Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Partimos para a análise. Junta-se a nós neste jornal em direto Diana Solero, especialista em Relações Internacionais e investigadora no Instituto Português de Relações Internacionais. Boa noite, Diana Solero. Agradeço a disponibilidade para estar conosco em direto neste jornal das 21h. Estamos aqui a falar há várias horas de que a incursão terrestre estará iminente, mas nesta altura parece um pouco mais distante do que ontem a esta hora. Mas será mesmo assim? Que ponto de situação é que podemos fazer neste momento com a informação que temos precisamente neste momento?
Nós não podemos verdadeiramente prever quando é que essa incursão irá começar. Tudo parece indicar que vai efetivamente começar, mas as diferentes posições dos diferentes atores internacionais levam-nos a crer que ela está a ser adiada por razões eminentemente humanitárias. Por um lado, a entrevista do presidente de Israel, que vocês acabaram de passar um excerto, mas por outro lado, e talvez principalmente, a pressão que um conjunto de Estados tem feito sobre Israel e sobre o Egito para abrir as portas de Rafah, para tentar minorizar o mais possível as baixas civis do lado palestiniano que possam existir nesta incursão de Israel a Gaza. Estamos a falar, evidentemente, dos Estados Unidos, que não se têm poupado a esforços diplomáticos para conseguir esse objetivo em várias frentes.
Também a França, não é? Tem sido bastante intervenção.
A França, o Brasil, até a própria Ucrânia, o México. Tem havido um conjunto de países e, de alguma maneira, a União Europeia, ainda que seja mais complicado pela natureza do ator internacional de que estamos a falar. Mas a verdade é que tem havido uma enorme pressão internacional nunca vista, que está, do meu ponto de vista, a ter efeitos no sentido que está, eu não diria a transformar, mas pelo menos a conter o comportamento de Israel. Isso é importante.
A questão aqui, e calculo que a resposta seja difícil, é até quando é que este impasse ou esta tensão durará? É sempre difícil prever, como a própria Diana Solero disse no início, mas até quando é que esta situação pode durar?
Não sabemos, porque isso não tem a ver apenas com Israel, no sentido em que nós podemos concentrar a nossa análise na decisão israelita de invadir ou não invadir, do ponto de vista terrestre, a Faixa de Gaza, mas ali parece-me que, precisamente aquilo que eu estava a dizer, que há um conjunto de atores internacionais à volta de Israel que também têm, de alguma maneira, uma palavra a dizer sobre isto. Há duas preocupações essenciais nesta altura, ou três, digamos assim. Por um lado, a preocupação israelita de eliminar a possibilidade do Hamas de voltar a levar a cabo um ataque terrorista desta dimensão. E é importante dizer que o Hamas não deixou de bombardear território israelita desde dia 7 de outubro, e portanto, há esta urgência da parte de Israel, mas esta urgência é contida por uma série de questões. A primeira de todas, e talvez a mais importante, é o fato de haver 126 reféns em Gaza, que de alguma maneira também contém Israel de fazer um raid que possa ceifar a vida a qualquer um desses reféns. Israel está em Gaza, mas está em Gaza através dos operacionais das operações especiais que estão a tentar encontrar esses reféns e ao mesmo tempo estão a tentar desmantelar o dispositivo do Hamas. E depois há uma terceira preocupação que, do meu ponto de vista, na verdade, perpassa todos os Estados que estão envolvidos, de alguma maneira, neste conflito, que é não haver escalada regional deste conflito.
O alastrar do conflito.
