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Vamos direto ao assunto. Queria pedir lhe um comentário a estes últimos dias e até sugiro que comecemos pela entrevista de ontem de Nuno Melo, que diz que a direção do CDS parece aqueles miúdos que são donos da bola e quando começam a perder, levam a bola pra casa. Que comentário é que isto lhe merece?
Eu acho que essa declaração se inscreve num conjunto de outras declarações que são muito infelizes da parte do doutor Nuno Melo e do seu grupo de apoiantes, na medida em que estamos a falar de um partido político, de uma instituição com muitos anos de existência e num quadro em que todas as regras foram observadas. Eu relembro aqui que na semana passada reuniu a Comissão Executiva na quarta-feira, a Comissão Política na quinta e o Conselho Nacional na sexta-feira, onde estiveram presentes mais de 300 conselheiros nacionais e onde foi aprovada uma deliberação, de forma clara, no sentido do adiamento do congresso que esta direção tinha proposto que fosse antecipado pra 27 e 28 de novembro, mas que face à alteração de circunstâncias que se verificou na quarta-feira passada, com a reprovação do orçamento na Assembleia da República e a consequente iminência da marcação de eleições legislativas para janeiro de 2022, para daqui a três meses, foi entendido que devia prevalecer a preparação das eleições legislativas em detrimento de uma disputa interna que nos ia levar todo o mês de novembro. E portanto, nesta altura, em que todas as explicações já foram dadas por vários membros da direção, e designadamente também pelo presidente do Conselho Nacional, fazer afirmações dessas realmente é algo que eu não posso deixar de lamentar, porque aquilo que o partido precisa é de serenidade e não de declarações incendiárias e insultuosas.
Mas não faria sentido o Francisco Rodrigues dos Santos querer participar neste congresso, uma vez que o antecipou. O partido acabou por antecipar o congresso e a direção concordou com isso e decidiu abrir esta batalha interna, digamos assim, estas eleições para mais cedo. Não faria sentido, em primeiro lugar, ele querer legitimar-se neste congresso e, de certa forma, respeitar o processo eleitoral que já estava em curso, uma vez que tem um adversário?
Quanto à legitimidade, sejamos absolutamente claros, embora isso já tenha sido dito e redito. O mandato desta direção termina a 26 de janeiro de 2022, portanto, não há nenhum problema de legitimidade. Há cerca de um mês atrás, o mesmo Conselho Nacional decidiu, sob proposta de direção, antecipar o congresso com o argumento de que fazia sentido começar a preparar já o novo ciclo político, as eleições legislativas que se desenhavam para 2022 ou 2023, num plano de normalidade, e também porque era necessário clarificar a situação interna. Mas entretanto verificou-se aquilo que lhe dizia, uma alteração de circunstâncias patente, porque temos agora uma crise política, as eleições legislativas passaram, saberemos esta semana, provavelmente para meados de janeiro. E portanto, se fizer contas, se as eleições legislativas forem a 16 de janeiro, como se antevê, a apresentação de listas tem que ser 41 dias antes, isso significa dia 6 de dezembro. Portanto, não faz sentido estar o mês todo de novembro, até o final de novembro, numa disputa interna e depois preparar listas, uma eventual coligação, pedidos de financiamentos, etc. Tudo o que envolva a preparação de umas eleições com apenas um espaço de antecedência, portanto, até dia 6 de dezembro. Foi essa a razão prevalecente na cabeça dos conselheiros nacionais que se reuniram, com toda a legitimidade, esta sexta-feira. E portanto, não há aqui nenhuma contradição. Houve um momento, há um mês atrás, houve uma alteração de circunstâncias nesta quarta-feira, há uma reponderação de todo este novo quadro e há uma decisão tomada pelo órgão com competência para o efeito. E portanto, não há aqui nada de exuberante. Aliás, deixe-me dizer-lhe que não é a primeira vez que são adiados congressos no CDS. Em 2003, por causa da Guerra do Iraque, o doutor Paulo Portas decidiu adiar um congresso. Em 2013, o mesmo doutor Paulo Portas, por causa da crise do irrevogável, decidiu adiar um outro congresso. Portanto, não há aqui propriamente nada de excecional.
Muito bem. Entretanto, precisamente por causa desta situação, houve uma série de baixas no partido. Como é que entende este cenário? E não acha que o CDS pode ir fragilizado por causa disto para as eleições legislativas?
