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"Quente e Frio" com Filomena Martins. Muito boa tarde.

Olá.

Está muito calor agora, mas espero que as coisas vão melhorar. Não é assim, Filomena? Queres começar não pelas previsões para esta quarta-feira, mas para sábado?

Sim, mas posso dizer que, para já, vão melhorar, para ficares mais fresca.

Ainda bem.

E vou a sábado. Mas é só para ser diferente. Na verdade, é porque saíram também as previsões sazonais do modelo europeu, que dizem que agosto, que começa sábado, vai começar com temperaturas acima do normal. Mas não te assustes, está bem? Não te assustes, porque já lá vamos. Antes disso, esta terça e quarta-feira trazem mais dois sinais de verão e ainda não te vou falar de calor. Vou falar de noites tropicais e de mais uma nova intrusão das poeiras do Saara. Chatinhas, não são?

São chatas, sim.

As poeiras já começaram a entrar esta terça-feira pelo Algarve e Baixo Alentejo e vão avançar depois pelo Centro e Norte. A maior extensão desta nuvem, deste episódio, está prevista para quarta-feira, quando praticamente todo o continente vai ficar debaixo desta massa de pó do deserto.

Que irá ver-se, com certeza. Quando nós vemos o céu mais cinzento, há quem pense que seja nevoeiro, mas não, é mesmo o pó.

Não é bem cinzento, é mais alaranjado, esbranquiçado. A explicação disto tudo está na circulação da atmosfera, sobretudo nos ventos. Há uma depressão a oeste de Portugal, aliás, tem havido sempre, tem-nos safado, de alguma forma, das maiores ondas de calor, e em conjunto com as pressões mais elevadas sobre o norte de África, faz com que isto tudo mexa, abre uma espécie de corredor de sul para sudeste, nos níveis médios da atmosfera, e esse corredor consegue transportar partículas minerais levantadas do Saara durante centenas, milhares de quilómetros, que vêm até à Península Ibérica, às vezes vão até outras florestas e outros pontos dos Estados Unidos, dos trópicos, da Amazônia, mas desta vez vêm até aqui, e há ainda uma dorsal subtropical em altitude, que deixa a atmosfera mais estável e dificulta depois que elas se dispersem rapidamente e podem ficar aqui suspensas durante vários dias. Vai ficar o céu esbranquiçado, alaranjado, o horizonte menos nítido, com aquele nascer do sol e o pôr do sol mais carregados. A intrusão vai só perder força lá pra quinta-feira, ira sexta.

E roupa a enxugar, dá pra meter ou não?

Convém que não ponha, sobretudo se for branca. E não laves o carro, também não vale a pena.

Ok.

Além disso, ainda para vermos que é verão, bem verão, vamos ter noites muito quentinhas, porque Portalegre deve ter mínimas perto dos 24 °C, Castelo Branco e Guarda 22 °C, Faro 21 °C. São as tais noites tropicais, em que a temperatura nunca desce dos 20 °C. E isto não causa apenas desconforto, porque depois de um dia de muito calor, é durante a noite que o corpo consegue recuperar e libertar parte do calor acumulado. E se a madrugada continuar quente, essa recuperação é muito mais difícil.

E durante o dia, como é que vai ser?

Isso é o que tu querias saber logo desde o início. Quarta-feira o calor já recua bastante junto à costa. Aveiro, Porto, Viana do Castelo ficam só pelos 24 °C, Coimbra andará ali pelos 30 °C e Lisboa também pelos 30, 31 °C, mas no interior, o verão continua a sério. Bragança ainda pode chegar aos 38 °C, Castelo Branco, Évora e Beja nos 37 °C e Portalegre nos 35 °C. Só na quinta-feira e até ao fim de semana é que este desenho muda um pouco. As temperaturas vão ficar mais baixas no litoral norte e centro e o calor, esse sim, ficará persistente no interior, mas já sem os 40 °C desta terça-feira. Lisboa, por exemplo, vai ficar estável entre os 30 e os 31 °C, entre quarta-feira e domingo. Antes disso, vem agosto, em que as previsões apontam para o início do mês quente, acima do normal, sobretudo no interior, mas para já não se veem novas ondas de calor no horizonte. Mas, lá bem no fundo, vamos ter de perceber se haverá ou não outro episódio prolongado de calor ou se o litoral volta a escapar a este calor mais intenso, como está a escapar agora.

E agora, Filomena, vai explicar a magnitude do sismo do Japão, porque há notícias com números diferentes. Afinal, foi de 6.8 ou de 7.1?

