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Colunista do Dia é um espaço em que conversamos sempre com um colunista do Observador. "Maggie Oliver foi a polícia de Manchester que denunciou o que se passava em Rochdale em 2012." Começa assim o artigo de opinião do João Marques de Almeida no site do Observador. É um dos quatro ases do Fora do Baralho, hoje promovido a Colunista do Dia. Olá, João.

Olá, Vanessa.

Deixa-me só fazer aqui um preâmbulo. O que se passou nesta pequena cidade no norte de Inglaterra foram violações de menores em restaurantes e casas particulares por homens predominantemente de origem paquistanesa. Há vários condenados já a cumprir pena de prisão, há relatórios, inquéritos, demissões na sequência deste escândalo, mas é um caso de há mais de 10 anos que está a ganhar agora grandes proporções políticas. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer tem estado a ser acusado de, enquanto na altura responsável pelo Ministério Público, ter ajudado a encobrir estes abusos. Podemos estar perante mais uma crise política no Reino Unido? O governo trabalhista pode cair por causa deste caso?

Não sei se pode cair, acho que ainda é prematuro dizer isso, mas pode haver uma crise política séria, uma crise de credibilidade do governo trabalhista e, sobretudo, do primeiro-ministro, porque esteve não diretamente envolvido nos casos, obviamente, diretamente envolvido ou indiretamente envolvido por causa do cargo que ocupava na versão britânica da Procuradoria-Geral da República. E um primeiro-ministro tem que estar acima de qualquer suspeita, não pode haver suspeitas sobre ele. Por isso é que eu estranhei. Acho que é uma má decisão do governo trabalhista ter recusado ontem, não foi o governo, foram os deputados trabalhistas, que têm a maioria no Parlamento britânico, mas por indicação do governo trabalhista, terem recusado um novo inquérito nacional. E acho que foi um erro terem recusado o novo inquérito nacional, porque convém ao primeiro-ministro britânico estar acima de qualquer suspeita. Ele diz, e não há razões para não acreditar, que fez tudo o que tinha a fazer, que não encobriu nada e que as investigações começaram e aceleraram durante o seu mandato, o que é verdade. Mas, de qualquer modo, também há quem diga, sobretudo na polícia e na polícia de Manchester, que ele não fez tudo o que deveria ter feito. Ora, há uma suspeita e esta suspeita devia ser clarificada até para bem do primeiro-ministro e para a credibilidade do governo britânico. E enquanto esta suspeita não for clarificada, há uma mancha sobre o governo britânico. Por isso é que eu disse no artigo, e repito, que foi uma má decisão não terem aceito este inquérito. Ora, este inquérito, o Partido Conservador também o pede, porque aparentemente, e isto ainda é mais grave, há indícios, com alguma força, de que o que aconteceu em Rochdale repetiu-se em cerca de 50 cidades de Inglaterra e no País de Gales. Isso era gravíssimo. Era uma coisa mesmo muito grave, porque nós estamos a falar, a grande maioria das miúdas que foram violadas, e eram todas menores. Aliás, nem vale a pena, eu não quis escrever isso no artigo, os pormenores que são verdadeiramente horríveis, mas eram miúdas dos 11 aos 16 anos, mas que estavam na sua maioria em orfanatos e em casas de acolhimento, portanto, sob a proteção da Segurança Social britânica, que não foi capaz de as proteger. Ora, se isto se repetiu numa grande escala por todo o território inglês e do País de Gales, é uma situação gravíssima, muito grave. E obviamente que isto, se se confirmasse que aconteceu noutras cidades, iria ter implicações políticas muito sérias, sobretudo para políticos locais. Ora, acontece que a maioria destas cidades são governadas por autarcas do Partido Trabalhista. E, portanto, isto também não é bom para o governo. Isto é daquelas situações, o argumento do governo para recusar o novo inquérito é basicamente o seguinte: o que é importante é tomar agora medidas para que estes casos não se repitam, pensarmos no futuro. E é verdade que o governo trabalhista propôs uma série de medidas para reforçar a segurança destas instituições sociais e proteger este tipo de raparigas mais vulneráveis. Foram tomadas várias medidas, mas resta saber se é credível vamos esquecer o passado e concentrarmo-nos no futuro, sobretudo quando há muitas perguntas por responder e muitas dúvidas em relação ao passado.

Enfatizas no artigo que Rochdale e abusos semelhantes destroem a ideia do multiculturalismo britânico, que é uma ideia defendida pela esquerda. Dizes que falharam na proteção dos mais desfavorecidos. O problema aqui não é mais profundo, a maior falha não foi dos serviços sociais de que falavas há pouco?

