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Há buscas a decorrer no Parlamento nesta altura, Malagate. As autoridades estão a fazer buscas por causa das malas do deputado Miguel Arruda, tudo por causa de uma fotografia divulgada pela SIC na semana passada, na sexta-feira, em que se veem malas no gabinete de Miguel Arruda e portanto, as autoridades estão na Assembleia da República a realizar buscas, acompanhados também pelo presidente da Assembleia da República, Aguiar Branco. Comigo tenho Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Rui, não é habitual termos a polícia a fazer buscas no Parlamento.
É verdade. Para já, não é muito habitual sequer ter a polícia em órgãos de soberania. Já tivemos algo que era praticamente inédito quando tivemos buscas em São Bento, na altura da operação Influencer. E agora também temos buscas na Assembleia da República, o que por norma também não é muito habitual. É impossível para nós recuperar o histórico todo em democracia e dizer que nunca aconteceu, até porque há muitas destas diligências que muitas vezes são feitas em segredo. Aliás, o dia escolhido, segunda-feira, é certo que houve aqui uma fotografia e uma prova mais evidente, física, que acabou por, de alguma forma, propiciar isto. Apesar de, e nós temos essa informação, já há mais de uma semana que havia esta possibilidade de serem feitas buscas na Assembleia da República, até porque bastava ler os artigos, inclusivamente os do Observador, para saber que havia relatos de deputados, quer do Chega, quer de outros partidos, que viam constantemente Miguel Arruda com outras malas no Parlamento, com muitas malas no Parlamento e com vários objetos. Tendo em conta essas circunstâncias, tornava quase inevitável que houvesse um raide ao Parlamento para tentar tirar as dúvidas e aquela fotografia, creio que de alguma forma, tornou inevitável que a investigação fizesse esta visita, que é sempre pouco dignificante.
Portanto, temos uma situação que não é comum, é difícil perceber se alguma vez aconteceu, se esta será uma situação praticamente inédita, mas é inédita certamente no caso do Chega, partido que tem como bandeira também o combate à criminalidade, o combate à corrupção. E aqui está envolvido com buscas a acontecer no Parlamento por causa de um deputado que deixou o Chega entretanto, mas era deputado do Chega.
Sim, isto é particularmente grave. Vamos lá ver. Mesmo que, na verdade, isto já tenha acontecido no passado, eu não tenho memória imediata de buscas no Parlamento, o que significa que acabou por ser o Chega a levar a polícia para o Parlamento atrás de um deputado, de um político da Nação. O Chega não teve culpa enquanto partido, mas foi um deputado do Chega que acabou por levar a isso. Isso do ponto de vista daquela que é a imagem do partido, em que por todas as razões e mais algumas, qualquer um é chamado de ladrão, aldrabão e por aí fora, isso cria um impacto muito negativo no partido. E vamos ver. Neste caso, o próprio gabinete do Chega, portanto, espaço do partido, grupo parlamentar, foi utilizado para cometer um ilícito, caso se prove que aquelas malas são roubadas. Atenção, o assunto está em investigação, nós não sabemos, mas se aquela fotografia for verdadeira, parece que é. Se aquelas malas não forem de Miguel Arruda, o espaço do partido, da bancada parlamentar, terá sido utilizado para esse ilícito, uma vez que foi para guardar material roubado. Ora, isto é um tiro no porta-aviões daquilo que é a imagem pública do Chega e aquilo que defende, até porque há um outro deputado, Daniel Teixeira, que é eleito do círculo de Setúbal, que partilhava gabinete com Miguel Arruda e de facto, ele não tem culpa, não sabia de onde é que vinham aquelas malas, achou que era normal, que ele trazia muitos produtos da região. Mas imagina o que é, ou seja, o espaço partilhado do Chega tinha material, eventualmente e alegadamente, estamos a falar ainda assim, roubado. Isto é mesmo corrosivo para aquela que é a imagem do Chega. E esperamos nós que ele nunca tenha oferecido a nenhum colega deputado nada das coisas roubadas que as pessoas na boa-fé possam ter aceitado. Isso então ainda levaria as coisas para outro nível de envolver colegas deputados que obviamente não fizeram nada de ilícito.
Sendo que estas buscas têm também esta participação de Aguiar Branco, portanto, está a acompanhar toda esta situação por causa desta questão dos órgãos de soberania. O Chega já tinha tido bombeiros do lado de fora, agora polícia do lado de dentro, Aguiar Branco também acaba por entrar aqui nesta situação, que acaba também por ser um pouco de embaraço para a Assembleia da República.
Sim, na verdade, isso acaba por ser um procedimento, naturalmente, uma democracia assenta na separação de poderes e, portanto, há algum cuidado e alguma cautela quando, de alguma forma, o poder judicial entra no poder político. Isso é feito a um alto nível, a um nível institucional e com o presidente da assembleia, que é o primeiro inter pares, que é o deputado que representa os outros, no sentido que os lidera em determinado momento. E por isso, esse acompanhamento é para garantir que não se está aqui a ferir essa separação de poderes, mas simplesmente a cumprir a lei. E Aguiar Branco acompanha precisamente para garantir que, na verdade, os agentes e os investigadores que ali vão estão simplesmente a fazer o seu trabalho. Obviamente que ninguém estaria contra isto, havendo indícios tão fortes, parece-me que era inevitável esta investigação e de certeza que José Pedro Aguiar Branco não se opôs e facilitou, certamente, estas buscas, porque não há forma do presidente da assembleia não o fazer.
Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, a analisar também este caso e os impactos que tem para o Chega e também para a imagem da política, neste caso, a Assembleia da República.