Isto parece um sismo de duas magnitudes. 7.1 vem dos dados japoneses, 6.8 nos cálculos americanos e europeus. Qual é a magnitude certa? E a resposta que eu te posso dar é que é menos estranho do que parece. A magnitude de um sismo não sai de um aparelho como um termômetro, por exemplo, de onde se tiram as temperaturas. É um número calculado, é preciso fazer contas de calculadora. Quando há uma rutura numa falha, como aconteceu no Japão esta manhã, libertam-se ondas sísmicas que atravessam a Terra. Sismómetros espalhados por diferentes países registam estas ondas e a partir daí começa o trabalho. É preciso determinar onde ocorreu o sismo, a que profundidade, como se moveu então a falha, qual foi a dimensão da rutura, e redes diferentes não recebem exatamente os mesmos dados. O Japão é um país que tem, obviamente, pela sua tipologia, uma rede sísmica extraordinariamente densa e muitas estações próximas das zonas dos sismos. Os sistemas internacionais trabalham com estações distribuídas por uma área muito maior e muito espalhadas por muitos países. E nos primeiros minutos, muitos destes cálculos que estão a ser feitos são ainda automáticos e provisórios. À medida que entram novos registros, muda ligeiramente a localização do epicentro, altera-se até a profundidade calculada e a magnitude pode ser revista. Mas ainda também há uma outra razão para os números serem diferentes: é que nem todas as magnitudes são calculadas da mesma maneira.

Mas estamos sempre a falar da escala de Richter, não?

Certo, mas para os grandes sismos posso dizer que há Há uma outra forma de cálculo que eles chamam magnitude do momento, que é o MW. E neste caso, os sismólogos procuram de alguma forma reconstruir fisicamente a rutura, qual foi a área da falha que se moveu, quanto deslizaram as rochas e quão rígidas são essas rochas. Com isso tudo calcula-se o momento sísmico e a partir daí a magnitude. Por isso o mesmo sismo pode aparecer inicialmente como 6.8 no organismo e 7.1 no outro. Ambos são verdade e não são dois sismos, são mesmo duas estimativas da mesma dimensão, da mesma rutura, feitas com dados e cálculos que podem não ser exatamente iguais. No entanto, se três décimos parecer uma diferença minúscula, não é. É muito grande este número, porque a escala da magnitude é logarítmica e uma unidade a mais é cerca de 32 vezes mais energia libertada. Portanto, aqui entre 6.8 e 7.1, a diferença é aproximadamente 2.8 vezes mais energia. E há mais um número que ainda pode aparecer nas notícias japonesas para baralhar tudo, que é a intensidade deste sismo. No Japão utiliza-se a escala Shindo para indicar quanto é que o chão tremeu num determinado local. É uma coisa já diferente. Magnitude é o tamanho do sismo, intensidade é a força com que ele foi sentido. Um sismo tem uma magnitude que pode ser sempre revista, mas tem muitas intensidades, pode abanar violentamente numa cidade perto da rutura e ser apenas ligeiramente sentido muito mais longe. Portanto, quando vê 6.8 num lado e 7.1 no outro, não significa que alguém mediu mal. É a ciência a calcular o tamanho de um sismo praticamente em tempo real, o que é raro.

E terminamos agora, Filomena, muito longe da Terra.

Exatamente, em Io, uma das luas de Júpiter, o mundo com maior atividade vulcânica conhecida do sistema solar. Não há mais. Esta lua tem centenas de vulcões e algumas erupções lançam material a enormes alturas sobre a superfície. Agora a sonda Juno, da NASA, conseguiu medir o calor que existe por baixo da superfície de Io. Esta lua de Júpiter é espremida constantemente pela enorme gravidade de Júpiter e pela influência das outras grandes luas que rodeiam o planeta e deforma-se quase como se fosse apertada e libertada repetidamente, como aquelas bolas que a gente usa nas mãos. Essa deformação produz calor no seu interior e esse calor alimenta então a atividade dos vulcões, que é extraordinária. As novas medições ajudam agora os cientistas a perceber onde é que está armazenado esse calor e como consegue chegar à superfície. Ou seja, enquanto aqui na Terra estamos a tentar perceber como um incêndio ou um sismo liberta energia, a centenas de milhões de quilómetros há uma lua inteira que está permanentemente a ser espremida por Júpiter e responde com vulcões.

É muita pressão.

É muita pressão.

Pois é, é assim que fechamos o "Quente e Frio" de hoje com Filomena Martins. Até amanhã, Filomena.

Até amanhã.