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Estamos aqui a falar da atribuição de um valor monetário de €440 mil por parte da Câmara Municipal de Coimbra, à promotora que vai trazer os Coldplay à cidade. Uma atribuição que vai ser votada esta terça-feira pelo executivo. O Cidadãos por Coimbra tem pedido explicações em assembleia municipal, têm recebido respostas?

Não. Sempre que nos pronunciamos sobre este assunto, sempre que questionamos qual seria a contrapartida que o executivo estaria a negociar com a promotora dos espetáculos para a vinda dos Coldplay, sempre tivemos respostas esquivas. Nunca nos foi indicado, em sede de orçamento do município para 2023, em que rubrica é que constava esse suposto apoio ou compensação. E desde essa altura, as perguntas têm-se repetido em assembleia municipal, mas a resposta tem sido sistematicamente: "A seu tempo se verá." E de facto, nós, Cidadãos por Coimbra, temos feito essas perguntas, porque antecipávamos que deveria haver algum tipo de contrapartida, até porque o presidente da Câmara, na última reunião da assembleia, quando confrontado com a pergunta, acabou por dizer que a cidade prescindia da super especial do Rally de Portugal, porque o dinheiro não dava para tudo. Portanto, ficamos a perceber que os quatro concertos dos Coldplay iriam ser, de alguma maneira, apoiados financeiramente pelos cofres da Câmara Municipal de Coimbra.

E este fim de semana de Páscoa ficamos a saber publicamente que, a ser aprovado, há esta contrapartida da atribuição de €440 mil, €110 mil por cada concerto dos Coldplay à Everything Is New. O Cidadãos por Coimbra concorda com esta atribuição? Acha que é um bom uso do dinheiro público?

Vejamos, não é definitivamente um bom uso do dinheiro público. É claro que é importante, estes concertos são muito importantes para a cidade, estes eventos que movimentam milhares de pessoas, com todo o valor económico que arrastam para a cidade, portanto, com todo o estímulo à economia que representam, são obviamente muito importantes, são muito importantes do ponto de vista cultural e muito importantes do ponto de vista daquilo que é a vida da cidade. Sobre isso, não temos nenhuma questão. O que nos causa um certo espanto é perceber que Coimbra foi tão atrativa neste processo que conseguiu quatro concertos de casa cheia. Esse já é o retorno que a cidade tinha que dar à promotora. A promotora, vendo os ingressos, faz milhões de euros, naturalmente tem os seus custos com tudo que é envolvido, mas não nos parece, nós, Cidadãos por Coimbra, que com tanto sucesso de bilheteira, a Câmara Municipal ainda tenha alguma justificação para ir dar um suposto apoio a uma promotora que encheu os cofres. E portanto, não é um bom uso do dinheiro público. É pouco clara a razão pela qual está a ser decidida esta transferência de verba, de dinheiro que é de todos nós, dos contribuintes, daqueles que a tanto custo pagam os impostos municipais, que vivem com dificuldades e depois vão ou não vão aos concertos, vão ou não vão aos jogos de futebol, acabam por estar a pagar, com o dinheiro de todos nós, montantes exorbitantes para uma promotora, uma entidade privada, com fins lucrativos. Há aqui muito por explicar, fica muito pouco claro quais são as contrapartidas que a entidade que na verdade usa o estádio municipal, a Associação Académica de Coimbra, o organismo autónomo de futebol, fica muito pouco claro quais são as contrapartidas que a Académica vai receber da própria Everything Is New e portanto, fica aqui uma nebulosa muito pouco clara de qual é este circuito do dinheiro. A Câmara Municipal paga à promotora, a promotora compensa a Académica e portanto, fica aqui uma situação que não é nada tranquila para nós, Cidadãos por Coimbra, porque a cidade bate-se com muitas dificuldades, é necessário fazer investimentos importantes na habitação, nos transportes, na cultura e de repente vemos o uso de um montante exorbitante, pago de uma maneira que não se justifica, porque, como disse, os concertos são quatro concertos de casa cheia. Para quê ainda pagar mais em cima deste montante? Sobretudo, aparecendo a notícia agora, a pouco mais de um mês dos espetáculos.

De resto, o presidente da Câmara explicou à Rádio Observador que a promotora vai investir mais dinheiro nos concertos do que recebe com este apoio, nomeadamente no relvado, mas para os Cidadãos por Coimbra, a promotora não precisa deste apoio.

Não nos parece de todo. Não nos parece, definitivamente. Normalmente, os concertos nos grandes espaços, os promotores pagam o aluguer dos espaços, pagam as taxas, pagam o aluguer, pagam a utilização. Aqui, parece que se inverteram os papéis, porque Coimbra quis ser de tal maneira atrativa que pagou para ser atrativa e pagou desnecessariamente, porque está por provar que sem esta contrapartida financeira, os concertos não se realizavam à mesma em Coimbra e que não teriam à mesma o lucro que a promotora legitimamente tem direito e que naturalmente teria que pagar pela utilização do espaço, como aparentemente pagará a Associação Académica de Coimbra. Mas o que fica estranho é ser também a Câmara Municipal a pagar à promotora.

