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Bem-vindos ao Realpolitik, uma conversa sobre política e atualidade todas as semanas aqui na Rádio Observador e em podcast. Eu sou o Miguel Pinheiro.

Eu sou o Sérgio Sousa Pinto.

E hoje, Sérgio, vamos falar sobre a nomeação de militantes do PSD pra administrações de hospitais, na sequência de uma notícia do Observador de há uns dias. Também sobre o caso Henry Novak, o adolescente de 18 anos que morreu quando estava algemado pela polícia inglesa e falsamente acusado de racismo. Mas antes, vamos falar sobre o 10 de Junho, sobre a presidência, o que aí vai. Nós acabamos de ouvir o discurso de António José Seguro. Entretanto, também já fui tomar mais um café para não me deixar levar aqui.

Pelo entusiasmo.

Certo. Mas também temos os primeiros três meses do novo presidente, que se assinalaram, penso que na terça-feira, as relações entre Belém e o governo, o papel do presidente. O presidente no discurso disse-nos que este é um tempo que pede coragem, que é preciso fazer escolhas difíceis. Não sei se já percebeste que presidente é que vai ser António José Seguro e o que podemos esperar dele também para nos mostrar a coragem que pede a todos os portugueses.

Que pergunta toda armadilhada. Primeiro, acho que é preciso dizer que estas comemorações, estas efemérides, são o pesadelo das pessoas que têm que fazer comentários. Porque realmente são momentos que se prestam a discursos de unidade, confiança.

Amor à pátria.

A pátria recomenda-se.

Somos maiores.

Pronto. E a verdade é que há sempre assim uma liturgia autocelebrativa. E evita-se temas de conjuntura e questões controversas. E bem, é assim que estes discursos devem ser, muito mais institucionais e, ao mesmo tempo, difíceis de comentar. O que se há de dizer diante de um registo cerimonioso e solene que se tende a repetir nos termos que a circunstância requer anualmente. Acho que alguns aspetos podem ser explorados, como a decisão de fazer esta comemoração do 10 de Junho nos Açores. Evidentemente que foi uma afirmação da soberania nacional sobre aquele território.

Sim, e mesmo ao pé da Base das Lajes.

Mesmo ao pé da Base das Lajes, e uma reafirmação da unidade nacional que compete ao presidente da República garantir.

Mas o presidente da República foi muito cauteloso a falar de relações internacionais. Não foi na direção de um confronto com os Estados Unidos ou de um afastamento com os Estados Unidos. Pareceu-me.

E ainda bem que não foi.

Certo.

A função do presidente, sobretudo num momento desta natureza, não é um discurso patrioteiro, chauvinista ou conflituoso, polêmico. Não lhe ficaria bem, não seria apropriado. Limitou-se, pelo simbolismo do ato, de relembrar que os Açores são parte integrante do território nacional e nas atuais circunstâncias geoestratégicas do mundo, são, porventura, a parcela mais valiosa do território nacional. Como outros com um registo mais tonitruante e descabelado já tiveram a oportunidade de se pronunciar sobre o que pensam a matéria de Groenlândia e qual é o país, a nação especial com direito a exercer a sua soberania sobre as partes do globo que lhe pareçam interessantes. É sempre bom registrar que temos um presidente da República que é uma pessoa normal, que faz o que tem a fazer sem precisar de grandes elocubrações suscetíveis de aproveitamentos e atritos dispensáveis. Depois também fez uma referência importante ao equilíbrio nas relações internacionais. Ele quando fala em equilíbrio, o que ele quer dizer é: defende uma ordem externa onde os Estados são tratados como iguais. Ou seja, ele é um defensor da tal ordem assente no direito, cujo fim o Miguel Mochoardino decretou, e com razão. Quer dizer, temos razão. António José Seguro diz: "Interessa-nos viver num mundo de igualdade entre Estados", aquilo que ele chama o equilíbrio. Mas a realidade é que vivemos num mundo cada vez mais marcado por esta ideia de que o que interessa é o poder relativo de cada um. Manda a força e, para usar o título de um grande filme do Fassbinder, o direito do mais forte à vitória. Portanto, são ambospolítica, culturalmente e civilizacionalmente, defensores do legado da Europa do pós-guerra e das instituições internacionais.

