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Era hora do jantar quando soou o alarme no quartel do Regimento de Sapadores Bombeiros do Martim Moniz. Um incêndio na Mouraria levou a equipa do chefe José Caetano à Rua do Terreirinho. Lá dentro estava mais do que podiam esperar.
Com tanta gente num espaço tão pequeno, não me recordo, assim de repente, de ter acontecido qualquer incêndio com esta dimensão, mas não sabemos quantas pessoas existem aqui nesta zona.
Os números diferem consoante a versão, mas estariam pelo menos 15 pessoas, migrantes indianos vindos de Odemira, na pausa dos trabalhos agrícolas. Demasiada gente dentro daquele rés-do-chão, mas também lá fora.
Eram centenas de pessoas aqui na rua. Uns tentavam bater nas portas pra chamar outros. Também tenho indicação de que alguém tentou arrombar uma destas portas, porque ouviam bater do lado de dentro.
Esse alguém foi Luís Encarnação. A mãe é dona do último restaurante português da Mouraria, na rua do incêndio. O jantar ficou interrompido.
Olha fumo, olha fogo, e começamos a correr pro local. Quando tentamos entrar, era impossível entrar pelas escadas, arrebentar a porta de entrada. Tentamos abrir as portas que estavam por fora. Arranjamos um prumo desses dos passeios, pra limitar os passeios, e começamos a bater com o prumo nas portas e elas começaram a estalar. Eu lembro, meti o outro lá a bater, corri ao armazém pra buscar o arranca-pregos e abrimos uma gaiola, uma janela que já dava pra sair e entrar gente.
Todos os que saíram com vida daquele rés-do-chão foram salvos por Luís, com alguma ajuda. Os bombeiros retiraram apenas duas pessoas de pisos superiores. Outras duas não tiveram a mesma sorte.
Nós abrimos, o outro rapaz meteu a luz lá pra dentro, já disse: "Olha, tá deitado" e já nem quis olhar lá pra dentro.
Mas por que os moradores saíram pela janela e não pelas portas? E por que três homens adultos, com pés de cabra, não as conseguiram abrir? A resposta estava do lado de dentro.
Tinham umas barras de ferro por trás, umas trancas. Aliás, nas filmagens vê-se as barras de ferro lá todas empenadas, ainda no sítio.
E tinham umas trancas de ferro. Portanto, quem lá estava dentro, muito dificilmente conseguiria passar pra via pública.
Na versão do Luís Encarnação e do chefe Caetano, os ferros eram trancas colocadas pelos moradores, mas quem esteve na vistoria do local depois, tem outra certeza.
Nós no interior não vimos trancas nenhumas. Vimos só os beliches mesmo aqui encostados.
As camas que levaram aquelas pessoas àquele andar foram as mesmas que não as deixaram sair. Quem o diz é Tiago Bento, da Unidade Local de Proteção Civil da freguesia de Santa Maria Maior. Agora, com as madeiras colocadas a tapar as portas e janelas da casa, é ele quem nos faz o desenho do 55 da Rua do Terreirinho.
Aqui estaria então o tal beliche, por aqui assim mais ou menos. Aqui no 57. Aqui no 59 estariam dois beliches. Aqui estaria o outro beliche. E aqui então uma bancada de cozinha, o WC. E aqui um segundo quarto com mais um beliche e mais colchões aqui no chão.
Cinco beliches para, pelo menos, 15 pessoas. Pelo menos, porque não há certezas. Tiago Bento diz que há a possibilidade de uma pessoa ter fugido antes. Já ligações entre eles, poucas.
Pela identificação, não se consegue fazer essa ligação de familiares, mas eles dizem entre si que alguns são familiares.
Eram pelo menos quatro os migrantes com ligação familiar. Um pai, uma mãe, uma filha e um filho, o rapaz de 14 anos que morreu. Estudava na Escola Secundária Gil Vicente, na Graça. Tinha começado os estudos em dezembro e sobre os outros não há certezas. Sobre quem são, o que ali faziam, por que ali dormiam. Mas o mais provável é serem parte de um esquema que inundou os quartos da Mouraria.
Metem, se é preciso, 16 pessoas dentro de um quarto. E depois o mais grave é que é assim: é que vêm uns, dormem de dia, depois vêm outros, dormem. É a cama quente. É o que se chama a cama quente. Já está quentinha a cama. É só aceitar.
E bastou andarmos uns metros e entrarmos num prédio aleatório para vermos o fenômeno. How many people lives here?
There are, yes, seven people.
Seven, here.
Six people. One people not coming.
Just a man, no woman.
No woman.
Apenas sete, dizia Fahim, vindo do Bangladesh. Sete pessoas num espaço equivalente a um T zero, com três beliches. Na nossa presença, nunca admitiu que vivesse ali mais gente, nem ali, nem noutras casas. You know any houses here, probably older houses, but...
No, I'm sorry, but I don't know, because we are working people.
Work, trabalho. Vivem quase só pra trabalhar e mesmo assim, diz-nos Fahid, ganha apenas o mínimo, seja quanto isso for. E por falar em dinheiro, a quem pagará a renda para dormir ali?
This is my friend room, so how much is paid to patron, we are divide.
Fahid não diz. Explica apenas que o quarto é de um amigo e que o pagamento ainda vai ser combinado com o patrão. Está ali há um ano. Ele e cerca de 20 mil migrantes na Mouraria. Como Rui Nin explica.
Aquilo que eu penso é que não há nenhum rigor por parte da junta ou a quem de direito, que passa os mesmos atestados de residência, em constatar se está a passar 10, 15, 20, 30 atestados pra o mesmo número de porta.
Rui trabalha na Domingos e Nogueira Ltda há 40 anos. É desta loja de peles, na Rua do Terreirinho, que denuncia a falta de condições de quem vive e a falta de rigor de quem governa. O pedido é só um.
Basta que a junta ande aqui e constate onde é que eles tão a morar e quantos entram e saem de uma casa. É muito fácil. Se nós vimos, por que a junta não vai ver?
Mas será que a junta pode fiscalizar? Ninguém melhor que o presidente Miguel Coelho para responder.
Mas isso só mesmo a ASAE e a Câmara Municipal é que podem fiscalizar e têm autoridade legal para justificar uma intervenção. É bom que nós todos tenhamos a noção que um presidente de junta de freguesia não é um xerife.
Não pode entrar nas casas, mas pode passar atestados de residência. Aliás, a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior é uma das freguesias que está a ser investigada pelo SEF por emissão em massa de atestados. Mas, afinal, por que são emitidos tantos?
A lei diz, muito taxativamente, qualquer cidadão que se apresente com duas testemunhas ou que declare, às vezes sob compromisso de honra, que aquilo é verdade, que a junta é obrigada a passar o atestado de residência.
No meio disto tudo, sem poder fiscalizar, sem poder rejeitar atestados, estará a junta de freguesia responsável pela Mouraria refém de outras entidades?
Não, a junta de freguesia não tá refém. Se alguém tá refém, são estes cidadãos.
Dois perderam a vida no dia 3 de fevereiro. Um tinha 30 anos, o outro, um menino de 14. Eram dois de milhares que viviam nas camas quentes da Mouraria.