Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Estamos a chegar ao fim do primeiro dia da Convenção Nacional do Bloco de Esquerda, no Pavilhão do Casal Vistoso. Vamos fazer um balanço do dia com o Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, e com o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política. Miguel, já ouvimos muitos dos notáveis do partido. Fernando Rosas, um dos fundadores, veio pedir um Bloco radical e um Bloco que não tenha medo de estar sozinho. O Bloco não deve ter medo de estar sozinho ou deve procurar estar acompanhado para tentar recuperar o eleitorado? Que caminho é que pode sair daqui?
Eu citaria antes um delegado que falou e que acho que foi mais certeiro do que Fernando Rosas, mas já volto a Fernando Rosas.
Muito bem. Sinta-se à vontade.
Disse que não basta carregar maquinalmente no botão da luta de classes. E esse problema apanha também Fernando Rosas. Se bem me recordo, há poucas semanas ele estava a fazer dancinhas no TikTok. Portanto, ver alguém que estava há umas semanas a fazer dancinhas no TikTok, estar agora aqui a mostrar um novo caminho, é um dos problemas do Bloco. É que nós vemos os dirigentes e os influencers do Bloco a carregarem maquinalmente no botão da luta de classe. Ouvimos Francisco Louçã a dizer que é preciso ter os pés na Terra, salário, casa, hospital, e depois repetindo salário, casa, hospital. Até há umas semanas, os pés na Terra era Gaza, Gaza, Gaza. E por isso nós vemos as mesmíssimas pessoas a dizerem coisas radicalmente diferentes, aí sim radical, radicalmente diferentes, com umas semanas de intervalo.
Isso vai dificultar a tarefa de José Manuel Pureza? Que guião é que ele vai ter que seguir quando sair daqui amanhã?
Acho que isso não é muito credível. José Manuel Pureza tem a vantagem de não ter tido tanta visibilidade. Mas a visibilidade foi tão pouca que nas eleições autárquicas em que ele concorreu em Coimbra teve não sei se 3%, alguma coisa assim. Vou dizer uma coisa de cor.
Houve uma dissidência com o movimento independente e o Bloco avançou pela primeira vez sozinho e ficou muito abaixo do que com esse movimento conseguiram.
Mas enfim, pelo menos José Manuel Pureza não andou a fazer danças no TikTok, não andou no TikTok a tentar dizer palavras em inglês. Pelo menos está a salvo disso. Vamos ver o que é que vem daí. Sendo que ele realmente é de outra escola de pensamento. É daquele católico, eu acho que se apresentará como um católico progressista e dialogante, que é uma corrente que tem uma grande tradição na história política portuguesa.
Mas pelo que se ouviu aqui, essa escola tem apoio das bases do Bloco de Esquerda ou nem tanto? Como se tem visto.
Eu admito que nós vemos aqui os dirigentes e os tais influencers a tentarem puxar novamente o Bloco para a luta de classes e para o tal diálogo com as outras forças de esquerda, mas à medida que o que realmente mobiliza as bases que aqui estão continua a ser o anterior discurso, porque obviamente, lá está, isto não é só carregar num botão. Não basta isso para introduzir uma mudança.
Já agora, José Manuel Pureza teve 2% dos votos, 2,86, pouco mais de 2000 votos.
Estava a ser generoso, peço desculpa.
Nas eleições autárquicas. Miguel Santos Carrapatoso, pegando no que disse Francisco Louçã, este é um Bloco de Esquerda que já conseguiu pôr os pés na Terra e fazer o ato de contrição, ou ao cabo de um dia de trabalhos ainda não surgiu propriamente esse novo rumo que o partido precisa de ter?
