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"Almirante, para os partidos não vai ser bonito." É o que vaticina desde já o colunista do "Dia", o diretor executivo do "Observador", Miguel Pinheiro. Bem-vindo. Foi este o título que escolheste pro teu artigo de opinião, que de resto até foi publicado no nosso site sábado à noite, ainda antes desta nova sondagem que conhecemos esta segunda-feira. Ora, o título que escolheste há dois dias faz ainda mais sentido hoje, tendo em conta que este estudo de opinião da Intercampus coloca o almirante Covas e Melo bem destacado na frente, com quase 25% das intenções de voto, estando nós a mais de um ano dessas presidenciais.

Um ano é muito tempo. Até porque o cargo de presidente da República é relevante e convém que consigamos escrutinar as pessoas que querem chegar lá. Especialmente como no caso do almirante Covas e Melo, quando sabemos muito pouco sobre ele. Aquilo que eu não sei se as pessoas já meteram na cabeça é que efeito é que vai ter a candidatura do almirante Covas e Melo, e se ele ganhar, muito mais, sobre aquilo que gostamos de designar o sistema, porque ele vai estilhaçar completamente o nosso sistema de partidos. Nós já começámos a ver isso em vários partidos. Já vimos isso no CDS. Já temos pessoas com opiniões diferentes sobre se o partido deve ou não apoiar Covas e Melo. Diogo Feio foi contra, Cecília Meireles a favor, por exemplo. Francisco Rodrigues dos Santos também falou sobre o assunto, o ex-líder do CDS. O Chega também está a tentar perceber o que vai fazer. André Ventura não sabe se há de apoiar ou não Covas e Melo. Imagino que uma das coisas que esteja a pesar sobre André Ventura é o seguinte cálculo: se ele, André Ventura, ou alguém do partido se candidatar e tiver um resultado humilhante, porque os votos do Chega vão pra Covas e Melo, isso é um problema, o Chega tem que evitar essas derrotas. Já percebemos que sempre que as coisas correm mal nas urnas, André Ventura fica um pouquinho despassarado, como quando aconteceu nas europeias. O PSD, nós aqui no "Observador" publicámos um artigo sobre como é que o PSD está a olhar para a candidatura eventual de Marques Mendes e, pra minha surpresa, vários dirigentes influentes do PSD dizem abertamente que sentem que os eleitores do partido estão muito tentados a votar em Covas e Melo. E eu imagino que o mesmo aconteça numa parte substancial do Partido Socialista. A candidatura de alguém independente, que vem de fora e com reais possibilidades de ganhar, está a provocar uma grande desorientação nos partidos, mas parece-me que o pior vai acontecer se ele ganhar, porque Covas e Melo se ganhar-

Miguel, indo por partes do teu artigo, tu apontas pra três estratégias que os partidos mais à direita estão a usar nesta fase pras presidenciais: barriga de aluguer, cavalo de Troia e cabeça na areia. Qual é qual e por quê?

Não, a barriga de aluguer é do CDS. Imagino que uma parte do CDS gostasse de ser a barriga de aluguer de Covas e Melo. Pudesse dar-lhe a credibilidade da história de um partido, pudesse lhe dar, apesar de tudo, alguma estrutura que o partido ainda mantém e que Covas e Melo vai ter que construir. Enfim, ser um pouquinho uma muleta, a tal barriga de aluguer, que ajudasse o almirante a chegar lá. Isso daria ao CDS uma importância que ele neste momento não tem.

Sobretudo porque também se demarcava do PSD.

