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Estava em casa, já não me lembro porquê. Suponho que um dos meus filhos me avisou que algo de estranho estava a acontecer e eu liguei a televisão e vi o segundo ataque. Assisti a pessoas a atirarem-se da janela, as torres a caírem. Terrível tragédia que não se apagará nunca da memória das pessoas que viram. Só depois se percebeu de facto do que é que se tratava, mas inicialmente não. Na altura em que eu liguei a televisão e vi o segundo avião, podia haver uma suspeita, mas só depois é que se teve a certeza de que era um ataque terrorista. Surpreendeu-me um pouco a lentidão da reação, uma certa desproteção do Pentágono, o facto de haver um avião no ar e não haver reação. Quer dizer, os Estados Unidos, principal superpotência e garantia da nossa segurança no Ocidente, não estava tão prevenida, nem tão preparada, nem foi tão rápida a reagir.
E isso foi uma surpresa?
Isso foi uma surpresa, porque sem dúvida nenhuma que eles estavam desprotegidos. Mas o que conta nesse momento é a terrível tragédia, a maneira como se ceifaram ali 3000 e tal vidas humanas.
Que sentimentos o assaltaram ao olhar ou ver aquelas imagens?
Absolutamente horror, de revolta e de repugnância por quem é capaz de fazer uma coisa daquelas. Nesse dia todos foram americanos. Todos foram solidários com os Estados Unidos, com o povo americano e, sobretudo, com aqueles que foram vítimas desse atentado. Aquilo criou um certo sentimento de insegurança, mas a mim, de horror e de revolta, e de solidariedade, e de perceber que uma era tinha acabado e outra era ia começar.
Partindo do pressuposto que de facto estes ataques representam um marco na história recente da humanidade, que mudanças decorrem do 11 de setembro de 2001?
É aquela que conhece. E não penso que tenha sido melhor, porque depois veio o ataque ao Iraque, ao Afeganistão, mas sobretudo ao Iraque, com a ideia de que havia armas de destruição maciça que nunca foram encontradas. Eu lembro-me de ainda ter tido um debate com o professor João Barroso na Assembleia da República. Ele disse que tinha visto as provas desse ataque: "Mas conte lá, mostre as provas". Mas ninguém as tinha visto. Havia uma vontade que assim fosse, mas não era esse o combate. O combate era outro. Este é um combate muito difícil. O fundamentalismo e o fanatismo são coisas terríveis de combater, sobretudo em relação a um mundo que tem a sua crise de civilização, a sua crise de valores, um grande complexo de culpa, uma extrema condescendência em relação às coisas que se passam dentro de nós próprios, etc. É um combate desigual. Nós podemos ter uma grande superioridade tecnológica, etc. Agora, do outro lado, há fanatismo, há pessoas dispostas a morrer e a fazerem-se explodir por aquilo. Portanto, os povos têm de travar os seus próprios combates. Quer dizer, há uma parte que são aqueles que estão fanatizados, os fundamentalistas que estão dispostos a bater-se. Os outros, os que são contra, têm de se bater também.
O fundamentalismo hoje tem uma expressão maior do que tinha aquando dos ataques ao World Trade Center em 2001, na sua perspetiva?
A morte do Bin Laden foi uma machadada grande. Foi um sucesso, aliás, dos poucos nessa matéria que o Obama conseguiu, mas foi. Agora, estes 20 e tal anos de guerra no Afeganistão, com este resultado, vêm dar uma nova força, não aos talibãs. São os grupos fundamentalistas que ali proliferam, porque o Talibã não é um Estado, não é uma nação, aquilo é um grupo de senhores da guerra, de senhores feudais, que vão ter muita dificuldade em governar. Agora, é muito provável que os grupos fundamentalistas e terroristas ali agora vão proliferar e projetar-se cá para fora.
Senador, em função daquilo que me está a dizer, e tendo em conta aquilo que foi a resposta dos Estados Unidos aos ataques terroristas ao World Trade Center, a invasão do Afeganistão, a que já fez referência, mas também Guantánamo, por exemplo, considera a esta distância que foram ultrapassadas linhas vermelhas no combate ao terrorismo internacional?
Eu tenho dificuldade em lhe responder isso, com toda a verdade. Quando se faz um atentado como aquele que foi feito, quando se fazem atentados como outros que foram feitos na Inglaterra, em Paris e em todo lado, e mesmo em países muçulmanos, de sunitas contra xiitas ou de xiitas, quando se fazem atentados e quando não há respeito pela vida humana, quer dizer, numa guerra desta natureza, as linhas vermelhas são sempre ultrapassadas. Evidentemente, causa uma grande repugnância saber que foi utilizada a tortura e com voos da CIA, mas se isso não tivesse acontecido, o que é que teria sucedido?
Considera que os fins justificam os meios?
Não. Nós não podemos combater o terrorismo tornando-nos iguais ao terrorismo. A democracia tem que se defender e travar o combate contra o terrorismo sem recorrer aos métodos que eles utilizam. Portanto, sem recorrer à tortura, sem passar aquelas linhas vermelhas que se foram passadas, colocam em causa a própria natureza da democracia