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Junta-se a nós Raquel Bocasis, colunista do Observador, editora de política do jornal Sol. Boa tarde, Raquel.
Olá, boa tarde.
Este debate mostrou bem qual o estado da nação?
Mostrou uma montra daquilo que foram os primeiros 106 dias deste governo de Luís Montenegro e aquilo que ele conseguiu fazer com eles para mostrar que está em forma para poder seguir em frente. Basicamente, eu acho que foi dessa forma que o chefe do governo encarou este debate do Estado da Nação e penso até que era uma meta que ele já trazia de trás, que era chegar a este dia com obra suficiente para mostrar e com sondagens que o pusessem como o preferido para primeiro-ministro, para vir a este debate e iniciar o segundo ato desta legislatura, que eu acho que é o início do processo negocial para o orçamento. Luís Montenegro entrou a pé juntos, traçou aquilo que são as fronteiras para iniciar esse processo, ou seja, exigindo que o deixem governar com o seu programa e que aquilo que venha a ser negociado não resulte num orçamento a meias do PS e da AD. Em relação ao CHEGA, traçou as linhas que já vinham de trás. E eu acho que esse foi o pano de fundo de todo este debate do Estado da Nação, que eu digo de passagem que achei um pouco maçador no formato. Acho que tem mesmo que ser revisto, porque a certa altura, aquilo que se estava a ouvir já não tinha nada a ver com aquilo que tinha sido os momentos iniciais do debate, que foram os mais interessantes. E do lado da oposição, sobretudo Pedro Nuno Santos, acho que também aproveitou nesta encenação para colocar aquilo que são as suas exigências, ou seja, que o Partido Socialista, se vier a viabilizar o orçamento, tenha algum trunfo para mostrar. Mas acho que aproveitou também para preparar esse caminho que agora se segue, que é o caminho da aprovação do orçamento, se é que os dois se vão entender. Mas pareceu-me que os sinais eram bons, apesar da agressividade no tom, acho que isso faz parte da encenação política do momento.
E tendo em conta, Raquel, precisamente esse pano de fundo, que são as negociações do orçamento para o próximo ano, sentiste aqui um debate tático também nessa perspectiva? Houve aqui mais cautelas na hora de apresentar argumentos ou nem por isso?
Desculpa, não ouvi a parte final da pergunta.
Estava a perguntar se sentiste mais cautelas de parte a parte na hora de apresentar argumentos ou nem por isso.
Numa fase inicial, não, mas acho que fazia parte desta encenação de que eu falava. Na fase final do debate, acho que era a última intervenção de Pedro Nuno Santos, deixando até no ar aqueles que são os dossiês mais importantes para se poder vir a negociar, nomeadamente a questão do IRC, deixando no ar a ideia de que não concorda com o que o governo propõe agora, mas está disponível para falar sobre isso, ou seja, para encontrar uma outra solução. Pode ser esse um caminho. Mas sobretudo, acho que também na intervenção final de Pedro Duarte, Pedro Duarte fez o papel do polícia bom, depois de um debate com alguma intensidade e arrogância, até como dizia Pedro Nuno Santos, Pedro Duarte veio no fim explicar: "Nós já fizemos o nosso papel até aqui, agora temos todos que ter bom senso, porque o país não quer eleições e temos que encontrar forma de nos entendermos."
E foi possível, Raquel, perceber como é que vai ser a postura do governo e do Luís Montenegro nessas negociações, se irá privilegiar o PS nessas negociações, deixando o CHEGA de lado?
Eu acho que isso parece-me claro. Sinceramente, parece-me claro desde há muito tempo. Acho que os sinais do debate de hoje vão nesse sentido. Acho que os sinais que o próprio Pedro Nuno Santos e o Partido Socialista deram, não só hoje, mas nos últimos dias, vão também nesse sentido. E é importante percebermos que Pedro Nuno Santos não está, de facto, interessado numa crise política em pouco tempo. Ele precisa de tempo para se preparar, para preparar o partido. E sobretudo, daqui a um ano, mais ou menos, temos eleições autárquicas e essas eleições são muito importantes para o Partido Socialista, que tem que estar não só bem preparado, como sabe que tem um desafio difícil, porque é difícil que o Partido Socialista venha a ter um resultado semelhante àquele que teve nas últimas eleições autárquicas, que foi o melhor resultado de sempre. Tem grandes desafios e tem os autarcas socialistas a exigirem que não crie agora uma crise política, que deixe aprovar o orçamento, porque o orçamento, entre outras questões, implica também com muita obra que há muitos autarcas por esse país fora precisam de fazer neste último ano para poderem vir a ser reeleitos ou manterem o Partido Socialista no poder. E portanto, há aqui um cruzamento de entendimentos que me leva a acreditar que será com o Partido Socialista que vai haver um entendimento, até porque as tentativas de entendimento com o CHEGA, desde as eleições de 10 de março, correram muito mal e eu acho que o Luís Montenegro não confia minimamente em André Ventura, nem na sua palavra, para arriscar tudo numa aprovação com o CHEGA.
E as sondagens também acabam por levar a que nenhum partido esteja propriamente interessado nesta altura em eleições antecipadas.
Certo. Acho que esse era o trabalho que Montenegro tinha a fazer nestes Nestes primeiros dias de governo, nestes três meses que já passam desde que tomou posse, era no fundo dar sinais ao país do que está a fazer, independentemente das circunstâncias políticas, e de ganhar credibilidade junto dos portugueses para que, neste momento ou em outubro, seja muito difícil a qualquer partido encarar um novo desafio eleitoral, quando se sabe que os portugueses estão fartos de ir às urnas.
Rachel, deixa-me perguntar também como é que olhaste, tendo em conta também os resultados das eleições europeias e das sondagens também, como é que olhaste para o tom do Chega neste debate? Houve alguma mudança no tom do Chega?
Não sinto grande mudança de comportamento por parte do Chega desde as eleições europeias, e não sei se não está a haver aqui um erro político por parte de André Ventura ao não tentar ler os sinais que as sondagens das eleições europeias lhe têm dado. Acho que André Ventura fez a opção de seguir em frente com as suas agendas. Não dá sinais de poder ser um parceiro de confiança para qualquer tipo de negociação, e acho que continuará a ter más notícias nos estudos de opinião que vão surgindo, porque está à vista que com este novo governo, o eleitorado que rapidamente fez uma opção de voto no Chega, de voto de protesto, não sei se neste momento está tão disponível para continuar a fazer esse voto de protesto. É certo que André Ventura continua com uma agenda temática que é popular, a questão da corrupção, a questão da imigração, enfim, continua a tentar capitalizar essas agendas, mas numa altura em que a sociedade está um pouco mais pacificada, não sei se isso continua a render tanto como rendeu no passado.