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Sábado de manhã. José Pereira está na garagem de casa, equipado a rigor: calções, tênis, impermeável. Prepara a bicicleta para mais um passeio de fim de semana.
Estando o tempo razoável, é todos os fins de semana. Pode ser também ao fim de semana, mas pode ser nos dois dias, sábado e domingo.
Há um ano, era impensável que voltasse a subir na bicicleta. José esteve 19 dias em coma. Quando acordou, não conseguia sequer pôr-se de pé. O que é que lhe falta enquanto esteve?
Muita falta. Enquanto estive, pensava muitas vezes se poderia eventualmente, algum dia, voltar a poder fazer o desporto que eu gosto. Pensei que ia ficar, na melhor das hipóteses, pela caminhada, mas felizmente correu tudo muito bem.
Foi um dos primeiros doentes em Portugal internados com Covid-19.
Sim?
Bom dia, é da casa do senhor José?
É sim, eu vou abrir, está bem?
Obrigada. Rosa Maria abre-nos a porta de casa de máscara posta. Entrega-nos umas capas de plástico para pormos por cima dos sapatos, como as que se usam dentro dos hospitais.
Eu vou só dar umas pantufinhas, se não se importa.
Claro.
Claro.
Depois do susto que apanhou, todos os cuidados são poucos. O marido, José Pereira, está sentado no sofá.
Vou me apresentar. Chamo José Pereira, tenho 59 anos, sou empresário. Sou natural de Braga. No início de março, mais precisamente no dia oito, comecei a ter sintomas que para mim eram um pouco estranhos, porque eram sintomas de febre. Não tinha memória de estar com febre. E dor de cabeça era a mesma coisa, mas aquela era uma dor estranha, persistente. E passado mais dois ou três dias, comecei a sentir que não tinha força, falta de força mesmo, a nível de braços, pernas.
Na altura, a 8 de março de 2020, Portugal tinha 23 casos de infecção confirmados. José estava atento. O trabalho obrigava-o a viagens regulares ao estrangeiro e lá fora a ameaça da pandemia já pairava. Por isso consultou o médico. Inicialmente, pensou-se que seria apenas uma gripe, mas os sintomas persistiram.
E então resolvi ligar para a Saúde 24. E foi nessa altura que expliquei os sintomas e foi marcado, no dia 16 de março, um teste no Hospital de Braga. Fui fazer o teste. Passado um dia, deram o resultado positivo. Portanto, sei que no dia 18 sou chamado para o Hospital de Braga.
José pensava que ia fazer uns exames. Talvez ficasse em observação. Talvez passasse a noite no hospital a receber soro, mas nunca imaginou que fosse mais do que isso.
Pois, mas entrei às 10h30 no Hospital de Braga de manhã e às 23h30 já estava em coma induzido e intubado, porque pelos vistos, e aquilo que me contam os médicos e enfermeiros, é que o meu nível de oxigenação estava reduzido. Não é zero, mas estava muito inferior ao valor normal.
Não se lembra de quando os médicos lhe comunicaram que teria de ser intubado.
Tenho memória de ter entrado no hospital. Depois tenho já um flash, uma memória muito curta de estar na cama da enfermaria, quando me puseram uma máscara de oxigênio. Vim a saber depois que liguei pra casa a dizer que tinha almoçado e que estava tudo bem, mas sinceramente, não me lembro de mais nada.
Esteve 19 dias em coma, mais oito sem estar lúcido.
Foi um choque quando acordei, porque não conseguia falar, não conseguia andar. Tinha um braço paralisado. Tinha coitada uma plata de estar muito tempo deitado na mesma posição. Estava rodeado de corpos estranhos. De um momento pro outro, vejo pessoas todas mascaradas, que eram os fatos de proteção. Como liguei aquilo a sonhos que tinha tido durante os 19 dias do coma, pensei mesmo que estava em outro planeta. Era a minha ideia. Há um pormenor que atestava, na minha ideia, de que eu estava entregue a pessoas para me fazer mal em outro planeta. Mais, de pessoas de pouca confiança, porque até as batas, e é um pormenor, os nomes eram escritos à mão, a marcador. E eu: "Isto é impossível. Isto é vão de escada, isto é uma clínica de vão de escada que está".