Marcava-se do PSD, ganhava uma existência própria e passava a ser um dos partidos do presidente, e isso o CDS poderá sentir-se tentado por isso, passar a ser um partido com relevância. A estratégia cavalo de Troia, acho que é o que está na cabeça do Chega. No caso do CDS, ele gostaria de ser usado por Covas e Melo. No caso do Chega, o Chega gostaria de usar Covas e Melo. Ou seja, o Chega chegaria ao poder, chegaria ao Palácio de Belém, através de Covas e Melo. Covas e Melo passaria a ter uma dívida em relação ao Chega por André Ventura lhe entregar mais de 1 milhão de votos. Covas e Melo, na cabeça do André Ventura, seria uma forma de conseguir o poder real que o Chega não está a conseguir ter. A estratégia cabeça na areia está sendo seguida pelo PSD. Dá-me ideia, pelo que vamos ouvindo, que se calhar Luís Montenegro já percebeu, enfim, esta tese corre por aí. Luís Montenegro já percebeu que o PSD não vai conseguir ganhar as eleições, Marques Mendes não vai chegar lá e por isso vai ter que arranjar uma forma de convivência pacífica com Covas e Melo, e por isso pode estar a começar lentamente a desistir de transformar as presidenciais num grande tema. Aliás, no último congresso do PSD, foi aprovada a moção que definia qual seria o candidato presidencial. Marques Mendes foi ao congresso, mas de facto, Luís Montenegro não falou uma única vez de presidenciais, nem ninguém da direção.

E não foi muito bem acolhido no congresso.

Não foi muito bem. Olhando agora pra trás, se calhar nessa altura, ele já estava a começar a desligar das eleições presidenciais. Por que é que eu lhe chamo estratégia cabeça na areia? Porque é não perceber que isto vai ter um efeito brutal no PSD. O PSD não pode simplesmente empurrar com a barriga lá pra frente, depois logo se verá. Logo veremos como é que nos damos com o Covas e Melo, porque o Covas e Melo, e aqui entro na eventualidade dele ser presidente, se chegar ao Palácio de Belém, ele, que não está assento em nenhum partido Em nenhum movimento, vai precisar ter um instrumento político para exercer o poder do Palácio de Belém. Isso aconteceu sempre na história, em todos os países onde nós tivemos presidentes independentes a chegarem ao poder, eles construíram, ou imediatamente antes, ou quando estavam no poder, tentaram construir instrumentos políticos que apoiassem a ação deles enquanto presidentes. E Gouveia e Melo vai ter de fazer isso.

Ou seja, um movimento político, um partido político?

Sim, por exemplo, Emmanuel Macron estilhaçou completamente o sistema de partidos em França, porque ele tinha sido ministro do PS francês e quando se lançou, lançou-se com um movimento próprio e foi buscar pessoas à esquerda, à direita, ao centro, fez um partido novo. Mas não precisamos de ir pra França. Se olharmos pro exemplo português, acho que é muito claro aquilo que aconteceu em Portugal com Ramalho Eanes. Ramalho Eanes passou todos os mandatos dele a tentar desestabilizar os partidos para conseguir uma base de poder. E conseguiu, ele conseguiu desestabilizar completamente o PS, conseguiu criar cisões no PSD para ter bases de apoio nos diferentes partidos e deu, depois, finalmente, o passo de construir um partido político próprio quando já estava a sair da presidência. Quem ache que Gouveia e Melo vai estar em Belém e mais nada vai acontecer, o PSD vai continuar como está, o PS vai continuar como está, o Chega vai continuar como está, está redondamente enganado, porque ele vai precisar exercer o poder presidencial. Ele não vai estar lá a fumar charutos e a beber brandy.

E o PSD só poderia desenterrar a cabeça na areia, ainda nesta fase pré-presidenciais, se viesse aí um Dom Sebastião, como Passos Coelho.

Segundo a sondagem que saiu hoje, já nem Passos Coelho.

Pois, está a grande distância de Gouveia e Melo.

Se bem que estamos ainda é muito cedo, claro. Gouveia e Melo vai ter que falar sobre muita coisa, vai ter que ser muito escrutinado. Mas atenção, isso pode lhe correr mal ou pode lhe correr bem. Nada nos garante que ele não se vai sair bem em entrevistas, em debates, em artigos que escreva, em programas que apresente.

Aliás, o que tem falado, tem corrido bem.