Antes de mais, como já tive ocasião de dizer, eu lamento que alguns desses militantes, alguns dos nossos militantes e alguns militantes que fazem parte do património do partido, tenham decidido sair. Eu já estou no partido há mais de 30 anos, eu e muitas outras pessoas, e já tive muitas discordâncias com as diversas lideranças e decidi ficar. Há pessoas que tomam legitimamente a decisão de sair. Agora, o que eu não posso aceitar são as razões que invocam por serem falsas e, aliás, também nalguns casos hipócritas. E são falsas porque alegam a violação de regras internas do partido, e isso não aconteceu. Conforme expliquei, o Conselho Nacional é o órgão máximo entre congressos e tomou deliberação como há que tomar de forma clara na passada sexta-feira. E há também grande hipocrisia, porque a maior indignidade que se viveu neste partido aconteceu no Conselho Nacional de Óbidos em 2007. Eu estava lá e testemunhei que muitos daqueles que hoje falam em falta de democraticidade interna no CDS Terem criado um verdadeiro tumulto, ofendendo e coagindo a então presidente do Conselho Nacional, dra. Maria José Moreira Pinto. Lembro-me disto muito bem. Esse sim, foi um momento complicadíssimo, bastante indigno e até infame na vida do nosso partido. Aí, sim, todas as regras de democratização interna foram violadas. E nessa altura, ultrapassou-se a situação, sem saídas e sem a perturbação que de facto esse momento poderia ter dado origem dentro do partido à grande convulsão. Passou, aí sim, foi muito grave, não tem a menor comparação com o que se passa hoje em dia, portanto há aqui uma grande dramatização, numa lógica de se criar aqui um ambiente caótico, e obviamente com uma intenção de prejudicar o partido mesmo na hora da saída, porque realmente nada justifica que as pessoas saiam com tanto ruído, invocando razões que não existem, com tanta hipocrisia, recordando aqui o infeliz evento de Óbidos em 2007, e porque seria compreensível que saíssem se houvesse alguma divergência doutrinária, ideológica, alguma decisão que tivesse sido tomada e que ofendesse os princípios do nosso partido. Nada disso aconteceu. Portanto, as pessoas saem porque não se reveem nas decisões que foram tomadas, decisões democráticas do partido, dos órgãos com competência do partido. Isso, julgo que são razões que têm a ver com a perca de poder interno, com a luta interna, e não têm a ver com as razões que são invocadas, daí eu falar em hipocrisia.
E está a ver essas pessoas noutros partidos, entretanto?
Não faço ideia, isso são opções individuais de cada um. Espero que aqueles que saiam ou que agora querem sair, daqui a algum tempo regressem. Isso também já aconteceu no passado, há pessoas que saíram e depois voltaram a entrar. E eu espero que isso aconteça e se isso acontecer, só ficarei satisfeito com essa decisão.
Mas não teme que o partido, tinha-lhe feito esta pergunta há pouco e acabamos por saltá-la, não teme que o partido seja prejudicado nas próximas eleições, quando vê sair alguns dos quadros que são reconhecidos pelas pessoas, até porque já tiveram funções governativas?
Olhe, é evidente que não beneficia o partido. Agora também lhe posso dizer que o partido já teve várias convulsões internas, já perdeu no passado militantes importantes também que faziam parte do património histórico do partido e soube sempre superar essas dificuldades. E neste momento a minha expectativa é que os ânimos serene e que rapidamente volte à normalidade para que esta direção e todos os seus militantes um pouco por todo o país possam preparar com tempo as eleições legislativas. Foi isso que foi decidido no último Conselho Nacional. Mas como lhe digo, não deixo de reconhecer que a saída destas pessoas pode causar e causa dano à imagem do partido. E isso não é positivo, mas como lhe digo, temos que superar essa situação. E deixe-me acrescentar o seguinte: nos últimos três dias, apesar de ser um fim de semana e ontem feriado, estes acontecimentos levaram a que houvesse várias pessoas a pedir a sua filiação no CDS. Portanto, veja que há também aqui um movimento interessante de pessoas que se tinham desfiliado e que se pretendem agora filiar no CDS, justamente, suponho eu, porque querem dar força ao partido e porque querem contribuir para a vida interna do partido. E portanto, há aqui estes movimentos contraditórios que são partes destas alturas de crise. Portanto, a minha expectativa é que, como lhe digo, os ânimos serene, as pessoas consigam conversar com a maturidade política que lhes é exigível, deixem de falar em associações de estudantes e esse tipo de afirmações infelizes, que em nada ajudam e que se supere este momento mais complicado da vida interna do partido.
Foi uma afirmação, essa da associação de estudantes feita por Paulo Portas, que também pediu a Francisco Rodrigues dos Santos que pegue no telefone e ligue a Nuno Melo para tentar resolver este assunto reconvocando o Congresso. Acha que ainda há aqui alguma margem de entendimento para que o partido possa ser pacificado antes das eleições?
Olhe, eu acho que há uma margem muito curta para isso, porque, como lhe digo, o órgão máximo entre Congresso e o Conselho Nacional tomou uma deliberação nessa sexta-feira no sentido de adiar o Congresso, com o argumento: país primeiro, o partido depois e as circunstâncias pessoais de cada um em último lugar. E vejo com dificuldade que essa decisão possa ser alterada neste momento. Quanto a pegar no telefone e falar. Bem, eu lançaria o repto ao contrário. O doutor Nuno Melo pode também certamente pegar no telefone e falar com o doutor Francisco Rodrigues dos Santos, que certamente o atenderá. Agora, naturalmente que o ambiente que tem estado a ser criado por parte do seu grupo de apoiantes não contribui para que a situação se resolva por consenso. Aliás, só dificulta, como compreende.