Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Alguém também ligado à política que se junta agora a nós. Vítor Ramalho, muito boa tarde, obrigado por se juntar a nós também neste jornal. Há pouco falávamos sobre essa ligação de Vasco Pulido Valente a Mário Soares e essa participação na campanha eleitoral em 1986, julgo que foi essa campanha pras presidenciais. Vítor Ramalho, o que recorda também de Vasco Pulido Valente? E pergunto-lhe também se dessa altura ainda se lembra de muitas particularidades dessa aproximação de Vasco Pulido Valente a Mário Soares.
Sim. Antes de mais nada, ele era, de facto, já foi referido isso, mas nunca é demais enfatizar, um dos maiores especialistas da história de Portugal, sobretudo do século XIX. E no século XIX, em particular, sobre a monarquia constitucional. E era um homem, de facto, com uma cultura verdadeiramente invulgar. Do ponto de vista de cronista e até na própria irreverência com que abordava, e bem, inúmeros temas, sobretudo de natureza política, ele marcou o período subsequente ao 25 de abril. Como sabe, a própria denominação com que ficou conhecido o primeiro governo presidido pelo António Costa, Geringonça, é da autoria dele, foi ele o inventor.
Foi ele que cunhou essa palavra, essa expressão.
Foi ele que cunhou exatamente essa palavra, que depois entrou na gíria popular e toda a gente se referiu a esse governo, de facto, como o governo da Geringonça, e ainda hoje isso é referenciado. Ele foi, sobretudo, um homem muito insubmisso, um homem crítico do poder, de que foi desapegado. Ele exerceu funções como deputado, como sabe, e como secretário de Estado da Cultura, mas de uma forma sempre efêmera e nunca abdicando da sua própria liberdade e da sua posição crítica relativamente à própria sociedade. Tem obras fantásticas, já foi aí referida uma delas, o Glória, sobre a Primeira República, e em particular sobre uma personalidade, um político também de relevo nessa altura, Vieira de Carvalho. Do ponto de vista da relação com o doutor Mário Soares, ele teve um papel muitíssimo importante no primeiro MASP, logo a seguir à candidatura que o doutor Mário Soares apresentou. E é útil ter presente que nessa altura o doutor Mário Soares partia com uma sondagem de 8%. E, portanto, a participação dele, inclusive na própria comissão política da candidatura, foi muito relevante e revela também, mais uma vez, a personalidade que tinha de estar com as causas que ele abraçava. A perspectiva, nessa altura, quando o doutor Mário Soares se candidatou, eram praticamente nulas ou muito reduzidas relativamente à eventual vitória, mas ele esteve desde essa primeira hora. E foi sempre um amigo do doutor Mário Soares, com quem gostava de falar sobretudo de questões de História, não apenas de História, como é evidente. Ambos eram muito conversadores quando dialogavam. E tenho presente, é bom não esquecermos isso, que ele próprio esteve presente, a convite do doutor Mário Soares, nas aulas magnas, pelo menos na primeira reunião da aula magna, que caracterizou um conjunto de personalidades da democracia que tomaram posição relativamente ao termo da atividade do governo do doutor Passos Coelho. Isso também dá bem conta.
Foi na altura que se falou que poderia ter começado também a Geringonça ainda antes de se saber que ela poderia existir.
Exatamente. Antes que ela pudesse. Aliás, essa história ainda não foi feita. Seria muito difícil conceber que a Geringonça poderia resultar sem este pano de fundo prévio, onde estiveram, de facto, personalidades de referência do próprio Partido Comunista e do Bloco de Esquerda e homens independentes. Isso dá bem conta também de uma personalidade independente na política. Ele, como sabe, fez parte dos reformadores, foi secretário de Estado de Sá Carneiro, teve uma ligação logo a seguir ao 25 de abril também muito próxima do Partido Socialista, porque era uma personalidade livre, na verdadeira acepção da palavra, e muito exigente perante ele próprio e perante a sociedade. É uma perda muito grande aquela que nós vamos ter. Eu tenho presente a participação dele quando o doutor Mário Soares fez 80 anos e nessa altura, quando o doutor Mário Soares teve aquela expressão de "basta", que depois acabou por ser referenciada como o termo da atividade política dele. Lembro-me perfeitamente que o Vasco Pulido Valente disse ao doutor Mário Soares: "Você fez muito bem." Talvez por isso ele, na última campanha do doutor Mário Soares, não esteve presente. Dentro dessa liberdade, mas foram sempre amigos. Pode ter a certeza absoluta do que lhe estou a dizer. O doutor Mário Soares conversava muitas vezes com ele e ia até lá à casa, e até ao termo da própria vida do doutor Mário Soares. Eu próprio presenciei isso. Portanto, é uma personalidade de referência, não apenas como historiador, mas um cronista de eleição, um homem insubmisso, muito necessário ao país num momento incerto da vida da humanidade do ponto de vista político e da própria evolução, inclusivamente de Portugal.
Muito obrigado, Vítor Ramalho. Vítor Ramalho que, como sabemos, era alguém também muito próximo de Mário Soares, assim o foi também Vasco Pulido Valente. Agradeço o contributo, Vítor Ramalho, neste jornal em que assinalamos a morte de Vasco Pulido Valente