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"Quente e Frio", todas as tardes na Rádio Observador com a Filomena Martins. Olhamos para a meteorologia. Olá, Filomena, boa tarde.
Olá, Nelson.
Uma sucessão de depressões consecutivas, um rio atmosférico, outra tempestade e até um ciclone. Já fiquei cansado. É isto que nos espera o tempo a partir de hoje, Filomena?
Mais ou menos, diria que sim. A Bruna traz família, traz descendentes que vão absorver um rio atmosférico e depois pode ter uma sucessora que será uma verdadeira filha da mãe Bruna.
Ok.
E a boa notícia, pelo menos pra mim, é que o frio vai embora.
Era o das noites, não é? As noites muito frias vão terminar.
Vão terminar. O tempo vai mudar muito nos próximos dias. A chuva já regressou, o vento vai ficar mais forte e o mar também vai ficar bem agitado. Só que há essa surpresa, porque apesar desta instabilidade toda, as temperaturas vão subir, sobretudo durante a noite. E o que mais impressiona nestas previsões não é apenas a chegada da tempestade Bruna, é a sucessão de perturbações que se estão a formar no Atlântico.
Mas o que é que vem depois da Bruna?
Nós já estamos-
Sob essa influência agora, não é?
Sob a influência. É uma frente, isto é chuva. E depois, a partir de domingo à tarde, sobretudo ao fim da tarde, vem-se muita chuva e muito vento por causa da Bruna. Só que ela não vem sozinha, traz a família toda, porque estamos perante uma vasta região de baixas pressões, onde se podem desenvolver vários centros depressionários secundários, aqueles que eu chamo os descendentes. Alguns destes centros depressionários podem interagir entre si, alterando as trajetórias e as distribuições das frentes. Até se podem juntar, e o resultado vai ser uma sucessão de frentes que atravessam Portugal com períodos de chuva, vento, trovoadas, a partir então de domingo e durante os primeiros dias da próxima semana.
Bem, depois da família da Bruna, vem ainda uma outra depressão.
É isso, é a sucessora dela, a sua sucessora, diria eu. E algumas simulações apontam para uma grande depressão do Atlântico a meio da próxima semana, potencialmente muito profunda. Essa é que é a tal filha da Bruna. E atenção, não está confirmado que se forme uma tempestade independente, nem que ela venha a atingir Portugal ainda. Mas as simulações apresentam mesmo uma depressão de 975 hPa para quarta-feira, dia 11. Será muito forte se nos vier a atingir. Se não vier-
Depende da trajetória, não é?
Sim. E se vier a ter nome, chamar-se-á Charles.
Porque é a próxima letra, o próximo nome neste sistema de tempestades. E este rio atmosférico, isto faz parte da família da Bruna ou não?
Não, é independente, é um fenômeno independente, só que é uma corrente de umidade subtropical que deverá vir ali da zona das Caraíbas, vai chegar à península ibérica através dos ventos de sudoeste, eles vão estar de sudoeste, por isso é que as noites vão estar mais quentes, e essa umidade poderá alimentar as frentes associadas à Bruna e contribuir também pra períodos de precipitação ainda mais forte e mais persistentes. Não é apenas uma questão de quantas depressões vão chegar, é também a quantidade d'água que elas trazem e que podem transportar também através desse rio atmosférico.
Para além disto tudo, acho que já é possível ver aqui um ciclone tropical algures.
Sim, há uma perturbação no Atlântico Ocidental, ali a seguir às Caraíbas, está a leste das Bermudas, e que está a ser acompanhada pelo Centro Nacional de Furacões dos Estados Unidos. A possibilidade de desenvolvimento para tropical ou subtropical está avaliada em 30%. Alguns modelos mostram no mapa leste, em direção às Canárias ou ao Golfo de Cádiz. Não está formado ainda, a trajetória é muito incerta. Pode ou não vir para Portugal, mas temos de o seguir. E portanto, além da tempestade Bruna, temos as depressões secundárias, temos uma possível grande depressão e temos este sistema de origem tropical sob vigilância.
Ainda em formação, lá quase do outro lado do Atlântico. Este agravamento do tempo já se sente a partir de hoje, sexta-feira.
