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Começamos com este dia de eleições na Catalunha. As urnas já abriram e estão convocados mais de 5,5 milhões de eleitores para uma votação que promete ser imprevisível, apesar de o candidato socialista estar à frente nas sondagens, é muito pouco provável que consiga formar governo, porque muito próximos tem os candidatos dos movimentos independentistas Esquerda Republicana da Catalunha e Juntos pela Catalunha. Neste jornal das 11 da Rádio Observador vamos tentar antecipar cenários com o professor Marcos Farias Ferreira. Ele é professor e investigador do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, também especialista em Relações Internacionais. Bom dia, professor Marcos Farias Ferreira, obrigado por se juntar a nós.

Bom dia.

As contas estão muito baralhadas na Catalunha. Qual é o pior cenário que podemos assistir logo à noite?

A questão de avaliar o positivo e o negativo tem que ver com as estratégias de cada um dos partidos. De fora, não é propriamente possível dizer o que é mais negativo ou mais positivo. Com certeza que do ponto de vista da governabilidade da Catalunha e também da Espanha, o pior que poderia acontecer seria um impasse e a impossibilidade ou incapacidade dos atores políticos formarem governo, ou seja, não haver maiorias claras. Isso pode estar em cima da mesa, não é muito provável, mas pode estar em cima da mesa, devido ao contexto de pandemia. Não se sabe exatamente qual é que é o grau de participação, e isso vai baralhar certamente as contas. A escolha do antigo ministro da Saúde para candidato do Partido Socialista veio complexificar os cenários, porque neste momento o Partido Socialista dos Catalães tem possibilidade de ganhar as eleições e portanto iniciar o processo de formação do governo.

Mas e se houver um mau resultado, professor, só para avançarmos, porque essa seria a minha segunda questão que está precisamente relacionada com a escolha de Salvador Illa, que era ministro da Saúde, deixou de ser para avançar para estas eleições. Havendo um mau resultado, este é um resultado mau também de Pedro Sánchez.

Eu acho que todos os atores têm muito a ganhar e muito a perder. Não é só o Partido Socialista. É claro que o Partido Socialista joga aqui uma carta muito importante, não só para a Catalunha, ou seja, não só na sua estratégia catalã de recuperar a iniciativa política e o próprio governo, mas também nas relações institucionais dentro da coligação em Madri. A relação entre Podemos e os socialistas, que é uma questão derivada, mas muito importante destas eleições, pode alterar a relação entre os dois sócios de governo, que estão muito complicadas nas últimas semanas. E há quem diga que Pedro Sánchez pode tentar uma relação diferente dentro do governo ou até avançar para um governo minoritário se os resultados de Podemos forem muito maus. E, portanto, socialistas e podemitas têm muito a ganhar e muito a perder nestas eleições. Estas eleições não têm a ver apenas com a política catalã, têm muito a ver com a política espanhola como um todo. O mesmo acontece na direita. A relação entre os três partidos da direita está em causa nestas eleições. O PP joga a sua liderança da direita. O único partido que provavelmente ganhará certamente com estas eleições será a extrema-direita, que vai entrar no Parlamento da Catalunha e terá mais uma voz institucional para fazer avançar a sua agenda.

Ia só perguntar-lhe se acha também que estas eleições, dependendo do resultado, evidentemente, percebemos que os movimentos independentistas estão bem classificados embora nas sondagens não estejam a liderá-las, acha que este movimento independentista pode sair também afetado depois destas eleições?

Com certeza que sim, porque há a relação entre os vários partidos independentistas, a disputa pela hegemonia dentro do campo independentista. Eles têm tido estratégias bastante diferentes. O campo também está mais fragmentado do que antes. Há mais dois partidos a concorrer nestas eleições, mas eles têm estratégias diferentes. Juntos pela Catalunha tem uma estratégia mais rupturista à Esquerda Republicana, até pelo fato de se ter aproximado do Partido Socialista para aprovar o governo e o orçamento em Madri, tem uma estratégia e uma via mais compromissória com Madri. Isso vai estar em julgamento nestas eleições. Se, por exemplo, a Esquerda Republicana, que liderava as sondagens ainda há algumas semanas, se ficar em terceiro lugar, isso poderá condicionar também a sua estratégia em Madri e poderá retirar lições de uma eventual derrota ou de uma eventual quebra das expectativas para ter uma posição mais assertiva em Madri e reorientar a sua política. Portanto, há muita tensão acumulada na política espanhola e na política catalã, até por causa da situação não resolvida dos presos políticos. Isso está sempre subjacente à estratégia partidária, porque no dia a seguir, amanhã, vão certamente começar a conhecer-se dados mais concretos sobre um possível indulto destes presos catalães.

São muitos dados para avaliar. Obrigado, professor Marcos Farias Ferreira pela análise. Professor investigador do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa, especialista também em Relações Internacionais. Estivemos a olhar para as eleições da Catalunha que acontecem hoje. Há 10 candidaturas nestas eleições, que decorrem sob fortes medidas de segurança por causa da Covid-19. Há, por exemplo, horários desfasados para a votação. As pessoas que fazem parte dos grupos de risco votam de manhã, à noite votam as pessoas infectadas, durante a tarde é a vez da generalidade dos eleitores.