Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Está agora conosco Miguel Pinheiro, editor executivo do Observador. Miguel, boa noite e obrigado pela tua presença. Perguntar se podem, de alguma forma, os partidos aqui em Portugal aproveitar os ventos que sopram, não aqui ao lado de Espanha, mas de França, face àquilo que ditaram estes resultados e o desejo dos eleitores. A União Nacional, ao contrário daquilo que se perspetivava, não venceu.
Claramente sim. Aliás, nós já estávamos a assistir a isso. A constituição desta Nova Frente Popular em França entusiasmou muitas pessoas à esquerda. Nós temos visto uma corrida à esquerda para ver qual é o partido que lidera as negociações para uma eventual aliança que não sabemos ainda muito bem para que servirá, se é uma aliança só para as autárquicas, se é uma aliança só para ganhar Lisboa, se é uma aliança para as presidenciais, para que ela vai servir. Logo a seguir às eleições legislativas, o Bloco de Esquerda adiantou-se e convidou os outros partidos à esquerda para negociações. Agora, a seguir às europeias, foi o LIVRE que fez isso. O Partido Socialista não gostou nem de uma coisa, nem da outra, mas a verdade é que esta noite nós voltamos a assistir a esta competição. Mariana Mortágua, como tu dizias, fez um tweet, eu ainda lhe chamo tweet porque sou uma pessoa antiga, mas em que fala precisamente desta capacidade de criar uma alternativa ao que diz ser o centrão neoliberal e a extrema-direita. E Mariana Mortágua puxa pela França Insubmissa. Ela, aliás, diz que a vitória da esquerda é liderada pela França Insubmissa. É uma liderança estranha, porque se houve coisa que saiu desta campanha foi esta aliança de esquerda a garantir e a jurar que o primeiro-ministro de França, fossem quais fossem os resultados, não seria o líder da França Insubmissa, Jean-Luc Mélenchon, que é um dos políticos com maior taxa de rejeição em França. Mas enfim, cada um puxa por si. Mariana Mortágua puxa pela França Insubmissa. O LIVRE enviou também um e-mail às redações onde puxa pelos Verdes, claro, com certeza.
Que também entregam esta Frente Popular.
Claro, esta Nova Frente Popular tem a França Insubmissa, que estará próxima do Bloco de Esquerda nalgumas coisas, o Partido Socialista, que foi o segundo partido mais votado desta aliança, porque convém explicar que a aliança não foi a votos por si, foram os partidos. Tivemos os Verdes, próximos do LIVRE, e ainda há o Partido Comunista. Sendo que o nosso Partido Comunista não deve ter grande entusiasmo para estes caldeirões. Mas o Rui Tavares mandou este e-mail para as redações onde puxa pelos Verdes, cita a líder dos Verdes a dizer que agora a esquerda vai governar e diz expressamente: "Para o LIVRE, este resultado mostra que a convergência de forças progressistas, ecologistas e de esquerda é a melhor forma de combater a extrema-direita e criar uma alternativa de governação". Por isso, o que o LIVRE faz é dizer: vamos olhar para França. Em França, há uma fórmula política que nós devemos copiar aqui e, portanto, o LIVRE já teve algumas destas reuniões à esquerda, já anunciou que vai ter outra daqui a uns dias. Não sei exatamente a data, mas já anunciou que vai ser agora no começo da semana. Portanto, isto vai trazer entusiasmo a esta esquerda à esquerda do PS.
Até entre as hostes do Partido Socialista, era isso que ia perguntar.