Certo. Temos oito distritos sob aviso amarelo pra chuva. Viana do Castelo, Braga, Porto, Aveiro, Coimbra, Leiria, Lisboa e Setúbal. E a chuva, além de ser forte, vem acompanhada de trovoada. Depois, amanhã, no sábado, continente, talvez seja o dia mais quietinho, menos mau do fim de semana, porque haverá chuva, alguns aguaceiros, mas também abertas. No domingo, a situação vai se agravar de forma muito evidente, com chuva mais forte, primeiro no norte e centro, depois em todo o país, e ao início da tarde, final da noite, chuva forte, trovadas e períodos de vento intenso.
O início da semana vai também ser assim?
Sim. Segunda-feira a instabilidade deve continuar, com novas frentes, chuva, por vezes muito persistente, vento sul ou sudoeste, e mesmo no Algarve e no Alentejo, a chuva, a precipitação vai ser muito significativa. E é importante perceber que o agravamento não será igual em todas as regiões, nem contínuo durante as 24 horas, mas vai passar pelo país todo e significa que essas frentes consecutivas vão passar pelos mesmos locais ao longo de vários dias, o que significa que vai ficar muito terreno encharcado, muito sítio encharcado, e é preciso ter muita atenção a algumas coisas.
E principalmente no norte e centro, mais exposto a estes próximos dias de mau tempo.
Está sempre. O norte e centro vai sempre estar mais exposto com as frentes atlânticas, sobretudo o Minho e o Douro litoral, tal e qual como a região de Aveiro e as zonas montanhosas. Depois, os locais onde podem ocorrer mais fortes e trovoadas, incluindo Lisboa, Setúbal e aquelas regiões do sul, nas passagens mais ativas, onde haja zonas mais inundáveis, digamos assim.
Sim. Há já um alerta da Proteção Civil também pra isso. Mas vai chover muito, já percebemos, em várias zonas com este Com este vento, com esta chuva, ainda assim as temperaturas não descem muito. O frio não vai aumentar.
Não, senhor. Vai acontecer o contrário. A entrada do ar marítimo mais quente e úmido, que vem com os ventos de sul e sudeste, deverá provocar uma subida acentuada das temperaturas mínimas e as nuvens também impedem o calor de ir pela atmosfera acima. E por exemplo, o Porto passa de 8 para 16 graus no domingo, Coimbra de 8 para 18, Lisboa de 11 para 15. Vai estar aquele tempo abafado.
Sim. Parece que os Açores e a Madeira começam a receber mau tempo primeiro que nós.
Sim, eles já estão sob a influência da Bruna. O grupo oriental, São Miguel e Santa Maria, têm avisos de precipitação amarelos, por causa dessa chuva. E na Madeira é a situação mais preocupante. Há avisos laranja para sábado e madrugada de domingo, devido à chuva e ao vento. A precipitação vai ser mesmo muito forte e persistente, com trovoadas, e nas regiões montanhosas as rajadas de vento podem chegar aos 130 km/h, porque as montanhas recebem sempre muito mais chuva do que os vales.
Isso leva-nos ao fenômeno de hoje. Por que chove mais nas montanhas? Por que pode chover até duas ou três vezes mais numa serra do que num lugar a poucos quilômetros daí?
A explicação está na forma como as montanhas interferem com a circulação do ar e com a formação da chuva. Imagina uma massa de ar relativamente quente e muito úmida a chegar do Atlântico, transportada pelos ventos de oeste ou de sudoeste. O ar quente, por ser menos denso que o ar frio à mesma pressão, tem tendência a subir quando existe uma diferença de temperatura que favoreça essa subida. Neste caso, há outro mecanismo. Quando encontra um obstáculo, que é a montanha, o vento obriga o ar úmido a subir pela encosta.
E o que acontece quando esse ar sobe?
À medida que ganha altitude, a pressão atmosférica diminui, o ar expande-se e ao expandir-se, arrefece. E quando arrefece suficientemente, o vapor d'água começa a condensar-se sobre minúsculas partículas em suspensão, ficam ali na atmosfera, formam gotas de água ou cristais de gelo, e essas gotículas formam as nuvens, que chove ou neva. E quando crescem o suficiente, por coesão e junção entre as gotas ou por outros processos dentro das nuvens, caem sob essa forma de precipitação ou neve. Portanto, a montanha obriga o ar úmido a subir, o ar arrefece, o vapor condensa-se e a chuva intensifica-se. Chama-se precipitação orográfica.