Houve uma falha enorme dos serviços sociais, sem qualquer dúvida. Houve uma falha por parte das autoridades policiais, da polícia. Aliás, foi por aí que começou quando Maggie Oliver resolveu contar. Ela começou com uma crítica à sua própria instituição, à polícia. Houve uma falha de políticos locais autarcas O ponto é: muita gente sabia o que se passava, e estes problemas começaram no século passado, na década de 90, e foram encobrindo o problema, precisamente porque havia esta dimensão étnica, que põe em causa o multiculturalismo, de serem grupos de homens paquistaneses ou de origem paquistanesa, muitos deles já nascidos no Reino Unido, portanto, britânicos de origem paquistanesa, que violavam raparigas vulneráveis, inglesas, como disse, na sua maioria órfãs. Não se deve pensar que a maioria dos homens paquistaneses tenha esse tipo de comportamento. Obviamente que não têm. E há homens que não são paquistaneses e até ingleses, que podem ter este comportamento e se calhar, nas outras 50 cidades de que se fala, houve muitos outros tipos de homens que tiveram este comportamento, mas isso também é muito importante averiguar. Agora, no caso que se sabe terem sido homens paquistaneses com raparigas inglesas, e aliás, quem está na prisão são, sobretudo, homens paquistaneses, cerca de 50, com mais duas ou três pessoas inglesas, mas que foram acusadas de gerir uma espécie de uma rede de prostituição dessas miúdas que estavam nessas instituições sociais. Algumas delas, até há mulheres que estão presas. Portanto, desta história, o que fica para a maioria dos cidadãos ingleses, por mais que nos custe dizer, é homens paquistaneses que estavam a violar miúdas inglesas.

Pois, eu gostava de te ouvir sobre esta questão do impacto que isto tem pra sociedade, porque passas muito tempo no Reino Unido, achas que este caso pode abrir aqui mais divisões na sociedade britânica?

Seguramente vai abrir mais divisões na sociedade britânica. Até por isso era importante procurar descobrir-se tudo o que aconteceu, se aconteceu e o que aconteceu noutras cidades, e fazer justiça. Porque, por exemplo, vamos imaginar que noutras cidades a maioria das violações e dos abusos sexuais foram cometidos por ingleses, homens ingleses brancos. A questão da raça, da etnia, associada à imigração, ao multiculturalismo, torna-se muito mais fraca. Agora, neste momento, o caso que conhecemos, obviamente que enfraquece o multiculturalismo. E pior do que isso, há perfeitamente a ideia que muitas pessoas, como dissemos há pouco, funcionários das instituições sociais, inclusivamente polícias, autarcas locais, quiseram encobrir o caso precisamente por causa da questão multicultural.

Há dados, há provas disso, João?

É o que dizem, foi o que foi dito em julgamento, foi o que começou por dizer Maggie Oliver. Há artigos de pessoas que entrassem da polícia que dizem que havia uma autocensura. Portanto, provas, não há provas em que se possa dizer: "Este conjunto de pessoas omitiu por estas razões". Mas há indícios suficientemente fortes que nos levam a concluir que durante, e não estou a exagerar, durante duas décadas, estes casos foram escondidos por causa da natureza dos envolvidos nos casos.

Elon Musk fez questão de propagar este tema no X. Ele já andava a aparecer nas redes sociais. Achas que teve impacto ter sido Elon Musk a fazer estas acusações ao primeiro-ministro britânico?

Bom, vamos lá ver. Eu acho que tem algum impacto, sobretudo porque na Europa há uma obsessão, uma histeria mesmo com Elon Musk, é uma coisa extraordinária as pessoas hoje em dia. Quer dizer, deve ser o nome mais pronunciado por muita gente na Europa. E é óbvio que ele tem um grande poder na chamada opinião pública mundial através do X, do antigo Twitter, de que é proprietário, obviamente. Mas vamos lá ver. Musk não tem nada a ver com o que aconteceu. Isto aconteceu independentemente de Musk. Se nada disto tivesse acontecido, Musk não teria publicado o que publicou, ou se tivesse publicado, ninguém lhe ligava nenhum, achava que ele tinha enlouquecido de vez. Quer dizer, Musk pode agora ter dado atenção ao caso, mas o caso existiu, falou de fatos, falou de coisas que aconteceram, de acontecimentos. Além disso, não foi Musk, foi o Partido Conservador que propôs um inquérito nacional no Parlamento britânico, a abertura de um inquérito nacional no Parlamento britânico, e foi o governo trabalhista que recusou, a grande maioria, os deputados trabalhistas. Agora, é muito interessante também aqui perceber que houve cerca de 50 abstenções de deputados trabalhistas. Muitos deles são deputados das tais cidades onde há indícios que aconteceram situações semelhantes à de Rochdale e que não quiseram votar contra o inquérito, porque sabem que as populações locais são a favor desse inquérito, então muitos deles simplesmente não apareceram na votação. Por um lado, pra não ir contra a disciplina de voto do Partido Trabalhista e não ir contra o seu governo, mas, por outro lado, porque não quiseram votar contra, porque sabem que o seu eleitorado, e como conhece aí o sistema eleitoral britânico, em que os deputados são eleitos em localidades bastante claras e são eleitos por aquelas localidades, os círculos unipessoais, e portanto, eles perceberam que estavam numa situação muito difícil.

E essa ausência de 50 deputados é um dos fatos que sublinhas também neste artigo, que tem o título "Maggie Oliver: quem é Maggie Oliver, a polícia de Manchester que acabou por denunciar estes abusos em 2012". Muito obrigada, João Marques de Almeida, por teres sido o nosso colunista do dia.

De nada, foi um gosto.

E temos encontro marcado amanhã no "Fora do Baralho", depois das 19:00, aqui na Rádio Observador. Até amanhã.

Até amanhã, Vanessa.