facto, muito essa perceção de que a nível de redes sociais, existe quase uma maioria que é contra Luís Filipe Vieira, da mesma maneira como existe a perceção de que foram as casas do Benfica e todos os seus associados espalhados pelo país que deram a vitória a Luís Filipe Vieira. Portanto, eu diria que isso são percepções. A verdade é que Luís Filipe Vieira, democraticamente, foi reeleito presidente do Benfica, mas foi democraticamente reeleito numa altura onde não era alvo destas suspeitas, não tinha sido detido, o Benfica não estava novamente no centro de uma questão judicial, porque está, porque as buscas não são apenas e só na casa de Luís Filipe Vieira. Novamente, elementos da PJ ou da Autoridade Tributária a entrarem pela porta 18 para ir ao escritório do Luís Filipe Vieira. Portanto, o Benfica está novamente no centro da questão e também por isso haverá aqui uma espécie de dois caminhos a seguir, que é: ou é este o presidente e por mais casos que continuem a aparecer, desde que não exista uma acusação, ele não sai. E isto partindo do pressuposto de que Luís Filipe Vieira cumpre a palavra e a partir do momento em que seja acusado em qualquer coisa, sai, que foi isso que o próprio já disse. Ou então há um segundo caminho, que é: haverá uma assembleia geral extraordinária, haverá, no limite, eleições antecipadas, embora não seja obrigatório que tal aconteça, para decidir é isto que os sócios do Benfica querem, é isto que os sócios do Benfica não querem, e fazer alguma coisa Para não andarmos sempre, mês sim, mês não, nestas conversas, agora agravadas com a detenção do presidente do Benfica.

E parece que a estrutura do Benfica tem a solidez necessária para aguentar esta saída repentina. Ou seja, temos um Rui Costa, que é visto quase como um sucessor natural. Temos depois a parte empresarial com o Domingos Soares Oliveira. Isso pode ajudar o clube, de alguma forma, a aguentar este choque de Luís Filipe Vieira ou é todo o projeto que pode correr o risco de cair?

Eu diria que Luís Filipe Vieira estava a começar a preparar a sua saída. Rui Costa é um sucessor natural. A entrada de Rui Pedro Brás também não é por acaso que surge nesse contexto, enquanto novo diretor-geral do futebol. Domingos Soares Oliveira esteve muito perto de deixar o Benfica antes das últimas eleições. É bom que as pessoas também tenham nota disso. Não por não querer estar neste projeto, mas porque tinha uma proposta mais aliciante, que me parece que ainda não apagou por completo. Essa proposta acabou por cair porque aceitou novamente pertencer ao conselho de administração da SAD, mas essa proposta ainda não caiu. Portanto, Domingos Soares Oliveira, enquanto gestor, tem mercado, digamos assim, quase como nós falamos em relação aos jogadores, é alguém que tem mercado. Agora, há muito deste projeto que vai cair e, sobretudo, há muita coisa que se vai saber. E esta questão dos 25% do capital social da SAD, nós estamos aqui a falar quase como se fosse uma coisa que todos nós soubéssemos. Não sabíamos, a questão é essa, não sabíamos. Aquilo que nós sabíamos era, por exemplo, em termos de capital social da SAD, uma notícia relativamente recente do Expresso que dava conta de que o empresário conhecido como o Rei dos Francos compraria a parte Olivet Esportes e ficaria com 15,4%. Esta questão de uma venda a um empresário estrangeiro que nem sequer se sabe o nome, nem se sabe de que país é, ninguém sabia disso. Ninguém sabia que isto provavelmente vinha embrulhado naquele papel que se chamava OPA, que a CVM, quando começou a olhar pra aquilo, disse logo: "Meus amigos, admitimos esta ideia, mas isto não pode andar pra frente porque não se pode fazer isto". E, portanto, é bom primeiro perceber o que era esta coisa de vender, porque isto é uma coisa muito importante, e nos clubes grandes nós temos isso. Nós, na Inglaterra, estamos habituados a clubes serem propriedade de milionários, seja através de título individual como o Abramovich, seja através de empresas como o Fenway Group, que tem o Liverpool. Em Portugal e sobretudo os latinos, são muito renitentes a essa questão de perderem a maioria do capital social da SAD. E quando nós vemos que existe aqui uma notícia dentro de todas estas notícias que estava sendo negociada a venda de 25% do capital social da SAD do Benfica, eu acho que convém perceber o que é isto, o que andam a fazer, porque o capital social da SAD, a partir do momento em que um clube deixa de ter os 50 mais um, qualquer proprietário pode fazer o que quiser e os sócios do clube deixam apenas e só de ser sócios do basquetebol, do andebol, porque o futebol não há nada.

Perdem a montra principal.

Sim, perdem tudo. No fundo, acaba por ser quase como se o Belenense e o Belenenses SAD fossem ainda um, sendo que na SAD está Rui Pedro Soares e no clube está o Patrick. E, portanto, existe essa divisão. E é importante perceber isso, porque aquilo que o projeto da OPA, a médio e longo prazo, tinha estruturado, era algo semelhante àquilo que o Bayern tem. Ou seja, a certa altura, até como forma de pagar antecipadamente o estádio, porque os alemães nisso não facilitam, o Bayern percebeu que seria bom abrir o capital social a três grandes marcas que fossem verdadeiros parceiros, que é a Audi, a Allianz e a Adidas. Cada um ficou com 8,333% de capital social do Bayern, e o Bayern manteve os 75%. E com esse dinheiro, aquilo que fez foi pagar antecipadamente o estádio, 12, 14 anos antes daquilo que estava estipulado, e ter parceiros que, por sua vez, ajudavam na decisão de quem era a comissão executiva que liderava o destino do Bayern. E o bem sentar primeiras ideias, perceber por que o Luís Filipe Vieira está a ser detido e depois o Benfica escolher um caminho que, garantidamente, a partir de agora não há hipótese de dizer: "É mais um caso, vamos continuar em frente". Não, a partir de agora, ou é pra direita ou é pra esquerda, não há hipótese de ficar no meio.

Exato, Bruno Rosario, pedia que continuasses conosco, porque há ainda mais questões também no plano desportivo que é importante falar