O que é ainda mais estranho é que uma montanha, num lado de uma encosta pode estar uma situação de tempo e na outra estar completamente diferente.
Sim, porque as duas encostas estão sujeitas a processos diferentes. Na encosta voltada para o vento úmido, que é o barlavento, o ar sobe, arrefece e favorece a formação de nuvens e de chuva. Depois de ultrapassar a montanha, do lado sotavento, acontece o contrário. À medida que desce, a pressão atmosférica aumenta, o ar comprime-se e aquece, e ao aquecer a umidade relativa diminui, as nuvens dissipam-se e reduz a chuva. Chama-se o efeito sombra da chuva.
Aqui no norte, as serras do norte e centro têm esta questão, mas também na Madeira. Na Madeira vemos sempre que os primeiros alertas são sempre às terras altas, eles têm grandes picos também.
Sim, quase 1900 metros de altitude, encostas muito inclinadas, portanto, têm sempre esse problema. O ar úmido vindo do mar obriga a subir aquela montanha, aquela diferença de altitude, e a chuva intensifica-se sempre nessas vertentes expostas ao vento e ao mar. E depois tem um outro problema, como aquilo é muito inclinado, a água que cai nas montanhas desce muito rapidamente por ali e concentra-se nas ribeiras e aumenta o risco de cheias repentinas.
Que, de resto, já vimos situações dramáticas nas ilhas, precisamente por causa deste fenômeno aqui explicado pela Filomena Martins. Vamos à curiosidade de hoje. A inteligência artificial conseguiu reconstruir um tempo de há 200 anos, de 15 em 15 minutos. E se pudéssemos voltar 200 anos atrás e descobrir como estava o tempo de 15 em 15 minutos, isto é possível?
É, quase. Parece ficção científica, mas é uma possibilidade da inteligência artificial e que está a abrir-se à investigação meteorológica. É um método de inteligência artificial capaz de reconstruir informações meteorológicas com intervalos de apenas 15 minutos, a partir de registros muito menos frequentes e que existem, mas com horas, dias ou meses de diferença.
Mas conseguimos olhar assim tão para trás, até para uma época em que não havia satélites?
A ideia é aproveitar os dados meteorológicos que existem e usar a inteligência artificial para reconstruir o que poderá ter acontecido entre as observações que existem. É como ter fotografias de uma paisagem tiradas de hora em hora e reconstruir o que aconteceu nos minutos intermédios. Os investigadores desenvolveram um método que consegue produzir reconstruções da temperatura do ar e da umidade com uma resolução temporal de 15 minutos. Não significa que consiga saber o que aconteceu às 15h15 de um dia de 1826. Isso não consegue.
Ainda.
Ainda. É uma reconstrução, não é uma medição real, é uma estimativa a partir dos dados disponíveis ou das relações que o modelo aprendeu. A resolução de 15 em 15 minutos também não diz que existam observações históricas feitas de 15 em 15 minutos.
Então, isso serve para quê?
Para ajudar a estudar mudanças rápidas de temperatura e umidade, fenômenos meteorológicos que evoluem em pouco tempo e cujos registros não existem. Também ajuda a melhor compreender o tempo e o clima do passado. Não é uma máquina do tempo, nem recupera observações que nunca foram feitas, mas reconstrói-as, tira algumas incertezas da história da atmosfera e já conseguimos utilizar a inteligência artificial para tentar descobrir o que aconteceu ao tempo entre dois registros meteorológicos com intervalos apenas de 15 minutinhos.
Isto é impressionante. Mas estou a perceber como é que isto funciona. A IA, de facto, consegue coisas inacreditáveis. Kenti Ferri com a Filomena Martins. Está perspetivado este fim de semana e o início da próxima semana. Vamos continuar a contar com chuva, com vento, com o mar agitado. Relembro que a esta hora e até, pelo menos, à meia-noite, ainda está em vigor um aviso amarelo entre Viana do Castelo e Setúbal. Para esta zona ainda se prevê chuva forte durante as próximas horas. Algumas melhorias no sábado, mas a coisa piora bastante a partir de domingo. A boa notícia é que as noites não estarão tão frias durante os próximos dias. Filomena, bom fim de semana.
Bom fim de semana.