Acho que é cedo para dizermos que o ato de contrição está feito, até por aquilo que o Miguel Pinheiro dizia. Ainda há meia dúzia de dias, Mariana Mortágua reagia à derrota nas eleições autárquicas dizendo que a estratégia estava correta. Fernando Rosas escreveu no Público um artigo em que defendia o legado de Mariana Mortágua, o Francisco Louçã fez o mesmo. Portanto, de facto, e nós já tivemos a oportunidade de acompanhar alguns congressos do Bloco de Esquerda, é o primeiro congresso, e acho que estou a ser justo, em que há de facto uma reflexão e uma autocrítica sobre determinadas decisões do partido. Isso aconteceu esta tarde e tem acontecido. O que é um sinal, é um sinal de que o partido apanhou um susto e está a tentar fazer pela vida. Agora se isto é uma operação cosmética ou não, não sabemos. Mas de facto ouvimos aqui intervenções, quer de Fernando Rosas, que foi um sério aviso à navegação, mas também de outras figuras que têm andado mais discretas, como Pedro Filipe Soares, que foi líder parlamentar do Bloco de Esquerda, que disse, estou a parafrasear, mas disse basicamente que quando o Bloco fala sobre temas que a maioria das pessoas percebe, isso costuma dar bom resultado, e deu, historicamente deu bons resultados eleitorais ao Bloco de Esquerda quando falava de coisas concretas e o período de oposição ao governo Pedro Passos Coelho foi muitas vezes citado neste congresso. Portanto, o Bloco percebe que é por ali.
Como é que cresceu no passado.
Falou-se muito também da questão da greve geral e da reforma laboral. O Bloco sabe que a tal luta de classe ou num conceito mais concreto, a luta ao lado dos trabalhadores e dos descamisados pode ser uma oportunidade para o partido Portanto, parece estar disposto a inclinar-se mais para aí. Ao mesmo tempo, vamos tendo algumas intervenções contraditórias com esta estratégia principal. Ouvimos ainda muito, e não há mal nenhum em que se fale sobre Gaza e sobre a Palestina, mas quando um partido só fala sobre Gaza e sobre Palestina, arrisca-se a ficar mais pequenino. E o Bloco percorreu esse caminho até aqui. E nós ouvimos algumas intervenções da própria Mariana Mortágua e de outras figuras que ainda são muito influentes no partido, a defenderem que isso foi muito bem feito e que estava tudo bem com isso. Há aqui uma tensão. Aparentemente há uma tensão dentro do Bloco de Esquerda.
Nós tivemos aqui até Jorge Costa a dizer que Mariana Mortágua fez um mandato excelente.
Voltamos ao mesmo. Se fez um mandato excelente, foi o povo que esteve errado. Isso é uma linha que pode ser seguida, costuma dar mau resultado. Quando as pessoas têm uma atitude de humildade perante os votos que o povo lhes dá, costuma dar melhor resultado. Não sei exatamente que Bloco vai sair daqui. Há sinais que indicam que o Bloco vai tentar ouvir e falar para quem vota, para os portugueses, mas há alguns núcleos de resistência que podem insistir num caminho para o abismo.
Deixa-me pegar numa questão que levantaste, que é esta matéria dos movimentos sociais, da lei laboral. Este congresso surge também numa fase de antevisão de uma greve geral que é histórica, que remete para este tempo de Pedro Passos Coelho e da troika. Esta questão da greve geral, o facto de depois das presidenciais, à partida, não irem existir eleições num curto período de tempo, pode ser uma boa oportunidade para o Bloco se reconfigurar e reencontrar o caminho?
Isso faz-me lembrar, não sei se a história é apócrifa ou não, que perguntaram ao Gandhi o que ele achava da civilização ocidental, ele disse: "Acho que seria uma boa ideia." Aqui, claro, seria uma boa ideia o Bloco ter uma implantação sindical, de organização e de movimentos, mas não tem e nunca teve. De facto, houve vários intervenientes nesta convenção que falaram da greve geral, quase como se a greve geral fosse da autoria do Bloco. O Bloco não tem nada a ver com a greve geral. O Bloco nunca conseguiu ter implantação sindical, exceto a dada altura na Autoeuropa, em que conseguiu ter um dirigente sindical relevante.