Médicos e enfermeiros estavam equipados dos pés à cabeça com fatos que pareciam de astronautas. A comunicação era praticamente impossível e reconhecer quem estava atrás das viseiras e das máscaras, uma missão difícil. Por isso, escreviam os próprios nomes nas batas, à mão, com caneta. Para que os colegas os identificassem e para que os doentes soubessem que ali estavam pessoas.
E era uma coisa que também ajudava à ideia que eu tinha de que estava em maus lençóis, é que as pessoas ouviam, pensando eu que falava, as pessoas ouviam e ficavam indiferentes ao que eu dizia. Não me contradiziam, não me diziam nada, não falavam. Ouviam, faziam de conta que foi um verme que falou. Era a minha ideia.
Aos poucos, José foi recuperando a consciência e percebendo o que se estava a passar.
Uma das coisas que me marcou foi que eu era uma pessoa bem constituída, pratiquei desporto toda a vida e a primeira vez que olho para as minhas pernas vejo um esqueleto. Eu perdi 25 quilos, portanto, a maior parte massa muscular. E vi ali como é constituído o esqueleto das minhas pernas. Isso chocou-me, fiquei de facto muito consternado com tudo. Era não mexer um braço, era não comer, tinha que ser alimentado por sonda, era não poder comunicar.
Depois de sair dos cuidados intensivos, foi transferido para os cuidados intermédios, onde esteve 10 dias, até passar para um quarto de pressão negativa, onde começou a fazer fisioterapia e terapia da fala. A pouco e pouco, conseguiu voltar a falar.
Até que a alguma altura, que me foi autorizado a ter telemóvel e um tablet, que era aquilo que eu tinha pedido. E liguei-me ao mundo, porque depois de ter o telemóvel e tablet, liguei-me ao mundo e comecei a ler.
E que mundo é que descobriu?
Que mundo? Um mundo virado do avesso.
No dia em que José entrou em coma, a 18 de março, Portugal tinha 642 casos confirmados de infecção por COVID-19. O novo coronavírus tinha provocado duas mortes. Um mês depois, quando voltou a ligar-se ao mundo, eram já 19.685 infetados em Portugal. 687 pessoas tinham morrido.
Depois de ter o telefone, fiz a primeira chamada para a minha esposa e alguma coisa me dizia que tinha acontecido. Percebi logo pela voz da minha esposa, que alguma coisa tinha acontecido e eu nem a deixei falar. Eu disse logo: "Foi o meu pai."
Um dia depois de José Pereira entrar em coma, a 19 de março, o pai foi internado no hospital com COVID-19. Não resistiu. Morreu a 27 de março. Foi a mulher, Rosa Maria, que teve de dar a notícia a José.
Como é que eu agora vou descalçar esta bota? Porque ele vai abrir o telemóvel e vai estar lá as mensagens de toda a gente, sentimentos, isto e aquilo. Porque era normal. Então o que eu arranjei? Primeiro arranjamos uma pessoa que conseguisse lá, porque nós não podíamos ir. Conseguiu lá fazer chegar o telemóvel e o que eu pensei? Peguei num saquinho de plástico, daqueles de congelação, meti o tablet e o telemóvel e por fora pus uma folguinha escrita por mim, de forma visível, que é o transparente, e disse: "Nós tratamo-lo por Zeca. Zeca, quando receberes o telemóvel, liga logo comigo, se faz favor. Beijinhos". Só que eu pensei que aquilo ia demorar algum tempo a chegar lá. Passado 15 ou 20 minutos, já me estava ele a ligar e eu: "Ó Marta, é o pai!" Eu sabia que era naquela hora que eu ia ter que lhe dizer. Eu tremia toda. "Então, já recebeste o telemóvel? Estás bem?" Aquelas coisas. E ele lá também foi falando. E dizia: "Mas estás bem?" E eu: "Nós aqui estamos todos bem. Está tudo bem, o Miguel está bem, a Avóinha está bem. O teu pai, sabes, Zé, devido à idade, o teu pai já tem 83 anos." Mas eu já não conseguia falar. Diz ele: "Eu já me tinha apercebido disso." Que foi a resposta dele. Deve ter sido na minha voz ou qualquer coisa, que havia uma tragédia aqui em casa. Mas eu como já não estava a conseguir falar, a Marta pegou no telemóvel e disse: "Pai, o avô não resistiu. Mas olha, nós estamos todos bem, porque só o avô realmente que tinha a entender, é que não resistiu". E conseguiu ali também dar a volta, porque eu já não conseguia falar mais. Mas foi muito complicado para mim, porque eu queria ser eu a dizer.