Sim, eu registei o facto de António José Seguro não ter caído na retórica fácil da mera condenação de Donald Trump. E foi um bocadinho mais longe. E ele ter tido este cuidado, até porque, na realidade, não sabemos o que vai acontecer quando Trump deixar de ser presidente, que tipo de presidente é que os Estados Unidos vão ter, se vão continuar a ter um presidente isolacionista, nativista ou não. Também não sabemos, na verdade, o que vai acontecer.

Já estás aterrorizado, já estás a morrer de véspera com a perspectiva do Vance chegar à presidência.

Não, o ponto é que acho que as pessoas não se devem agarrar como uns náufragos a uma boia à ideia de que vamos só aguentar aqui uns anos e Trump depois desaparece e tudo volta ao que era.

Isso é verdade.

Além de que nós também não sabemos o que vai acontecer nos nossos aliados europeus. Se o Nigel Farage chegar a primeiro-ministro do Reino Unido, se o Bardella chegar a presidente de França ou se noutros países, se a AFD tiver um papel de influência num futuro governo alemão. Nós sabemos lá, esta ideia de que na Europa estamos muito protegidos com pessoas que partilham exatamente esta ideia anti-trumpista, tudo isso pode mudar. Se bem que o Bardella é um outro ponto. Ele até tem feito vários comentários contra as políticas de Donald Trump, mas tudo isto é muito imprevisível e esta certeza de que a Europa será sempre uma fortaleza que defende estes valores não deve ser dado como certo.

Mas há uma grande diferença entre a Europa e os Estados Unidos. Há muitas, mas há uma que se impõe reconhecer. É que os Estados Unidos podem dar-se ao luxo de viver num mundo fantasia, podem viver as suas ilusões, podem fazer como Trump, divorciar-se da realidade. A Europa não se pode dar esse luxo. E, portanto, os políticos europeus, venham eles de onde vierem, terão sempre que enfrentar uma coisa chamada realidade. E a realidade na Europa é insofismável. As nossas dependências, as nossas vulnerabilidades, os nossos perigos históricos, as nossas ameaças reais. Trump agora levou uma bofetada brutal, que lhe foi administrada pela realidade, que é o impacto na economia internacional, a confirmar-se de acordo com os especialistas nestas coisas da energia, não é o meu caso. Nós ainda não vimos nada do impacto que vai fazer aparecer a crise subsequente às medidas tomadas pela OPEP em 1973. Uma coisa de crianças. E as nossas economias continuam fortemente dependentes do petróleo e sobretudo do gás natural. Portanto, a realidade encarregou-se de pôr Trump, enfim, de lhe incutir alguma sensatez, mas a verdade é que ele não consegue desembrulhar-se da situação que criou. Não consegue desembrulhar-se, porque há ali um fator cravado, como se dizia antigamente, uma espinha cravada na garganta do doutor Quinhonel. Neste caso, a espinha é o Netanyahu, que está ali cravado na garganta do doutor Trump e que impede os Estados Unidos de perseguirem uma política externa racional e alinhada com o seu interesse próprio e com os interesses do mundo.

E cá dentro, as coisas que António José Seguro disse cá para dentro sobre a necessidade de tomar decisões difíceis. Ele teve ali uma frase que eu achei um bocadinho misteriosa, porque ele disse isto: "Com honestidade, o Estado e as empresas têm de reconhecer que o mercado de trabalho ainda não aprendeu a recompensar adequadamente o conhecimento e a inovação." Eu aqui fiquei um bocadinho sem perceber onde é que ele quer chegar, como se os salários não aumentassem, a razão para os salários não aumentarem fosse um ato de vontade das empresas não quererem aumentar salários, porque os patrões têm cartolas e charutos e não querem aumentar salários e não querem recompensar devidamente o conhecimento e a inovação. Receio que haja aqui uma incapacidade de perceber os motivos para a estagnação econômica de Portugal. Se António José Seguro acha que é só uma questão de as empresas aprenderem que têm de recompensar os trabalhadores. Não sei se isto nos leva a algum lado.