Mas durante o governo de Pedro Passos Coelho teve aquele movimento que se lixa troika, conseguiu de alguma forma dinamizar esse tipo de movimentos sociais.
Mas, Miguel, vamos lá ver, é relativamente fácil, num momento absolutamente excecional de intervenção externa e em que estás a ter políticas violentíssimas de austeridade. Se não é nessa altura, então é quando? O problema é que o Bloco não consegue ser ele o autor de mobilizações sociais que permaneçam. Não consegue. Com certeza que pode esforçar-se para conseguir fazer isso, mas até agora não conseguiu. E está a tentar apanhar aqui a boleia, assim um pouquinho como sidecar da greve geral. O que se percebe, claro, com certeza que o Bloco de Esquerda tem que tentar aproveitar todas as oportunidades que surgirem, mas isso é artifício, porque a greve geral não tem nada a ver com o Bloco de Esquerda. Ponto final, parágrafo. Se querem fazer esse caminho, ótimo, muito bem, acho muito bem que tentem fazer esse caminho, mas até hoje, e já se passaram muitos anos, já anunciaram esse caminho várias vezes e nunca o conseguiram fazer. Mas nunca é tarde pra tentar.
Há sempre uma primeira vez pra tudo. Miguel, esta questão do Bloco-
Neste caso, há sempre uma quarta vez pra tudo.
Esta questão da convergência e de um Bloco mais dialogante, isto na prática quererá dizer o quê para este Bloco? Porque ainda não se percebeu se é uma disponibilidade maior para uma nova geringonça, se é um Bloco mais próximo do PS ou não, no que isto na prática se pode traduzir?
Vou fazer como o Miguel Pinheiro, já respondi à tua pergunta.
Vais ignorar a minha pergunta. Exato.
Antes uma coisa mais interessante.
Sim, façam como se estivessem em casa.
Ainda sobre a questão da lei laboral e dos direitos dos trabalhadores, achei particularmente interessante uma mudança na relação com o Chega, na forma como o Bloco se pode relacionar com o Chega. Claro que continuam as referências ao avanço da extrema-direita, como isso faz parte do movimento internacional, etc. Mas houve aqui a introdução de um aspeto mais pragmático e concreto que pode funcionar se for bem explorado, que é quando o Bloco de Esquerda responsabiliza o Chega pela aprovação de propostas e pela aprovação desta reforma laboral e que isso pode provocar algum tipo de efeito nos eleitores do Chega. Nós sabemos que os eleitores do Chega são uma massa muito heterogênea. Sabemos que André Ventura tem uma preocupação especial com aquilo a que podemos chamar os descamisados, aqueles que ficaram pra trás, as vítimas do capitalismo, da globalização, etc. E nesse caso, se o Bloco de Esquerda conseguir Usar o argumento de que o Chega pôs-se ao lado dos opressores e não dos oprimidos, pode ser interessante na forma como o Bloco se relaciona com o Chega. É difícil, mas pode ser um caminho. Sobre a tua pergunta, convergência à esquerda. Ouvimos a manifestação dessa vontade, ouvimos críticas ao PCP pela forma como se excluiu dessa convergência nas últimas autárquicas. Agora, como é que isso se materializa? É difícil de antecipar.
Até porque já existiu um PS, se calhar, mais recetivo a isso.
Sim, e porque eu acho que nem é necessariamente no PS que estão a pensar, é no Livre, é em movimentos sociais, é em associações de estudantes, é em células nas empresas. Há uma vontade de convergir, mas não se sabe exatamente com quem. E há aqui uma questão que é: convergir em causas, certo. E vocês que tiveram a oportunidade de entrevistar muitos dos notáveis aqui no púlpito, quando se pergunta: mas isso é um caminho para a diluição do Bloco de Esquerda num movimento maior, como defendeu, por exemplo, Daniel Oliveira, num artigo publicado no Expresso, dizem logo que não, que é importante manter a autonomia. Portanto, convergência limitada, não necessariamente com o Partido Socialista, com o PCP também não. Fica difícil perceber, vão convergir com quem, exatamente?