Rosa não sabia como o marido ia reagir. Um receio que se juntava a tantos outros. Os dias em que José esteve no hospital, Rosa Maria não descansou. A toda a hora esperava uma má notícia.
Era aquela angústia de se toca o telefone, se não toca o telefone. Depois nós diziam que em sete dias se saberia alguma coisa, então esses sete dias era um horror. Entretanto, houve a situação do meu sogro, que ao fim de realmente 18 dias faleceu. E eu dizia: "Agora foi um, daqui a nada vou receber o telefonema de outro".
Toda a família próxima esteve infetada. Ao todo, 10 pessoas. Em casa, Rosa Maria e a filha mais nova cumpriram o isolamento, cada uma numa divisão.
Eu detestava a noite. Quando eu tinha que fechar as persianas para mim Era um sacrifício medonho. Durante a noite, eu estava sempre à espera que fosse dia. Logo que rompia um bocadinho, eu abria logo a persiana, porque eu nunca mais dormi no meu quarto. Isto tudo antes das 8h, porque eu tinha medo do telefonema das 8h. Eu sabia, por experiência própria, que essas notícias geralmente dão-se às 8h. Se das 8h até às 8h30 não recebia o telefonema, eu já suspirava um bocadinho: "Se não ligaram de certo, também já não vão ligar".
Os dias eram passados em suspenso, entre limpezas constantes para ocupar o tempo e um medo que mais alguém tivesse de ser internado.
Tinha medo que dizia a minha irmã ao telefone: "Se eu tiver que ir pro hospital, eu não saio daqui". Eu tinha essa noção que poderia ou até o medo da minha própria filha ficar também. A gente nem pensa tanto em nós, mas mais nos filhos. Depois tinha a outra filha que estava com o marido lá no outro apartamento, que não é longe, mas mediante isso era tudo muito longe. E o bebê no meio deles. Eles estavam os dois positivos. O Miguel também fez o teste, deu negativo e ela entrou logo em contato também com o pediatra dele e o que ela dizia: não havia outra hipótese, o bebê estava com os pais. Agora imagina o que é o meu sofrimento, saber que os dois estavam infectados e a criança lá no meio deles e eu sem poder fazer nada. Foi muito complicado.
No hospital, depois de receber a notícia da morte do pai, José tomou uma decisão.
Se calhar, foi a primeira vez na minha vida onde pensei em cuidar de mim. Normalmente não sou assim. Se calhar sou capaz de me preocupar mais com quem me rodeia do que propriamente comigo próprio. E nessa altura eu achei que devia ser a altura de eu me dedicar só a mim. E foi o que eu fiz. Dediquei-me a mim, dediquei-me a fazer a fisioterapia. Fazia as sessões, e isto é de uma cultura de esporte, cultura de sacrifício, de arranjar ânimo quando parece que está tudo perdido, essas coisas. E eu dediquei-me. Fazia as sessões com a fisioterapeuta e ela quando saía, eu continuava a fazer exercícios logo que pudesse, até não poder mais. Foi sempre assim que fui habituado a ir até o limite. E começou a dar frutos mais rápido, segundo ela, do que o que estavam à espera. E tudo isto foi me dando cada vez mais ânimo.
Pouco a pouco, começou a dar pequenos passos. Às vezes, esmorecia.
Tive alturas, em termos psicológicos, que não fui ao tapete, como se costuma dizer, mas andei lá perto. Quando sentimos que não podemos fazer coisas básicas, coisas banais, que sempre fomos habituados, gestos ou falar, começamos a pensar: "Como é que vai ser a minha vida lá fora? Porque tinha isto e já não vou poder ter. Tinha aquilo que nos dava a alegria de viver, muitas delas vão ter que ficar de lado. O correr, o jogar, o nadar. Nunca pensei que iria chegar ao ponto da normalidade.
Nem sempre foi fácil, mas José, que sempre esteve habituado a fazer desporto e chegou a ser atleta federado, todos os dias forçava um bocadinho mais. Às vezes, contra as ordens dos médicos. Às vezes, correu riscos. Depois percebeu que tinha de haver um equilíbrio e treinou a paciência.