Falam também de custos indiretos que acrescem a estes €440 mil. Consegue me explicar que custos podem ser estes?

Não são totalmente claros. Essa é matéria que os Cidadãos por Coimbra não podem confirmar. Esperamos por clarificação, mas o que consta é que custos que têm a ver com a reposição do relvado e de possíveis danos sobre o sistema de rega, relvado, policiamento e limpeza são todos suportados pela Câmara Municipal. Portanto, há aqui muitos custos de logística em cima deste montante direto dos €440 mil, que a Câmara se prepara para também suportar.

E são valores que não foram ainda revelados pela Câmara?

Não, não há nenhuma indicação nesse sentido. Aliás, esta tem sido a nota de todo este processo. É o secretismo mesmo em relação a perguntas explícitas, diretas, em sede de assembleia municipal, portanto, um órgão democraticamente eleito, representativo dos munícipes, mas o Executivo foge sempre às questões e portanto, levou toda esta circunstância quase até às vésperas dos concertos, para agora ir legalizar algo que já está aparentemente negociado há muitos meses. Isto é uma falta de respeito pelas instituições democráticas. Claro que se já havia a indicação de que haveria um pagamento a fazer, isso tinha que ter sido tornado público há muito tempo, em sede de assembleia, teria que ter sido dada essa resposta quando as perguntas apareceram. Teria que estar já inscrito em orçamento para 2023 e já tinha que estar aprovado pelo Executivo Municipal. Não desta maneira. Desta maneira, na verdade, o que o Executivo Municipal vai fazer é confirmar à última hora e dar uma capa de legalidade a algo que já foi decidido há muito tempo e completamente à revelia da oposição, de informação à oposição.

Sobre essa mesma reunião, nesta terça-feira, o Executivo vai votar a atribuição destes €440 mil. Que resultado pensa que vai sair dessa reunião? A oposição vai opor-se, votar contra?

Não lhe posso dizer. Nós, Cidadãos por Coimbra, não temos vereadores eleitos, não temos assento na Câmara Municipal de Coimbra. Temos dois representantes na Assembleia Municipal e portanto não vamos votar. Não temos esse poder. Como é que a oposição se vai posicionar? Também não sei antecipar. Naturalmente que as forças são autónomas, têm as suas linhas, têm as suas diretrizes, têm os seus enquadramentos. Acredito que, pelo menos, se vá gerar grande incômodo nos membros da oposição. Qual será o sentido de voto? Não quero antecipar, até porque aqui há uma tensão entre dois vetores muito fortes. Esta circunstância nebulosa, muito difícil de explicar, e a outra é o claro interesse que a cidade tem em receber estes espetáculos, estes concertos e com toda a dinâmica que isso envolve. Agora, aquilo que nós, Cidadãos por Coimbra, dizemos é que é muito importante ter concertos como estes quatro concertos dos Coldplay, mas não a qualquer custo, nunca pagando dos cofres do município valores completamente inflacionados para uma entidade privada que está a fazer milhões de euros de lucro. Portanto, ninguém me convence, a mim, nem aos Cidadãos por Coimbra, que a promotora Everything Is New vai, depois de vender os ingressos para quatro espetáculos de casa cheia, que ainda precisará de um apoio, porque ficará com grandes dificuldades e sem o apoio da Câmara, seguramente era a ruína da promotora. Não nos convencemos disso.

Se me permite uma última pergunta. Como é que vê, depois de ter expressado a sua indignação por parte do Cidadãos por Coimbra, que o presidente da Câmara tenha desmarcado, através do Facebook, a reunião que o deputado tinha pedido?

Prefiro não pronunciar-me sobre isso. Eu tenho consideração pelo senhor presidente da Câmara, consideração pessoal, sempre tive. Aliás, somos colegas de faculdade e conhecemo-nos há muitos anos. Acho que foi uma atitude impensada, de cabeça quente, provavelmente incomodado pela crítica, mas em democracia nós temos que saber viver com a diversidade da opinião e com a crítica, quando ela é verdadeira, quando ela tem fundamento, podemos concordar mais ou menos, mas temos que saber aceitar a diversidade de opinião em democracia e temos que respeitar a opinião de quem não concorda conosco, quando ela é manifestada de uma maneira correta. Portanto, o senhor presidente resolveu cancelar uma reunião que tinha acordado comigo por amuo. Lamento, mas não vou valorizar muito.

A reunião era precisamente sobre esta questão?

Não, não era sobre esta questão, era para um outro assunto também estratégico para a cidade, mas não quero pronunciar-me muito mais sobre isso. Como disse, espero que o senhor presidente possa reconsiderar e reconhecer que não esteve bem.