É importante dizer uma coisa: o Ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano se encontrou hoje no Qatar com o Emir do Qatar e com os responsáveis máximos do Hamas e do Hezbollah. Fizeram várias ameaças a Israel e inclusivamente receberam uma mensagem de apoio por parte da China. E portanto, não é só o lado ocidental que está preocupado com esta situação ou que está envolvido nesta situação. Há todo um outro lado que nós temos falado pouco, mas que está muito ativo, nomeadamente na tentativa de não deixar esmorecer o conflito e até de tentar de alguma maneira provocar uma reação mais musculada da parte de Israel. E portanto, todos estes fatores, estes incluindo Irão, os seus aliados e aparentemente a China, também têm um envolvimento muito grande e também são atores que podem influenciar a forma como este conflito vai decorrer. O que podemos dizer neste momento é que a forma como se está a desenvolver esta situação não deixa de ser de alguma forma surpreendente. Na realidade, estávamos à espera que houvesse uma imediata retaliação israelita, que está a ser contida na pressão de que o Egito abra as portas de Rafah, está a ser contida do ponto de vista de Israel, ou pelo menos na retórica israelita, para que os civis estejam o mais preparados possível ou que estejam o menos expostos possível para quando o ataque acontecer, o número de baixas ser menor. E isto é uma novidade. E portanto, é importante terem atenção que as coisas Efetivamente estão a desenrolar-se de uma forma que não era óbvia que se ia desenrolar.
Bastante imprevisível. Diana Soler, há aqui outra questão importante: como é que fica a Ucrânia no meio disto tudo? Como é que fica a Ucrânia e também Volodymyr Zelensky, porque este conflito na Ucrânia passou completamente para segundo plano. Há aqui sempre um efeito mediático, mas neste momento, e também do ponto de vista internacional, o conflito no Médio Oriente está-se a impor. Como é que fica a Ucrânia e Volodymyr Zelensky perante esta situação? Ouvimos esta semana o secretário de Defesa norte-americano, Lloyd Austin, a garantir que a Casa Branca pode apoiar militarmente Israel e a Ucrânia ao mesmo tempo. Mas como é que fica a invasão russa da Ucrânia?
Joe Biden disse exatamente o mesmo hoje. Disse que os Estados Unidos vão continuar a apoiar Israel e a apoiar a Ucrânia na mesma medida e garantiu que os Estados Unidos têm capacidade para o fazer. E isso não deixa de ser um dado importante. Agora, seria negar as evidências que a Ucrânia perdeu completamente a atenção mediática, e perdendo essa atenção mediática, de alguma maneira, isso vai ou tende a influenciar, não só o fim da atenção mediática ou a interrupção da atenção mediática, mas também o facto dos aliados da Ucrânia serem os mesmos aliados de Israel. E esse facto faz com que, evidentemente, a atenção entre ambos esteja dividida. A mim parece-me que cabe essencialmente à Europa, eu defendo praticamente desde o princípio que a Ucrânia é um conflito essencialmente europeu, apesar do grande apoio que os Estados Unidos estão a prestar à Europa e à Ucrânia, mas eu penso que cabe à Europa essencialmente recolocar a questão ucraniana na agenda. Por muito que a Europa seja solidária, e deve continuar a ser, com Israel e com a população palestiniana, neste momento a Europa tem um conflito seu, tem um conflito cujo desenlace depende também, não só, mas também, do desempenho político-militar, no sentido da ajuda militar da Europa. E este conflito em Israel, de alguma maneira, mostra como cada vez mais, com as transformações internacionais que estão a haver, o mundo ocidental tem que ser capaz, digamos assim, de distribuir tarefas.
E lidar com várias frentes ao mesmo tempo.
Exatamente. E o que seria de esperar, digamos assim, tendo em conta a posição geográfica da Europa, tendo em conta a proximidade, o facto de a Ucrânia ser na Europa e a proximidade da Rússia da Europa e de estar em jogo na guerra da Ucrânia, a arquitetura de segurança europeia, a Europa deveria estar na linha da frente, no sentido do apoio à Ucrânia, no sentido de não deixar esmorecer o conflito ucraniano no contexto internacional. Vamos ver como é que a Europa, de facto, resolve esse problema e vamos ver se os líderes europeus estão perfeitamente conscientes desse seu papel neste momento. Agora, me parece que esse é um papel que terá que ser a Europa a desempenhar. Isso parece-me, e talvez seja mais um teste que a Europa vai ter que ultrapassar, um de muitos que têm sido colocados à Europa desde o dia 24 de fevereiro de 2022.