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Já era quase meio-dia quando Aduino Gomes se aproximou do Regimento de Artilharia Ligeira. Foi por pouco, mas ainda conseguiu chegar a tempo.

Já tinha havido uma parte do tiroteio. Nós já chegamos atrasados.

Sem mais tempo a perder, Aduino vai com o resto da equipa da RTP para filmar o debate mais icónico na vida do, na altura, capitão Dinis de Almeida.

Meu caro amigo, aqui quem dá ordens no país é o presidente da República, é o primeiro-ministro, é o Hotel Saraiva de Carvalho e é o chefe do Estado-Maior General. Portanto, as vias legais e hierárquicas estabelecidas.

Os chefes do Estado-Maior General das Forças Armadas não vão dar ordem nenhuma.

Dêem-nos ordem para defender a unidade. É a ordem que temos sempre, defender a unidade em caso de ataque.

Então vocês defendem.

Certo.

Foi assim, com esta simplicidade, que Dinis de Almeida se tornou a estrela do dia.

Nesse dia ele foi a estrela dos acontecimentos. E Dinis Almeida ganha o duelo. Quer dizer, ganha a conversa. Na retórica, ele é um mestre.

Um mestre da retórica que ficou gravado para sempre nas câmaras da RTP. Mas não havia fita para tudo. Aduino Gomes foi obrigado a regressar à estação de televisão para ir buscar mais película. Quando voltou para o terreno, cruzou-se com um grupo de paraquedistas que de manhã tinha cercado o Ralis. Inspirado pelo momento, não hesitou em confrontá-los.

Eu perguntei-lhe: "O que vocês vêm aqui fazer?" E então ele diz: "Fomos enganados, viemos pedir desculpa aos nossos camaradas, foram os nossos". E faz ali um discurso, uma coisa absolutamente arrepiante.

Arrepiado e rendido, Aduino soube que tinha de acompanhar aquele pelotão até ao Ralis para filmar o pedido de desculpas. Mas é só ao aproximar-se do regimento que Aduino se lembra de uma questão fundamental.

Mas eu aí lembro-me: "Os outros tipos estão ali à frente. Estão ali à frente e vão disparar, porque isto é longe, eles não veem bem". E digo ao operador: "Vamos avisar aqueles tipos, senão eles ainda começam a disparar e também nos matam".

O momento mais apreensivo, mas que rapidamente se transforma numa das imagens mais marcantes desse dia.

E de repente, por força disto, por força talvez até do meu medo de levar um tiro, eu e os meus companheiros, também camaradas de profissão, que estão ali e do grupo, acontece que nós vemos o primeiro abraço entre os inimigos de há duas horas.

Um final feliz para as tropas portuguesas, que termina numa vitória para a democracia. Para sempre, registado em película, fica o papel de Dinis de Almeida, o mestre da retórica, que sai como comandante vitorioso.