Não é só António José Seguro, mas há uma preferência nacional por proclamações beatas. Se só existisse o bem e não existisse o mal, estávamos todos muito melhor. Pronto, não deixa de ser uma observação pertinente. Os salários em Portugal não sobem por várias razões. Umas vezes sobem e a subida não aparece porque tem que se encontrar formas de aumentar o rendimento dos trabalhadores, evitando a carga fiscal, que é esmagadoraNão há motivação para subir salários, porque quando sobe um salário, a primeira pessoa a festejar é uma pessoa coletiva chamada Estado, porque rebanha uma parte significativa.

A Autoridade Tributária abre uma garrafa de champanhe.

A culpa não é da Autoridade Tributária, a culpa é de quem criou as normas que consentem a Autoridade Tributária fazer o seu papel.

Claro.

Não vale a pena agora dizer que não é o doutor Montenegro e os políticos que o precederam, que não são eles os responsáveis, e o Parlamento, já agora, que tem autoridade na matéria, como foi daí que nasce a democracia. No taxation without representation. Hoje em dia temos ideias que entre taxation e representation já não há mais vaga relação. O Parlamento já não trata de assuntos dessa gravidade e relevo. Agora já só trata de se põem bandeiras nos edifícios públicos, etc. Mas a verdade é que a raiz da democracia e do parlamentarismo está nos verdadeiros representantes do povo e dos seus interesses controlarem a política fiscal. Em Portugal, a política fiscal é uma política de extração, portanto, extração à economia, extração às famílias, extração aos indivíduos, os impostos são altíssimos. Uma razão pela qual os salários não sobem é porque boa parte do aumento é devorado pelo Estado, porque os escalões estão completamente desatualizados. Portanto, o Estado é que sabe muito bem o que é que há de fazer com a economia portuguesa, para onde é que o dinheiro vai, como é que os recursos são alocados, como é que isto cresce, como é que se faz. É um grande estratega. Todos os dias ouço os políticos que nunca geriram nada explicarem como é que as empresas devem fazer. E, portanto, é assim, são essas coisas que nos prendem. E entretanto o salário mínimo lá vai ele. Apareceu esta semana mais uma notícia que nos chama a atenção para a tendência para o salário médio e o salário mínimo andarem ali...

Sim, já estão quase iguais.

Estão quase iguais. Então pronto, vamos reconhecer, até podemos mudar de nome, podemos passar a ser República Socialista Portuguesa. Pronto, temos que arranjar um nome para isto, mais alinhada com o modelo venezuelano. O que isto significa? Significa que somos todos mais ou menos iguais. O mérito não existe, certamente, ou então todos transbordamos de mérito, portanto, todos temos direito à mesma ração. Não há a menor motivação para melhorar, não há recompensa adequada ao trabalho, ao esforço, ao mérito, à sorte. Não, nada. Há um igualitarismo falso, porque os recursos não são, em tese, em teoria, das alturas do pensamento político e da ciência econômica, da economia política, toda essa absorção de recursos nacionais depois é derramada sobre o povo português, sob a forma de serviços e de regalias. Mas nós sabemos que não é assim. O Estado é um mau locador de recursos. É triste um socialista ter dentro de si uma realidade de tal forma evidente e indiscutível, ver-se obrigado a reconhecer que um dos problemas do país é o estatismo, esta religião estatista, que aliás, tenho todo o direito em dizer que o país tem uma religião estatista, porque a direita é também estatista. São todos estatistas.

Aliás, sempre fomos, por isso. Já passou muita gente pelos governos.