Precisamente. É que, tal como em França, nós assistimos a algum desconforto no Partido Socialista por de repente ver a tentativa da França Insubmissa de liderar esta aliança. Vimos isso em França e aqui também o Partido Socialista não quer agora de repente submeter-se às estratégias de partidos muito mais pequenos, sendo que apesar de tudo, em França, a França Insubmissa tem mais deputados que o Partido Socialista. Aqui não é nada disso. E, portanto, o Partido Socialista não quer isso. Ao mesmo tempo, o Partido Socialista sabe que precisa de uma aliança como estas para Lisboa, porque nas eleições autárquicas, ao contrário do que acontece no governo, não é possível haver geringonças pós-eleitorais. Isso não é possível. Quem fica à frente, fica à frente. E por isso vai haver uma enorme tentação, uma enorme atração por fazer uma aliança o mais alargada possível à esquerda, tal como Carlos Moedas fez à direita. O mais provável é termos em Lisboa uma grande coligação à direita que eventualmente inclua a Iniciativa Liberal desta vez, e uma grande aliança à esquerda. Tivemos agora eleições no PS Lisboa, foi eleito David Amado, que está completamente a favor disso. A sua antecessora, Marta Temido, também estava muito inclinada para essa aliança à esquerda e, por isso, em Lisboa sim. Para as eleições presidenciais também já há conversas sobre uma grande aliança, uma Nova Frente Popular, para conseguir um candidato que permita à esquerda, ao fim de muitos anos, ganhar o Palácio de Belém. Portanto, vamos assistir a estas negociações nos próximos tempos à esquerda. À direita nós vemos André Ventura a desinsuflar mais um pouquinho o balão. Ele já desinsuflou o balão nas europeias e agora desinsuflou novamente o balão. Ele estava convencidíssimo, como aliás, muita gente, mesmo em França, estava convencidíssima que a questão era Qual a dimensão da vitória da União Nacional? E afinal fica em terceiro lugar. Com certeza, duplicou o número de deputados, com certeza, teve um resultado muito melhor do que tinha tido antes. Mas a verdade é que a expectativa de chegar agora ao Palácio do Primeiro-Ministro esvaziou-se. E André Ventura, este tweet que ele faz é de alguém muito desiludido. Enfim, ele é hiperbólico em tudo.
A derrocada para a Europa em função deste resultado.
Sim, a derrocada completa para a Europa. Enfim, nesta altura, estes partidos na União Europeia, no Parlamento Europeu estão em reconfiguração. André Ventura vai juntar-se à nova família europeia criada por Viktor Orbán. Temos que perceber, o mais provável é Marine Le Pen também ir para esta família europeia, a União Nacional também ir para esta nova família europeia. E caso a União Nacional tivesse conseguido ficar em primeiro lugar, tudo isto daria um ar de inevitabilidade ao crescimento da direita radical, da extrema-direita, da direita populista, da direita nacionalista, enfim, destas direitas todas.
Que independentemente do resultado, está a acontecer, é essa a tendência.
Claro que sim, mas se tivesse havido uma vitória da União Nacional aqui, tudo isto pareceria fazer sentido. Tudo isto estava a fazer sentido e a derrota, o péssimo resultado de André Ventura nas eleições europeias passaria um bocadinho despercebido, porque o Chega pareceria estar a fazer parte desta corrente imparável da história, esta inevitabilidade histórica que é a chegada ao poder da direita radical, da direita nacionalista, da extrema-direita, do que lhe quisermos chamar. E aqui há um travão, de facto. Certo, daqui a dois anos, dois anos e meio vamos ter as eleições presidenciais, mas daqui até lá ainda falta muito tempo, as coisas ainda vão alterar-se muito em França, por isso continua a restar a André Ventura como grandes apoios internacionais Viktor Orbán, que agora convém não esquecer, está à frente dos destinos europeus, por assim dizer.
Tem a presidência rotativa do Conselho.
A Hungria, mas que pode trazer problemas a André Ventura. Esta ida de Viktor Orbán a Moscou para se encontrar com Vladimir Putin é um bocadinho complicada para André Ventura, que se diz ucraniano até à medula, até à última gota de suor, afinal está ali de mão dada com o principal aliado europeu de Vladimir Putin, alguém que se comporta como uma espécie de valet de chambre de Vladimir Putin e a verdade é que depois está ali aos abraços com André Ventura. É uma má noite para André Ventura. E à esquerda vamos ter estas movimentações todas daqui para frente. Na política portuguesa, são os dois grandes polos que são afetados por esta eleição em França.
Essa estratégia de alianças de esquerda representa um problema maior para o centro-direita, particularmente para o PSD? Com menos opções para se aliar à direita, não é?
