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Estava em minha casa e a minha secretária do Parlamento telefonou-me a dizer para eu ver a televisão rapidamente. E eu fui ver a televisão e aquilo que aconteceu foi verdadeiramente uma coisa inusitada. Ver aquilo em direto a acontecer, sem perceber o que estava a suceder.
Que sentimentos é que o assaltaram naquela altura?
Sabe que eu estava perfeitamente consciente, na altura, de que iriam acontecer atos de terrorismo. O problema que nós tínhamos na altura era não saber qual a dimensão, qual a gravidade, qual a forma que eles iam tomar. Aquilo, na verdade, foi uma bomba, no sentido verdadeiro e próprio da informação. Ninguém contava com uma coisa daquelas. Contava-se com guerras esparsas, com atos armados de outra natureza, mas um ato daquela forma organizado, com aquela complexidade toda e com aquela eficácia do ponto de vista do objetivo de terrorismo.
Ficou a acompanhar a emissão televisiva. Como é que foram aquelas horas a seguir ao embate do primeiro avião com a primeira torre do World Trade Center?
Aquilo foi a confusão total. A informação ia chegando, esparsa, uma coisa aqui, outra coisa acolá, onde é que tinha havido mais acidentes, onde é que não tinha havido. E a confusão da origem do ato terrorista ainda era maior. Portanto, quem estava a ver uma ecrã de televisão, estava verdadeiramente a viver aquele momento com as interrogações próprias e com as interrogações dos outros todos a assistir àquilo: "O que é que será? O que é que não será? É daqui, não é daqui, quem é que organizou, quem é que não organizou?" Aquilo foi verdadeiramente um momento televisivo extraordinário. Nunca mais se esquece, evidentemente.
Senhor doutor, partindo do pressuposto que estes ataques representam um marco na história recente da humanidade, que mudanças decorrem para o mundo do 11 de setembro de 2001?
É uma fronteira entre uma época e outra. Eu recordo-me na altura que fiz acordos com todos os países do norte de África de troca de informações de segurança com Portugal. Havia países verdadeiramente mais preparados do que outros em relação a esta questão. Mas a verdade é que todos os outros tiveram de preparar rapidamente se não estavam, porque o mundo ia ser um mundo mais perigoso. Aquilo que nós pensávamos ser apenas a questão das guerras convencionais ou das guerras de guerrilhas, num ponto ou outro do globo, que era o panorama anterior, passou a ser modificado, quer dizer, todos estes pequenos conflitos começaram a multiplicar-se. Mas para além dos pequenos conflitos que se multiplicaram, começou a inovação do ponto de vista do terrorismo a atingir o seu auge. Qualquer país, por maior que fosse a economia dele, em qualquer momento podia ser atingido. E nós hoje estamos a ver ainda como é difícil as democracias ocidentais lidarem com este fenómeno do terrorismo assim esparso. Aquilo que aconteceu no outro dia, quando foram detetados estes dois terroristas que tinham vindo como refugiados para a Grécia, pôs na verdade um problema importantíssimo: como é que se controla isto? Como é que se controla isto com eficácia? Os governos não podem fazer populismo, os governos não podem dizer às pessoas que não querem imigrantes. Mas a verdade é que ficam em situação muito difícil, porque das duas, uma: ou têm bons sistemas de informações, têm bons sistemas policiais e conseguem detetar a tempo qualquer coisa destas, ou o perigo é real. Mesmo infiltrados ou não infiltrados, membros de uma célula de um grupo terrorista, em qualquer país civilizado, podem provocar cenas absolutamente extraordinárias de violência. E nós infelizmente já vimos isso em vários países, quer dizer, vimos em Espanha, vimos em Inglaterra, vimos na Bélgica, vimos em França. É uma coisa muito preocupante.