E depois não conseguimos estabelecer relações. Em vez de termos a coragem de dizer: "Trade-offs têm que ser feitos, o leque salarial tem que abrir. As pessoas com mais responsabilidade têm que ter mais rendimentos. As pessoas que correm mais riscos têm que ter mais rendimentos. As pessoas que trabalham mais têm que ser premiadas." Nada disso se diz. O leque salarial tem que ser alargado. Não, é sempre achatar, é de sempre injustiça. Enquanto não estivermos reduzidos à igualdade, que vai ser associada à pobreza, porque como é evidente, era aquilo que o doutor Soares chamava com muita razão socialismo de miséria, enquanto não vivermos todos mediocremente, mas sempre com o ministro das Finanças a dizer que mais uma vez Portugal vai ter as contas certas. Não admira que tenha as contas certas, os portugueses não podem ser acusados de não ter concorrido penosamente para o equilíbrio das contas do senhor ministro das Finanças. Como dizia o primeiro-ministro em tempos: "Portugal está bem, os portugueses é que não." E assim continuamos, como se na nossa sina. E depois batemos com a mão no peito e dizemos: "É preciso aumentar os rendimentos, os níveis de bem-estar e não sei o quê, e os salários. Os salários não sobem." Por que os salários não sobem? Os salários não sobem porque a economia não cresce. A economia não crescendo, há excesso de pessoas qualificadas, situação que aliás, já está a tender para se inverter, porque como é evidente, se tu tiveres 20 anos e uma vida à tua frente, tu percebes que ficar em Portugal a viver e a trabalhar é um péssimo negócio. Vais acabar os teus dias a pagar a tua reforma e a minha. Com uma carga fiscal horrível.

Claro.

Que é o que está a acontecer em França.

Com certeza.

É o que se vai tender a agravar.

Quem pode, foge.

E depois, quem pode, foge. Quem tem as competências, quem tem energia, quem tem oportunidade, quem tem competências que são valorizadas e procuradas, vai à procura de um contrato social, como se costuma dizer.

Mais justo.

De um contrato social mais justo. Não quer dizer que as pessoas não queiram pagar os impostos, as pessoas não querem viver nos Estados Unidos, as pessoas não querem aquilo, as pessoas também não querem isto.

Claro. Já voltamos, Sérgio. Bem-vindos de volta ao "Realpolitik". Sérgio, estávamos a falar dos bloqueios da economia portuguesa. Há uns dias o Observador publicou um artigo sobre as mudanças que o governo tem feito nas administrações dos hospitais. E a conclusão é de que o governo já mudou dois terços das administrações hospitalares nestes dois anos e que, grande surpresa, a larga maioria dos novos presidentes das administrações escolhidos têm ligações ao PSD. Normalmente quando se fala disto, o ponto em que se toca é a possibilidade de alguém incompetente, atenção, eu não estou a falar agora em particular de cada uma destas pessoas, isto nem sequer é um exclusivo do PSD. Estas pessoas foram substituir pessoas que tinham sido nomeadas por governos do PS e que tinham cartão do PS. O ponto não é esse, mas fala-se da possibilidade de pessoas incompetentes serem nomeadas por terem cartão partidário. Acho que o ponto é: mesmo quando são nomeadas pessoas competentes, eu acho que é um problema. Porque a mensagem que tu estás a passar é que tu podes ser ultracompetente, és muito bom, és um grande presidente de um conselho de administração de um hospital, mas tens de ter cartão na mesma. Tens de ir bater à porta de um dos grandes partidos se quiseres aumentar as possibilidades de seres escolhido. Não sei como é que olhas para isto.

Olho da seguinte maneira: a questão central é saber quem escolheu essas pessoas. Foi a ministra ou foram as estruturas locais do PSD? É só essa a questão que importa saber. Quem é que indica esses nomes? É só esclarecer isso.

Tu achas que se tiver sido a ministra, é uma mera coincidência o facto de haver cartões partidários?

Não, não é coincidência nenhuma. Eu acho que os partidos envolvem-se, têm poder suficiente para impor nomes aos ministros. E acho que não deviam ter, é simples como isso. Não sei se é preciso ser mais claro que isto.

Não.

Nós temos um sistema que está numa situação que é conhecida de todos: o Serviço Nacional de Saúde. Quando qualquer um de nós paga o seu IRS, temos de ter consciência que aquele dinheiro vai todo para o Serviço Nacional de Saúde. Quer dizer, vai ou não vai, mas o montante da receita do IRS é o equivalente a. Temos que perceber e temos que pensar quantas vezes já fomos ao médico, qual foi o nosso médico, qual foi a nossa clínica, qual foi o nosso hospital privado, e em que circunstâncias, em que não temos escolha, é que realmente nos socorremos do serviço que pagamos. Não tenho dúvidas que o problema do SNS não é a qualidade dos profissionais, que são excelentes.