Uma das lições que eu assumi foi que tinha que desacelerar o meu ritmo de vida. Isto, de certa forma, ajudou-me a ver as coisas de outra maneira. Eu hoje sou muito mais metódico. Fazendo mais devagar e com mais concentração, acabo sendo mais produtivo do que com a azáfama, onde a gente se perde muitas vezes em coisas que nem dá por ela. E esta parte ensinou-me, obrigou-me, posso dizer, a ser mais lento no sentido de pensar melhor as coisas, fazer tudo com mais tranquilidade.
A prova final foi a alimentação.
Eu sempre fui, neste tempo todo, alimentado a sonda. E a terapeuta dizia que ia ficar bem. Lá fiz um exame, não correu bem. Fiz muito esforço pra correr bem, porque eu queria muito, que era uma das partes que eu mais queria, era não sair do hospital com a sonda, porque isto é assim: tenho, felizmente, uma família grande e muitos amigos. E um dos prazeres que eu tenho também é estar com os amigos, almoços e jantares, pra não dizer jantaradas, que é assim mesmo. Saber que eu não podia comer era 70% do prazer da mesa que ia desaparecer. Não desapareciam os amigos, mas não é a mesma coisa. Fiz o tal exame, não correu bem e disseram que em mais 15 dias é que voltamos a fazer outro. Comecei a saturar. Até que faço o último exame e passo no teste que são três consistências. Eu passei e outro mundo. Fui para o quarto e recebi logo a notícia que mais um dia ou dois ia para casa.
No total, José Pereira esteve 56 dias internado no Hospital de Braga. A 15 de maio, passou a ser acompanhado como doente externo para fazer reabilitação. Deixou a fisioterapia em dezembro, quase nove meses depois de ter sido hospitalizado. Hoje, José ainda é acompanhado como doente pós-Covid. Falta-lhe um exame, o último, que vai fazer com que tenha alta e deixe tudo isto para trás. Entretanto, voltou a uma das grandes paixões da vida: o desporto.
Comecei a fazer umas tentativas, umas caminhadas. Eu antes deste fazia o Bom Jesus quase todos os dias. Saía daqui, corria até ao Bom Jesus, subia aqueles escadões todos e regressava. São seis quilômetros e meio, mais ou menos. E então comecei pelas caminhadas, mas a primeira caminhada cansei-me rápido. Fiz um quilômetro e regressei. Regressei já com alguma dificuldade. Mas não parei, no outro dia tornei a fazer mais um pouco, mais um pouco, até que cheguei às portas do Bom Jesus, lentamente.
José mostra uma caricatura que lhe ofereceu um amigo quando teve alta do hospital. Ali está ele, vestido com o equipamento de futebol do Braga, vermelho e preto. Aparece de escudo e espada na mão. Ao fundo, o Bom Jesus. José Pereira, o guerreiro do Minho.
Qual é a lição maior? Olhe, eu estou mais sensível. Fiquei mais sensível aos problemas dos outros, fico mais sensível a situações que vejo na televisão. Até às vezes evito. Por exemplo, vejo todos os dias os telejornais que continuam com o Covid e eu vejo os cuidados intensivos, que eu não sei como é que são os cuidados intensivos, mas, por exemplo, ontem estava a dar uma reportagem sobre o Hospital de Braga e reparo naquilo e disse: "Eu conheço este teto. Estive ali nos cuidados intensivos, estive em coma". E aquele teto, eu liguei logo aos sonhos que tinha. Era exatamente aquilo. Descobri estas. E emociono-me mais fácil. Não vou dizer que fosse um durão, mas era muito difícil emocionar-me. Às vezes até ficava incomodado com tanta dureza que eu às vezes até exprimia. Às vezes diziam: "Não sei como é que tu não consegues ser sensível a isto ou aquilo". E não era porque não desse atenção, não desse importância, mas parece que tinha uma carapaça que não deixava entrar. E agora é com facilidade que eu me emociono com determinadas situações.
À noite, quando vê o telejornal, a memória puxa-o para aqueles dias.
Tem alturas que eu não consigo ver, dependendo de como estou, porque perguntou-me das sequelas. No fundo, temos sempre uma situação pós-traumática. Por vezes, eu fico num estado de tristeza. E de um momento para outro, até levantamos outra vez a moral, mas isto tem vindo a diminuir, porque no início havia mesmo quedas emocionais bastante acentuadas.
E depois, a perda do pai.