Falta um par pra dança, neste caso, ao Bloco de Esquerda.
Falta, falta muita gente pro baile.
Só para terminar, faltou-nos ouvir ou conhecer melhor o José Manuel Pureza candidato ao Bloco. Passamos por este primeiro dia sem ouvir o candidato. Falou Alexandra Abreu em nome da moção que propôs José Manuel Pureza. Falta ouvir um bocadinho do que o próprio José Manuel Pureza pensa ou concebe esse exercício de liderança do Bloco de Esquerda.
Sem dúvida, José Manuel Pureza vai aparecer amanhã na convenção trazido dos céus por anjos. Subitamente vai aterrar na convenção um novo líder. É nessa altura que vamos todos tentar perceber, afinal, o que se passa na cabeça dele, qual é o caminho. Enfim, eu imagino que nos outros partidos, que são menos perfeitos do que o Bloco, as pessoas que querem ser líderes falam, discursam, são obrigadas a expor as ideias que têm. O Bloco não precisa disso. E por isso o José Manuel Pureza aparecerá amanhã, já eleito, a falar pela primeira vez. É uma forma original de escolher lideranças. Mais uma vez, parece que não importa, é indiferente quem lá está. Vai ser o mesmo grupo de sempre, de facto, a tomar conta do partido e agora vai tentar um discurso um bocadinho diferente.
Já agora, claro que o Observador tentou ouvir José Manuel Pureza durante este dia, mas a estratégia é outra. Miguel, faltou perceber melhor o que José Manuel Pureza pensa enquanto futuro coordenador do Bloco.
Sim, vamos dizer, é uma excentricidade do Bloco. Fosse outro partido qualquer que estivesse aqui na iminência de eleger um novo líder e esse novo líder não deu sequer uma entrevista a dizer o que pretende para o partido, e estaríamos aqui a criticar. Bem sei que é uma coisa relativamente comum no Bloco de Esquerda, é assim que funcionam os congressos, mas não me parece que seja, de facto, como dizia o Miguel, um bom cartão de visita. Agora, José Manuel Pureza é uma figura conhecida do Bloco de Esquerda, é alguém que por muito que as pessoas que vocês tiveram o cuidado de entrevistar aqui no púlpito do Observador dissessem que não vêm representar uma rutura, é alguém que pelo menos na forma de estar e de fazer política está muito distante de Mariana Mortágua e ainda mais distante de Catarina Martins. Foi sempre um construtor de pontes à esquerda e à direita e, portanto, se levar a sua personalidade e a sua forma de estar e de fazer política para a condução do Bloco, isso marcará uma diferença. Agora, vamos ver se tem força suficiente para se impor a um partido que se habitou a ser uma coisa durante muito tempo. E isso é que não há ainda evidências de que José Manuel Pureza consiga, só porque chegou transportado por anjos vindo do céu, não há grandes evidências que tenha essa equipa diferente, renovada. Falou-se muito de renovação. Não me parece que vá ter uma equipa muito diferente das anteriores. Mudam-se umas peças, mas o grupo continua lá. O que muda é que, de facto, José Manuel Pureza, por ele próprio, tem uma persona diferente, é verdade. Mas isso por si só não basta.
Miguel Santos Carrapatooso, Miguel Pinheiro, obrigado pela vossa análise a este primeiro dia de Congresso do Bloco de Esquerda. Amanhã estaremos novamente no Pavilhão do Casal Vistoso para a sessão de encerramento. Lá está, para ouvir também pela primeira vez José Manuel Pureza, aí já no fato de novo líder do Bloco de Esquerda.