Seguramente.

Iguais ou melhores que os do privado. Agora, é um sistema que tem um problema na gestão. Então, o que se faz? Vamos buscar aqui uns tipos aos partidos. Está feito. É a solução óbvia para o problema. É como um tipo precisar de uma operação ao cérebro e ir buscar o serralheiro mais próximo.

Sendo que, obviamente, atenção-

Esperando uma recuperação célere.

E vitoriosa, e sem nenhum tipo de complicação.

Mais uma vitória da medicina.

Sérgio, tu também queres-

Para dizer platitudes, coisas beatas, patetices, somos ótimos. Agora, para estabelecer relações causa/efeito, para dizermos: "Não há dinheiro para tudo, toca a fazer aqui uma escolha trade off. Vamos resolver este problema e vamos deixar este aqui para mais tarde. Vamos criar aqui um problema pequeno, mas atenção, vamos resolver um problema grande." É assim que se governa. É fazer escolhas e explicá-las. E tentar ganhar um apoio majoritário para que o país perceba. Na reforma laboral, o país não percebeu o que é que a ministra queria. Isso é uma coisa evidente. É preciso saber comunicar, é preciso saber explicar, é preciso indicar situações concretas. Por que esse sistema não é bom? Ok, então por quê? É por isto e por isto. Política é isto. Agora o que política não é, certamente, é ter um problema no Serviço Nacional de Saúde e, de acordo com essa notícia, não sei quem são as pessoas, tal como tu num cartório, enfim, fazer considerações sobre as qualificações de ninguém. E ir buscar pessoas aos partidos. Não é possível. Ou porque são dos partidos. Até pode ser o melhor gestor hospitalar do mundo, que é do PSD, e então tem todo o direito. Era o que faltava, que não pudesse servir o país só porque é do PSD. Quer dizer, o PSD pode indicar ministros, mas o ministro hospitalar já não pode, porque assim não está na cabeça de ninguém.

Sim, mas aumenta, e muito, aquela percepção.

Não é percepção, é verdade.

Sim, ou aquela verdade, ou a sensação que as pessoas têm de que existem dois países: o país do cartão partidário e o país sem cartão partidário.

Isto não tem nada a ver com o cartão. A maior parte das pessoas que têm cartão partidário não conseguem ser administradores hospitalaresEssa ideia de que os partidos são uma espécie de uma inteligência, como é que se chama a nova que nós gostamos? O Claude. Os partidos são um Claude, que faz uma alocação de quadros militantes, detecta se tem cartão. Não é assim que funciona.

Mas faz alguma alocação.

Não é assim.

Faz alguma alocação.

Não é assim. Os partidos estão muito bem descentralizados. A questão é saber perguntar à senhora ministra: "Senhora Ministra, foi a senhora que escolheu estes génios da gestão ou eles foram resultado de indicações feitas pela estrutura a que a senhora ministra teve que se submeter?" É a questão que é preciso saber. Isto não é coisa que se dirija especificamente a esta ministra, é a todas. Vocês conseguem pôr as pessoas melhores? Vocês conseguem garantir porque quando isto tinha a gestão privada corria mais ou menos bem e agora com a gestão pública a coisa está a correr pior, o que é que aconteceu? A indicação do administrador de acordo com critérios pouco transparentes, em que a única coisa que é transparente é o cartão partidário. Isso tudo correu bem? Correu mal? O problema está aí, está em outro sítio? É falar com o ministro e perguntar-lhe. Não vale a pena estarmos aqui a dizer: "Lá andam estes bandidos com os cartões partidários."

Então não vamos continuar a dizer que estão cá estes bandidos com os cartões partidários, até porque tu querias ainda falar um bocadinho.

A maior parte deles provavelmente devolveu o cartão depois de se ver administrador do hospital.

Mas tu querias falar-

Ou de presidentes da República.

