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Junta-se agora a nós, em directo, Henrique Bourne, especialista em assuntos internacionais, comentador da Rádio Observador, de resto, um dos nomes do painel do Café Europa. Henrique, bom dia. O que pode sair deste último dia do Conselho Europeu? A questão do envio de aviões militares pode mesmo concretizar-se?

Bom dia. Do Conselho Europeu agora, de hoje, já são mais temas internos. Do resultado desta ida de Zelensky ao Conselho Europeu, diria que sai uma coisa que apesar de tudo é um pouco surpreendente, se calhar, para alguns observadores, que é a discussão sobre o tema dos aviões parece estar a avançar de maneira mais rápida do que, por exemplo, a que se colocou no passado sobre os carros de combate. Ou seja, assim que foram entregues os carros de combate, desta vez Zelensky começou a falar dos aviões. Em Londres já disseram: "Estamos a treinar pilotos, não é certamente para irem fazer passeios de avião". Paris já veio dizer também que isso não é uma coisa que se resolva no imediato, portanto, há outro armamento para enviar já. E já se percebe que há vários Estados-membros que dizem que isso não são linhas vermelhas, podem não conseguir enviar, como é o caso de Portugal. Ou seja, parece haver uma inclinação para, se for necessário, fornecer os aviões. E aquilo que me parece é que há um olhar que a União Europeia tem claro cada vez mais, que é o apoio à Ucrânia, de todas as formas, para que a Ucrânia não perca a guerra ou não vale a pena apoiar, mas a Ucrânia há mesmo a perder a guerra por falta de algum tipo de apoio. Quer dizer, seria ficar no pior de todos os lugares, que é apoiar um pouco, mas não o suficiente para que a Ucrânia não perca a guerra. E parece-me que esse cálculo está a ser feito nas capitais europeias e muito em particular em Bruxelas, onde estão muitos dos principais apoiantes de Zelensky, ou onde vão muitos dos principais apoiantes de Zelensky.

E isso quer dizer, Henrique, que algumas hesitações que temos visto por parte de alguns Estados-membros, podemos pensar em França, na Alemanha, estarão a ser ultrapassadas nesta fase?

Parece atualmente estar a haver algum acelerar e alguma alteração de posições. Mesmo a vontade que houve, e agora sabe-se que foi um empenho especial do presidente Macron, e depois chamou Olaf Scholz, para se encontrarem com o presidente Zelensky. Não é só para dizer que são amigos, a Ucrânia o que precisa é de apoio militar e, portanto, aquele momento tem que ter um significado de apoio à Ucrânia naquilo que a Ucrânia precisa. E portanto, parece estar a haver aqui um acelerar de posições. A mim continua a parecer-me que há aqui um aspecto, embora a posição alemã seja às vezes difícil de compreender e em muitos aspectos criticável, parece-me que tem sido consistente uma coisa, que é a Alemanha não quer a certa altura ficar com o ónus de ser o principal fornecedor de apoio militar à Ucrânia. Isto é, num cenário em que à medida que a situação avançasse, o dever dos europeus fosse crescendo, de repente a Alemanha ficasse um pouco isolada e a ter que ser ela a liderar. E foi por isso que quis que os Estados Unidos participassem no envio dos carros de combate, mesmo que sejam uns carros de combate que eventualmente não são os ideais para aquelas circunstâncias, e é por isso que agora é necessário envolver vários Estados-membros, até para que não haja nunca uma situação em que apenas um país pudesse ser alvo da ira russa. Portanto, esse aspecto também me parece particularmente importante. E acho que isso tudo explica um pouco o que se está a passar.

Portanto, Henrique, sintetizando o que foi esta passagem de Zelensky por Bruxelas, o presidente ucraniano não sai só com promessas, pode ser mesmo com medidas concretas.

Parece-me que sim, mas eu salientaria aqui duas coisas. Para já, do ponto de vista interno europeu, que também não é irrelevante, é absolutamente extraordinário que a União Europeia e Bruxelas tenham ganho esta relevância ao ponto de um líder de um país em guerra, a ser apoiado pelo Ocidente, vá a Bruxelas. Isto é mais ou menos inédito. Mostra que isto é importante. Não só, porque eu acho que sai com duas coisas, que é a União Europeia continua a dizer que não deixará de apoiar a Ucrânia com tudo o que seja necessário, e isso em algum momento pode mesmo vir a querer dizer aviões, mas todo o resto de equipamento. E por outro lado, aquela ideia de que o lugar da Ucrânia na Europa, e de fato, para os ucranianos, esta guerra, para fazer todo o sentido, enfim, não é apenas sentido por isso, mas para fazer todo o sentido, tem que ter como perspectiva a possibilidade de um dia aderir à União Europeia. Portanto, parece-me que Zelensky teve muito sucesso em Bruxelas.