Sim, exato. Aumenta a pressão, pelo menos para que haja acordos com a Iniciativa Liberal. Pelo menos. Em Lisboa, lá está. Mas nas autárquicas também numa série de outros sítios. O mais evidente a seguir a Lisboa é, por exemplo, o Porto. No Porto vai haver uma mudança muito difícil de prever, porque nós estamos há muitos anos com o sistema partidário no Porto totalmente virado do avesso, porque tivemos Rui Moreira, um independente que teve o apoio da Iniciativa Liberal, mas que depois comeu totalmente o eleitorado do Partido Social-Democrata, o Partido Social-Democrata eclipsou-se no Porto. E o que vai acontecer agora que Rui Moreira vai sair? Não sabemos. Agora, o que sabemos é que à esquerda vamos ter o PS, espera-se que com Manuel Pizarro. Acho difícil que haja uma coligação à esquerda, mas à direita, o mais provável é que haja uma aliança do PSD com o CDS e com a Iniciativa Liberal para tentarem ficar com a Câmara do Porto. Portanto, essa pressão vai sentir-se aí. E claro, nas presidenciais, o PSD vai ter que arranjar um candidato que possa, pelo menos na segunda volta, juntar o máximo possível da direita. Seguramente, a Iniciativa Liberal, seguramente, o eleitorado da Iniciativa Liberal, mas até um candidato capaz de ir ao eleitorado do Chega, coisa que não é muito fácil, porque o candidato mais evidente é Marques Mendes, e Marques Mendes foi declarado inimigo público número um do Chega por André Ventura ter numa entrevista aqui ao Observador.
E Pedro Passos Coelho?
Temos que ver se está para aí virado, mas nada indica que esteja.
Sendo que seria uma figura que porventura conseguiria aglutinar mais os partidos a que fizeste referência, incluindo o Chega.
Mas acho muito difícil. Por um lado, não parece que Luís Montenegro queira ter Pedro Passos Coelho em Belém com poder próprio e a criar-lhe chatices. Já se percebeu, a relação entre os dois não está boa, a relação entre Luís Montenegro e Pedro Passos Coelho não é boa. Até imagino que Luís Montenegro preferisse um presidente de esquerda, se fosse uma esquerda mais central do que Pedro Passos Coelho. Há ali um problema pessoal que podia tornar-se difícil.
E poderia Luís Montenegro recusar um apoio do PSD a Pedro Passos Coelho caso fosse essa a vontade do ex-primeiro-ministro?
Não, isso não. Se ele se quisesse impor como candidato, tal como fez Marcelo Rebelo de Sousa na sua primeira eleição presidencial, convém lembrar que nessa altura os papéis estariam invertidos. Pedro Passos Coelho, primeiro-ministro líder do PSD a não querer Marcelo Rebelo de Sousa como candidato presidencial, chegou a tratá-lo por catavento político, é daí que vem a expressão, e Marcelo Rebelo de Sousa impôs-se como candidato, foi a um congresso do PSD, fez uma intervenção muito sui generis, muito informal, tomou conta do partido, tomou conta da candidatura, tomou conta dos votos e fez-se eleger presidente da República contra a vontade de Pedro Passos Coelho. Por isso, se Pedro Passos Coelho quisesse fazer isso a Luís Montenegro, não teria nenhuma dificuldade em fazê-lo. Mas enfim, nada indica que ele queira entrar nessa guerra, por um lado, e nada indica que Luís Montenegro lhe queira facilitar a vida. Por isso, sim, estas alianças à esquerda põem pressão sobre o PSD, mas também põem pressão sobre o PS, como estávamos a falar há pouco. O PS vai abdicar de ter um candidato do partido nestas presidenciais? Vai imediatamente admitir apoiar um candidato independente, fora da esfera do PS, que seja aceitável pela esquerda mais radical? Enfim, estes equilíbrios no PS também não são fáceis, porque seguramente que se houver a percepção, a sensação de que o PS está a submeter-se à agenda dos partidos mais à sua esquerda, vai haver um levantamento, como é óbvio, das alas mais centristas do Partido Socialista. Mais uma vez, olhando para França, é o grande hábito em Portugal desde sempre, século XIX, é olhar para França e ver ali muitas vezes o que aquelas mudanças em França nos mostram. E muitos dos comportamentos e reações que está a haver em França existiriam em Portugal se fôssemos por uma solução dessas. Agora, vai existir essa pressão, vamos ver onde é que ela termina, vamos ter mais reuniões de partidos de esquerda esta semana e nas próximas semanas, vamos ter o PS a tentar fazer com que elas não deem em nada. O PS não tem pressa nenhuma em criar este movimento à esquerda que o obrigue a tomar decisões e a ficar comprometido com o LIVRE, com o Bloco de Esquerda, enfim, o Partido Comunista põe-se mais de fora nestas coisas, tem muita cautela. E, portanto, vamos ter Rui Tavares e Mariana Mortágua a carregarem no acelerador e vamos ter Pedro Nuno Santos a carregar no travão.