Sim, claro. Antes de irmos à área nova, querias falar um bocadinho sobre a prestação social única. Já houve reações de partidos. O PS anunciou que a princípio não vai viabilizar isto. O Chega ainda está em conversas com o PSD. Queres dois ou três minutos pra falar um bocadinho sobre se esta é mais uma reforma que está a ser bem comunicada ou não?

Eu acho que nós vamos ter muito tempo pra falar sobre isto. E já falámos, aliás. Aproveito já para dizer que tu tinhas toda a razão em relação àquela famosa polêmica dos automóveis, em que tu disseste que o pagamento dessa prestação ficava dependente de não se ser proprietário de um automóvel a partir de um valor qualquer. Um dado que me falhou e portanto se calhar aqui gerou alguma confusão. Fica feito o esclarecimento.

Não, mas vamos fazer uma T-shirt com essa frase: "Tinhas razão, Miguel."

"Tinhas razão, Miguel." É uma frase.

E distribuímos aos nossos ouvintes. Quem quiser essa T-shirt, por favor, mande-nos um e-mail e nós fazemos a pedido.

Exatamente. Portanto, tinhas razão, Miguel.

Então não queres falar sobre isso. Queres falar sobre a área nova.

Eu gostava muito que o Partido Socialista, ao contrário do que aconteceu na questão da reforma laboral, que foi uma espécie de hecatombe comunicacional, nesta questão, que já foi herdada, da reorganização das prestações numa só, aumentar a transparência, até para as pessoas que pelas circunstâncias da vida se veem numa situação de precisar deste tipo de apoios, poderem andar de cabeça levantada e não terem que dar justificações a ninguém. Para isso é que é preciso acabar com as situações de abuso. As pessoas veem as situações de abuso. Todos os recursos do Estado que são abusados deixam de estar disponíveis pra quem precisa. E os apoios até podiam ser maiores do que são. Mas se calhar as situações de abuso não podem existir. Não é normal ter um carrão com valor de mercado exorbitante e depois ter uma prestação social. Essas situações existem. Mas essas situações têm que ser corrigidas a bem da sanidade do sistema. Não basta vir pra aqui dizer que o objetivo é lançar mais uma ofensiva, o governo é um escravo do grande capital e gosta de esmagar os pequenos. Eu não tenho dúvidas nenhumas de que a vida, lamentavelmente, não se afasta muito deste padrão. Mas a verdade é que o governo até pode querer fazer uma coisa bem feita. Já estava no PRR, o PS também queria fazer. Não vamos cair outra vez na velha coisa: está tudo perfeito, está tudo a correr bem. O PS deixou um legado espetacular, é um case study. Estão aqui investigadores do mundo inteiro a ver como é que nós organizamos o SNS, as prestações sociais, todos aqueles temas que claramente irradiam esplendor e perfeição e até encandeiam a humanidade. Portanto, não é assim. Acho que os partidos têm razão quando dizem que uma matéria destas devia ser tratada e discutida na Assembleia da República. Com toda a franqueza, como é que se vai fazer isto sem o senhor deputado parlamentar? Lá está, também não se debate isto, também não se debate impostos, também não se debate não sei o quê. A Assembleia parece uma câmara de beerraria, onde não é possível ter uma discussão onde os argumentos racionais empregues de parte a parte nos ajudem a formar a nossa própria opinião informada. Temos uma opinião informada sobre os temas. Podemos discordar, mas sobre fatos.

O PS corre um risco, e vou fazer aqui uma passagem muito subtil pro próximo tema. A posição de risco em que o Labour sente que está, tem havido discussões sobre isso nas últimas semanas no Reino Unido, o Labour sente que é percepcionado como o partido dos subsídios.

Pois.

E que isso o coloca numa posição de enorme fragilidade perante os eleitores.