Acho que as pessoas estão todas à espera que quando ele for obrigado a abrir a boca, que vem aí uma desgraça, pode não vir uma desgraça, em primeiro lugar. E em segundo lugar, realmente ele vai abrir a boca o mais tarde possível. Ele, neste momento, é extraordinário, não precisa fazer campanha.

A Raquel Bacete estava precisamente a referir isso no Semáforo Político há pouco, porque é sobejamente conhecido da população, por causa do trabalho que fez durante a pandemia. E desse ponto de vista, também é parecido com Marcelo Rebelo de Sousa, porque também era muito conhecido, embora tenha tido a sua presença assídua nas televisões, mas Gouveia e Melo teve um protagonismo, de facto, grande.

E ganha em não se comprometer. De facto, Gouveia e Melo, quanto menos se comprometer, melhor. Agora, nós, se ele chegar a presidente, vamos começar a ter pessoas do PS a aproximarem-se Gouveia e Melo por achar que ele é a verdadeira oposição a Luís Montenegro. E, portanto, isso vai ser um problema pra Pedro Nuno Santos. Quando ele der por ele, vai ter dirigentes do PS a acharem que Gouveia e Melo está a fazer um melhor trabalho na oposição a Luís Montenegro do que o próprio Pedro Nuno Santos. Foi o que aconteceu no PS com Mário Soares, nos tempos de Ramalho Eanes. E Luís Montenegro vai perceber que Gouveia e Melo vai começar a seduzir dirigentes do PSD pra esfera presidencial, vai tentar ficar com os louros das coisas que correrem bem no país e vai haver pessoas no PSD, de facto, a descolarem de Luís Montenegro e a aproximarem-se Gouveia e Melo, como aconteceu com Francisco Sá Carneiro e com Pinto Balsemão, quando foram primeiros-ministros e líderes do PSD. É certinho. E mesmo André Ventura arrisca-se a ter um problema, porque várias pessoas do Chega, se calhar, vão ver em Gouveia e Melo uma nova via pras suas ambições. Neste momento, as pessoas que estão no Chega só têm uma via pras ambições deles, que é André Ventura. Se André Ventura quiser, a vida corre-lhes bem. Se André Ventura não quiser, são enviados pra um caixote do lixo qualquer. Ora, essas pessoas vão ter uma segunda via de ascensão, que é a via presidencialista, que é Gouveia e Melo. E por isso as pessoas que neste momento estão muito bem comportadas debaixo da asa de André Ventura no Chega, vão ter a tentação de ver que se calhar, se forem protagonistas do poder presidencial, vão ter ali uma forma de se emanciparem de André Ventura. Isto vai ser péssimo.

Deixa-me só fazer-te uma pergunta final, pra resposta rápida. E os portugueses, que os partidos não são donos dos seus eleitores e dos votos, o que leva os portugueses a fazer uma opção destas, ou o que isso quer dizer pro país, a fazer uma opção por Gouveia e Melo, seja qual for o candidato que lhes apareça dos partidos que sempre foram consensuais na escolha dos portugueses?

É uma grande pergunta pra qual historicamente não houve resposta. Há um caso típico disso, que foi em 80, na reeleição de Eanes. Nós tivemos duas eleições muito próximas. A eleição que deu as legislativas, que deram a segunda maioria absoluta a Sá Carneiro, e logo a seguir houve as presidenciais. E uma das coisas que deixava Sá Carneiro perplexo era: "Mas como é que estas pessoas que me deram a maioria absoluta, agora vão votar no Eanes? Eu já lhes disse que o Eanes é o meu maior inimigo. Como é que isto é possível, as pessoas terem votado em mim e irem votar nele?" Eu acho que vai haver muita gente a fazer-se esta pergunta nos próximos tempos.

E teremos aqui pano pra mangas pra essa reflexão. Miguel Pinheiro, o colunista do dia. Obrigada, Miguel. O Miguel Pinheiro de volta amanhã com o Bom, o Mau e o Vilão nas manhãs 360.