Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Falamos com Paulo Rangel, eurodeputado pelo PSD. Foi uma das figuras também no último Congresso Social Democrata. Boa tarde, Paulo Rangel, muito obrigado por se juntar a nós. Já falamos aqui esta tarde dessa ligação também de Vasco Pulido Valente ao PSD, ao PPD/PSD de Sá Carneiro. O que é que recorda também de Vasco Pulido Valente? E já agora aproveito para lhe perguntar se alguma vez leu uma crônica de Vasco Pulido Valente, em que Vasco Pulido Valente falava sobre si e de maneira pouca amistosa.
Para dizer a verdade, antes do mais, dizer que eu acho que é uma enorme perda para a análise política portuguesa, para a historiografia portuguesa, especialmente do século XIX e princípio do século XX, mas em especial do século XIX, da Revolução Liberal e depois de todo o período que vai até à Regeneração e até à implantação da República. Mas é também uma grande perda, isto é que eu gostava de salientar, porque acho que é um ponto que tem sido pouco salientado, para a língua portuguesa, porque talvez um dos melhores escritores, não no sentido novelista, mas de manuseamento, de domínio, de elegância no português, na língua portuguesa, são as crônicas e são os escritos, especialmente os ensaios de Vasco Pulido Valente. Não há dúvida que ele tem um domínio do português absolutamente... Não conheço ninguém na esfera pública portuguesa que escrevesse um português tão perfeito, tão conciso, tão sintético e ao mesmo tempo tão bem trabalhado. Portanto, eu não tenho dúvidas que ele era extremamente curto e conciso ao escrever, mas que isso, ele próprio dizia, lhe levava às vezes horas e horas a conseguir realmente essa quase absoluta perfeição. Mas este era um ponto que eu queria aqui dizer. Eu acho que é uma grande perda para a língua portuguesa e para quem especialmente trabalha na comunicação social, perdem uma referência sobre o que é a excelência na escrita do português. Dito isto, naturalmente que no caso do PSD, eu penso que é preciso dizer, eu diria até que nem é uma questão de PSD. Vasco Pulido Valente ligou-se a duas pessoas em particular, que foram dois dos maiores do nosso pós 25 de abril. Uma foi Sá Carneiro, de quem foi, aliás, secretário de Estado da Cultura no sexto governo constitucional, portanto, o primeiro governo AD. E o outro foi depois Mário Soares, de quem ele foi conselheiro, especialmente na campanha Soares é fixe.
Naquela campanha de 86 com o Freitas do Amaral.
A proximidade que, por um lado, tinha Vasco Pulido Valente a estas duas grandes figuras, tinha a ver com a circunstância de eles compreenderem que o seu juízo crítico, muitas vezes acerbo, irônico, era muito realista. Era um grande conhecedor, no fundo, da história portuguesa, de política portuguesa, das suas grandes tendências, mas também das suas pequenas incidências. E esse conhecimento daquilo que eu chamaria a natureza humana portuguesa, e não apenas a natureza humana num sentido global, dava a qualquer líder político com inteligência, com rasgo e com visão, naturalmente uma vantagem enorme, porque era alguém que era capaz de, por um lado, criticar, contestar, mas também ver ou entrever naquilo que é mais difuso, no fundo, o essencial. Era, no fundo, a sua lucidez. Quer dizer, o que é extraordinário e é revelado por essa escrita, como eu digo, Vasco Pulido Valente não seria o mesmo se não tivesse o domínio do português que tinha, é a sua lucidez, que é uma lucidez desconcertante. No fundo, para muitos problemas políticos, nós olhamos para os problemas políticos e há um olhar antes de ler uma crônica de Vasco Pulido Valente e um olhar depois de ler uma crônica de Vasco Pulido Valente. E, portanto, mesmo que não se concorde, ele obriga-nos a ter um contexto e de forma totalmente diferente daquela que eu diria o padrão comum recomendaria, que obriga-nos a ver de forma totalmente diferente. Já agora, permita-me dizer que tive realmente um ou outro caso em que Vasco Pulido Valente usou da sua ironia corrosiva para comigo, mas recordo-me de um artigo que eu tenho como grande medalha e que foi justamente em que ele faz um elogio a uma intervenção minha, a intervenção da Claustrofobia Democrática no 25 de abril de 2007, portanto será provavelmente no dia 26 de abril, no Público, e que sinceramente, talvez de todas as distinções públicas que uma vez ou outra fui alvo, foi aquela dada o culto que eu prestava à sua inteligência, à sua cultura, ao seu domínio da língua portuguesa, foi pra mim um momento eu diria alto, porque realmente era um herói, neste sentido que é uma referência do pensamento político ou do pensar político, mais do que pensamento, porque há um dinamismo constante nas suas observações. E, portanto, sinceramente, eu diria que essa é a minha pequena coroa de glória, falo agora sem nenhuma modéstia, é realmente esse artigo em que ele, enfim, de uma forma ainda assim contida, não deixa de fazer um elogio.
E agradecemos que tenha partilhado também essa coroa conosco aqui na Rádio Observador. Muito obrigado, Paulo Rangel.