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Em direto conosco está agora o sismólogo do Instituto Superior Técnico, João Duarte Fonseca. Bom dia, João Duarte Fonseca.

Bom dia.

Obviamente, ainda há muito poucas informações sobre este sismo, com muitas atualizações, mas estamos aqui a falar de um abalo e sabe-se já que foi sentido ao longo de 500 km por três países. É habitual um sismo com esta intensidade nesta zona?

Este sismo não é muito habitual, no sentido em que é um sismo que ocorre no interior de uma placa tectônica. Portanto, estamos numa zona muito próxima da fronteira de colisão entre a Índia e a placa euro-asiática, que deu origem à formação da cordilheira dos Himalaias. Na verdade, este sismo acontece um pouco a oeste da zona onde habitualmente ocorrem os grandes sismos nesta região, mais no Paquistão. Isto por quê? Porque nestas zonas de colisão continental, normalmente forma-se uma larga faixa de deformação, em vez de termos uma fronteira de placa muito bem delineada, como conseguimos identificar noutras zonas do planeta. Aqui é uma faixa com cerca de 200 km de largura, onde a deformação causada pela convergência continental se distribui e, portanto, este sismo, não sendo do tipo mais habitual, nem sequer de uma magnitude extremamente elevada, na medida em que estamos a falar de um sismo, segundo a agência dos Estados Unidos da América, com magnitude 5.9, segundo a agência europeia, magnitude 6.1. Isto é a fronteira entre aquilo que nós consideramos os sismos moderados e os sismos fortes, que é normalmente na magnitude seis. E o que estamos a ver é que um sismo, mesmo estando nesta fronteira entre moderado e forte, pode causar danos terríveis. Por quê? Neste caso concreto, porque é um sismo em que provavelmente o epicentro é pouco profundo. Aliás, as estimativas atuais apontam para 6 km de profundidade. Há outros sismos nesta região com uma magnitude muito mais elevada, mas que têm epicentro a centenas de quilômetros de profundidade e esses sismos, mesmo tendo magnitude mais elevada, não são tão perigosos. Este sismo, provavelmente a taxa de mortalidade vai aumentar, porque esta é uma região isolada na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, e é de fato um tipo de sismo muito perigoso. Não precisa de ter uma magnitude muito elevada, porque acontece numa zona habitada, contrariamente aos sismos muito fortes, que muitas vezes têm epicentro no mar. Este acontece mesmo debaixo do local onde as pessoas vivem e trabalham e a pouca profundidade. É uma combinação, de fato, muito perigosa.

Muito perigosa e, portanto, admitindo já um grande nível de destruição e muitas vítimas. Sendo, e como explicou, um sismo que acontece no interior de uma placa tectônica, há risco, há um maior risco de réplicas ou a situação não tem nenhuma alteração?

Estes sismos, de fato, são um pouco mais imprevisíveis, digamos assim. Não tanto em termos de réplicas, porque réplica é um fenômeno normal e isso é previsível, que vão continuar a acontecer sismos, mas provavelmente com magnitude significativamente inferior. O que por vezes acontece com estes sismos intraplaca é que acontecem aos pares ou mesmo em grupos de três ou mais, ou seja, tem um comportamento ligeiramente diferente daquele a que estamos habituados. Pode, inclusive, ser seguido por um sismo com magnitude superior, isto no sentido da probabilidade de ocorrência. Claro que nada disto é determinista, não podemos dizer: "Agora vai acontecer". Não. Tem-se observado noutras regiões do planeta que, a seguir à ocorrência de um sismo intraplaca, ocorrem sismos de magnitude semelhante, por vezes até de magnitude superior, num raio de algumas centenas de quilômetros. Portanto, eu diria que, neste momento, o risco está aumentado em relação à probabilidade de ocorrência de outros sismos na região, mas agora compete aos especialistas que estão a acompanhar o processo no local fazer essa avaliação.