Esse é o assunto que eu volto e meia falo nele, porque sinceramente ainda não consegui ultrapassar. Estou a trabalhar mentalmente para isso, porque sei que preciso fazer isso, mas ainda não consegui totalmente. Os confinamentos também não ajudam muito. Aliás, nesse aspecto psicológico, não ajudam nada. E eu, por vezes, digo: cumpro as regras. E às vezes digo: não sei como é que foi o primeiro confinamento, mas vocês dizem-me que este é mais leve do que o primeiro, é que eu já não estou a aguentar agora este, imagine o primeiro. Não ajuda, mas essa parte do falecimento do meu pai é um assunto que eu acho que vou resolvê-lo. Vai ser mais devagar do que eu pensava, mas vou chegar lá.
José tem consciência que ainda falta fazer caminho. Esteve no limite Sabe que parece um lugar comum, mas garante que é mesmo verdade que quando alguém é posto à prova, como ele foi, há mesmo um momento em que se faz uma retrospectiva, uma espécie de balanço da vida toda.
Tenho um suporte muito grande. Não é que eu tivesse dúvidas, mas é sempre bom quando as coisas em prática são confirmadas. Tinha duas empresas. Infelizmente, uma delas sofreu com layoffs, mas resistiu. E saber que estava praticamente tudo intacto no meio desta tragédia, dá muita força. E só o devo mesmo à família e palavras que eu ouvia, que me faz ver que tenho um percurso que construí algo. E isso dá uma certa satisfação a quem se primou durante toda a vida de ser correto, trabalho, nada de atropelos. E ver estes resultados, ainda não tenho 60 anos, mas praticamente ao fim de 60 anos, é um percurso que nos dá algum orgulho. Depois a outra parte, que é a parte dos amigos. Tudo de uma simpatia, tudo de um interesse genuíno pelo meu estado, que me sensibilizou.
José admite que tem receio de voltar a ser infectado. Não se sente invencível, muito pelo contrário. Mas os números estão a baixar em Portugal e a vacina é cada vez mais uma realidade. Um ano depois, sente que voltou ao que era.
Para ser direto, digo que o que me falta é o que está a faltar a toda a gente. Ter a vida normal, reunir com quem tem que reunir, festejar com quem tem que festejar, sair e poder sair para onde pode, para onde quer. É isso que me falta, porque no fundo eu sinto-me exatamente igual aos outros neste momento. Sinto-me recuperado 100%, digamos assim. Claro que dizer 100% pode ser um exagero, mas no meu caso até acho que não é. Há qualquer coisa que fica sempre, por muito que a gente queira, não apaga da memória estas coisas. Mas em termos físicos, eu acho que estou 100%. Portanto, sou uma pessoa normal, morto por sair para a vida normal, sem estas privações todas que estamos a passar.
E juntar os amigos à mesa.
E juntar os amigos à mesa, claro, isso sim.
Até já tem uma ideia para quando esse almoço acontecer.
É lampreia, porque eu antes de ser internado tínhamos feito um almoço de amigos com uma lampreiada. E estamos mortos por fazer outra, porque mais um mês passa a época, depois temos que esperar só para o ano seguinte.
Talvez José já não consiga comer lampreia este ano, mas em Braga não falta ementa, nem vontade, para ter de volta os prazeres da mesa. Até lá, dedica-se a outros prazeres. Todos os fins de semana, pega na bicicleta e sobe às montanhas que rodeiam a cidade. Pedala até se cansar. E quando o cansaço chega, força mais um bocadinho.
Depois de sair do hospital, andei a primeira vez passado aí quatro meses. Eu hoje estou, digamos, praticamente normal. E em relação ao ciclismo, é como disse, sinto-me melhor agora até do que anteriormente, derivado ao peso.
Qual é que foi a sensação de chegar pela primeira vez ao Sameiro, como dizia?
Foi aquela sensação de que tem um ciclista profissional de chegar ao topo da Senhora da Graça ou da Serra da Estrela. Em primeiro lugar, era a sensação que eu tinha nessa altura. O ciclismo é um ato de sofrimento pessoal. Fala-se em equipas. A equipa ajuda os colegas, a estratégia, mas chega-se a uma altura, é cada um por si. É uma luta com o nosso interior. E superar isso foi excecional. Superar uma prova destas, depois de tudo, é uma sensação que nem sei exprimir. Sei que é muito boa.