Sobretudo, vamos lá ver, os subsídiosQuem são as pessoas que são as testemunhas privilegiadas de outras que abusam manifestamente dos subsídios, que preferem não trabalhar? Porque há aqui um problema também de criar um sistema de incentivos que faça com que as pessoas regressem à economia, à atividade produtiva. As pessoas não querem regressar à atividade produtiva. Isso existe. Existem pessoas que não querem regressar à atividade produtiva, tendo a idade de trabalhar, e que preferem viver destes subsídios, que são muito modestos, porque depois sabem maximizá-los ou porque depois fazem mais uns biscates. Essas situações são testemunhadas geralmente por pessoas que vivem no mesmo ecossistema socioeconômico e que trabalham de manhã à noite e que veem aquilo na porta da frente. Portanto, os partidos de esquerda estão a ser fortemente penalizados, porque muitas pessoas para as quais eles existem, as pessoas de ínfima condição, as pessoas mais desprotegidas e vulneráveis, em vez de se revoltarem contra o grande capital, revoltam-se é contra o pequeno abuso, porque é o que elas veem. A maneira como o grande capital manda em Portugal, como se diz antigamente, isso é difícil de ver. Agora, a maneira como o pequeno vivaço abusa do subsídio pra isto, pra aquilo, acumula com não sei quantos subsídios e não sei o quê, e lá vai e faz uma vida parasitária. Isto está a criar um problema terrível na base de apoio dos partidos de esquerda.

Outro problema com que o Labour se tem defrontado no Reino Unido nos últimos dias tem sido o da polêmica do Henry Nowak. É um adolescente de 18 anos que foi esfaqueado à noite, na rua, por um sikh, a religião sikh. E o irmão do esfaqueador ligou à polícia, disse que estava ali um caso de racismo, que o Nowak tinha insultado de forma racista o irmão e que era preciso virem ali pra resolver o problema. E a polícia chegou, o Nowak estava no chão, eles algemaram-no, ele dizia que tinha sido esfaqueado, que não conseguia respirar, e eles disseram: "Não foste nada esfaqueado. Não me parece que tenhas sido nada esfaqueado." Portanto, trataram-no de fato como se ele tivesse cometido um ato racista e depois ele morreu ali nas mãos deles. E tem havido uma grande discussão sobre se há dois níveis de policiamento no Reino Unido e se, no fundo, a polícia britânica foi tomada por uma ideologia do falso antirracismo e se isso está a criar um problema institucional na polícia. Pronto, assim resumindo, mal resumido, foi isto. Em Portugal também estamos a discutir muito isto, claro. E como é que tu lês estas coisas todas?

Vamos lá ver. Da seguinte maneira: um indivíduo pouco recomendável, criminoso, homem violento, independentemente de ser sikh, xintoísta, panteísta ou não sei o quê, um homem violento matou outra pessoa. Não é verdade? O irmão, ou em cumplicidade ou em falsas declarações, disse às autoridades que na origem do incidente estavam insultos de cariz racista. A polícia, em negligência escandalosa das suas obrigações, ignorou os apelos que foram dirigidos por aquele que estava obviamente neutralizado e no chão. E por quê? Agora a questão é esta: estamos a lidar com dois fulanos que vão ter uma longa carreira nas prisões do Reino Unido, pelo menos o assassino, o outro não sei o que lhe vai acontecer.

Foi condenado à prisão perpétua.

O assassino. E o outro, não sei.

Eu acho que tanto ele como a mãe também terão tido que prestar contas por cumplicidade.

Cumplicidade.

Ou encobrimento, melhor dizendo. Não é cumplicidade, é mais encobrimento.

E a polícia também vai ter que prestar contas, porque o que aconteceu é inaceitável. E há histórias, quer dizer, há muito mais histórias de violência policial do que violência de imigrantes sobre pessoas brancas, amarelas, azuis e verdes. Não há qualquer comparação, há um problema de violência policial. Nós andamos aqui há que tempos agora com esta história da Esquadra do Hat, que é uma história muito perturbadora.

Sendo que aqui é negligência policial.

