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Retomamos agora o contacto, há pouco estava um pouco complicado, com Manuela Moura Guedes. Manuela, mais uma vez, muito boa tarde. Eu há pouco perguntava-lhe sobre essa saída de Vasco Pulido Valente do papel de comentador político na altura da suspensão do Jornal Nacional, onde colaboraram. E a Manuela falava-me da relação entre a Manuela Moura Guedes e o Vasco Pulido Valente e também do sinal e do significado dessa saída de Vasco Pulido Valente na altura.

Exatamente. Dizia eu que isso demonstra uma das características dele como pessoa. Eu prefiro falar dele como pessoa, porque a maior parte de quem tem estado a falar do Vasco tem falado do seu percurso mais público. Eu tive a sorte de entrar dentro da esfera pessoal, de ser amiga do Vasco e de lhe conhecer essas características que estavam um bocadinho longe da maior parte das pessoas. Quando o jornal acabou e foi proibido, eu telefonei ao Vasco a dizer-lhe isso mesmo e ele ouviu cinco segundos e disse: "Eu já te ligo". E telefonou de imediato para a TVI, onde ele tinha a colaboração no jornal e tinha também uma outra colaboração. Terminou com as duas. Logo, de antemão. E depois explicou-me: "Eu não podia, de maneira nenhuma, continuar numa estação em que se faz este tipo de coisas."

Na altura, estávamos em 2009.

2009.

Em setembro de 2009, em vésperas de eleições.

De eleições.

E havia a suspensão do Jornal Nacional na TVI.

Exatamente. Ele podia ter ficado ou podia, como fez muita gente, continuar com a colaboração. Podia ter continuado com a outra colaboração, que nada tinha a ver com o jornal, mas não. O Vasco era uma pessoa de princípios. Era intransigente, completamente, com os princípios que o regiam e ao longo da vida, por causa desses princípios, foi deixando muita gente para trás. Desiludia-se, porque as pessoas não o seguiam, não o seguiam como ele. Ele foi das pessoas, talvez, que eu mais admirei em toda a minha vida. Por causa disso mesmo. Foi muito incompreendido, porque ele via a sociedade portuguesa à luz dos princípios dele. Via com um espírito livre, independente e era intransigente com as pessoas, com aquilo que se passava e chamou-lhe então espírito corrosivo e uma ironia corrosiva. Ele era diferente. Ele não contemporizava com nada. Ele descrevia aquilo que analisava tal e qual como o pensava e daí ser diferente. Eu gostava muito dele, exatamente por estas características. Costumava ir à casa dele simplesmente para conversarmos. Já ele não estava muito bom de saúde. Ficávamos à conversa. Eu normalmente falava-lhe de uma questão ou de outra que estava na atualidade e ele ia falando, e era um gosto sempre ouvi-lo. Porque era um homem cultivado, porque encontrava sempre paralelos na história portuguesa daquilo que ia acontecendo e porque tinha sempre um lado, não é bem de ironia, mas uma certa distância que o fazia ver as coisas com algum desprendimento. Era um ser diferente e que faz muita falta a Portugal. Faz mesmo muita falta. E como amigo, faz ainda mais.

Muito obrigado, Manuela Moura Guedes, por este contributo, este testemunho. Na altura, Vasco Pulido Valente dizia que os motivos para a saída da colaboração com o Jornal Nacional da TVI eram evidentes. Dizia: a dias das eleições, aquilo que se tinha passado era muito grave para a democracia portuguesa. Era assim que justificava a saída do Jornal Nacional da TVI, onde era comentador político, esse jornal que foi suspenso e que era apresentado por Manuela Moura Guedes