Aqui não foi violência, aqui foi negligência. Mas isto só pra dizer que quando falamos de um fenômeno, aqueles que incitam ao ódio e cultivam o ódio na nossa sociedade e procuram usar estes casos pra dizer: "Estão a ver o que dá não sermos todos ingleses, brancos, anglo-saxônicos, descendentes dos alemães e dos vikings? Que maravilha, desde o tempo de Guilherme o Conquistador, que vieram pra aqui uns franceses baralhar isto, mas esse ainda deu pra assimilar. Agora vêm os netos do império britânico e pronto, vêm com aquelas facas esquisitas e dão cabo da nossa tranquilidade." Quer dizer, este discurso de ódio, de virar comunidades contra comunidades, é um discurso oportunista que aparece nestes casos. Quando há violência policial, geralmente a extrema-direita está calada. A extrema-direita gostaria até de um bocadinho mais, como diria Salazar, umas pancadas dadas a tempo evitam violências maiores. Mas a questão é que esses polícias também estão mergulhados numa cultura que se tornou uma cultura dominante, uma espécie de narrativa, segundo a qualO que é credível? O que faz sentido para uma pessoa que está permanentemente submetida e mergulhada a este discurso de ódio, segundo os quais as comunidades digladiam-se e a extrema-direita flagela, ataca e intimida as minorias étnicas? Quer dizer, aquilo foi um discurso que, do ponto de vista do polícia, aderia à realidade. Portanto, o polícia estava intoxicado com esta narrativa.

Sim, muita gente lembrou o relatório Macpherson, que já tem muitos anos e que foi feito na sequência de um assassinato que também envolvia racismo. E as recomendações desse relatório, o que saiu daí, foi a ideia de que a polícia britânica tem um problema de racismo institucional e a ideia de que um incidente racista é racista quando alguém o percepciona como tal. Ou seja, não é uma questão de objetivamente há racismo ou não, é se a vítima ou alguma testemunha percepciona aquilo como um incidente racista, ele tem que ser tratado assim.

Faltava que uma compreensão dessas do racismo entrasse para o Código Penal.

Pronto.

Era a desgraça.

Claro, precisamente. Aqui o que algumas pessoas têm argumentado é que não entrou no Código Penal, mas entrou na cultura policial. Aliás, o Charles Moore no "Telegraph" tem um ponto de vista que é o seguinte: no fundo, o que ele diz é que o que foi dito aos polícias foi: "Vocês são os representantes do heteropatriarcado branco opressor. E enquanto representantes disso, vocês não têm sequer a capacidade para perceber o que é racismo." Ou seja, vocês não têm capacidade de perceber.

Sim, é aquela coisa do racismo sistêmico.

Certo. Portanto, vocês não têm a capacidade.

Aliás, nós também não. Nós, vítimas do racismo sistêmico, estamos aqui a falar como dois doutores. Com que autoridade?

Precisamente. E, portanto, os polícias não podem confiar nos seus olhos. O que ele diz é: os polícias não podem confiar nos seus olhos, nem nos seus ouvidos. Eles veem uma coisa que não lhes parece racismo, mas é. Eles ouvem uma coisa que não lhes parece racismo, mas é, porque alguém disse.

Isso é inaceitável. Isso iliba as pessoas de responsabilidades. A pessoa comete um ato, mas não tem capacidade de autodeterminação nem de juízo, porque, coitado, é uma vítima do racismo sistêmico. Ele é racismo sistêmico. Ele é 1,80 m de racismo sistêmico. Onde é que está a tal escolha entre o bem e o mal? Nada a fazer. Foi inoculado pelo racismo sistêmico. Não, eu acredito na responsabilidade individual, na educação das pessoas, na formação para o respeito, para a erradicação desse lado sombrio da natureza humana. A natureza humana tem esse lado sombrio, os preconceitos podem ocorrer de brancos com negros, negros com brancos, brancos com chineses, japoneses com chineses. O racismo é racismo, racismo é uma tristeza, tem que ser combatido, é um fenômeno cultural cada vez mais residual, julgo eu. Agora, essa coisa do racismo sistêmico, nunca tive estudos para perceber a utilidade disso.

Muito bem, vamos estudar um pouquinho mais e voltamos na próxima quarta-feira, em direto ao meio-dia. Nós agora estamos em direto à 13h por causa das comemorações do 10 de Junho, mas também nos pode ouvir em podcast e até pode carregar naquele botãozinho que permite seguir-nos nas plataformas para receber um alerta a cada novo programa, que é uma coisa que é uma maravilha. Sérgio, até para a semana.

Até para a semana.